Esta guerra não é a nossa guerra!

(Anabela Laranjeira, in AbrilAbril, 27/03/2022)

Mais do que nunca, e perante a ameaça da escalada do conflito, precisamos de nos envolver em organizações e iniciativas que não nos coloquem de um ou de outro lado da batalha, mas que tenham como lema e objetivo bem claro a oposição ao envio de armas e a defesa da Paz, do cessar fogo e das vias do diálogo.

Atacar e defender nesta guerra não é do interesse de nenhum dos povos. O nosso interesse é a paz entre nós e a guerra a quem nos quer colocar a todos numa trincheira que não é a nossa, que não é a dos que lutam pela Paz, pelo desarmamento, por um mundo onde a violência e a morte não seja a realidade que temos todos de aceitar e de viver.

Nas velhas histórias é, às vezes, a voz dos loucos ou das crianças que nos traz a lucidez necessária ao momento. Penso nisto quando ouço a miúda curiosa que espreita o telemóvel da mãe no banco em frente do metro de Lisboa. No telemóvel passam em loop notícias de guerra, e, lendo pelas imagens ou relembrando alguma conversa preocupada, ela sentencia do alto dos seus aparentes cinco anos: «Quase de certeza que vão proibir a guerra mãe, não viste que na escola não houve a festa de Natal? Não podem estar muitas pessoas juntas.»

Entre os sorrisos condescendentes às suas palavras e as expressões onde adivinhamos alguma reflexão ou a preocupação destes dias com a exposição das crianças às notícias da guerra, o metro segue com as pessoas que vão para os seus empregos, as suas casas e as suas vidas. A Guerra é o assunto diário estas semanas em nossas casas, a pandemia de Covid-19 ficou para segundo plano.

Penso no que representará a escalada deste conflito na Europa, nas condições em que ele se tem desenvolvido e se agrava nas últimas semanas para a grande maioria destas pessoas, essas que usam o metro e vivem do seu trabalho. As pessoas que , em cima de uma pandemia que já as inferniza há dois anos, adivinham uma crise económica e enfrentam as restrições no seu dia-a-dia. As mesmas que seguem a correria para as suas casas e para os seus empregos.

A esta grande maioria, os que nunca ganharam nada com a guerra, mas que tiveram os seus avós a lutar na frente, perdendo saúde, morrendo ou sobrevivendo em países destruídos pelas bombas, é preciso convencer sempre da inevitabilidade da guerra, da sua necessidade premente. Ela não é uma desconhecida novidade para ninguém, mas é vendida como se fosse, e como se fosse sempre uma necessidade.

Em Portugal, a de que nos lembramos e aquela de que ainda hoje sofremos as consequências e os traumas a todos os níveis, é a Guerra Colonial. Para os povos de outros países são outras, mais próximas ou mais distantes no tempo. Eduardo Galeano, diz-nos nas suas palavras lúcidas que «os que decidem sobre a guerra nunca dizem a verdade aos que têm de lutar na Frente que a guerra é para roubar, matar e morrer, que a guerra é por dinheiro, recursos ou território, eles dizem-nos sempre que a guerra tem razões nobres, que ela se trava por causa da Pátria, da Paz, da Justiça ou de um Deus…»

Assim, os poderosos que «autorizam» a guerra, mesmo proibindo tudo o resto nesta pandemia, usam dos seus meios para nos convencer a todos de que o caminho, por estes dias, é o caminho da direcção única: uma vez mais a guerra é inevitável é preciso escolher o lado pelo qual torcer. E, num discurso repetido por séculos de domínio, dizem-nos que é necessário comprar e pagar armas e soldados com o rendimento do nosso trabalho, aceitar o crescimento e o lucro da indústria do fogo e do nuclear. Aceitar a guerra, tolerar a violência e a morte porque, afinal de contas, ela «sempre há-de existir», como aliás a pobreza, a exploração e as outras mil violências diárias a que os homens e as mulheres são sujeitos.

Precisamos de aceitar e escolher a nossa trincheira. Igual a tantas outras, esta tem dados novos. E assim, nas mãos de empresas poderosíssimas, a comunicação social a que a maioria tem acesso vende-nos, estas semanas, e em primeiro lugar, a ideia de uma Europa em Paz, assente nos humanistas valores do «Ocidente», apagando, as imagens dos refugiados das guerras que a NATO semeou no Médio Oriente, dos campos enlameados e das fronteiras de arame farpado nas suas modernas democracias. Israel, país que não reconhece e ocupa a Palestina há décadas, pasme-se (ou não!), é apresentado como país negociador entre os dois lados do conflito. A NATO como bastião defensor dos «valores da democracia».

