(Por Scott Ritter, in Substack, 25/12/2024, Trad. Estátua de Sal)

“No meu trabalho com os réus (nos Julgamentos de Nuremberga dos nazis após a 2ª Guerra Mundial), eu estava a procurar a natureza do mal e agora acho que cheguei perto de o definir. Uma falta de empatia. É a única característica que é comum a todos os réus, uma incapacidade genuína de sentir algo pelos seus semelhantes. O mal, eu acho, é a ausência de empatia.”
Capitão GM Gilbert, psicólogo do Exército dos EUA, autor do “Diário de Nuremberga”.
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Em setembro de 1995, eu estava a trabalhar para a Comissão Especial das Nações Unidas (UNSCOM), encarregada de eliminar as armas de destruição em maciça do Iraque. Era o principal elo entre a UNSCOM e a inteligência israelita na época e fazia viagens frequentes a Israel que podiam durar entre alguns dias e algumas semanas. Durante uma dessas visitas, convidei a minha esposa Marina para vir ter comigo num fim de semana. Marina é georgiana e uma devota cristã ortodoxa e ficou emocionada com a oportunidade de ver a Terra Santa em primeira mão. Caminhámos pela “Via Dolorosa” (o “caminho doloroso”) em Jerusalém, traçando a jornada de Jesus até sua crucificação. Mergulhámos os nossos pés no Rio Jordão no local onde João teria batizado Jesus. Fizemos um tour pelo Mar da Galileia, visitando os vários locais do ministério de Jesus, conforme registado na Bíblia. Todas essas experiências repercutiram profundamente em nós.

Mas foi a excursão que a minha esposa fez ao Yad Vashem, o Centro Mundial de Memória do Holocausto, localizado no Monte Herzl, em Jerusalém Ocidental, que nos causou a impressão mais profunda. Foi lá que Marina ficou cara a cara com fotografias de algumas das crianças vítimas do Holocausto. Marina deu à luz as nossas filhas gémeas em fevereiro de 1993, e na época de sua visita ao Vad Vashem as nossas meninas tinham 2 anos e meio — a mesma idade de algumas das crianças nas fotografias em exposição no centro. Marina viu as nossas filhas nos olhos dessas crianças e imediatamente desabou e chorou. Ela foi tomada pela empatia.
No verão de 1997, eu estava Bagdade à frente de uma equipa de inspeção cujo propósito era confrontar o governo iraquiano com suas informações inconsistentes, e frequentemente contraditórias, sobre materiais relacionados com armas de destruição maciça, que eles dispunham por altura do verão de 1991. Armado com relatórios de desertores e imagens de satélite, eu tinha conseguido encontrar esconderijos de equipamentos de produção de mísseis não contabilizados e desvendar as mentiras de altos funcionários iraquianos que serviram de base à sua narrativa, durante mais de seis anos consecutivos. A minha equipa de inspeção não era muito popular entre o círculo interno do presidente iraquiano Saddam Hussein. Como forma de me pressionar e à minha equipa, o governo iraquiano exibia videoclipes de nossa inspeção, acusando-me a mim e aos outros inspetores de trabalhar para a CIA e culpando-nos pelo sofrimento contínuo do povo iraquiano por mor das sanções ocidentais. Tais acusações originaram várias ameaças de morte, e pelo menos uma tentativa de assassinato contra mim e contra a minha equipa por civis iraquianos descontentes, que levaram a sério as acusações do governo iraquiano.
Em vez de recuarmos ou escondermo-nos, a minha equipa e eu adotámos a abordagem oposta: tornámos a nossa presença no Iraque o mais visível possível – uma abordagem de “Cão Alfa” para a inspeção, que nos fez figurativamente “mijar nas paredes” do Iraque para deixar nossa marca e garantir que os iraquianos soubessem quem estava no comando quando se tratava da implementação de nosso mandato.

