Rui Moreira e PS: um divórcio inevitável

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 09/05/2017)

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Há quem não se lembre, mas o movimento de Rui Moreira, que, longe de ter resultado de um movimento cívico de base, nasceu das profundas divisões entre social-democratas, não teve maioria absoluta. Governou com o PS – e aos socialistas deve a estabilidade governativa. Na realidade, há mesmo quem diga que Rui Moreira deve quase tudo o que foi feito a Manuel Pizarro. Como não conheço em pormenor o trabalho da autarquia, prefiro pensar que se trata de uma injustiça.

Chegadas as eleições, parece evidente que o presidente da Câmara do Porto aproveitou o momento oportuno – umas declarações de uma dirigente nacional do PS sobre as listas do Porto – para se livrar de um apoio que considerará desnecessário. Não vejo outra forma de ler este episódio. Ou Rui Moreira é um temperamental que é capaz de destruir quatro anos de trabalho conjunto por causa de uma declaração de uma socialista em Lisboa, ou estava à espera de uma desculpa para deixar o PS de calças na mão. E deixou.

Não vou avaliar o trabalho de Rui Moreira como autarca. O que me chega por pessoas cuja opinião respeito é contraditório. Mas não preciso de ser do Porto para conseguir reconhecer o que representa Rui Moreira e o seu movimento. O empresário que se tornou popular como comentador desportivo tem bons modos. Pode dizer, numa entrevista, que “para termos a nossa soberania económica, na segurança, podemos ter que precisar de ditaduras” sem que isso crie grande nervoso.

Mas a cultura política de Rui Moreira corresponde a um movimento mais geral que é marcado por três tendências do nosso tempo, também presentes, de forma muito mais sofisticada, numa figura como Emmanuel Macron: a confusão demagógica entre “sistema” e partidos; os chefes carismáticos supostamente “não políticos” no lugar das organizações; a despolitização do debate político através da ideia de que o pragmatismo anula as fraturas políticas e sociais que existem num país ou numa cidade. Todas elas são perigosas para a democracia.

Apesar de estar há muito umbilicalmente ligado a todos os poderes da cidade – económicos, desportivos e políticos – Rui Moreira apresentou-se como vindo de fora do sistema. Basta não ser de um partido e mostrar publicamente que não os quer para nada para que isso hoje seja valorizado. Isso deveria obrigar os partidos a pensar o que têm de fazer. Mas não haja confusão: movimentos como os de Rui Moreira não são um aprofundamento democrático, são o oposto. Por causa da segunda tendência que identifiquei.

A ideia que Rui Moreira quer passar é esta: ao contrário de outros, que devem lealdade ao seu partido, ele deve-a apenas ao Porto. O que é preocupante. Quer dizer duas coisas: que não reconhece a existência de conflitos de interesses entre as pessoas do Porto e que não imagina que há momentos em que Portugal pode estar à frente dos interesses da sua cidade

Como a maioria das listas de cidadãos com algum sucesso nas autárquicas, a de Rui Moreira também não é bem de cidadãos. É de Rui Moreira. Não é uma pequena diferença. Os partidos não são substituídos por organizações mais democráticas e plurais, menos sectárias e fechadas ao exterior. Pelo contrário, são substituídas por um homem só. Quando Rui Moreira fala da lista de cidadãos não diz, na maior parte das vezes, o nome do movimento. Diz “o meu movimento”. Não é uma apropriação abusiva. É a pura das verdades: o movimento é dele, ele escolhe os membros da lista, ele é o princípio e o fim daquela “organização”. A “partidocracia” não está a ser substituída por estruturas mais horizontais, inorgânicas ou basistas, está a ser substituída por movimentos carismáticos, com o poder ainda mais concentrado na mão de menos pessoas. Como em muitas outras coisas deste tempo, trata-se de um recuo político, não de um avanço.

Por fim, o nome do movimento (“O Nosso Partido é o Porto”), assim como o discurso de Rui Moreira, substitui, na cabeça dos eleitores, o confronto de escolhas diferentes, que os partidos devem representar, pela ideia de que só há uma escolha: no caso, o Porto. Podia ser “O Meu Partido é Portugal” e a coisa começaria a ter uma sonoridade um pouco mais desagradável. Na realidade, Cavaco Silva, que sempre quis alimentar a mentira de que não era um político e de que tudo o que fazia se resumia a escolhas técnicas evidentes, usou essa assinatura na sua última candidatura presidencial. E bem sabemos como foi tudo menos independente.

