Depois do ‘Grexit’, outros ‘exits’?

(Paul De Grauwe, in Expresso, 25/07/2015)

Paul de Grawe

                   Paul de Grauwe

Os, alertas de que o euro assenta numa construção periclitante foram postos de lado pelos ‘visionários’ europeus. As falhas de conceção são várias.


A crise grega expõe os erros de conceção da zona euro. Há muito que eram conhecidos. Logo no arranque, muitos economistas alertaram para estas falhas, prevendo que conduziriam a grandes problemas e conflitos no seio da união monetária e que a zona euro, no final, se desintegraria, caso estes defeitos de origem não fossem corrigidos.

Os primeiros sinais estão hoje à vista. A saída da Grécia, o ‘Grexit’, foi temporariamente evitada. O novo programa punitivo que sob a liderança da Alemanha é imposto à Grécia levará inevitavelmente ao ‘Grexit’. Mas não vamos ficar por aí. Depois outros ‘exits’, saídas, ocorrerão; será o desfazer da união.

Os alertas dos economistas de que o euro assenta numa construção periclitante foram postos de lado pelos ‘visionários’ políticos europeus. Nada travaria o seu grande sonho monetário, muito menos as objeções feitas por economistas prosaicos com base em cálculos terra a terra.

Que falhas de conceção são estas? Aqui vão.

Primeiro, na união monetária não há mecanismo que possa travar desenvolvimentos económicos divergentes entre países. Alguns países experimentam um boom, outros uma recessão. Alguns países aumentam a sua competitividade, outros pioram-na. Estes desenvolvimentos divergentes levam a grandes desequilíbrios, que cristalizam no facto de alguns países criarem dívida externa e outros excedentes.

Quando estes desequilíbrios precisam de ser corrigidos, parece que não há mecanismo que o faça. Os países que têm moeda própria e que enfrentam tais desequilíbrios podem valorizar ou desvalorizar a moeda. Isso não é possível na união monetária. Países que enfrentem défices externos são condenados ao declínio económico e ao desemprego crescente. Isto só pode ser evitado se outros países com excedentes aceitarem estimular as suas economias, mas tais países recusam-se.

Os Governos da zona euro emitem dívida numa moeda, o euro, sobre a qual não têm controlo. Isso torna-os vulneráveis à especulação financeira

Um segundo defeito de origem tem a ver com o facto de que os Governos da zona euro emitem dívida numa moeda, o euro, sobre a qual não têm controlo. Isso torna estes Governos vulneráveis à especulação financeira. Ao mais leve sinal de perigo, os investidores vendem os títulos de dívida dos países em quem não confiam. Estes países não podem defender-se a menos que recebam ajuda de outros países e do Banco Central Europeu (BCE). Mas tanto os países mais ricos como o BCE não mostram grande vontade de ajudar.

Por isso, vemos que quando os países individualmente numa união monetária se metem em problemas não conseguem pôr-se de pé sozinhos. Precisam da ajuda dos outros países e do BCE. Mas esta ajuda não é disponibilizada incondicionalmente.

A discussão anterior aponta na direção de uma possível solução. Que só pode ser dada por uma união política. Esta faria duas coisas. Primeiro, assegura uma política macroeconómica mais uniforme, a qual poderia evitar que a divergência económica entre países se tornasse demasiado grande. Segundo, uma união política permitiria uma ajuda automática e silenciosa entre países.

O problema é que a maioria dos países da zona euro não está preparada para passar a uma união política porque não quer criar um sistema de auxílio automático. A desconfiança mútua é grande de mais para tal.

A conclusão que tiro hoje é a mesma que tirei há 20 anos. Se não houver vontade de passar a uma união política, o euro não tem futuro. Portanto, preparemo-nos para o desfazer da zona euro.

Professor da Universidade
Cat
ólica de Lovaina, Bélgica

O clube dos seis

(Nicolau Santos, in Expresso, 25/07/2015)

nicolau

A proposta do Presidente francês, François Hollande, de criação de uma vanguarda da zona euro, é a prova que o núcleo duro da União Europeia percebeu que o euro, nas bases em que está a funcionar, vai acabar por implodir. A moeda única traz vantagens indiscutíveis para alguns, caso da Alemanha e países do centro, que passaram a viver com uma moeda mais fraca do que as anteriores moedas nacionais. Mas para os países da periferia, verificou-se exatamente o contrário. Por isso, nestes países o atual modelo conduz inevitavelmente à forte compressão do Estado social, ao desemprego, à emigração e à necessidade de esmagar os custos de trabalho para manter as indústrias nacionais minimamente competitivas e muito apertada a procura interna, em particular o consumo privado. A recusa deste caminho leva ao disparo da dívida pública e a prazo mais ou menos curto à necessidade da sua reestruturação ou à saída inevitável da moeda única.

O Presidente francês, ao propor o regresso a 1957, está a mostrar a porta de saída a 13 países que atualmente estão na moeda única, entre os quais Portugal.