Correm os dias em que a comunicação considerada mais eficaz e o trabalho jornalístico considerado mais valorizado é aquele que dá a informação mais curta, aquela que funciona em clarões rápidos, e por isso fatais para qualquer reflexão minimamente aprofundada. Quem paga a guerra, não tem direito a ouvir falar dela noutros moldes senão os traçados superiormente.

Quem ousa por vias alternativas, mesmo em países de livre expressão como o nosso, falar dos já longos conflitos no Leste da Europa, apontando as causas e dizendo que a sua análise é essencial na busca de soluções, é silenciado. Também o é quem aponta a clara intervenção da NATO neste território, como em tantos outros territórios pelo mundo, e o interesse das empresas multi-milionárias de venda de armamento.

O jornal Expresso, com grandes fotografias de rosto, rotula de «Pró-Putin» vários generais que não seguem o discurso oficial.  Não podemos senão ouvir a voz única, a que nos mostra até o charme do camuflado. Dizem-nos que temos de escolher o camuflado russo ou o ucraniano, apresentando-nos nesta estação o ucraniano como a opção mais correta.

Por estes dias, juntamente com a Miss Ucrânia, fotografada de armas nos braços e padrão militar, Zelensky é elevado a herói mundial e defensor da sua pátria. Vladimir Putin, antes recebido pelos mais destacados líderes europeus e apadrinhado na sua política conservadora, expansionista e destruidora do Estado Social, é remetido à categoria de ditador «louco e diabólico».

Há um movimento já para propor a nomeação de Zelensky a prémio Nobel da Paz, e toda uma estetização pop da sua imagem concorre com a censura de filmes e literatura russa em vários festivais e eventos por toda a Europa. Nem precisavam de proibir Tchaikovsky porque já ninguém o ouve com o barulho das bombas desde 2014, e, ainda assim, há quem o sugira sem nenhuma vergonha.

O clima de caça às bruxas parece aceitável e vem justificado nos jornais por intelectuais, que demitindo-se do seu papel de estudo e análise rigorosa dos factos, se colocam no papel de idiotas úteis. Apelam à análise simplista, omitem acontecimentos e, tendo vivido outras épocas e escrito antes sobre outros temas, chegam a espantar-nos hoje com a sua falta de memória histórica e capacidade de análise racional factos. Mas, habituados a outras guerras, que como nos diz Galeano, sempre tiveram de ser justificadas com belas palavras, no meio das notícias falsas e comuns neste cenário, sabemos que vivemos tempos em que a informação circula, a partilha de informação entre quem resiste e quer a Paz é possível, e as palavras encontram, ainda assim, caminho no nosso esforço, no nosso trabalho para as escrever e para as fazer circular. Elas podem ser luz, lucidez e esperança possível.

Ainda podemos destacar e ver claramente os factos se procurarmos para lá da propaganda de guerra, mas também se observarmos a propaganda de guerra e a forma como ela é veiculada, em particular a valorização da guerra como um espectáculo e como uma inevitabilidade. Se pensarmos e alertarmos os outros sobre as consequências que este conflito já está a ter na nossa vida diária, na nossa liberdade e no ambiente social criado nestas últimas semanas. Vejamos estes. O actual Presidente da Ucrânia, desde o início do seu mandato mão tolerante para as milícias nazis e seus desfiles em várias cidades do seu país, proíbe partidos políticos com uma posição diferente da sua, ilegalizando quase uma dezena de organizações legalmente constituídas no seu país.

Isto acontece sob o olhar compreensivo da «Velha Europa», essa que nunca poupou críticas ao mesmo tipo de atuação em outras latitudes. Dá-nos disso conta a recente notícia do Diário de Notícias.

Zelensky tem também, neste cenário, mão pesada para os homens com mais de 18 anos que ousem «fugir da frente de batalha», tendo decido que ficam dentro das fronteiras do território. Negando e dificultando os corredores humanitários consagrados no Direito Internacional. Têm-nos passado assim pelos ecrans, como dramáticas mas heroicas, imagens de jovens sem qualquer treino militar, pais com filhos pequenos e homens de várias idades, convencidos e obrigados pelo governo ucraniano a ficar nas suas casas e a combater. Não é escondido que são impedidos de sair e separados da sua família. Apresentam-nos os mesmos ecrans as mulheres, representando o papel a que a barbárie sempre as remeteu: o de fugirem com os filhos para os abrigos, o de chorarem os homens, e o de se refugiarem em países que as acolham. Tudo banalizado e tido como a ordem normal dos factos e acontecimentos, em pleno século XXI. O Presidente pediu até há poucos dias que a Lei Marcial se prolongue até ao final de abril.