À noite, quando as inspeções terminavam, e enquanto as “notícias” dos nossos esforços eram transmitidas pela televisão iraquiana, a minha equipa e eu dirigíamo-nos para o centro da cidade nos nossos omnipresentes SUVs Nissan Patrol brancos, com as letras pretas “UN” pintadas nas laterais e as nossas marcações táticas exibidas nos tetos e capots em fita adesiva cinza (essas eram as designações da equipa para cada veículo — A-1 de “Alpha One”, etc. O meu veículo era marcado com um “W” de “Whiskey”). Estacionávamos à beira da estrada ao lado de qualquer restaurante que tivéssemos escolhido para jantar naquela noite e entrávamos com toda a arrogância de John Wayne e seus cowboys (de facto, o chefe da Missão Humanitária da ONU no Iraque tinha-nos chamado recentemente “cowboys” numa entrevista que tinha dado ao Le Monde. Decidimos que o título, que pretendia ser um insulto, nos servia bem).
Uma noite, enquanto estávamos sentados num popular estabelecimento de frango assado, a televisão começou a passar um “especial de notícias” que me destacava para ser atacado. Os inspetores e eu observámos a multidão enquanto eles olhavam para o écran da TV, onde as nossas fotografias eram exibidas juntamente com uma narrativa contínua dos nossos muitos “crimes”. O clima no restaurante escureceu consideravelmente, e alguém recomendou que saíssemos enquanto a saída era possível.
“Não”, eu retorqui. “Nós pagámos a nossa refeição, e vamos aproveita-la. Fodam-se essas pessoas.”
Eu não estava com humor para demonstrar fraqueza. Tínhamos acabado de passar um dia estacionados do lado de fora da sede da inteligência iraquiana, com a nossa entrada bloqueada por guardas armados. Num instante, fomos conduzidos para dentro da guarita enquanto a polícia desarmava um homem que havia passado de carro com uma AK-47 carregada, com a intenção de me alvejar e aos outros inspetores.
Assim que essas palavras saíram da minha boca, vi uma mulher levantar-se da cadeira numa mesa à nossa frente. Estava vestida com um vestido preto e com um xaile preto a cobrir-lhe a cabeça. Alguém na mesa a tentou puxar para que se sentasse, mas ela repreendeu-o, e ele soltou-lhe o braço. Ela virou-se e foi em direção à minha mesa, os olhos fixos nos meus.
“Chefe”, disse um dos inspetores, um soldado britânico grisalho. “Há gente a chegar”
“Já vi”, respondi. Observei-a atentamente enquanto ela se aproximava, o meu olhar flutuando nos seus olhos e mãos, tentando adivinhar-lhe as intenções. Não tinha chegado ainda a nenhuma conclusão quando ela parou, de pé sobre mim enquanto eu estava sentado e limpava a gordura de galinha do rosto com um guardanapo.
“Você é Scott Ritter?”, Perguntou ela, com a voz embargada pela emoção.
“Sim, senhora”, disse eu, levantando-me.
“E esses são os seus homens? Os seus inspetores?”
“Sim, senhora”, respondi.
“Eu vejo-o na televisão todos os dias. Eles dizem que é você que eu deveria culpar pela morte dos meus filhos.”
“Sim, senhora”, gaguejei, sem saber o que dizer mais.
“Eles querem que eu te odeie.”
“Sim, senhora.”
Ela olhou para mim, as lágrimas brotando-lhe dos olhos. As mãos estavam enroladas no xaile e, de repente, uma das mãos saiu para fora. Se ela tivesse uma faca, ela teria sido capaz de me esfaquear. Mas era apenas a mão, que ela colocou no meu braço.
“Você está fazendo seu trabalho”, disse ela. “Eu sei disso. Eu sei que, no seu coração, você não me quer mal. Eu sei que, no seu coração, você não queria que o meu filho morresse.”
As lágrimas começaram a escorrer-lhe pelo seu rosto.
“Eu sei que você é filho de alguém. Que todos vocês,” disse ela, gesticulando para os homens duros sentados ao redor da mesa, “têm mães que os amam, como eu amei o meu filho.”
Ela olhou para mim. “Vou rezar pela sua segurança, para que você possa terminar o seu trabalho, e que as sanções possam ser suspensas, para que outras mães não percam os filhos devido às doenças.”
