As conversões da Rússia e da Ucrânia

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 29/03/2022)

Os nossos bons Estados iliberais e os maus Estados iliberais do inimigo — há quem os saiba distinguir!

A democracia é uma ideia sujeita às apreciações de cada geração e ao momento histórico. Na Europa a democracia foi entendida até há pouco e maioritariamente como um regime assente no Direito e na soberania popular. Mas essa perceção sofreu uma mudança radical com a guerra na Ucrânia e está a ser substituída pela mera formalidade em que um grupo utiliza o processo democrático, que domina por meio de propaganda, intimidação ou criação de regras eleitorais, para se legitimar no poder.

“Democracia iliberal” foi um termo apresentado por Fareed Zakaria num artigo de 1997 para a revista Foreign Affairs, a partir de questões colocadas pelo diplomata americano Richard Holbrooke na véspera das eleições na Bósnia: O que dizer quando uma eleição ocorre de modo livre, mas o povo escolhe racistas, fascistas, separatistas e outros agentes publicamente contrários à paz e à integração?

A preocupação de Holbrooke com a ex-Iugoslávia pode ser transposta para os dias de hoje e para vários Estados cujos governos, apesar de eleitos, ignoram os limites constitucionais e se situam num ponto entre as ditaduras reconhecidas e as democracias consolidadas. São as Democracias iliberais, onde o povo possui algumas liberdades políticas, e limitadas liberdades civis. Também têm sido designadas por «democraturas».

A Rússia é um exemplo deste novo paradigma desde que Boris Yeltsin promoveu a abertura da economia planificada, inserindo-a no neoliberalismo dos anos 90. A Rússia percorreu desde então um caminho de liberalização económica, mas não se transformou numa democracia liberal. Ao contrário do que defendem os neoliberais uma democracia não é definida pelo liberalismo económico, mas por um processo político. A liberalização económica da Rússia foi marcada pela corrupção, criação de oligarquias e um processo de privatizações onde as empresas estatais soviéticas foram adquiridas em processos pouco transparentes, fraudulentos ou criminosos. A liberalização política nunca ocorreu.

A Rússia passou à categoria de Estado iliberal e arrastou com ela as antigas repúblicas soviéticas, gerando percursores que passaram para o Ocidente: a Polónia, os estados Bálticos, a República Checa, a Eslováquia e a Hungria, esta o caso mais «bem-sucedido» de Estado iliberal, ou de «democratura» na União Europeia.

Viktor Órban, o primeiro-ministro húngaro começou por ser um seguidor de Ieltsin e de Putin e será o exemplo mais acabado, completo e paradigmático de um político iliberal que foi acolhido na União Europeia e adotado pelo regime de Washington!

Após perder as eleições de 2002 com o partido Fidesz, que fundara, Viktor Órban concluiu, segundo o seu biógrafo, que «essa coisa de democracia, onde o poder pode escapar rapidamente da sua mão, não é uma boa coisa», e preparou-se para, «assim que o recuperar, não o deixar escapar nunca mais». Em 2006, Órban, aconselhado por Arpad Habony, um ex-estudante de arte que no processo de ascensão de Órban também se tornou milionário e oligarca, operou a guinada decisiva na sua estratégia de poder, enveredando por um populismo agressivo, com um discurso eurocético (atribuindo à União Europeia a culpa pelos problemas internos da Hungria), xenófobo (perseguindo agressivamente refugiados, imigrantes e a minoria cigana), de defesa da família e valores cristãos, estimulando a desconfiança e o medo, e prometendo recuperar tomar a Hungria das mãos dos «estrangeiros», uma vez que no processo de privatizações levado a cabo pelo próprio Órban uma parte das empresas estatais húngaras haviam sido adquiridas por capital externo.

A sua política de «quase ditadura» chegou a incomodar as boas almas de Bruxelas, que até há pouco estavam preocupadas com a «democracia iliberal» de Victor Órban e da Hungria, mas também da Polónia, da República Checa e da Eslováquia. Do lado de lá da fronteira, entretanto, um jovem comediante de televisão, Zelensky, utilizava os mesmos métodos de Órban para chegar ao poder na Ucrânia. Tinha um talkshow (tal como Trump) na televisão de um oligarca ucraniano, o dono do canal privado. Um oligarca atualmente fuga do país por desvio de fundos. Juntos criaram um partido com o mesmo nome do talkshow, e a última temporada do talkshow decorreu durante as eleições, que ele venceu! Viria a ser o «menino bonito» do Ocidente porque se prestou a colocar a Ucrânia como a barriga de aluguer do Ocidente contra a Rússia. Quer Órban, quer Andrzej Duda da Polónia passaram de ovelhas negras da UE para a categoria de indómitos democratas na linha da frente das liberdades! Uma miraculosa conversão! E Zelensky é o novo São Jorge ocidental!