Em toda a Europa, em Portugal também, reconhecidos neo-nazis, alguns deles com cadastro, fazem apelo à solidariedade com o governo da Ucrânia, chegando mesmo a mobilizar-se para partir, e a treinar com as milícias que já existem no terreno.

 O que fazemos nós, os que usamos o metro todos os dias? Os que queremos Paz e queremos trabalho, dignidade e vida feliz, tempo de vida e saúde? Os que nos importamos e somos solidários com os refugiados destas guerras? Que neles reconhecemos «vidas iguais às nossas»? Que não desejamos para as crianças da Ucrânia a mesma sorte dos seus pais e avós, mergulhados no clima de guerra e de ascensão de ideias fascistas há anos a fio?

Na segunda década do século XXI, depois de todo o caminho e de todos os avanços no reconhecimento da igualdade entre mulheres e homens, de todo o conhecimento que temos sobre as marcas da violência, do sofrimento das mulheres e das crianças na guerra, depois de todas as conquistas sociais e democráticas que os povos dos vários países da Europa conseguiram ao longo do século XX, depois da construção de um Direito Internacional que possibilitaria a resolução diplomática destes conflitos, é ainda possível a aceitação acrítica de tal cenário?

Restar-nos-á, uma vez mais, como afirmou tristemente o primeiro-ministro António Costa, «disponibilizar, em cinco dias, as nossas forças militares ao abrigo da NATO Response Force, no âmbito de uma força conjunta multinacional» para defesa da Ucrânia?

O que diremos sobre a estratégia dos governos europeus? A decisão de pagar com os nossos impostos armas, escalada de violência e crise militar no terreno, que já está a provocar um aumento dos combustíveis e, consequentemente dos preços dos bens de consumo? Podemos sujeitar-nos a despender recursos económicos necessários ao desenvolvimento e à melhoria das nossas condições de vida, num conflito que em tudo prejudica os povos da Europa?

Num momento em que vemos a urgência de aumentar os salários, de investir na Educação, na Saúde e na Cultura, e o Governo do PS nos responde que não há condições numa época pós-pandemia, como podemos aceitar que as haja para enviar armamento e outros recursos?

Podemos concordar com sanções financeiras que deixarão intocáveis as fortunas dos milionários, como já vimos em outros cenários, mas que tornarão pior a vida dos trabalhadores e das suas famílias tanto na Rússia, onde já há uma crescente rejeição da política belicista e expansionista de Putin, como em outros países da Europa e mesmo no nosso?

Como defensores da Paz, como aqueles a quem não interessa de todo esta guerra, nem todas as que se passam no mundo, por mais que nos ordenem seguir a voz de comando, precisamos de dizer de forma inequívoca e unida que a defesa da Paz não se consegue enviando tropas e armas. As armas e os recursos enviados por Portugal e por outros países da Europa não servirão para defender o povo da Ucrânia contra o povo da Rússia. Servirão para continuar a impedir o diálogo, o caminho do cessar-fogo, o cumprimento dos acordos de Minsk. Servirão para alimentar a máquina de guerra, o negócio do armamento, do nuclear, a acumulação de lucro dos milionários que vivem da guerra e da destruição de vidas e países.

Mais do que nunca, e perante a ameaça da escalada do conflito, precisamos de nos envolver em organizações e iniciativas que não nos coloquem de um ou de outro lado da batalha, mas que tenham como lema e objetivo bem claro a oposição ao envio de armas e a defesa da Paz, do cessar-fogo e das vias do diálogo.

Atacar e defender nesta guerra não é do interesse de nenhum dos povos. O nosso interesse é a paz entre nós e a guerra a quem nos quer colocar a todos numa trincheira que não é a nossa, que não é a dos que lutam pela Paz, pelo desarmamento, por um mundo onde a violência e a morte não seja a realidade que temos todos de aceitar e de viver.

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As “mentiras da inflação” do FED. Sanções à Rússia e uma Nova Ordem Mundial

(F. William Engdahl, in GlobalResearch, 29/03/2022)

O Federal Reserve e a maioria dos outros bancos centrais mundiais estão mentindo sobre como as taxas de juros afetam a inflação. Não é pouca coisa, pois claramente está sendo usado para inaugurar uma depressão econômica global, desta vez muito pior do que na década de 1930, usando a Rússia como bode expiatório para culpar, enquanto as potências se preparam para empurrar o mundo para o que Joe Biden recentemente chamado de “uma Nova Ordem Mundial”.

