Isto também foi ideia nossa, diz Costa

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 15/07/2015)

         Daniel Oliveira

                      Daniel Oliveira

Em todas as suas declarações públicas, seja pela pena da vice-presidente do grupo parlamentar Ana Catarina Mendes, seja pela boca de António Costa, a narrativa socialista para o que aconteceu em Bruxelas com a Grécia é a mesma: foi bom e foi bom graças aos socialistas. Não me vou aqui agarrar a picuinhices. Só me interessa mesmo o que nesta reação é politicamente relevante.

Segundo o PS, o resultado terá sido bom porque foi conseguido um acordo que “permite a manutenção da Grécia como membro da zona euro”. Ou seja, mais do que o fim da austeridade ou a possibilidade de tornar a dívida sustentável, é fundamental que a estabilidade da zona euro seja garantida. A todo o custo, mesmo através de acordos que destroem os países e impõem aos povos programas políticos que eles rejeitam. Assim, o que separa os socialistas da direita será a recusa da expulsão de países do euro, não as condições em que eles lá ficam. Confesso que não sei o que é pior.

A posição completa do PS é esta: “O objetivo essencial passava por um acordo entre as todas as partes que permitisse à Grécia continuar no euro e encetar um caminho de recuperação económica, com indicações sobre a sustentabilidade da dívida pública grega.” É-se claro no objetivo essencial: não sair do euro. Quando ao crescimento, as brutais medidas de austeridade impostas à Grécia por este acordo seguem, como terá de reconhecer o PS por tudo o que tem dito sobre Portugal, o caminho inverso ao que permite o crescimento. A não ser, claro, que tenha mudado de perspetiva nesta matéria. Quanto à dívida, mais não se conseguiu do que uma vaguíssima declaração de vontades. Na realidade, o próprio António Costa desilude os socialistas que, no passado, assinaram um famoso documento sobre a reestruturação da dívida, considerando que é preciso aceitar que o Tratado Orçamental existe e que a dívida não é para ser reestruturada. Não se trata aqui marcar fronteiras retóricas. Não cumprir o tratado orçamental de forma habilidosa, sem o “rasgar” e fazendo uma “leitura inteligente”, é uma possibilidade que se pode debater. Fechar a porta a uma renegociação de uma divida impagável e continuar a maldizer a austeridade já é muito mais difícil.

A cegueira sobre os caminhos que a Europa está a seguir é comum à generalidade dos partidos socialistas e social-democratas europeus.

A segunda parte da reação do PS é que este acordo, que a generalidade dos observadores, da esquerda à direita apelidou de humilhante para os gregos, tendo o “Spiegel” falado de “catálogo de crueldades”, é obra dos socialistas. Fosse verdade, seria caso para dizer: gaba-te cesto! Acontece que a proposta de Schäuble tinha, no mesmo plano, duas possibilidades, para os gregos escolherem. A primeira era a que correspondia ao que saiu das negociações. Apenas uma vitória para Tsipras, que não é despicienda: o fundo em que os Gregos dão praticamente todo o seu Estado como garantia aos credores ficou em Atenas, gerido pelos gregos com supervisão externa, e não no Luxemburgo, gerido por um banco público alemão, o que faria da Grécia eterna refém dos credores e da Alemanha. Fora isto, Schäuble conseguiu tudo o que queria. Só se esta primeira possibilidade fosse recusada é que a saída do euro estaria em cima da mesa.

Muitos, eu incluído, achavam que o “grexit” era uma possibilidade real porque poucos acreditaram que a primeira possibilidade pudesse ser olhada como mais do que uma provocação. Muito menos depois do “não” grego, do murro na mesa francês e do “já chega” italiano. Cada um terá a sua opinião sobre a cedência grega. Mas custa-me apontar o dedo acusador para quem tem de escolher entre opções tão extremas, sabendo que nenhuma delas tem apoio popular. Não era o caso dos socialistas franceses e italianos, que não corriam grandes riscos nesta negociação. E a sua grande vitória, a que Costa se colou para promover o seu derradeiro argumento (que tem aliados na Europa), foi ter ajudado a que o impossível fosse possível: totalmente isolados, os gregos foram para casa com um pacote de austeridade ainda pior do que aquele que recusaram há uma semana. A “capacidade negocial” dos socialistas, de que o PS fala, resultou em garantir a total capitulação grega em defesa de um bem maior: manter o euro intacto, sem que nada realmente tenha de mudar na sua estrutura ou na Europa.

Tem razão António Costa quando diz que não se quebrou o entendimento entre Merkel e Hollande. Porque, como diz, foi afastado o “discurso dos falcões”? Pelo contrário. O discurso dos falcões conseguiu impor aos periféricos uma escolha entre doses sucessivas de austeridade e a saída do euro.

O PS decidiu há muito não olhar de frente para impasse em que a Europa se encontra. Ao meter a cabeça debaixo da areia o PS é incapaz de ter um discurso compreensível sobre o temas que parecem ser apenas nacionais: onde vai buscar os recursos e a folga para fazer diferente deste governo?

A cegueira sobre os caminhos que a Europa está a seguir é comum à generalidade dos partidos socialistas e social-democratas europeus. Mas afeta-os de forma bem diferente. Na Alemanha ou na Holanda é possível o centro-esquerda não se distinguir das grandes opções do centro-direita para a Europa, porque elas não correspondem a perdas sociais muito maiores do que as que já foram impostas pelo chanceler Gerhard Schröder ou pelo partido social democrata holandês. Isto não acontece nos países que sofreram, nos últimos anos, doses muito mais pesadas de austeridade. Os efeitos para os partidos de centro-esquerda que não foram capazes de redirecionar o seu discurso foram calamitosos na Grécia e estão a caminho disso em Espanha. Nos dois casos, está-lhe a comer o eleitorado.

Claro que em Portugal o PS esteve, durante todo o período de intervenção externa, na oposição. Isso facilitou-lhe a vida. Só que à medida que se aproxima o dia das eleições fica mais evidente a dificuldade do PS em articular um discurso compreensível, em que o relançamento do emprego e o crescimento económico que promete bata certo com os constrangimentos externos que aceita sem qualquer resistência. Não se apercebeu Costa que, ao fazer um elogio quase solitário ao terrível acordo imposto à Grécia como o preço a pagar para manter o euro como está, deixou claro o vácuo político onde a sua posição habita. O preço de não confrontar as instituições europeias é voltar sempre para casa com mais austeridade na bagagem. E as excelentes relações do PS com os socialistas franceses e italianos apenas lhes podem garantir isso. Nada que as excelentes relações de Passos Coelho com Angela Merkel não consigam.

2 pensamentos sobre “Isto também foi ideia nossa, diz Costa

  1. Se não se faz mais de morto açaima os galambas de serviço, com o aumento do consumo a aumentar, os juros de finaciamento a manter-se baixos e o governo grego a mostrar no dia a dia a sua completa incompetência e até irresponsabilidade o dao sebastiao Costa ainda faz o milagre de perder as eleições.

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