Antes da invasão a Ucrânia estava, a par da Rússia, no fundo de todos os índices democráticos internacionais. Zelensky somava escândalos. Constava dos Panama Papers; os membros do seu Partido e oligarcas eram denunciados por receberem luvas. Corria o escândalo das gravações em que Trump lhe prometeu 400 milhões em armamento em troca de Zellensky vigiar os negócios escuros do filho de Biden na Ucrânia. O governo ucraniano apoiava, como o de Órban e o de Putin, a extrema-direita e milícias neonazis. Havia uma guerra civil no Donbass desde 2014, com 14 mil mortos. Agora Zelensky é um exemplo para o mundo! De repente, este homem que se prestou a levar o seu país a aceitar ser um palco de guerra de superpotências, aparece nos jornais ocidentais como o novo Churchill, um defensor da liberdade do seu povo, do Estado de Direito e das democracias ocidentais, prometendo sangue, suor e lágrimas aos seus compatriotas!

As guerras dos impérios não são feitas para apaziguar o sofrimento humano, mas para disputar matérias-primas ou posições de domínio e Zelensky sabe que foi erigido pelo Ocidente como um herói da democracia e da liberdade para intermediar o fabuloso negócio de fazer da Ucrânia uma plataforma de ameaça à Rússia em vez de ser um pipeline de gás e um campo de trigo e girassol! A democracia iliberal passou oficialmente a paradigma da União Europeia! Apenas há que distinguir entre as que estrategicamente alinham com Washington ou com Moscovo. Zelensky é, afinal, um filho pródigo da democracia ocidental que estava na clandestinidade! Os dirigentes europeus reunidos à volta de Joe Biden proclamaram que a Europa está unida como nunca para defender Zelensky e o seu regime na Ucrânia!

O mais marcante desta guerra (excluo os reais e dramáticos sofrimentos das pessoas comuns) é, pois, a normalidade com que os regimes democráticos liberais europeus adotaram democracias iliberais, «democraturas» apenas porque os seus territórios podem servir de bases americanas contra a Rússia.

Descobrimos agora, alguns com repugnância, outros com satisfação, que os líderes europeus e Biden conseguem não só admitir como suas parceiras as democracias iliberais como distinguir as más, a da Rússia de Putin e da Bielorrússia de Aleksandr Lukashenko, das boas, as da Hungria, da Polónia, e agora da Ucrânia de Zelensky! No meio fica a Turquia, ganhando com a duplicidade de dependências.

Que o autoproclamado Ocidente tenha promovido Zelensky como um Arcanjo da democracia e da liberdade, equiparando-o a Churchill, a De Gaulle, diz muito não sobre ele, mas sobre a decadência política a que chegaram os Estados do Ocidente, que enxovalham os seus heróis e os seus valores ao sabor das circunstâncias.

A imensa tragédia humana do povo ucraniano exige respeito e o mínimo é não utilizar o seu sofrimento como cortina de fumo para negócios, nem transformar tiranetes apalhaçados em heróis da liberdade!

O perigo da promiscuidade com estes regimes é a sua proliferação, o da gangrena nos valores, de uma nova vaga de ditaduras como as de há um século, de onde emergiram o nazismo, o fascismo e as democracias orgânicas, como a do Estado Novo em Portugal.

A Ucrânia não pode ser utilizada para palco de um tenebroso renascimento totalitário sob a forma de democracia formal, para esconder negócios de morte, enquanto uns compères fazem os seus números e contam piadas acompanhadas por gargalhadas gravadas e explosões reais e ao vivo.


