O Major-general Agostinho Costa observa que a Rússia está a ter “uma evolução muito importante ao nível tático” no teatro de operações da Ucrânia, mas repara num outro detalhe: é que desde que Donald Trump reassumiu a liderança dos EUA, Kiev não recorreu mais a ATACMS e Storm Shadow nos seus ataques. “Mostra que qualquer coisa mudou em termos de orientação político-estratégica”.
Eu diria mais: manda quem pode e obedece quem deve. Ou o respeitinho é muito lindo, mesmo quando o Zelensky e os seus sequazes pretendem minimizar os avisos de Trump, tentando passar a ideia de que não o levam muito a sério.
Ver aqui o vídeo da intervenção na CNN do Major-general Agostinho Costa.
(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 21/01/2025)
Monumento à glória de Stepan Bandera em Ternopil (Ucrânia). Segundo a «Tribune Juive» (Tribuna Judaica-ndT), haveria uma centena de monumentos à glória dos colaboracionistas nazis na Ucrânia. A Rússia exige a sua destruição imediata, enquanto a NATO finge que eles não têm importância.
A Rússia interveio militarmente na Ucrânia para desnazificar o país. Mas, segundo os Ocidentais, não há nazis na Ucrânia. A Rússia deseja sim invadir e anexar esse país. Esta incompreensão reciproca fez degenerar a operação especial russa em guerra aberta. No entanto, vários factos idênticos, sobrevindos nos países bálticos desde 2005 e no Parlamento europeu desde 2016, atestam que não se trata de uma incompreensão, mas de uma estratégia deliberada da NATO. Esta acaba de mobilizar 53 Estados para se opor à adopção pelas Nações Unidas de uma Resolução tradicional contra a glorificação do nazismo.
Aquando da Libertação (quer dizer, no fim da Segunda Guerra mundial), os Ocidentais estavam conscientes dos sofrimentos ocasionados pelas ideologias segundo as quais a Humanidade estava dividida em raças distintas hierarquizadas entre si. Todos compreendiam que a afirmação segundo a qual estas « raças » não podiam misturar-se e ter descendência fecunda era desmentida pelos factos e só pode impor-se graças a uma intensa propaganda. Desde a criação das Nações Unidas e durante toda a Guerra Fria, a União Soviética e a França asseguraram em fazer adoptar pela Assembleia Geral, todos os anos, uma Resolução proibindo a propaganda nazi e a glorificação desta ideologia. Este ritual foi esquecido com a dissolução da URSS. De modo surpreendente, a partir de 2020, não foi possível reformar o consenso em torno desta questão. Assim, em 17 de Dezembro de 2024, opuseram-se à última Resolução nesse sentido 53 Estados, e 10 abstiveram-se.
Com efeito, se durante a Guerra Mundial, os Aliados, tanto americanos (Canadianos, Norte-Americanos), como europeus (Britânicos, Franceses, Gregos, Polacos, Jugoslavos, Escandinavos, Soviéticos etc.) estavam unidos contra um adversário comum, este conjunto foi quebrado mesmo antes do fim do conflito por uma vontade anglo-saxónica (isto é, em simultâneo de alguns Norte-Americanos e de alguns Britânicos) de prosseguir o conflito contra a União Soviética. Foi assim que Alan Dulles, então responsável dos Serviços Secretos norte-americanos na Suíça, e o seu adjunto, Lyman Lemnitzer, negociaram com o General SS Karl Wolff, em 1945, a rendição das forças nazis em Itália para que elas combatessem os Soviéticos ao lado dos Estados Unidos (Operação Sunrise). Esta paz separada não foi posta em prática porque Joseph Stalin se opôs imediatamente a isso e Franklin D. Roosevelt não ratificou o acordo já concluído.
No entanto, Roosevelt, gravemente doente, morreu pouco depois, enquanto Dulles se tornou o Chefe dos Serviços Secretos norte-americanos do pós-guerra, a CIA, e o General Lemnitzer se tornou, mais tarde, o Chefe do Estado-Maior Conjunto do Exército norte-americano. Seguiu-se que a CIA e, em menor escala o Departamento de Defesa, se tornaram abrigos para os antigos nazis. Durante toda a Guerra Fria, eles foram colocados pelos Anglo-Saxões em postos de responsabilidade em numerosos países do «mundo livre» (sic), do Chile ao Irão. Chegaram ao ponto de criar uma internacional do crime, a Liga Anti-comunista Mundial, a fim de coordenar os seus esforços contra todos os movimentos de esquerda do Terceiro Mundo. [1].
Foi preciso esperar por 1977, após as revelações da Comissão parlamentar do Senador Frank Church sobre os crimes da CIA, para que o Presidente Jimmy Carter e o Almirante Stansfield Turner pudessem trazer a CIA à ordem e derrubar as ditaduras no Chile, no Irão e em todo a parte.
Contudo, para lutar contra o rival soviético, o Presidente Ronald Reagan e a Primeiro-Ministro Magareth Tatcher, apoiaram numa nova ideologia, o islamismo, e não hesitaram em desenvolvê-la, primeiro no Afeganistão, depois em todo o Médio-Oriente. Para eles, era o único meio de mobilizar a Confraria dos Irmãos Muçulmanos e os povos árabes.