Já defendi muitas vezes que toda grande depressão econômica ou recessão do século passado, desde a criação do Federal Reserve dos EUA, foi o resultado político deliberado das ações do Fed. A situação atual é claramente uma repetição disso. Declarações e ações recentes do Fed no combate à inflação indicam que eles planejam provocar uma depressão global completa nos próximos meses. O conflito na Ucrânia e a enxurrada insana de sanções dos países da OTAN a tudo o que é russo serão usados ​​para acelerar o processo de inflação global em alimentos, energia e tudo mais, e permitir que a culpa seja colocada na Rússia enquanto o Fed sai ileso. Siga os criadores de dinheiro.

Se olharmos para as recentes declarações do Fed, de longe o banco central mais poderoso do mundo, independentemente das previsões do fim iminente do dólar como moeda de reserva global, fica claro que eles estão mentindo abertamente. Tenha em mente que o mesmo Fed deliberadamente manteve as taxas de juros próximas de zero por mais de 14 anos desde a crise de 2008 para resgatar Wall Street às custas da economia real. Agora eles alegam que devem reverter as taxas para o bem dessa economia. Eles estão simplesmente mentindo.

A falsa curva de Phillips

Nos últimos anos, o presidente turco Erdogan foi severamente atacado por alegar que as taxas de juros mais altas do banco central não são eficazes no controle da alta inflação da Turquia. Ironicamente, ele está certo até onde vai. Ele ousou atacar a ortodoxia monetária de hoje, pela qual os mercados financeiros o puniram atacando a Lira. A base da teoria sobre taxas de juros e inflação hoje remonta a um artigo de 1958 publicado por AW Phillips , então na London School of Economics. A Philips, revisando os dados econômicos do Reino Unido sobre salários e inflação ao longo de um século, concluiu que havia uma relação inversa entre salários e inflação.

Basicamente Philips, que colocou seus dados no que hoje é conhecido como Curva de Philips, concluiu que inflação e desemprego têm uma relação inversa. Inflação mais alta está associada a desemprego mais baixo e vice-versa. No entanto, a correlação não prova a causalidade, e até os próprios economistas do Fed publicaram estudos mostrando que a Curva de Philips é inválida. Em 2018, o economista de Princeton Alan Blinder, ex-vice-presidente do Fed, observou que “a correlação entre desemprego e mudanças na inflação é quase zero …

Apesar disso, o Federal Reserve, assim como a maioria dos bancos centrais em todo o mundo desde a década de 1970, usaram essa noção da Curva de Philips para justificar o aumento das taxas de juros para “matar” a inflação . O mais infame disso foi o presidente do Fed, Paul Volcker, que em 1979 elevou as principais taxas de juros dos EUA (ao mesmo tempo que o Banco da Inglaterra) em 300% para níveis próximos de 20%, onde desencadeou a pior recessão dos EUA desde a década de 1930.

Volcker atribuiu a inflação extremamente alta de 1979-82 às demandas salariais dos trabalhadores. Ele convenientemente ignorou a verdadeira causa da inflação global na época, elevando os preços do petróleo e dos grãos até a década de 1980 como resultado das ações geopolíticas do patrono de Volcker, David Rockefeller, ao criar os choques do petróleo da década de 1970. Escrevo sobre isso extensivamente em meu livro A Century of War: Anglo-American Oil Politics.

Desde a brutal operação de taxas de juros Volcker, tornou-se ortodoxia para o Fed e outros bancos centrais dizerem que o aumento da inflação deve ser “domado” pelo aumento das taxas de juros. Na verdade, quem ganha são os principais bancos de Wall Street que detêm a dívida do Tesouro dos EUA.

Causas da inflação recente

A causa dos aumentos alarmantes da inflação desde os bloqueios do COVID em 2020 tem pouco ou nada a ver com o aumento dos salários ou uma economia em expansão . Aumentar as taxas para criar um “aterrissagem suave” ou a chamada recessão branda praticamente não terá efeito sobre a inflação real.

Os preços estão subindo para as necessidades que as famílias devem gastar. De acordo com um estudo do economista americano Mike “Mish” Shedlock, mais de 80% dos componentes do Índice de Preços ao Consumidor dos EUA usados ​​para medir oficialmente a inflação são compostos dos chamados “componentes inelásticos”. Isso inclui acima de tudo o custo de moradia, gasolina, combustível, transporte, alimentação, seguro médico, educação. A maioria das famílias não consegue reduzir seriamente nenhum desses custos de vida necessários, independentemente das taxas de juros mais altas.