Claro que é mais simples fazer este discurso numa candidatura autárquica. Aparentemente há menos clivagens ideológicas na gestão de uma cidade, que se pode prestar mais ao pragmatismo. Mas a ideia que Rui Moreira quer passar é esta: ao contrário de outros, que devem lealdade ao seu partido, ele deve apenas lealdade ao Porto. O que é preocupante. Quer dizer duas coisas em simultâneo: que não reconhece a existência de conflitos de interesses (sociais, políticos, culturais) entre as pessoas do Porto e que não imagina que há momentos onde Portugal (ou a Europa, ou o Mundo), por exemplo, pode estar à frente dos interesses da sua cidade. Que a sua cidade não é uma ilha e que por vezes o seu partido tem de ser outro.

Essa é uma vantagem dos partidos políticos: eles têm, dentro da sua própria organização, de conciliar diferentes prioridades (é por isso que desconfio de partidos monotemáticos). Ao assumirem que existem diferentes pontos de vista sobre uma mesma realidade, os partidos políticos democráticos e nacionais fazem duas coisas: conciliam os interesses locais com o interesse nacional e assumem que uns e outro não são nem evidentes nem indiscutíveis. Rui Moreira faz o oposto: assume que se preocupa apenas com o Porto é que só assim pode representar os seus interesses indiscutíveis e nunca contraditórios.

Manuel Pizarro está numa situação impossível: é o candidato a presidente que, graças a um desentendimento entre Rui Moreira e o PS nacional, não pôde ser, como queria, apenas candidato a vereador

Não estou nem a dizer nem a insinuar que Rui Moreira é um autoritário. Pelo contrário, até o considero, em comparação com Rui Rio, um exemplo de respeito democrático pelos seus adversários. Estou apenas a dizer que a cultura do seu movimento, que é a sua cultura política, não é conciliável com a dos partidos. Isto não impede nenhum partido político de trabalhar, como trabalhou o PS, o CDS e um vereador tresmalhado do PSD, com Rui Moreira. Mas impede-os de se porem nas mãos de um movimento unipessoal e avesso às dinâmicas coletivas dos partidos, tão desprezadas por muitos cidadãos que já não se recordam como era viver num país em que um homem só sabia o que era melhor para todos nós.

O PS não é o MPT ou o CDS. É um dos maiores partidos do Porto. Se a lei o permitisse, poderia concorrer coligado ao movimento de Rui Moreira. Poderia ter encontrado forma do movimento integrar a candidatura do PS, o que, naturalmente, o homem que derrotou socialistas e social-democratas nunca aceitaria. Poderia garantir-lhe, depois de ir a votos em separado, a maioria, aceitando uma vereação com pelouro. Como fez até agora. O que não podia era entregar um partido inteiro à vontade de um homem só, que não tem de responder por nenhum coletivo já que o coletivo é ele que constrói. Ao fazê-lo criou as condições para ficar na situação em que ficou. E é capaz de ter sido melhor acontecer agora do que depois.

O oportunismo de não querer correr o risco de uma derrota – como se a candidatura a lugares de vereador fosse menos meritória – e de se querer colar a vitórias alheias acabou por lhe sair bem caro. Manuel Pizarro está numa situação impossível: é o candidato a presidente que, graças a um desentendimento entre Rui Moreira e o PS nacional, não pôde ser, como queria, apenas candidato a vereador.


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O “OPORTO”…NISMO!

(Joaquim Vassalo Abreu, 07/05/2017)

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Vamos lá, não vamos confundir o anglicismo supra com “oportunismo”, nem tão pouco com “oportunista”. São coisas absolutamente diferentes e enquanto um “oportunista” é alguém que se aproveita de uma situação, percebe o momento e age em proveito próprio, ao arrepio da ética ou das boas normas, o “oportuno” é aquele que adivinha o momento, que o antecipa e chega a tempo, age por intuito próprio, por antecipação e risco próprios e que, no fundo, não deixa passar uma oportunidade que lhe aparece. Como se costuma dizer, não deixa que a carruagem passe sem a agarrar.

Esta gratuita explicação é para que não confundam, portanto, o “oportuno” com o “oportunista” e nenhum destes com o “OPORTOnista”!

Claro que, em certas circunstâncias, eles se podem consubstanciar num só e o “O” de diferencial que aqui aparece reduz a questão a um local único e próprio que se chama PORTO ou em estrangeiro OPORTO! Eu já sabia que tinham percebido mas, mesmo assim, frisei!

De modo que, passado este introito, pretendo informá-los que, desta vez, vou falar mesmo de Política, sem me ater apenas ao seu lado anedótico, ridículo ou caricatural e, neste caso, do Porto, ou “Oporto”, como queiram, pois acho que agora vende mais o “Oporto” que o portuguesíssimo Porto, e começar por uma simples e inocente pergunta: Que raio se passa pela cabeça de Rui Moreira?