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Os cãezinhos de Pavlov e os rinocerontes de Ionesco

(Daniel Vaz de Carvalho, in Resistir, 30/03/2022)

1 – No que nos tornamos

O cientista soviético Pavlov (1849-1936) estabeleceu a teoria dos “reflexos condicionados” cuja originalidade reside em puderem ser criados por ação humana tanto em alguns animais (cães) como em seres humanos. Este princípio teve aplicação na 2ª Guerra Mundial em que cães foram treinados para atacarem (com explosivos) tanques alemães ficando indiferentes a tanques soviéticos.

Ionesco (1909-1994), na sua peça “O rinoceronte” (uma metáfora ao nazifascismo) descreve como numa cidade começaram a aparecer rinocerontes. As pessoas inicialmente olharam-nas, com indignação e asco. Porém à medida que foram aumentando e as manadas tomaram conta das ruas, a repugnância que lhes causavam os corpos peludos e a musculatura brutal, tornaram-se atraentes, os humanos passaram a sentir-se frágeis, envergonhados dos seus corpos lisos, desejando ser como eles. Até a mentalidade dos rinocerontes lhes parecia preferível ao ineficaz humanismo. No final, mesmo com as dúvidas que a situação criava, o protagonista, só, atrás da sua janela, gritava: Sou o último, homem, hei de sê-lo até ao fim! Não me rendo!

Aqui chegámos e falamos da UE, do dito “ocidente” em geral. Houve quem trabalhasse para que agora cãezinhos de Pavlov corram atrás dos rinocerontes de Ionesco, achando nisso um mundo perfeito. Aos que querem permanecer humanamente íntegros nestas sociedades resta resistir e apoiarem-se informando, esclarecendo.

Houve um tempo em que os rinocerontes andavam devastando florestas, mas longe das metrópoles. Era o tempo em que grandes manifestações pela paz, apesar de reprimidas aumentavam, o tempo em que filmes como o Hair de Milos Forman, livros e poemas eram libelos contra a guerra (do Vietname), em que se podia ver num grande cinema de Paris “Três horas na URSS” e dirigentes dos EUA eram recebidos com “Yankes go home”. O problema é que com a paz no Vietname todo este movimento ficou sem causa. A ideia hippie caprichava em não ter ideologia. Viam apenas a superfície das coisas.

Há séculos o grego Xenofonte dissera em Anábase: “Ó homem, para que queres os olhos se não sabes ver e a memória se és saco roto?” Os rinocerontes puderam então começar a correr pelas metrópoles, Rambos e super-heróis substituíram a luta pela paz e a exaltação do poder popular. A crise económica foi uma oportunidade para trazer para o redil oligárquico transviados do capitalismo.

O triunfalismo da economia de casino neoliberal sobrepôs-se ao keynesianismo e planeamento económico como transição para formulações socialistas. Após o fim da URSS os rinocerontes acharam que o mundo inteiro devia pertencer-lhes. Então os rinocerontes passaram a correr impantes pelas cidades e muitos até ali humanistas acharam que era preciso “adaptarem-se”, não podendo ser rinocerontes assumiram-se como cãezinhos de Pavlov seguindo as manadas.

Disse Mike Pompeo, ex-diretor da CIA, para gáudio da assistência: “Mentimos, enganámos, roubamos” ( www.informationclearinghouse.info/). De facto, roubaram ouro e divisas da Rússia, Venezuela, Afeganistão, Líbia, Iraque, Ucrânia, apoderaram-se do petróleo da Líbia, Iraque e em parte da Síria. Mentiram sobre a Sérvia; mentiram sobre o Afeganistão e os seus “combatentes da liberdade” da Al-Qaeda; mentiram sobre a Líbia, sobre a Síria, sobre as “armas de destruição massiva” do Iraque e químicas da Síria. Tal como mentem sobre Cuba, Venezuela, China, sobre os envenenamentos da Rússia, etc. Mentem sobre a Ucrânia. Os media obedecem e prestam-se a tudo isto. É penoso ver e ouvir aquelas reportagens formatadas, idênticas às que serviram para todas as mentiras anteriores, com gente a ler os guiões formatados que lhes dão.

Condicionados por anos de propaganda a generalidade das pessoas perdeu a capacidade de um raciocínio claro, não são sensíveis a evidências. Com uma agenda de insegurança, instilada intensivamente através dos media, sujeitam-se à perda de direitos pela austeridade para satisfazer a finança, pelo medo das pandemias, agora pela guerra na Europa, causada por Putin e seus crimes. As pessoas sentem-se horrorizadas pelas crianças que morrem na Ucrânia, pela maternidade atacada. Qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade não pode ficar indiferente. A menos que se trate de mais uma trama de mentirosos compulsivos.

