Paulo Rangel e o patriotismo de lapela

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 25/02/2016)

Autor

                             Daniel Oliveira

No “Público”, Paulo Rangel voltou a ensaiar o discurso da asfixia democrática. O eurodeputado sente-se asfixiado com tanta facilidade que começo a temer que tenha problemas de asma. Ou então dá-se mal com o ar da oposição. Mas foi para reagir à acusação de falta de patriotismo que se amofinou. Da minha parte, não me limito a pôr em causa o seu patriotismo. Considero que Paulo Rangel, pelos seus atos públicos e pelo papel que tem tido em Bruxelas, é de forma deliberada inimigo dos interesses da comunidade nacional de que faz parte. Está no seu direito. Assim como qualquer um está no direito de o verificar e assinalar. Por mais asfixiado que se sinta do exercício da crítica a que também ele está sujeito.

Que fique claro: não acho que quem se oponha a um governo, dentro ou fora de fronteiras, seja menos patriota por isso. Por vezes, muitas vezes, pelo contrário. Já tenho dificuldade em dizer o mesmo de quem, com o apoio dos seus aliados no Partido Popular Europeu, pressione, por interpostas pessoas, a Comissão Europeia a não aceitar ou a alterar profundamente o Orçamento de Estado português. Não é patriota quem aproveita os limites impostos à nossa soberania para ter ganhos internos. Quem tenta conquistar em instâncias internacionais não eleitas aquilo que não consegue no Parlamento que representa o seu povo. Ainda mais em questões que, por natureza, são o centro da soberania democrática de uma Nação.

Dirá Rangel que as notícias das suas movimentações são manifestamente exageradas. Mas nós ouvimos como, em pleno plenário do Parlamento Europeu, avisou a Europa que o governo que aí vinha punha em “causa o equilíbrio que até agora tem sido seguido em Portugal”. E voltámos a ouvi-lo dizer, para quem na Europa o quisesse ouvir, que o Estado português estava a tentar enganar a Comissão Europeia. Se em público foi tão claro, é difícil acreditar que em privado não tenha ido um bocadinho mais longe. Com o que sabemos sobre Paulo Rangel, muitíssimo mais longe.

Hoje, felizmente, ser patriota não é um dever. E não deve ser. É uma escolha. A mim, devo dizer, o patriotismo nunca me disse muito. Mas passaram cinco anos de humilhação e agachamento nacional. Vi demasiada gente agradecer que outros viessem tratar de assuntos nossos. Quando desobedecemos, ouvi dizer que éramos uma “criança problemática”. E isso, em vez de nos indignar, assustou-nos. Quando nos calámos, que éramos um “povo bom”. E isso em vez de nos incomodar alegrou-nos. Vi um ministro das Finanças curvado, servil, perante o que devia ser homólogo seu, a fazer juras de bom comportamento. Vi, na República Checa, o Presidente da República a ouvir um ralhete de outro, em silêncio. Ouvi dizer que era “bendita a troika” por fazer o que a democracia até aí não permitira. E fui percebendo como a perda de soberania não corresponde apenas à perda de democracia, o que seria já de si bastante grave. Mergulha o povo numa espécie de indignidade coletiva. Sim, os últimos anos fizeram de mim, talvez por amor-próprio, um patriota. E o degradante comportamento da nossa elite política, mediática e económica, com especial distinção para o embaraçante Paulo Rangel, contribuíram para isso.

Claro que o interesse nacional depende de pontos de vista diferentes. Argumenta Paulo Rangel, com razão e escrevo-o há anos, que não há um interesse nacional único. O que o PCP acha sobre o interesse nacional é o oposto do que acha o CDS. Mas como imagino que Paulo Rangel não se transformou num relativista, concordará comigo que há, apesar de tudo, algumas fronteiras a partir das quais podemos mesmo pôr em causa o papel de alguns políticos na defesa do interesse nacional.

Posso acusar de falta de patriotismo todo aquele que tenta que decisões soberanas do Estado português, tomadas por órgãos democraticamente eleitos, sejam chumbadas por instâncias supranacionais não eleitas. Posso acusar de falta de patriotismo todo aquele que, durante um processo negocial entre o Estado português e outras instâncias internacionais, conspira para que os legítimos representantes do seu povo vejam as suas intenções frustradas. Posso acusar de falta de patriotismo todo aquele que tenta que o seu próprio país consiga piores condições para exercer o soberano domínio dos seus destinos. E desse ponto de vista considero que Paulo Rangel não é apenas antipatriota. O patriotismo é um conceito que lhe é absolutamente estranho.

A falta de patriotismo de Rangel ou de Passos Coelho não foi especialmente feroz nos últimos meses. Durante quatro anos estes senhores escudaram-se numa intervenção externa – que não sendo apenas ou principalmente responsabilidade sua, procuraram e desejaram, assim como a procuram e desejam hoje – para impor ao país um programa político não sufragado.

Apoiaram os interesses dos credores contra os nossos próprios interesses. Aproveitaram o poder da troika para vender, por vezes de forma muito pouco transparente, património público e alterar leis da República, violando repetidamente a Constituição. Trataram as instituições internacionais que capturaram partes da nossa soberania, não como um mal necessário, mas como aliados políticos. Não, não são patriotas. Ao patriotismo não basta uma bandeirinha que exiba na lapela o que não está na cabeça. Não é por acaso, aliás, que Passos Coelho e os seus ministros foram os primeiros políticos portugueses a sentir necessidade de usar tal adereço.

4 pensamentos sobre “Paulo Rangel e o patriotismo de lapela

  1. Não acho que seja de todo exagerado. Se olharmos para as privatizações da REN, EDP, TAP, ou para o que a PàF queria fazer relativamente à exploração do subsolo e fundos marinhos, verificamos que o interesse do Estado não estava a ser adequadamente defendido. Para estes ‘patriotaças’ de bandeirinha na lapela, só tenho desprezo. Mas mais desprezo tenho em relação a um PR que devia ter-se oposto a este fartar vilanagem e nada fez, porque se eu sabia que estes senhores não tinham coluna vertebral, pensava que ele era, apesar de tudo, um homem sério…

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