Isto foi o que passou logo pela minha que, da dele, nada conheço! Só sei, porque me lembro e até diversas vezes escrevi, que saudei a sua “coligação” com o Manuel Pizarro e cheguei mesmo a saudá-los e dá-los como exemplo: De cooperação institucional, de entreajuda, de lealdade, de compromisso, de entrega, de arrojo, de verdade no confronto com a realidade, no diálogo franco e aberto com todos e tantas coisas mais.

Pelo que, perante a sua postura em prescindir de Manuel Pizarro como seu número dois, ou só o aceitar se ele fosse como “independente”, isto é, dispensar o apoio formal do PS através da sua pessoa, eu seja forçado a fazer a pergunta que fiz e que, no meu modesto entender, tem muito que se lhe diga.

Atestando da lealdade, não se pode rejeitar quem se quer, a não ser por insondáveis desígnios que, por ainda insondáveis, não são ainda da nossa perpepção, a não ser que, estando numa posição pretensamente preponderante, se pense que tudo se possa dispensar que não seja o seu desejo próprio. Que, neste caso, seria ter um executivo camarário totalmente “independente”, apesar de muitos dos seus membros pertencerem a estruturas partidárias.

Ora, assim sendo, resulta que Rui Moreira, no seu “independentismo”, se acha acima de tudo e de todos e não precisa do apoio formal de ninguém. Pelo que, depois disto tudo, resta apenas o CDS que, neste embrulho todo, mantém a sua fidelidade. Que remédio! Que quer Rui Moreira, volto a perguntar?

Facto mesmo facto é que Rui Moreira continua a dizer que o seu “partido” é o Porto! Ora, pretendendo, desta forma, ser dono e senhor do Porto, daí só poderá resultar um novo partido: “O Partido do Porto”! Mas sendo um partido do “Porto” e apenas do “Porto” pois nem de Gaia, Matosinhos ou Maia é, como se poderá ele alcandorar a conquistar um país que nem um outro “partido” no Porto já existente, o FC do Porto, o consegue fazer? Conquistar apenas o “país” Porto? Parca miséria!

O Costa, que é seu amigo e amigo de todos, disse-lhe: força Rui, vai em frente pois “amigo não empata amigo”! E, neste clima de amizade e camaradagem, de bom senso e realismo, de boa conduta e ausência de violências, lá resolveram continuar amigos em vez de assegurar uma fidelidade que o casamento já não garantia. Separaram-se, cada um vai para a sua casa e vão agora lutar para saber quem, afinal, vai gerir a herança!

Bonito, não é? Assim dito até será, mas não é bem assim. É que um, o Manuel Pizarro, serve um Partido, o Socialista, de quem é destacado membro, e que até é Governo, e o outro, o Rui Moreira, serve-se a si próprio, aos seus desígnios e ambições, respondendo apenas a si próprio também, e tudo isto sobre a capa da “independência”!

Posto o que, depois disto dito, eu acho que Rui Moreira deu um valente tiro no próprio pé e, no meu entender, por três razões substanciais:

  • Por ter menosprezado uma pessoa que toda a gente sabe ser muito querida no Porto, séria, empenhada, íntegra e que, durante quase quatro anos, fez um louvável e competente trabalho no pelouro da Acção Social. Não há no Porto quem isso negue.
  • Por lhe ter subido a soberba à cabeça e contar como “favas contadas” a sua reeleição sem apoios partidários. Que pode suceder mas, não havendo maioria, o vai fazer cair numa outra realidade: na que ele não ousaria prever!
  • Por querer dar uma de “reizinho”! Ora ele sabe à saciedade que já houve quem quisesse erguer uma estátua a outro rei, o “Pinto Rei” (O “Hermano” José, lembram-se?), ali na serra do Pilar, e este com mais propriedade pois abarcava o Porto e todos os seus arredores, e não foi erguida, quanto mais a ele que apenas se confina ao Porto e nem a todo!

Quem não se sente não é filho de boa gente”, diz o Povo e Manuel Pizarro e o PS fizeram aquilo que deveriam fazer.

Como vai ser a campanha? Veremos! Ainda falta muito tempo e muita água correrá por debaixo das pontes do Douro!  E Rui Moreira, como disse o Costa, tem direito ao seu pensamento e estratégia mas, daí a pensar que as pessoas são estúpidas, parvas ou destituídas, vai uma grande distância e talvez, neste tempo que resta, esta venha a perceber quais serão os seus verdadeiros desígnios: Ser um novo Emannuel Macron?

“Wait and see” como eu costumo dizer em estrangeiro!


Fonte aqui