Abutres pairam sobre a Venezuela

(Joseph Praetorius, 03/02/2019)

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Joseph Praetorius

É angustiante ver os primeiros movimentos de cerco à República Bolivariana e saber que o destino que se lhe prepara é o de uma Líbia, ou Somália, destino do qual partilharão – necessariamente – a Colômbia e o Brasil.

A gravidade dos semblantes dos dirigentes do novo eixo do mundo contrasta com a euforizada histeria assassina dos imbecis UE-USA que assim se prefiguram, mais uma vez, uma saída pela guerra para as desgraças às quais a guerra os conduziu.

A exuberante produção de oiro da Venezuela e a recuperação dos preços dos combustíveis transformaram Maduro em fenómeno eleitoralmente imbatível.

Mas a emergência orçamental da pilhagem para os USA e a inviabilidade de um confronto militar bem sucedido a oriente, exige a guerra, exige-a imediata, sem delongas, sem reservas, sem esperanças, sem mediações possíveis, sem saída, sem alternativa. Eles querem aquele oiro. Querem aqueles carburantes. E estão prontos a mergulhar o sub-continente na maior desgraça militar que este alguma vez conheceu.

Fazer alinhar a ridícula República Portuguesa com uma tal monstruosidade é imperdoável. Não há irrelevância ou grosseria capazes de atenuarem uma tal barbaridade, tão completamente sem freio. O grotesco Costa e o risível Silva… Imaginaram-se sequer a decidir e a falar em tais circunstâncias? Que alguém se lembre, quando houver o tempo, de lhes pôr pimenta nas línguas em memória de tal atrevimento.

Podemos estar a viver os últimos dias de paz precária no que pode bem ser a guerra civil de um subcontinente inteiro. Para as novas gerações crescidas sem qualquer noção do que sejam o esforço e a grandeza da luta pela liberdade e pela dignidade dos homens e dos povos, esta pode ser uma época tremenda.

Deus te guarde, Novo Mundo.

Era uma vez um país chamado Venezuela…

(Ferreira Fernandes, in Diário de Notícias, 27/01/2019)

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Gabriel García Márquez viveu dois anos em Caracas, era ele repórter. Foi pago por uma revista para contar a queda do ditador empreendedor Pérez Jiménez, em 1958, e o que se seguiu. O futuro nobel, por enquanto jornalista, pôs-se a escrever sobre “Caracas, a infeliz”, como lhe chamou. Então, entre as autoestradas, os viadutos e os hotéis com piscinas aquecidas – cada obra, terceira, quarta ou quinta “maior do mundo” – e muita carência geral, García Márquez convocava para as suas reportagens as histórias de uma velha venezuelana, exilada de outra ditadura, que marcara a infância dele, no país vizinho, Colômbia.

A velha exilada narrara-lhe as fábulas e os contos infantis, mais ou menos iguais em todas as latitudes, integrando-os nas suas, dela, pátria e cidade. A Bela Adormecida perdia o sapato de cristal num hotel caribenho onde se tocavam boleros, o Capuchinho Vermelho era tentado, não pelo lobo mas por um ditador dos anos 1930, e assim por diante. E o facto é que esses contos e essas personagens reapareciam nas reportagens de García Márquez. Por exemplo, ratazanas mortas de sede pelo longo corte de água na infeliz Caracas. Como veem, penúrias e bens racionados na Venezuela não são só os dos noticiários atuais. Talvez sem efabular não seja possível contar aquele país.

Invento, mas não muito, as datas coincidem, andava o grande contador colombiano a fazer jornalismo imaginativo e eu, garoto, estava no cinema do meu bairro luandense, onde passava Maracaibo. Uma xaropada de Hollywood que vi fascinado como se de um conto infantil se tratasse. O rapaz amava uma loura nos intervalos em que tinha de apagar as chamas de uma plataforma petrolífera que ardia no lago de Maracaibo – sem o heroísmo, a part-time, do rapaz, a cidade explodia. Não sou dos maçadores que contam o fim dos filmes e sobre o assunto não digo mais.

Um dia, em 2007, um taxista levava-me à fronteira colombiana, ao estado de Táchira, onde tinham sido raptados quatro portugueses, três deles crianças. O motorista também era português e fartou-se de me prevenir sobre Maracaibo, a cidade por onde íamos passar. Perigosa, sobretudo à noite. Ao chegar, ao meio da tarde, até o velho automóvel se mostrou temeroso, recusou avançar. Tivemos de chamar um reboque, que só apareceu ao fim da tarde.

Subiu-se o carro para o reboque, o patrício pôs-se ao lado do condutor e eu fiquei sentado, lá em cima, no mesmo assento do automóvel onde vinha percorrendo a Venezuela. Entrei, noite cerrada, na cidade de Maracaibo, a desamparada, sem iluminação pública que me permitisse confirmar se tinha explodido no último meio século. Um buraco levou o reboque a saltar e o meu automóvel reanimou-se. As rodas continuavam paradas, mas as luzes e a buzina de alarme puseram-se a acender e apagar e a berrar, sem botão que as calasse pelas ruas da perigosa Maracaibo. Há terras assim, de realismo fantástico até no asfalto esburacado.