E é por isso que Hollande, seguramente com a cumplicidade da Alemanha, vem agora falar na criação de um Governo da zona euro, com um orçamento comum e um Parlamento específico. É o regresso à ideia de uma Europa a duas velocidades, assente no núcleo fundador da Comunidade Económica Europeia e à grande proximidade do nível económico dos países que estariam envolvidos, que segundo o seu primeiro-ministro, Manuel Valls, serão a França, Alemanha, Itália, Bélgica, Luxemburgo e Holanda. Quanto ao novo Parlamento, uma espécie de segunda câmara em relação ao Parlamento Europeu, servirá para exercer o “controlo democrático” do novo executivo transnacional e seria composto por parlamentares dos países envolvidos, vindos desta assembleia europeia de Estrasburgo ou das assembleias nacionais.

Por outras palavras, o presidente francês, ao propor o regresso a 1957, está a mostrar a porta de saída a 13 países que atualmente estão na moeda única, entre os quais Portugal. Não lhe passou pela cabeça que há outras maneiras de garantir a coesão da eurolândia: através de um orçamento europeu reforçado (e não reduzido, como aconteceu) e a garantia de transferências orçamentais intracomunitárias para fazer face a choques assimétricos. Mas isso Berlim e os seus apoiantes nunca aceitarão, porque consideram que seria premiar os prevaricadores. Hollande quer assim resolver o impasse europeu. Na prática, está a fazer de porta-voz da ala alemã mais dura — e a preparar o fim da União Europeia, tal como a conhecemos.


A revolução no vinho português

Entre 100 empresas, a Sogrape Vinhos foi considerada a melhor produtora vitivinícola do mundo em 2015 pela World Association of Writers and Journalists of Wines and Spirits. Fernando Guedes e os filhos têm razão em estar orgulhosos. Mas felizmente para o país, a Sogrape não é um caso isolado. Não há semana em que um ou mais vinhos portugueses não sejam premiados em concursos internacionais ou destacados pelas revistas especializadas no estrangeiro. E isto resulta de vários fatores: lideranças fortes, propriedades maiores, plantio de novas castas, acompanhamento científico das vinhas, investigação em conjunto com universidades, contratação de enólogos nacionais e estrangeiros, fortes ações de promoção no exterior, juntando vários produtores, formação dos trabalhadores, excelente passagem de testemunho entre gerações, construção de novas e modernas adegas e a aposta em trazer a Portugal jornalistas estrangeiros especializados no sector. O sucesso dos vinhos nacionais é um exemplo para muitas outras áreas de atividade.

354 milhões

O Governo insiste que a economia está a dar sinais de crescimento — e está. O Governo diz que o desemprego está a diminuir — e está. O Governo diz que foram criados 175 mil postos de trabalho entre janeiro de 2013 e abril de 2015 — e foram. O Governo diz que 2014 foi o melhor ano do turismo e este ainda vai ser melhor — e é verdade. O Governo diz que 2014 foi o melhor ano para o investimento desde 2008 — e foi. No meio de tantas boas notícias, há duas que não ajudam. A primeira é a nossa dívida pública que continua a ser considerada “lixo” pelas quatro principais agências internacionais, apesar de tantas melhorias e avanços. E a segunda tem a ver com o valor do crédito malparado e o rácio de crédito em incumprimento que continuam a deteriorar-se. O rácio de crédito em incumprimento chegou a 8,8% em abril contra 8,3% em janeiro e 7,6% há um ano. Por seu turno, o crédito vencido cresceu em média €354 milhões por mês desde janeiro, mais 34% que nos primeiros cinco meses de 2014. Mas isto agora não interessa nada, como diria aquela senhora da televisão.


O estado da banca

Depois do caso de polícia que foi o BPN, do estouro do BPP, das convulsões acionistas que quase arrasaram o BCP, dos aumentos de capital na CGD e da implosão do BES, depois de vários testes de stresse europeus e de várias declarações do Banco de Portugal, qualquer cidadão português pensaria que o sistema financeiro nacional está finalmente forte, seguro e estável. Pois bem, esqueça. O Banif precisa rapidamente de um novo dono. O Montepio vive uma réplica, em menor escala, do caso GES/BES. A Caixa tem provavelmente de reforçar capitais. O Novo Banco vai ser comprado por chineses. E o BCP e o BPI estão dependentes do que decida fazer a empresária angolana Isabel dos Santos, que propôs uma fusão das duas instituições. Com um mercado interno de onde não virão fortes crescimentos, com riscos acrescidos em relação a regras europeias sobre a classificação de créditos e com o espectro de fortes quebras dos resultados em Angola, de onde vêm parte importante dos seus resultados, BPI e BCP estão pressionados para tomarem decisões radicais. Preocupada, a banca portuguesa está à espera dos seus Godots.