O custo dos alimentos está aumentando à medida que a escassez global de grãos, óleo de girassol e fertilizantes aparece, devido ao aumento vertiginoso do custo do gás natural para fazer fertilizantes de nitrogênio .

Isso foi bem antes do conflito na Ucrânia. A eliminação das exportações russas e ucranianas de trigo por causa de sanções e guerras pode cortar até 30% da oferta mundial de grãos. A seca no Centro-Oeste dos EUA e na América do Sul, e as fortes inundações na China estão aumentando os custos dos alimentos. O gás natural está aumentando por causa da tola agenda da UE e Biden Zero Carbon para eliminar toda a energia de hidrocarbonetos nos próximos anos. Agora, por causa das sanções suicidas do Ocidente contra a Rússia, uma importante fonte global de diesel, a Rússia, está sendo eliminada. A Rússia é o segundo maior exportador de petróleo bruto do mundo depois da Arábia Saudita. É o maior exportador de gás natural do mundo, principalmente para a UE.

Sanções, Ureia e Microchips

Um exemplo de como a economia mundial globalizada se tornou interconectada, em outubro de 2021, a China impôs severos controles de exportação à exportação de uréia, um componente chave não apenas de fertilizantes, mas também de um aditivo de motor diesel, DEF ou AdBlue, que a maioria dos motores diesel modernos necessidade de controlar as emissões de óxido de nitrogênio.

Sem AdBlue os motores não funcionam. Isso ameaça caminhões, tratores agrícolas, colheitadeiras, equipamentos de construção. Militares dos EUA usam combustível diesel em tanques e caminhões. Agora, com as sanções à Rússia, o segundo maior exportador mundial de diesel refinado está sendo forçado a sair. A UE importa metade do seu diesel da Rússia. A Shell e a BP alertaram os compradores alemães sobre possíveis problemas de fornecimento e os preços estão subindo. A perda de diesel ocorre quando os estoques de diesel na Europa estão no nível mais baixo desde 2008. Nos EUA, de acordo com OilPrice.com, a situação é ainda mais grave. Lá, os estoques de diesel são 21% menores do que a média sazonal de cinco anos pré-pandemia.

O gás néon é um subproduto da produção de aço. Cerca de 50% do gás néon de alta pureza semicondutor do mundo, crítico para os lasers necessários para a litografia para fazer chips, vem de duas empresas ucranianas, Ingas e Cryoin . Ambos obtiveram seus neons de siderúrgicas russas. Um é baseado em Odessa e o outro em Mariupol. Desde que os combates começaram há um mês, as duas fábricas fecharam. Além disso, de acordo com a empresa TECHCET, com sede na Califórnia, “a Rússia é uma fonte crucial de C4F6 que vários fornecedores dos EUA compram e purificam para uso em gravação avançada de dispositivos lógicos de nós e processos avançados de litografia para produção de chips”. A Rússia também produz  cerca de um terço de todo o paládio mundial usado em conversores catalíticos de automóveis e em sensores e memória emergente (MRAM).

Oleg Izumrovov, um especialista russo em dados de computadores, aponta ainda que a Rússia hoje “responde por 80% do mercado de substratos de safira – placas finas feitas de pedra artificial, que são usadas em opto e microeletrônica para construir camadas de vários materiais, para exemplo, silício. Eles são usados ​​em todos os processadores do mundo – AMD e Intel não são exceção.” Ele acrescenta: “Nossa posição é ainda mais forte na química especial de chips de gravação usando componentes ultrapuros. A Rússia é responsável por 100 por cento da oferta mundial de várias terras raras usadas para esses fins .”

Sem falar que a Rússia é o segundo maior produtor mundial de níquel e alumínio.

À medida que Washington aumenta continuamente as sanções contra a Rússia, é apenas uma questão de semanas até que esses elos da cadeia de suprimentos afetem a inflação global e dos EUA em um grau não visto na memória recente. Na reunião da OTAN de 24 de março em Bruxelas, Joe Biden tentou (sem sucesso por enquanto) pressionar os estados membros da UE a sancionar o petróleo e o gás russos. Os preços da energia já estão subindo globalmente e Biden admitiu a um repórter que os preços vão subir muito mais para alimentos e energia, culpando o conflito na Ucrânia.

Nenhum desses efeitos, a maioria dos quais está apenas começando a impactar o custo e até mesmo a disponibilidade de alimentos e outros itens essenciais, pode ser alterado pelo aumento das taxas do Federal Reserve Fed Funds. E o Fed sabe disso. Eles estão literalmente jogando querosene em um fogo econômico ardente com suas ações. Eles apontarão para aumentos alarmantes da inflação em maio e dobrarão sua falsa “cura”, ou seja, taxas de juros mais altas que correm o risco de mergulhar os EUA e o mundo em uma depressão global que fará a década de 1930 parecer suave. Podemos esperar muita conversa sobre a introdução de uma moeda digital do banco central para substituir o dólar nesse ponto. Bem-vindo ao Grande Reset de Davos.