Dias mais tarde, em Caracas, um jovem barbeiro que fazia vídeos sobre rebeldes sem causa apresentou-me cangalheiros. Eu queria saber porque recusavam eles fazer velórios noturnos quando o morto era de gangues juvenis. Contaram-me: tornara-se hábito na juventude transviada levar o falecido para uma última ramboia pela noite de Caracas.

Sendo isto assim, ainda não dou a minha opinião sobre a situação institucional de exceção que é a Venezuela com dois presidentes. Vou ler alguns pareceres e já volto.

Entretanto, deixem-me reportar como deve ser: era uma vez um regime estúpido que ia destruindo um país e tudo dentro da legalidade democrática. Do que se lembrou um desconhecido ainda verde na política? Gritou: “Apesar de tão maduro, o presidente não cai. Então, o presidente sou eu!” O miúdo de O Rei Vai Nu não disse outra coisa.

O golpe na Venezuela deve ter resistência

(Craig Murray, in GlobalResearch, 24/01/2019, Tradução Estátua de Sal)

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A Venezuela teve eleições. Juan Guaido nunca foi um candidato presidencial. Apesar do enorme financiamento e interferência da oposição e da CIA durante anos, já que as grandes companhias do petróleo tentam recuperar o controlo das maiores reservas do mundo, Nicolas Maduro foi democraticamente reeleito em 2018 como presidente da Venezuela.

O golpe, agora em curso, é ilegítimo. Eu opus-me à acção de Maduro para substituir a Assembleia Nacional eleita. Às vezes, leio de novo coisas que escrevi no passado e penso que estava errado. Outras vezes acho que o artigo estava certo, mas um pouco superficial . Ocasionalmente, fico orgulhoso, e estou orgulhoso da minha análise sobre a Venezuela, escrita em 3 de agosto de 2017. Acredito que ainda está válida:

A política revolucionária de Hugo Chavez foi fundada em dois princípios muito simples:

1) As pessoas não deveriam morrer de fome em favelas terríveis no país do mundo mais rico em petróleo.

2) A CIA não deveria controlar a Venezuela.

Ao longo dos anos, Chávez acumulou conquistas reais na melhoria dos padrões de vida dos pobres e no fornecimento de instalações de saúde e educação. Era muito popular e tanto ele quanto seu sucessor, Nicolas Maduro, obteve vitórias eleitorais muito expressivas. Maduro continua a ser o presidente democraticamente eleito.

Mas o sonho tornou-se azedo. Particularmente, caiu na tendência das economias de planeamento central de não fornecer as mercadorias que as pessoas querem nas prateleiras das lojas, e na corrupção que acompanha a centralização. Esta corrupção certamente que não é pior que a corrupção de direita que substituiu, mas isso não diminui a gravidade da sua existência.

Qualquer revolução afasta sempre uma elite existente que é, por definição, o grupo mais educado e mais articulado da população, com mais acesso a recursos, incluindo o acesso à comunicação social – e ao apoio secreto da CIA, que continuou em ritmo crescente. Chávez não resolveu esse problema da maneira que Robespierre, Stalin, Trotsky ou Mao teriam feito. Abraçou a democracia, deixou-os existir – e em grande parte deixou-os manter os seus milhões em offshore privados e, assim, o seu poder, permaneceu intocado.

Assim, Inevitavelmente chegou o dia em que os fracassos económicos e administrativos quebraram a solidez do apoio dos pobres à revolução. A direita, então, intensificou a sua oposição através de uma campanha liderada por bilionários corruptos, que a comunicação social ocidental ocultou ter recorrido a assassínios e a violência.

O problema do milenarismo revolucionário é que seu fracasso em alcançar a utopia é visto como um desastre pelos seus apoiantes. Maduro deveria ter aceite a mudança, que é a natureza da vida, que as marés políticas vão e voltam, e ceder o poder à oposição vitoriosa no parlamento, mantendo os princípios da democracia e esperar que a maré voltasse atrás – mesmo correndo o risco de a A CIA não lhe dar a segunda oportunidade. Em vez disso, ele recorreu a uma solução constitucional que dilui a democracia, um precedente que deliciou a direita que, a longo prazo, tem mais a temer da população. Dada a extrema violência da oposição, estou menos inclinado a ver as detenções como inquestionavelmente uma questão de direitos humanos, do que alguns alegados grupos pró-ocidentais de direitos humanos. Mas receio bem ser verdade que Maduro tenha saído do trilho democrático. Deve dizer-se, sem rodeios, que ele errou, por mais difíceis que tenham sido as circunstâncias. Eu condeno ambas as partes por se terem desviado das melhores práticas de direitos humanos e a tentativa de usar uma parte das instituições indiretamente eleitas (tribunais) para subverter o parlamento eleito.

