Cavaco Silva: vinte anos perdidos

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 12/03/2016)

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                               Miguel Sousa Tavares

Não sei quanto tempo seria preciso recuar na história de Portugal para encontrar alguém que tenha estado vinte anos no topo do poder, como Cavaco Silva esteve. Salazar esteve mais tempo e Alberto João Jardim também, mas os seus casos não se comparam, pois o primeiro exerceu o poder em ditadura e o segundo numa espécie de democracia das bananas. Cavaco não: esteve lá estes vinte anos por expressa vontade popular. Nascido para a democracia bem depois do 25 de Abril, notoriamente ausente dos combates pela liberdade e pela democracia, quer antes quer logo após o 25 de Abril, o agora Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (por liberalidade do seu sucessor), escutaria um dia Mário Sottomayor Cardia (o louco mais lúcido da política portuguesa) dizer-lhe em plena Assembleia da República: “O senhor faz-me lembrar Salazar e só não o é por duas razões: porque tem família e porque vivemos em democracia”. Não subscrevo a frase nem deixo de a subscrever, mas concordo com o seu sentido profundo: o professor Cavaco Silva, combinando três ordens de factores diferentes — um excepcional acaso de circunstâncias propícias, a inteligência de aparecer e desaparecer nos momentos adequados à sua ambição, e uma certa nostalgia dos portugueses pela ordem e autoridade — chegou onde nada o fadava para ter chegado. Agora, que sobre ele se abateu o habitual cortejo de elogios que sempre reservamos aos mortos e aos finitos, seja-me permitida uma visão absolutamente oposta.

Cavaco tomou o poder, derrubando facilmente o desgastado governo do Bloco Central de Mário Soares e Mota Pinto, de caminho humilhando e crucificando quem, no seu partido, se atrevera a coligar-se com os socialistas numa hora de emergência — em que ele esteve prudentemente ausente. Para trás ficaram anos difíceis, com dois resgates pedidos ao FMI e os correspondentes sacrifícios, que custaram a derrota inevitável ao PS mas que foram essenciais para repor ordem nas finanças públicas, devastadas pelos desmandos do PREC. Mas o Governo que ele derrubou deixou-lhe uma preciosa herança, uma verdadeira mina de ouro: o fluxo sem fim de dinheiros europeus de que iria beneficiar nos seus dez anos à frente do Governo. Hoje, parece difícil de acreditar, mas Cavaco começou por torcer o nariz à adesão à União Europeia, um processo para o qual não moveu prego nem estopa. Jamais teve uma palavra de reconhecimento para com Mário Soares ou Ernâni Lopes, os homens que resolveram a desordem financeira e negociaram a adesão à Europa, duas coisas que tornaram possível a sua aura de fazedor. Inversamente e já como PM, Cavaco foi um entusiástico promotor da entrada na moeda única, e nisto, como em tudo o resto de essencial, a história encarregar-se-ia de demonstrar a sua nula capacidade de visionar o futuro: a entrada na UE permitiu-nos dar um salto de uma geração; a moeda única está na raiz dos males que agora nos afligem.

Dez anos sentado sobre uma mina de ouro permitiram a Cavaco mostrar “obra”. Mas não lhe permitiram o que estava para lá da sua capacidade de estadista. As auto-estradas ficaram e servem, é certo. Mas, como dizia Ribeiro Telles, serviram sobretudo para os espanhóis fazerem chegar mais depressa e com melhores preços os seus produtos agrícolas aos nossos supermercados, assim destruindo de vez a nossa agricultura e despovoando o interior. Mas já antes ele vendera por um punhado de moedas a agricultura a Bruxelas e aos interesses dos produtores agrícolas europeus. Ele, que hoje se reclama de “homem do mar”, vendeu ainda as pescas, a marinha mercante e os estaleiros navais, mas também as minas e tudo o que, no futuro, nos poderia garantir independência económica. Em troca, construiu e distribuiu: o país interior está cheio de centros de terceira idade, palácios de congressos e piscinas municipais que ninguém usa — ou porque se foram todos embora ou porque não há meios para os fazer funcionar. Em vez de aproveitar os dinheiros europeus para lançar os alicerces de um desenvolvimento sustentável e perene, espatifou milhões em alegados cursos de formação profissional e na integração de milhares de contratados no quadro da função pública e de pensionistas não contributivos na Segurança Social. Com isso, criou uma classe de novos-ricos que produziam nada e prosperavam com a especulação bolsista e criou o “monstro” estatal cuja necessidade de subsistência se tornaria a ruína da nação. Não seria sério dizer que tudo foi mau na sua governação, mas o balanço final foi este: Cavaco Silva teve nas mãos e desperdiçou uma oportunidade única e irrepetível de contrariar o fatal destino lusitano.