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A Geopolítica sofre metamorfoses a cada momento

(Alastair Crooke, in Strategic Culture, tradução software DeepL, 28/03/2022)

Muito ocasionalmente, uma única anedota pode resumir quase completamente um momento da história. E esta resumiu: Em 2005, Zbig Brzezinski, o arquitecto do Afeganistão como pântano da União Soviética, e o autor de O Grande Tabuleiro de Xadrez (que incorporou a máxima Mackinder de que “aquele que controla o coração asiático controla o mundo” na política externa dos EUA), sentou-se em Washington com Alexander Dugin, filósofo político russo e defensor de um renascimento cultural e geopolítico “do coração”.

Brzezinski já tinha escrito no seu livro que, na ausência da Ucrânia, a Rússia nunca se tornaria a potência do coração da Ásia; mas com ela, a Rússia poderia e tornar-se-ia. A reunião tinha sido marcada com uma foto-prop de um tabuleiro de xadrez colocado entre Brzezinski e Dugin (para promover o livro de Brzezinski). Este arranjo com um tabuleiro de xadrez levou Dugin a perguntar se Brzezinski considerava o xadrez como um jogo destinado a dois: “Não, Zbig voltou a disparar: É um jogo para um. Uma vez movida uma peça de xadrez; vira-se o tabuleiro, e movem-se as peças de xadrez do outro lado. Não há ´nenhuma outra´ neste jogo”, insistiu Brzezinski.

Claro que o jogo de xadrez de mão única estava implícito na doutrina de Mackinder: ‘Aquele que controla o coração’ era uma mensagem para os poderes anglo-saxões para nunca permitirem um coração unido. (Isto, claro, é precisamente o que está a evoluir a cada momento).

E na segunda-feira, Biden canalizou Brzezinski em voz alta, enquanto se dirigia à Mesa Redonda de Negócios nos EUA. As suas observações chegaram ao fim do seu breve discurso onde falou sobre a invasão russa da Ucrânia e o futuro económico da América:

“Penso que isto nos apresenta algumas oportunidades significativas para fazermos algumas mudanças reais. Estamos num ponto de inflexão, creio eu, na economia mundial”: [e] não apenas na economia mundial – no mundo [que] ocorre a cada três ou quatro gerações. Sendo um dos meus próximos, disse-me um dos principais militares numa reunião segura no outro dia, que 60 milhões de pessoas morreram entre 1900 e 1946; e desde então estabelecemos uma ordem mundial liberal e isso já não acontecia há muito tempo. Muitas pessoas morreram, mas nunca perto do caos. E agora é a altura em que as coisas estão a mudar. Vamos, vai haver uma nova ordem mundial lá fora; e temos de a liderar e temos de unir o resto do mundo livre para o fazer”.

Mais uma vez não há ‘outro’ no quadro. Quando as jogadas são feitas, o tabuleiro é virado 180º para jogar a partir do outro lado.

A questão aqui é que o contra-ataque cuidadosamente deliberado sobre este zeitgeist Brzezinski foi formalmente lançado em Pequim com a declaração conjunta de que nem a Rússia nem a China aceitam que a América jogue xadrez sozinha, sem outros no tabuleiro. Isto representa a questão determinante desta próxima era: A abertura da geopolítica. É uma questão para a qual os “outros” excluídos estão dispostos a ir para a guerra (não têm alternativa).

Um segundo jogador de xadrez deu um passo em frente e insiste em jogar – a Rússia. E um terceiro está pronto: a China. Outros fazem fila silenciosa para testemunhar como se comporta o primeiro envolvimento nesta guerra geopolítica. Parece pelos comentários de Biden acima citados que os EUA pretendem utilizar sanções, e a extensão total sem precedentes das medidas do Tesouro dos EUA, contra os dissidentes de Brzezinski. A Rússia vai ser um exemplo daquilo que aguarda qualquer concorrente que exija um lugar no conselho de administração.

Mas é uma abordagem que é fundamentalmente defeituosa. Resulta do célebre ditado de Kissinger que “quem controla o dinheiro controla o mundo”. Estava errado desde o ‘ir embora’: era sempre ‘aquele que controla os alimentos, a energia (tanto humana como fóssil) e o dinheiro pode controlar o mundo’. Mas Kissinger acabou de ignorar as duas primeiras condições exigidas – e a última imprimiu-se nos circuitos mentais de Washington.