Mas, ainda hoje, a Venezuela é muito mais uma democracia do que a Arábia Saudita, e é muito mais respeitadora dos direitos humanos do que Israel na sua terrível repressão aos palestinianos. No entanto, o apoio a Israel e à Arábia Saudita são pedras fundamentais da política externa daqueles que hoje são incessantes nas suas exigências de que nós, na “esquerda”, condenamos a Venezuela. A BBC deu maciçamente mais cobertura de notícias sobre abusos de direitos humanos na Venezuela no mês passado do que numa lista conjunta de países muito piores que eu poderia citar.

O abuso dos direitos humanos deve ser condenado em todos os lugares. Mas só atinge as manchetes quando praticado por um país que está do lado errado da agenda neoconservadora.

Qualquer um que acredite que a democracia interna de um país é o fator determinante para determinar se o Ocidente decide apoiar uma mudança violenta de regime naquele país, é um completo idiota. Qualquer jornalista ou político que faça essa afirmação é mais provável que seja um charlatão completo do que um completo idiota. Nos últimos anos, a posse de reservas de hidrocarbonetos é obviamente um fator importante nas ações de mudança do regime patrocinadas pelo Ocidente.

Na América Latina, no último século, a presença da democracia interna tem sido muito mais propensa a levar a uma mudança de regime externa do que a sua ausência, já que a manutenção da hegemonia imperialista dos EUA tem sido o fator determinante. Tal facto, combinado com as reservas de petróleo, explica duplamente as razões do atual movimento golpista.

É desanimador ver as “democracias” ocidentais a apoiar tão unanimemente o golpe na Venezuela. A UE, em particular, entrou em cena para apoiar Donald Trump no ato absurdo de reconhecer o fantoche corrupto do Big Oil, Guaido, como “Presidente”.

A mudança da UE para uma política totalmente neoconservadora – tão fortemente representada pelo seu incisivo apoio à violência franquista na Catalunha -, foi o que me levou a conciliar com o Brexit e a defender um relacionamento do Reino Unido com a União Europeia, estilo Noruega.

Quando eu estava no FCO (N.T – Ministério dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido), a regra do reconhecimento era muito clara e muito abertamente declarada – o Reino Unido reconhecia o governo que tinha “controlo efetivo do território”, quaisquer que fossem os atributos daquele governo. Este é um princípio muito bem estabelecido no direito internacional. Havia exceções muito raras envolvendo a continuação do apoio aos governos demitidos. O governo polaco, no exílio, antes de 1939, era o exemplo mais óbvio, mas, depois do nazismo ter sido derrotado, a Grã-Bretanha passou a reconhecer o governo comunista realmente encarregado, apesar da fúria dos polacos exilados. Eu próprio estive envolvido na questão do reconhecimento continuado do Presidente Kabbah, da Serra Leoa, durante o período em que ele foi derrubado por um golpe militar.

Mas não me ocorre nenhum precedente de reconhecimento de um presidente que não tem e nunca teve o controlo do país – e nunca foi candidato a presidente. Essa ideia do Ocidente, simplesmente tentar impor um líder adequadamente corrupto e obediente é realmente um desenvolvimento muito surpreendente. É também de espantar o comentário dos MSM (N.T. Mainstream media) e da classe política que parece não ver nenhum problema com isso. É um precedente extraordinário e, sem dúvida, levará a muitas e novas aventuras imperialistas.

Um pensamento final. O governo de direita do Equador tem sido um dos primeiros e mais ouvidos a apregoar as ofertas do Ocidente à Venezuela. O governo equatoriano tem conspirado com os Estados Unidos nos seus esforços para aprisionar Julian Assange, e neste exato momento conseguiu que funcionários do FBI e da CIA em Quito recebessem declarações falsas e maliciosas fabricadas pelo governo do Equador em colaboração com a CIA, sobre as atividades de Julian Assange na Embaixada em Londres.

Documentos do governo equatoriano já haviam sido produzidos em Quito e encaminhados para o MI6 e para a CIA bem como para o Guardian e o New York Times, pretendendo mostrar a nomeação diplomática de Julian Assange para Moscou em dezembro de 2017. Acredito que esses documentos falsos, muito provavelmente produzido pela CIA no Equador, devem ter influenciou o próprio governo deste país no caso Assange.

Hoje, o Equador, em tempos recentes uma peça fundamental da revolução bolivariana, é simplesmente um fantoche da CIA, expressando apoio a um golpe dos EUA na Venezuela e trabalhando para produzir testemunhos falsos contra Assange. Assim, deixo o aviso para que não deem crédito ao próximo “furo” de Luke Harding, que sem dúvida emergirá desse processo.


Fonte aqui