Ele até pode matar a mãe, mas como é dos “nossos” não há problema

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 29/07/2016)

Autor

                 Pacheco Pereira

Eu imagino o que seria o clamor dos nossos saudosos do PAF, se fosse algum ilustre socialista, comunista ou bloquista, ou, o que dá no mesmo, um PSD não alinhado, que aceitasse ir trabalhar para a Mota -Engil como Portas ou para a Goldman Sachs como Barroso. O País inteiro ouviria os mais denodados protestos, as redes sociais rebentariam de indignação, os insultos choveriam por todo o lado. Não é que não pudessem ser merecidos, mas o que não podem ser é tão descaradamente dúplices.

Na verdade, Portas e Barroso merecem ser criticados, e não é pouco, pelos estragos que fizeram à credibilidade da política, e os estilhaços das suas atitudes venais, porque não há outra explicação, atingem os seus pares, os seus imitadores putativos, os seus émulos, mas também quem nunca aceitaria ser alto-lobista, ao serviço de empresas que estiveram sob a sua alçada directa ou indirectamente. E são isso e apenas isso, porque não se lhes conhece nenhuma competência específica para os cargos que vão ocupar. O que eles levam consigo são cartões -de -visita onde está “antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros”, “antigo responsável pela diplomacia económica”, “antigo vice-primeiro-ministro” e “antigo Presidente da Comissão Europeia”. Eles vão vender a sua lista telefónica, e os seus conhecimentos de oportunidades, pessoas, forças e fraquezas dos concorrentes das empresas de que são agora empregados, e segredos, muitos, do Estado português, da Comissão Europeia. Estou a vê-los a dizer: “Olhe, para conseguir o que queremos (o nós majestático é de regra) devemos falar com o sr. X e evitar o sr. Y em Bruxelas”, ou “se quiser eu posso marcar uma reunião com o general Z, com quem eu tenho muito boas relações e que me deve um favor qualquer”, “não invistam nessa empresa, porque se sabe (quem?) que eles estão a ser investigados, ou estão falidos”, ou “o Presidente W não gostou de eles não terem empregado o filho, o primo, o amigo, o filho do amigo”. Pode tudo isto parecer rudimentar? Provavelmente tudo isto será dito de modo mais sofisticado, mas no fundo é mesmo assim.

Ele até pode matar a mãe, mas como é dos “nossos” não há problema (2)

Mas os exercícios de equilibrismo que se vêem por aí para defender Portas e Barroso revelam a intensidade do conflito político que temos em Portugal de há uns anos para cá. O Presidente bem se esforça para baixar a temperatura, mas as coisas são como são e as divisões políticas são hoje não só muito marcadas, como afiadas como uma faca. É evidente que tem havido ataques muito violentos a Portas e Barroso, mas a tentação salomónica é a linha de defesa e ocultação dos conflitos muito vivos que nos atravessam.

Não se pode comparar os ataques a Portas e Barroso (como no passado recente a Maria Luís Albuquerque que, à sua dimensão, fez o mesmo), por descabelados que sejam, com o acto que eles praticaram. Os estragos que fizeram à democracia portuguesa e aos políticos que se esforçam por ser honestos e contidos e que têm uma noção da dignidade da sua função, e por isso não aceitam tudo o que lhes põem no prato das lentilhas, são enormes. No caso de Barroso, atingem Portugal, numa situação em que se está mesmo a ver o encolher de ombros que significa “para quê surpreendermo-nos, são portugueses e está tudo dito”. Fraquinhos…

Mas cá podem matar a mãe, a família toda (que foi de alguma maneira o que fizeram), que há-de haver sempre quem os defenda. São dos “nossos”. Sim, digo eu, são dos “deles”.

Encher o vazio com palavras e, o que é pior, com “informações” não verificadas
Os crimes ocorridos em Nice e em Munique não estão, até ao dia em que escrevo, inequivocamente ligados a motivações terroristas associadas ao Estado Islâmico. Pelo contrário, o que se sabe aponta noutras direcções, quer do âmbito patológico, seja individual, seja colectivo, na apologia da violência destrutiva que torna a vida ou a morte uma espécie de jogo de vídeo real. Aliás, bastava lembrar o que se disse sobre o avião que um piloto perturbado atirou para uma montanha.

Em todos os casos – e em particular naqueles em que longos directos parecem fazer quem vê participar no que está a ver –, as cadeias de televisão enchem o ar com palavras e palavras e palavras, cuja validade se esgota quando se sabe alguma coisa e não apenas se especula. Bastou haver a primeira conferência de imprensa de quem sabe, a polícia alemã, para se esfumarem as informações obtidas nas redes sociais, no Twitter, em sites mais ou menos conspirativos. Em Nice e em Munique, como no caso do estudante em Bruxelas, “com fios dependurados”, foram horas em que mais um dos “atentados terroristas” islâmicos estava em curso. Esta maneira de actuar dos media é perigosa, favorece o Estado Islâmico, cria um ambiente psicológico para novos massacres, e significa o abandono de qualquer critério que separa o jornalismo da especulação e desinformação.

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