(Luis Rocha, in Facebook, 11/12/2025, Revisão da Estátua)

(Hoje mudamos a nossa atenção para a leva de mortes de “gente boa” que nas últimas semanas tem assolado a agenda mediática. O último evento desse rosário foi a defunção de Clara Pinto Correia. A Estátua – que por vício militante está sempre do lado dos iconoclastas -, presta homenagem à falecida com esta publicação, e deixa o link para o seu último texto conhecido aqui).
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Clara Pinto Correia foi, durante anos, uma raridade nacional. Uma mulher brilhante, cultíssima, cientista com obra feita, escritora de mão cheia e daquelas cabeças inquietas que não cabem na nossa tradição de mediocridade organizada. Era demasiado inteligente para ser apenas académica, demasiado independente para ser apenas escritora e demasiado viva para caber no ramalhete cinzento da inteligência nacional. No país onde se desconfia instintivamente de quem sabe demasiado, ela destacava-se e isso, convenhamos, já era meio caminho andado para lhe prepararem a forca.
Teve um percurso académico que muitos invejariam se não estivessem demasiado ocupados a fingir que leram dois livros no verão. Investigação, docência universitária, trabalho internacional, livros que ficaram, presença nos media onde falava com um à vontade que escandalizava os mais baços. Clara tinha verve, ousadia, humor, pensamento. Ou seja, tinha tudo aquilo que faz soar alarmes nesta pátria de cotovelos afiados e espinha dorsal flexível.
E depois… o episódio. Aquele momento fatal em que, por cansaço, stress ou simplesmente má decisão, plagiou uns textos do The New Yorker. Sim, é grave. Sim, é erro. Mas o que veio depois foi desproporcionado a ponto da obscenidade. A casa caiu, não por causa do plágio, mas porque o país finalmente encontrou um pretexto higiénico para fazer o que sempre quis. Triturar alguém que o fazia sentir pequeno.
O provincianismo português, sempre pronto para encenar virtudes que não pratica, tratou de lhe retirar tudo. Inteligência, cultura, mérito científico, obra publicada. Nada restou. De um dia para o outro, a mulher que ensinava, investigava e escrevia tornou-se uma espécie de bruxa moderna a ser queimada no auto de fé moralista. O mesmo país que hoje convive alegremente com políticos que insultam minorias, empresários que escravizam imigrantes, autarcas que vivem de favores e vigaristas que se passeiam pela televisão à hora do jantar decidiu crucificar Clara no altar do puritanismo.
E há aqui uma ironia que roça o grotesco. Portugal descobriu o plágio antes de descobrir o próprio umbigo. Hoje, técnicos de comunicação, assessores, influencers, políticos de terceira e até opinadores de barbearia usam textos feitos por IA como quem muda de camisa. Há plágio em comunicados, posts, discursos, trabalhos académicos e até em frases motivacionais de Instagram. Mas como ninguém mais brilhante do que eles está a fazê-lo, não há problema. O plágio tornou-se uma espécie de desporto nacional, mas desde que executado por gente cinzenta e socialmente útil ao ecossistema, está tudo bem.
Com Clara, não. Ela foi escolhida como exemplo. A mulher demasiado brilhante para passar despercebida transformou-se, convenientemente, na pecadora perfeita. E o país não perde uma boa oportunidade de corrigir quem o ultrapassa. Assim a deixaram, sem trabalho, na fila da segurança social durante dois anos, a lidar com um remorso que não merecia proporção ao castigo. Uma depressão consumida em silêncio, até ao fim, demasiado dura, demasiado triste, demasiado sintomática do tipo de país que somos.
Porque, sim, somos muita coisa boa. Somos generosos quando ninguém está a ver, solidários quando é preciso, criativos por necessidade e resilientes por fatalismo. Mas também somos isto. Uma sociedade cruel, presunçosa e profundamente insegura. Uma comunidade que gosta de aplaudir mediocridades porque não ameaçam ninguém e gosta de punir talentos porque expõem o que não temos coragem de admitir.
Clara Pinto Correia não caiu em desgraça por plagiar. Caiu porque era brilhante num país que não sabe lidar com o brilho. E nós, co lectivamente, ficámos aquilo que sempre fomos. Pobres.
Beijinhos e até à próxima…
Referências consultadas:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Clara_Pinto_Correia
https://www.dn.pt/cultura/clara-pinto-correia-adeus-princesa
https://www.jn.pt/…/morreu-a-escritora-clara…/18028520
https://www.dn.pt/…/morreu-a-escritora-clara-pinto…