Finalmente, com a dissolução da União Soviética, em 1991, movimentos racistas anteriormente aliados dos nazis ressurgiram. O Presidente Bill Clinton e o Primeiro Ministro Tony Blair não hesitaram em apoiar-se neles. Foi assim que os « nacionalistas integralistas » [2], adeptos de Dmytro Dontsov e de Stepan Bandera, chegaram ao Poder na Ucrânia.
Tudo começou na Letónia em Janeiro de 2005, enquanto o país se tornava membro da União Europeia, o governo, com o apoio financeiro da embaixada dos Estados Unidos, publicava um livro, História da Letónia : Século XX. Aí, ele garantia, entre outras coisas, que o campo de Salaspils, onde os nazis realizaram experiências médicas em crianças e onde 90. 000 pessoas foram assassinadas, não passava de um um « campo de trabalho de reeducação » e que os Waffen SS haviam sido heróis da luta contra os ocupantes soviéticos. Alguns meses mais tarde, organizou um desfile de Waffen SS no coração de Riga, tal como havia feito durante os quatro anos precedentes, quando ainda não era ainda membro da UE [3]. Em condições normais, toda a União Europeia deveria ter protestado. Mas nada disso se passou. Apenas Israel e a Rússia exprimiram a sua indignação.
Em 2016, a Polaca (Polonesa-br) Anna Fotyga, que era então deputada europeia e se tornará a seguir directora da Administração presidencial polaca, depois um dos pilares da OTAN, apresentou em Estrasburgo uma Resolução tratando das comunicações estratégicas [4]. Tratava-se de fazer entrar a UE na guerra de Informação contra a Rússia e, na aparência pelo menos, contra os islamistas, instituindo um dispositivo montado em torno do Centro de comunicação estratégica da OTAN [5].
Foi nesse contexto que, em 19 de Setembro de 2019, o Parlamento Europeu adoptou uma Resolução « sobre a importância da memória europeia para o futuro da Europa » [6]. Este texto afirma que ao assinar o Pacto Molotov-Ribbentrop, a URSS partilhou os objectivos funestos do Reich nazi e desencadeou a Segunda Guerra mundial. É, evidentemente, completamente errado [7].
Hoje em dia, os neo-nazis, os «nacionalistas integralistas» [8] podem exercer o Poder na Ucrânia sem levantar a menor objecção dos Ocidentais. Não se quer notar que a sua Constituição é a única no mundo a especificar, no seu Artigo 16, que « preservar o património genético do povo ucraniano releva da responsabilidade do Estado » [9].
Não se salienta que Volodymyr Zelensky terminou o seu mandato há oito meses e que ele se mantêm ilegitimamente no Poder sem eleições. Interpreta-se a interdição dos partidos políticos da Oposição e da Igreja ortodoxa [10] como disposições que reprimem a infiltração russa. Ignora-se a “limpeza” das bibliotecas (de livros russos-ndT) [11]. Apenas a custo se começa a tomar consciência do êxodo da população ucraniana e das deserções maciças no seu exército.
Tudo isso não deve espantar-nos no momento em que as mesmas autoridades ocidentais nos explicam com um sorriso que os jiadistas da Alcaida e do Daesh (E. I.), que acabam de ser colocados no Poder em Damasco pelos Anglo-Saxões, não são mais do que « islamistas iluminados » [12].
[7] «El día que Occidente prefiere olvidar», por Michael Jabara Carley, Traducción Sophia Vackimes, Strategic Culture Foundation (Rusia) , Red Voltaire , 1ro de octubre de 2015.
[9] Este artigo é muitas vezes interpretado, de forma errada, como tratando das consequências da catástrofe de Chernobyl. No entanto, ele não se refere ao património genético da Humanidade, mas apenas ao que se refere ao « povo ucraniano ». Esquecem-se que Adolf Hitler era vegetariano e ecologista.
Muito atento às preclaras, inteligentíssimas, informadíssimas e seguríssimas intervenções das Dianasoleres, Botelhosmonizes, Isidrosmoraispereiras e demais tropa fandanga de comentadores da mesma estirpe – as únicas que nos guiam, autênticos faróis iluminantes na complexidade das relações internacionais, em particular da guerra que se trava no território da Ucrânia -, estava eu convencidíssimo de, além da Ucrânia estar à beira de derrotar a Rússia, que Zelensky ia humilhar Putin, obrigando-o a negociar um cessar-fogo com todas as condições do seu plano de paz.
Afinal, sou subitamente surpreendido por ler a notícia em vários jornais internacionais de que Trump e Putin se preparam para negociar um possível fim da guerra na Ucrânia sem convidarem o Zelensky, a Ursula, a Kallas, o Rutte, para essa negociação!
Estou mesmo aparvalhado! Como é possível acabar por acontecer um encontro Trump/Putin deixando à porta – e sem direito a abrirem a boca – tão excelsos políticos? E sem darem ouvidos aos excelentíssimos comentadores nacionais que desmentiam e punham em causa as análises dos majores-generais Agostinho Costa e Carlos Branco e também do Tiago André Lopes?!
É um desaforo! Estou indignado! Gente tão inteligente e brilhante afinal andou – e ainda vão continuar a andar -, a pregar aos peixes!