Apertou o meu braço e virou-se, voltando para sua mesa, onde se sentou e afundou a cabeça nos braços da senhora sentada ao seu lado, soluçando.
Olhei para minha refeição inacabada, sem mais fome.
“Vamos”, disse eu, e a raiva e a arrogância que definiram o meu tom anterior desapareceram.
Saímos, cada um de nós colocando a mão no bolso para deixar a maior gorjeta possível, como se todos estivéssemos a tentar expiar nossos pecados comprando perdão.
A multidão, no restaurante, deixou-nos sair sem incidentes.
Enquanto estava sentado no Nissan Patrol, voltando para a nossa sede, onde terminaria o relatório da inspeção diária, ainda conseguia sentir o aperto da moça no meu braço, no sítio onde ela me tinha apertado.
Tentei descobrir porque o teria feito.
Ela tinha todo o direito de nos odiar. Eu sei que se ficasse cara a cara com o homem responsável pela morte dos meus filhos, o encontro não seria descrito como pacífico.
Mas ela escolheu a paz.
Ela fez isso de uma forma muito pública, destacando-me para todo o restaurante ver.
Eu interrogo-me sobre o que teria acontecido se ela não se tivesse levantado.
Se ela não me tivesse confrontado.
O que teria feito a multidão? Eu já tinha sido atacado em vários ambientes públicos, inclusive num restaurante, quando o humor da multidão azedou. As coisas ficaram muito feias muito depressa.
Mas a intervenção dela impediu isso.
Ela interveio para nos proteger.
Porque ela era mãe.
E ela sabia que tínhamos mães.
Ela foi tomada pela empatia.
No início deste ano, tive a oportunidade de visitar a região de Donbass, na Rússia, incluindo a cidade de Lugansk. Antes, fazendo parte da Ucrânia, esses territórios foram tomados na turbulência que tomou conta da Ucrânia após a chegada ao poder em Kiev de nacionalistas ucranianos anti russos, e da revolta de Maidan orquestrada pelos EUA em fevereiro de 2014. A população de língua russa do Donbass revoltou-se contra os novos nacionalistas ucranianos, que buscavam impor uma espécie de genocídio cultural ao proibir a língua, a religião, a cultura e a história russas. A revolta que se seguiu durou quase oito anos, culminando com a intervenção militar russa na Ucrânia e na subsequente anexação de quatro antigas regiões ucranianas, ou oblasts, incluindo as duas cidades — Donetsk e Lugansk — que juntas formam o Donbass.

Enquanto estava em Lugansk, fui levado a um memorial dedicado às crianças de Lugansk que pereceram na luta que vem ocorrendo desde 2014. Quando o monumento foi instalado, em 2017, havia 33 anjos retratados, um para cada criança de Lugansk que havia perecido na luta. Desde então, 35 crianças adicionais de Lugansk pereceram, elevando o número total de mortos para 68.
O que me impressionou ao visitar o memorial foi como a vida de cada criança ressoou com os cidadãos de Lugansk, como se todos na cidade reivindicassem as crianças perdidas como suas. Eu já tinha testemunhado esse fenómeno antes. Em 2000, visitei o Iraque com o propósito de filmar um documentário sobre a UNSCOM e o desarmamento do Iraque. Enquanto lá estava, visitei a Escola Elementar Martyr’s Place, onde, na manhã de 13 de outubro de 1987, um ataque de míssil SCUD iraniano matou 22 crianças e feriu mais de 160 enquanto elas se reuniam no pátio da escola para começar o dia. Na entrada do pátio havia um memorial representando 22 anjos de bronze subindo ao céu.
Na época da minha visita a Bagdade, cerca de 13 anos após o ataque, os moradores do bairro ao redor da escola ainda estavam emocionados com a perda de vidas das crianças. “Eles seriam jovens adultos hoje”, disse um homem idoso. “Apenas começando suas vidas.”