E aqui está o paradoxo: quando Brzezinski escreveu o seu livro, foi numa era muito diferente. Hoje, enquanto a Europa e os EUA nunca estiveram tão estreitamente alinhados, o “Ocidente”, paradoxalmente, também nunca esteve tão só. A oposição à Rússia pode ter parecido, desde o início, um unificador global: Que a opinião mundial se oporia tão vigorosamente ao ataque de Moscovo, que a China pagaria um preço político elevado por não ter saltado para o comboio anti-Rússia. Mas não é assim que as coisas estão a funcionar.

“Enquanto a retórica dos Estados Unidos da América acusa a Rússia por “crimes de guerra” e a crise humanitária na Ucrânia, et al”, observa o antigo embaixador indiano Bhadrakumar, “as capitais mundiais encaram isto como um confronto entre a América e a Rússia. Fora do campo ocidental, a comunidade mundial recusa-se a impor sanções contra a Rússia ou mesmo a demonizar aquele país”.

A Declaração de Islamabad emitida na quarta-feira após a 45ª reunião dos Ministros dos Negócios Estrangeiros da Organização dos Cinquenta e sete membros da Conferência Islâmica recusou-se a apoiar as sanções contra a Rússia. Nem um único país do continente africano ou da Ásia Ocidental, Ásia Central, Sul e Sudeste Asiático impôs sanções contra a Rússia”.

Pode muito bem haver aqui um outro factor em jogo: Pois quando estes últimos Estados ouvem frases como “os ucranianos, através do seu heroísmo, ganharam o direito de entrar no nosso “clube de valores””, sentem o cheiro de uma Europa “branca” debilitada a agarrar-se às jangadas salva-vidas.

A realidade é que as sanções a que Biden se referiu no seu discurso já falharam. A Rússia não falhou; a bolsa de Moscovo está aberta; o rublo está em recuperação; a sua conta corrente está em má saúde e a Rússia está a vender energia a preços inesperados (mesmo após desconto).

Em suma, o comércio “será desviado”, não destruído (o benefício de ser um exportador de bens quase totalmente produzidos localmente – ou seja, uma economia fortaleza).

A segunda singularidade da política de Biden é que, embora a doutrina de Clausewitz (à qual a Rússia adere amplamente) defenda o desmantelamento do “centro de gravidade do inimigo, para alcançar a vitória”, neste caso presumivelmente, o controlo ocidental da moeda de reserva global e dos sistemas de pagamentos. Hoje, no entanto, são a Europa e os EUA que a têm vindo a desmantelar eles próprios: e a fecharem-se ainda mais na inflação crescente e na contração da atividade económica, em algum ajuste inexplicável de masoquismo moral.

Como Ambrose Evans-Pritchard observa no Telegraph, “O que é claro é que a política de sanções ocidental é a pior de todos os mundos. Estamos a sofrer um choque energético que está a inflamar ainda mais as receitas da Rússia no combate à guerra… Há um medo generalizado de um levantamento de gilets jaunes por toda a Europa, uma suspeita de que um público inconstante não irá tolerar o choque do custo de vida quando os horrores da Ucrânia perderem a sua novidade nos ecrãs de televisão”.

Mais uma vez, talvez possamos atribuir este comportamento paradoxal à obsessão de Kissinger com o poder do dinheiro, e ao seu esquecimento de outros factores importantes.

Tudo isto levou a um certo mal-estar a rastejar nos corredores do poder em algumas capitais da NATO ao longo do curso que o conflito na Ucrânia está a tomar: A NATO não intervirá; não implementará uma zona de interdição de voo; e ignorou de forma flagrante o novo apelo de Zelensky para equipamento militar adicional. Ostensivamente, isto reflecte o gesto “altruísta” do Ocidente para evitar uma guerra nuclear. Na realidade, porém, o desenvolvimento de novo armamento pode transformar a geopolítica num instante (por exemplo, o hipersónico bunker-buster inteligente de Kinzhal da Rússia). O facto é que, em geral, a NATO não pode prevalecer militarmente contra a Rússia na Ucrânia.

Parece que o Pentágono ganhou – por enquanto – na guerra com o Departamento de Estado e começou o processo de “corrigir a narrativa”.