A sua chegada a Belém ficou-me para sempre marcada pela primeiríssima fotografia do eterno fotógrafo oficial da Presidência, Rui Ochoa. Uma das tais imagens que valem por mil palavras: de mãos dadas e com a felicidade estampada na cara, toda a família Cavaco Silva subia a ladeira de Belém — para tomar posse do palácio e do país. Os dez anos subsequentes confirmariam a justeza daquela imagem: em Belém, Cavaco portou-se sempre como alguém muito acima, por direito próprio e por direito divino, de todos os outros portugueses e, sobretudo, dos desprezíveis “senhores agentes políticos”. Ele era o homem que sabia muito mais de finanças do que qualquer um, que tinha “avisado” de cada vez que as dificuldades surgiam, que exigia a quem pusesse em causa o seu insustentável negócio com o BPN que nascesse duas vezes antes de se atrever a questioná-lo. Essa arrogância pessoal, conjugada com uma falta de coragem para o combate político frontal, levou Aníbal Cavaco Silva a revelar na Presidência características que não são defeitos políticos, mas de personalidade. São exemplos disso o discurso de vitória na noite em que conquistou o segundo mandato e em que, ressabiado pelos ataques que sofrera a propósito do BPN e das explicações convincentes que falhara em dar, continuou a campanha eleitoral já depois de ela ter terminado e quando os adversários já não podiam argumentar nem responder-lhe. Ou o inacreditável, inverosímil e inclassificável, plano que a sua Casa Civil montou, de conluio com um jornal, para emboscar o primeiro-ministro com quem se reunia semanalmente e destinado a fazer crer que o PM tinha montado escutas ao PR — um “escândalo” fabricado para rebentar em cima das eleições legislativas. Cavaco poderá escrever o que quiser nas suas memórias, mas não poderá nunca reescrever a verdadeira história. Como o discurso vingativo da sua tomada de posse, quando convidou os jovens a revoltarem-se contra o Governo — os mesmos jovens que depois, já com um governo da sua cor política e perante o seu silêncio, emigraram daqui às centenas de milhares. Aí, logo no início do seu segundo mandato, ele despiu-se da sua fachada de árbitro e embarcou na ilegítima postura de Presidente partidário e sectário. Eduardo Catroga, um dos seus fiéis ex-“ajudantes”, dizia há dias que Cavaco foi vítima de um “preconceito de uma certa elite intelectual e social de esquerda que o critica por não ter uma cultura humanista”. Trata-se de um argumento fácil e repetido que, todavia, não consegue explicar como é que o principal desgaste da imagem dele foi justamente entre as classes populares, quando perceberam que o “homem do povo” e de Boliqueime achava pouco uma pensão de 10 mil euros por mês. Mas o tal desprezo da tal elite intelectual e social de esquerda — que é verdadeiro — não se deve à falta de “cultura humanista” de Cavaco, mas sim à sua incultura, pura e simples, e ao seu desdém por ela — como ficou demonstrado na composição das embaixadas “culturais” que levava ao estrangeiro ou dos fiéis escudeiros que distinguia. Porém, não vejo em que é que a exigência de um Presidente culto seja sinal de elitismo. Um pouco mais de cultura, de coragem e de sentido de Estado (que vêm por arrasto), teria evitado, por exemplo, que Cavaco se tivesse alienado por completo da discussão sobre o Acordo Ortográfico ou que tivesse encaixado sem um estremecimento os enxovalhos que levou em Timor, na cimeira que consagrou a vergonhosa adesão da Guiné Equatorial à CPLP, ou em Praga, quando ouviu, sem reagir, o Presidente checo ofender os portugueses. Cavaco foi submisso ou inexistente lá fora e grandiloquentemente vazio cá dentro.

Para a história ficará que, dez anos de presidência depois, deixou um país infinitamente pior do que aquele que recebeu.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

21 pensamentos sobre “Cavaco Silva: vinte anos perdidos

  1. Neste aspecto o Miguel Sousa Tavares tem toda a razão,foram vinte anos perdidos e tudo por culpa de nós Portugueses,que vamos aprendendo á custa da nossa politiquice que não vale um chavo,

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    • Podemos nâo simpatizar com o jornalista? poderá você! não deve falar no plural! claro queele tem toda a razão, são factos. Não precisam de prova. Factos vividos e testemunhados pelo povo portugês. Quanto ao carcater ficou muito por dizer sobre aquela mumia cobarde!

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  2. Excelente análise que cobre uma carreira completa neste inventário ordenado magistralmente. Concordo plenamente com todas as suas setas lançadas contra alguém que nem hesitou a recomendar um banco (BES) que ele sabia estar em muitos maus lençóis. Último registo das suas façanhas! Bem haja, Miguel S. Tavares.

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  3. Cavaco Silva não estava só. Ele representa a mentalidade de muitos portugueses. Todas as mudanças na economia portuguesa ditadas pela UE tiveram compensações financeiras e todos sabem que os portugueses preferem dinheiro gratuito. Lembro-me das transportadoras portuguesas terem sido vendidas aos espanhóis. Não lhes vamos agora dar as culpas de usarem as nossas estradas, porque isto também é uma coisa muito portuguesa: culpar terceiros das situações onde nos metemos.Se não tivéssemos dinheiro da UE para as estradas usadas para transportes de mercadorias tudo seria mais caro e o sector terciario teria desaparecido na mesma. E teria desaparecido porque pouco inovativo e competitivo.