É a perda das crianças que mais atinge uma comunidade. Seja em Lugansk, Bagdade ou Ma’alot, uma cidade em Israel onde, em maio de 1974, militantes palestinianos ocuparam a escola primária Netiv Meir, onde fizeram cerca de 115 pessoas reféns, 105 das quais eram crianças. Os militares israelitas invadiram o prédio, matando os três atiradores palestinianos, bem como 31 reféns, 22 dos quais eram crianças. Os israelitas ainda falavam sobre Ma’alot quando visitei Israel nem 1995, 21 anos depois.
Algumas coisas não podem ser esquecidas.
E mesmo não tendo testemunhado nenhum desses acontecimentos, como pai de gémeas, senti a dor daqueles que perderam os seus pequenos, como se as vidas perdidas fossem do meu próprio sangue.
Porque eu tinha empatia.
Se a falta de empatia é a principal característica do mal, então a capacidade de empatia deve ser a marca registada do bem.
Nesta época de Natal, o mundo está imerso em conflitos, com tragédias a acontecer diante de nossos olhos diariamente.
Não seríamos humanos se começássemos a ficar imunes ao horror, os sentidos sobrecarregados pelas cenas repetitivas de morte e destruição com as quais somos constantemente confrontados. Estando fisicamente separados da violência, temos a opção de desligar as visões e sons desagradáveis do sofrimento humano.
Afinal, quantas vezes podemos nós ver o corpo dilacerado e sem vida de uma criança retirada dos escombros de Gaza e Beirute? Ou dos destroços de casas na Ucrânia e na Rússia?
A overdose de uma tragédia sem sentido leva ao entorpecimento da nossa alma, ao endurecimento do nosso coração e à diminuição da nossa humanidade.
Mas devemos perseverar, apenas para garantir que aquelas vidas jovens perdidas não tenham sido em vão.
Devemos aprender e lembrar os nomes daqueles que pereceram, não para servir de combustível para a fornalha do ódio que nos leva a buscar vingança, mas porque temos o dever, como seres humanos, de nos colocar no lugar daqueles que perderam os seus entes queridos na guerra, sentir sua dor, entender a sua perda, para que saibamos a importância de tentar pôr fim à violência que ceifou essas vidas.
A guerra nunca é a solução.
A paz é sempre a resposta.
Muitas vezes penso no meu encontro com a mãe iraquiana no restaurante em Bagdade. Foi um momento feio na minha vida, quando fui tomado por um sentido de dever que obscureceu a minha própria humanidade. Eu estava tão singularmente focado na tarefa em questão — desarmar o Iraque — que me esqueci que havia um custo humano associado ao meu trabalho e ao dos meus inspetores.
Já contei a história desse encontro algumas vezes, mas deixei sempre de fora uma parte da história, porque a lembrança dela me parte o coração, até hoje.
Depois que a moça me apertou o braço e começou a virar-se, eu estendi a mão e coloquei-a no ombro dela. Ela virou-se e olhou para mim.
“Qual era o nome do seu filho?” Perguntei eu.
Os olhos dela encheram-se de lágrimas, mas sorriu levemente antes de responder. “Zaynab,” disse ela.
“Zaynab,” repeti eu. “É um nome lindo.”
“Era uma criança linda”, respondeu a mãe.
Não conto essa parte da história porque isso tira a personalidade de durão e de “cão alfa” que desenvolvi naquela época.
Porque quando ela se virou e se foi embora, fiquei sozinho a soluçar.
Mas temos que enfrentar essas coisas.
Zaynab, teria hoje quase 30 anos, idade suficiente para ter encontrado o amor, se ter casado e formado sua própria família.
Mas não foi isso que aconteceu.
Devemos lembrar-nos de Zaynab, assim como devemos lembrar-nos de cada criança cuja vida foi tirada deste mundo cedo demais.
Devemos ter empatia por aqueles que perderam os seus entes queridos por causa das guerras sem sentido travadas pelos homens. Precisamos de garantir que as crianças vivas hoje tenham a oportunidade de crescer e de criar as suas próprias famílias. Caso contrário, nós tornamo-nos instrumentos do mal, senão o próprio mal.
Feliz Natal.
Fonte aqui.


