À espera do iceberg?

(Daniel Oliveira, in Expresso, 30/05/2015)

         Daniel Oliveira

                     Daniel Oliveira

No documentário “Guia de Cinema do Depravado”, o filósofo Slavoj Zizek elabora sobre o sentido ideológico do pastelão cinematográfico “Titanic”. Diz que se o romance entre a rica e enfadada Rose (Kate Winslet) e o pobre e vigoroso Jack (Leonardo DiCaprio) não tivesse sido interrompido por um iceberg, tudo acabaria por se esfumar e a menina regressaria ao seu aborrecido mas seguro noivado. A tragédia salvou o sonho da inevitável desilusão. Partindo daqui, Zizek salta do Atlântico para Praga, explicando o que teria acontecido se os tanques soviéticos não tivessem posto a Checoslováquia tresmalhada na ordem: ou os checos acabariam por se render ao capitalismo ou os mentores do “socialismo de rosto humano” teriam sido obrigados a marcar novos limites, pondo um ponto final na festa. A esquerda que queira ser alternativa ao que hoje domina a Europa vive dilemas semelhantes. Está entalada entre o que quer fazer e um contexto que lhe nega quase tudo. E muitos parecem acreditar que só a derrota a pode preservar de uma desilusão.

Fiquemos por um programa mínimo de qualquer social-democrata: serviço nacional de saúde, escola pública, sistema fiscal progressivo, leis laborais equilibradas, economia regulada e soberania democrática. Chegado ao Governo, é confrontado com um euro que retira poder económico ao Estado, uma dívida que transfere todos os recursos públicos para o sistema financeiro, credores institucionais que impõem um programa político oposto a esta agenda e regras europeias que empurram os Estados para uma competição baseada em direitos sociais mínimos. A esquerda parece ser obrigada a escolher entre uma rutura que pode atirar os governados para um abismo e uma cedência que torna a sua presença um governo irrelevante. E é perante isto que tem de responder a uma pergunta simples: mesmo assim quer governar?

Os resultados das eleições em Espanha mostram que nem o impasse grego chegou para reduzir o apoio ao Podemos e às listas que sustentou em Madrid e Barcelona. Para governarem em várias regiões e na capital, Pablo Iglesias e seus aliados assumiram, apesar de tudo o que tinham dito, a responsabilidade de negociar com o PSOE. Porque a resposta à pergunta difícil não depende de muitos cálculos. Nas atuais circunstâncias, a esquerda não tem outro remédio senão querer governar. Como vemos na Grécia, o caminho é espinhoso, cheio de perigos, cedências e alianças difíceis. Mas se disser que ‘não’ — ou se disser um ‘sim’ que todos sabem ser um ‘não’ —, a esquerda remete-se para o papel de guardião simbólico de uma memória derrotada.

Há quem prefira esperar, mais uma vez, por uma rutura política na Europa. Pode ser que aconteça. Ou pode ser que, depois desta crise, venha algum crescimento económico e até alguma recuperação de emprego. Mas com muito menos Estado social e trabalho ainda mais precário e mal pago. E pode ser que este ajustamento se faça sem qualquer rutura no regime. A questão é saber se a esquerda abandona definitivamente a luta institucional ou se, pelo contrário, assume, no momento em que isso lhe é exigido, a responsabilidade de tentar. A questão é saber se tem tanto medo de perder que se dá já como derrotada, esperando que um iceberg salve uma ideia romântica do que podia ter acontecido se tudo fosse diferente.

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