SILLY SEASON

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 25/07/2015)

Clara Ferreira Alves

                         Clara Ferreira Alves

Como aves de arribação, os jornalistas desembarcam todos no mesmo lugar da crise aguda, e desembarcam assim que se torna crónica, gerando o desinteresse coletivo


O ciclo noticioso de 24 horas e o fluxo de informação fazem com que todos os acontecimentos sejam equivalentes e logo esquecidos. A notícia vive do choque, do sobressalto, do instante, permeável ao imediatismo e ao sentimentalismo. Assim, toda a moral se torna relativa e subjetiva. Tivemos o “Charlie Hebdo”, o ‘Je Suis Charlie’, o Daesh, os vídeos das decapitações, os refugiados sírios, os afogados do Mediterrâneo, a vitória do Syriza, Varoufakis vs. Schäuble. Tivemos eleições nacionais e regionais, ameaças separatistas, pronúncias papais sobre homossexuais, um acordo iraniano e a concórdia cubano-americana. E temos agora, nos Estados Unidos, em carrossel noticioso, the Donald, um espécime raro do narcisismo. Em Portugal, tivemos a versão periférica destas emoções com o duelo Sócrates/Carlos Alexandre, a queda da casa Espírito Santo, a despedida de Relvas e a reabilitação de Relvas, a novela da TAP e as anedotas dos partidos. Participámos emocionados nos acontecimentos internacionais, o ‘Je Suis Charlie’ ou os migrantes, e logo os esquecemos, como aliás o resto do planeta informado. Ninguém espera pela sequência e no follow-up está uma parte da verdade. Uma notícia afoga a seguinte, inunda-a da água em remoinho da novidade. Como aves de arribação, os jornalistas desembarcam todos no mesmo lugar da crise aguda, e desembarcam assim que se torna crónica, gerando o desinteresse coletivo. A isto chama-se, no jargão, comportamento de matilha, responsável pela repetição ad nauseam das mesmas histórias, escritas e reescritas ao espírito do tempo. Nunca chegamos a ver a continuação do filme, e muito menos o fim. E não queremos ver. O jornalismo perdeu a capacidade de atração, o suspense, o crescendo da história e o seu remate. Só algumas revistas e jornais americanos e ingleses conseguem hoje contar a história toda e contá-la de um modo que seja, como se deseja, o primeiro esboço da história. A “Vanity Fair” perdeu alguns dos seus melhores escritores, incluindo o grande Christopher Hitchens (que gostava de desembarcar quando os outros tinham apanhado o avião) e persegue disfarçadamente o folhetim Kardashian. Resta-lhe um, William Langewiesche. A “Atlantic” e a “New Yorker”, dado o estado calamitoso da “New Republic” (e do milionário imberbe que a comprou), conseguem estruturar e publicar histórias que correspondem ao que de melhor o jornalismo pode fazer. Chamo-lhe histórias e não reportagens porque são uma mistura de investigação aturada, opinião, reportagem, tudo embrulhado na linguagem adequada, que despreza o cliché e tenta a literatura. Na “New Yorker” saiu uma história do respeitadíssimo Seymour Hersh que conta uma narrativa muito diferente daquela que foi posta a circular pelo Governo e os militares americanos sobre o assassínio de Bin Laden. Mesmo com as dúvidas que provoca, é um contributo para a versão integral, dando a conhecer factos que fazem sentido. Na mesma “New Yorker”, Lawrence Wright (talvez o melhor jornalista de investigação do mundo) acaba de publicar a história dos pais que viram os filhos raptados e decapitados pelo EI. Wright estabelece um relato seguro do que aconteceu a um grupo de reféns cujas caras e cabeças ensanguentadas pudemos ver à exaustão na net e sobre os quais, afinal, nada sabíamos. É um trabalho de reflexão, descrição, investigação, que se autoriza a compaixão. É também um relato arrepiante que esclarece os métodos do EI e dos governos americano e europeus ao operarem nas areias movediças dos ultimatos terroristas. No turbilhão noticioso e opinativo, onde nada se distingue do nada e tudo provoca a indignação ou a lágrima fáceis, ninguém reparou no último capítulo da história do “Charlie Hebdo” e na pequena notícia que dizia que o jornal não voltará a publicar caricaturas de Maomé. Charlie não é Charlie, afinal. Como ninguém quer saber o que acontece aos jovens que conseguem penetrar os “paraísos” europeus da Itália ou da Grécia, em que campos de internamento amanhecem, quem são os prostitutos e vendedores de droga na Estação Termini de Roma; como os migrantes são explorados pelas máfias e recrutados por redes extremistas; o que acontece aos refugiados sírios num Líbano que os hostiliza; a explicação para Gaza ainda não ter sido reconstruída apesar dos milhões doados a Ramallah; como o Rei da Jordânia ameaçou destruir o EI e desistiu; como o Estado Islâmico se torna, lentamente, um verdadeiro Estado, perante a passividade e perplexidade do Ocidente (com exceção de uma peça publicada no “New York Times”); como é que a França e a Grã-Bretanha travam a guerra ao terror, na definição de Bush. O que aconteceu ao Kosovo? Ao Afeganistão? E acontecerá na Grécia? Da Grécia está tudo farto. Voltaremos quando piorar. Queremos sofrimento e caos, como os deuses. Assim, o mundo não muda. Avança aos trambolhões.