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  4. O jornalista (ainda que sempre polémico e por vezes demasiado populista para o meu gosto) limitou-se a constatar um conjunto de factos indesmentíveis, doa a quem doer. Só peca por defeito, pois falta referir e apurar muitas outras “habilidades do “artista” que ainda não são públicas e devidamente provadas. Espero bem que o venham a ser, a bem da credibilidade nos nossos governantes.

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  5. Como sempre Miguel Sousa Tavares soube escrever tudo aquilo que o normal cidadão português pensa e sente sobre o Tarolo de Boliqueime e aquilo que ele representou na política económica deste país. Não sendo já jovem fui uma das portuguesas que teve de emigrar para ter uma vida digna e comigo veio toda a família. Se pensarmos voltar? Dificilmente, muito dificilmente! Bem haja pois por falar por nós.

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    • Na generalidade concordo com os textos e os comentários deste português da melhor água, que seria competente para idealizar uma melhor frase. Porém não entendo porque diz que não subscreve, nem deixa de subscrever a frase de Sottomayor Cardia, que considero faz um retrato muito razoável da triste figura que tivémos, (eu tive) de gramar por não ter meios para sair do país (2 X 10) anos. Não vi a história de Portugal toda com os meus olhos, como fui obrigado a ver a actuação deste infeliz, mas efectivamente deverá ser difícil que haja nela coisa semelhante. Infeliz porque não se conhece, nem ninguém o avisou de que não tinha a mais microscópica célula de talento para ficar todo o tempo exposto a pungente ridículo. Os últimos tempos foram dolorosos. Nem Carmona o teria sido tanto. A farda, mal ganha, emprestava-lhe talvez essa vantagenzita…
      Sem desprimor para o nosso Miguel, quero apenas trazer à colação Batista Bastos, cronista exímio, que em minha opinião, e creio de muito boa gente, foi o maior retratista da palavra que descreveu com seus pincéis a néscia personagem. Ainda no D. de Notícias e no C. da Manhã creio, e até antes possivelmente, assinou verdades como punhos, que pretendo, só ele sabe gravar a buril, talvez inspirado no que tem de repelente o personagem chato.
      Quando me convenci que ele jamais se veria no espelho, e, ou não tinha quem o demovesse, ou não queria ser demovido, tive dó da caricatura. Bem podia ter sido poupado a tanto, se após “1º. primeiro ministro” e a enterrar o país em alcatrão, tivesse desaparecido da ribalta até agora. Portugal teria ficado livre desse período negro da sua velha caminhada, que veio a sair-lhe na roleta da democracia, o inapto figurante. Um sujeitinho sem cultura e sem palavra. Não dizia uma, quanto mais duas para a caixa. E, de guarda livros, sabe-se, foi o que se viu, teria deixado rebentar a caixa registadora… Lamento ser obrigado a clamar estas palavras, já que o nosso ano é mesmo, ano do início da 2ª. guerra mundial. Ambos tinhamos vinte e muito poucos anos, quando a PIDE me prendeu. ONDE ESTAVA NO 25 DE ABRIL?
      P.S. – Já se sabe, que quem lucrou ou era familiar de quem algo lucrasse com o figurão ou com as ondas projectadas, grita alto e bom som que foi o maior. Mas esses também não sabem quantos Cantos têm os Lusíadas. Nunca se enganam, e raramente têm dúvidas.
      A quem refira que ele ganhou o lugar com os votos, terei de dizer que é certo. Mas, meus amigos, saber o que fazer quando se tem o papelinho do voto na mão, requer algum conhecimento, e essa arma, desde aquele precioso dia de Abril até hoje, não foi nunca ministrado a este humilde povo, cuja sua maior grandeza é, justamente, perdoar a quem lhe faz o maior mal possível, que é mantê-lo numa ignóbil e antiga ignorâcial. Todos os partidos desta modestinha democracia, mas todos mesmo, os com responsabilidade governativa, e os sem ela, não levantaram o dedo mendinho para tal levar à prática. E, se calhar vai continuar até às calendas… Daí decorrem todas as misérias e chagas posteriores, como foi o exílio forçado da juventude portuguesa, cujo sol de Portugal, onde nasceram, não a voltará a aquecer . Se um povo não souber, para que serve o voto, podem daí nascer as mais medonhas bizarrias. Hitler, George W. Bush que incendiou para muitos anos o Médio Oriente, e Trump se fosse eleito? São exemplo do que o votos pode fazer acontecer.

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  6. Excelente artigo de Miguel Sousa Tavares. Subscrevo por completo. 20 anos perdidos, danosos a Portugal e de crescente vergonha alheia, sempre que víamos Cavaco a falar em Público. Metia dó o comportamento de Aníbal e Maria Cavaco Silva em situações culturais. Custa a acreditar como é que este país teve durante 10 anos na presidência um dos casais mais incultos de sempre em altos cargos públicos. Felizmente acabou e espero que não se volte ouvir falar deles.

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