A irresistível tentação de ‘combater a bagunça’

(Henrique Monteiro, in Expresso Diário, 24/04/2015)

Henrique Monteiro

                    Henrique Monteiro

No ‘Observador’, José Manuel Fernandes lembra que estamos em 2015 e não em 1972, quando Marcello Caetano mudou o nome dos serviços de censura para ‘Exame Prévio’; no ‘Diário de Notícias’, Ferreira Fernandes faz uma contraproposta divertida e o diretor, André Macedo, uma crítica bem estruturada; no ‘Público’ afirma-se, em manchete, que a Comunicação Social ameaça não cobrir as eleições legislativas; no ‘Expresso Curto’ desta manhã Martim Silva interrogava-se sobre a possibilidade de haver uma lei para impedir leis estúpidas.

Sabem o porquê desta unanimidade? É porque os jornalistas são corporativos e recusam obedecer ao Parlamento, ao PSD, PS e CDS, que quer impor justiça e liberdade na cobertura das campanhas. Os jornais o que pretendem é uma anarquia: dar a cada assunto, a cada pessoa, a cada campanha, a importância que eles julgam ter. Mas quem são os jornalistas ou os jornais para decidir tais coisas? Quem os elegeu? Como se sabe, democracia que é democracia, deixa as decisões editoriais nas mãos dos políticos, ou, vá lá, da polícia ou de uma coisa semelhante, tipo Comissão ou Entidade. Jamais nas mãos dessa canzoada, que são os jornalistas, sobretudo sabendo-se que alguns deles – para citar o higiénico Dr. Araújo ¬– nem se lavam! Há que pôr ordem nisto!

Os nossos políticos são tolerantes e liberais. Mais linha menos linha não faz mal, assim como mais segundo menos segundo ou mais imagem menos imagem. O que eles não suportam é que a pluralidade dos jornais que existem no nosso país, somada à pluralidade de rádios e de televisões, possa fazer o que lhes apetece, levando o povo – essa massa acéfala, estúpida e influenciável – a fazer o que eles dizem. Não sei por que não se lembraram de uma coisa que seria também igualitária: todos os partidos terem o mesmo dinheiro para gastar na campanha. E, mais igualitário ainda, terem todos, obrigatoriamente, o mesmo programa. Assim não se enganava ninguém. Votasse-se em quem se votasse, era certo e sabido que não se ia ao engano. Aliás, a ideia de haver um só partido já lhes ocorreu, com certeza, e só a modéstia de não se quererem colocar ao nível desse génio que foi o Dr. Salazar os impediu de avançar por aí.

Acresce que um país deixado à incompetência dos jornalistas ainda acaba mal. Porque o que gostam eles de fazer? Mostrar o presidente a comer bolo-rei ou um candidato a primeiro-ministro a enganar-se nas contas! Qualquer dia, mostram que o Dr. Passos disse uma coisa num dia e outra noutro; ou que o Dr. Costa disse o contrário do oposto, além de refilar por haver jornalistas que lhe saltam detrás dos automóveis; ou que o Dr. Portas disse que era irrevogável uma decisão que afinal não foi.

É um perigo! Não há democracia que subsista com uma imprensa livre… Veem-se os podres dos políticos, em vez de se verem os seus anafados poderes – e como entre poder e podre só há uma troca de letras, verifica-se a facilidade com que esses energúmenos podem distorcer a mensagem.

Por isso aplaudo (com ambas as mãos, como dizia o outro) a ideia de ter de se submeter um plano rigoroso das coberturas eleitorais. Por exemplo, se um jornal quer mostrar as contradições de um político, tem que encontrar contradições em todos os concorrentes; e o mesmo para as virtudes – nem que as invente! Porque a igualdade não pode ser estragada pela liberdade, percebem?

Argumentam – mesmo alguns ex-políticos, como António Vitorino – que a igualdade se realiza nos tempos de antena obrigatórios. É muito esperto, aquele rapaz, conheço-o desde que éramos miúdos e sempre foi espertíssimo. Mas ele não sabe que ninguém vê os tempos de antena? Por culpa de quem? De quem os faz? Não! Por culpa dos jornalistas, que em vez de enaltecerem e louvarem a ação dos políticos – independentemente do partido a que pertencem – passam a vida a criticá-los. E o povo – essa massa amorfa, estúpida, e influenciável – prefere ver telejornais e ouvir notícias na rádio a ter que gramar com a ‘missinha’ de cada formação política, a explicar por que razão será ela a salvar o país.

Não perceber isto, é não perceber nada. A lei é salvadora! Eu vou já apresentar o meu projeto: quero elogiar os autores da lei, que assim ficarão para a posteridade – Inês de Medeiros, do PS, Telmo Correia, do CDS, e sobretudo o grandioso Carlos Abreu Amorim, o célebre homem que para descanso e conforto dos liberais, deixou de ser liberal há 15 dias. Que se faça uma estátua onde os três figuram como aqueles que redimiram o país da bagunça da liberdade, voltando-o a colocar nos eixos da previsibilidade. Bem hajam por o fazerem por alturas do 25 de Abril, porque são temas que ligam muito bem!

Nota – Este texto foi submetido ao parecer da comissão da análise, pelo que saiu razoavelmente bem e não tem ofensas a ninguém.

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