Contraste estas duas narrativas dos EUA:

O Departamento de Estado na segunda-feira assinalou que os EUA estão a desencorajar Zelensky de fazer concessões à Rússia em troca de um cessar-fogo. O porta-voz “deixou muito claro que está aberto a uma solução diplomática que não comprometa os princípios fundamentais no centro da guerra do Kremlin contra a Ucrânia”. Quando lhe foi pedido para desenvolver o seu ponto de vista, Price disse que a guerra é “maior” do que a Rússia e a Ucrânia. “O ponto-chave é que há princípios que estão aqui em jogo que têm aplicabilidade universal em todo o lado”. Price disse que Putin estava a tentar violar “princípios fundamentais”.

Mas, o Pentágono “lançou duas bombas de verdade” na sua batalha com o Estado e o Congresso para impedir o confronto com a Rússia: “A conduta da Rússia na guerra brutal conta uma história diferente da opinião amplamente aceite de que Putin pretende demolir a Ucrânia e infligir o máximo de danos civis – e revela o acto de equilíbrio estratégico do líder russo”, relatou a Newsweek num artigo intitulado, “Os bombardeiros de Putin podem devastar a Ucrânia, mas ele está a reter-se. Eis o Porquê”.

Cita um analista anónimo da Agência de Inteligência de Defesa do Pentágono (DIA) que diz: “O coração de Kiev mal foi tocado”. E quase todos os ataques de longo alcance têm sido dirigidos a alvos militares. Um oficial reformado da Força Aérea dos EUA, agora a trabalhar como analista para um empreiteiro do Pentágono, acrescentou: “Precisamos de compreender a conduta real da Rússia. Se nos convencermos apenas de que a Rússia está a bombardear indiscriminadamente, ou [que] não está a infligir mais danos porque o seu pessoal não está à altura da tarefa ou porque é tecnicamente inepto, então não estamos a ver o verdadeiro conflito””.

A segunda “bomba da verdade” mina directamente o aviso dramático de Biden sobre um ataque químico de bandeira falsa. A Reuters relatou: “Os Estados Unidos ainda não viu quaisquer indicações concretas de um iminente ataque com armas químicas ou biológicas russas na Ucrânia, mas está a monitorizar de perto os fluxos de inteligência para eles, disse um alto funcionário da defesa dos EUA”.

Biden está posicionado no meio, dizendo “Putin é um criminoso de guerra”, mas também que não haverá nenhuma luta da OTAN com a Rússia. “O único jogo final agora”, disse um alto funcionário da administração num evento privado no início deste mês, “é o fim do regime de Putin”. Até lá, durante todo o tempo que Putin ficar, [a Rússia] será um Estado pária que nunca mais será bem-vindo de volta à comunidade das nações”. A China cometeu um enorme erro ao pensar que Putin se vai safar”.

Aí está – o ponto principal: Permitir que a carnificina na Ucrânia continue; sentar-se e ver os “ucranianos heróicos sangrarem a Rússia”; fazer o suficiente para sustentar o conflito (fornecendo algumas armas), mas não o suficiente para o escalar; e jogá-lo como a luta heróica pela democracia, a fim de satisfazer a opinião pública.

A questão é que não está a funcionar dessa forma. Putin pode surpreender a todos em DC ao sair da Ucrânia quando a operação militar da Rússia estiver concluída. (A propósito, quando Putin fala da Ucrânia, costuma descontar a parte ocidental acrescentada por Estaline como ucraniana).

E não está a funcionar com a China. Blinken disse em justificação das novas sanções impostas à China na semana passada: “Estamos empenhados na defesa dos direitos humanos em todo o mundo e continuaremos a utilizar todas as medidas diplomáticas e económicas para promover a responsabilização”.

As sanções foram impostas porque a China não tinha conseguido repudiar Putin. Só isso. A linguagem da responsabilização e (da expiação) utilizada, contudo, só pode ser entendida como uma expressão da cultura contemporânea despertada. Basta apresentar algum aspeto da cultura chinesa como politicamente incorrecto (como racista, repressivo, misógino, supremacista ou ofensivo), e imediatamente se torna politicamente incorrecto. E isso significa que qualquer aspeto da mesma pode ser apresentado à vontade pela Administração como merecedor de sanção.

O problema volta de novo à recusa do Ocidente em aceitar “outros” no tabuleiro de xadrez. O que pode a China fazer, mas encolher os ombros a tais disparates.

Biden, no seu discurso na Mesa-Redonda, antecipou – mais uma vez – uma nova ordem mundial; sugeriu que está a chegar uma Grande Reedição.

Mas talvez um “Re-set Reckoning” de uma ordem diferente esteja nas cartas; um que devolva muitas coisas àquilo que, até há relativamente pouco tempo, tinha realmente funcionado. A política e a geopolítica estão a metamorfosear-se a cada momento.

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