Quando o Iraque invadiu o Koweit, a propaganda apelou à comoção da opinião pública para se desfazerem de um sujeito que tinha deixado de agradar aos EUA. A 14 de outubro de 1990, uma adolescente de 15 anos, Nayirah al-Sabah, deu um testemunho aterrador das atrocidades cometidas num hospital do Kuwait pelas tropas iraquianas. O testemunho era falso. A cena das incubadoras nunca aconteceu. A mentira foi fabricada por agências de comunicação financiadas pelo Governo dos Estados Unidos e do Kuwait.

Se falarmos dos 14 000 mortos e 1,5 milhões de deslocados desde 2014 no Donetsk, do crime de Odessa, nos bombardeamentos no Iraque, na Síria, Líbia, Jugoslávia, a reação é de apatia e respondem com as crianças da Ucrânia. Comparam-se os crimes de Putin na Ucrânia aos de Hitler contra os judeus. A National Geografic emite um programa em que mostra as atrocidades dos “russos” contra os alemães em 1945, baseado na propaganda de Gobbels. Um senador dos EUA apela ao assassínio de Putin. O Pentágono diz ter provas certas de crimes de guerra da Rússia, Michael McFaul, ex-embaixador na Rússia afirma que todos os russos que não protestarem abertamente contra a intervenção da Rússia na Ucrânia devem ser punidos, para a presidente do PE a prisão de Navalny é um atentado à justiça. Mas a morte lenta a que submetem Julian Assange e a infame farsa do seu julgamento é ignorada. Claro que Assange não é como Navalny um corrupto racista de extrema-direita, bem pelo contrário…

Putin é criminoso de guerra, diz Biden, dizem os “comentadores”. Se dissermos que as mortes em guerras EUA/NATO desde 2001 vão de 2 a 5 milhões de pessoas, e que desde o fim da 2ª Guerra Mundial a conta atinge muito mais em brutais guerras visando o saque dos recursos naturais dos povos agredidos, as pessoas reagem com a apatia e indiferença. A sua agressividade condicionada é contra a Rússia e Putin, quais de cãezinhos pavlovianos, que apenas se lançavam contra blindados alemães ficando indiferentes a outros.

Pergunta-se Patrick Lawrence:   “pode alguém ouvir o ruído das últimas semanas sem se interrogar se fizemos de nós mesmos uma nação de grotescos?” As pessoas não reagem ao facto dos EUA se terem consorciado-se com o que se tornou a Al-Qaeda, nem com os grupos nazis que infestam a Ucrânia que armaram e treinaram. A russofobia atinge registos patéticos como o cancelamento de espetáculos de um maestro e cantores, participação de atletas. A Federação Internacional de Felinos proibiu a importação de gatos russos! “A maioria dos norte-americanos parece aprovar estas coisas, ou pelo menos não se mexe para objetar. Perdeu-se todo o sentido de decência, de moralidade comum, de proporção. É comum observar que na guerra o inimigo é sempre desumanizado. Estamos face a face com outra realidade: aqueles que desumanizam outros desumanizam-se a si próprios ainda mais profundamente”.

2 – A Ucrânia numa guerra forjada

A Rússia tem sido muito clara desde há anos acerca do que pretende: garantias de segurança para o seu território. Em resposta, os EUA/NATO respondem com “a ameaça russa” e reforçaram meios de combate na região, armaram a Ucrânia até os dentes, enviaram “assessores militares”. Propunham-se integrar a Ucrânia (e a Geórgia) na NATO.

Torna-se evidente que a intenção de Washington em provocar a intervenção da Rússia foi instigar um conflito de longa duração à custa de uma rebelião sem possibilidades de sucesso. Uma estratégia que exige a destruição da Ucrânia ao serviço de ambições imperiais, como ocorreu no Afeganistão, Iraque, Líbia, Somália, etc.

Para os EUA este conflito na Europa é de todo conveniente: nas duas anteriores guerras mundiais o seu território ficou ileso e a capacidade económica reforçada. Tal foi expressado por Victória Nuland, secretária de Estado Adjunta, na supervisão do golpe de Estado em Kiev em 2014, no qual investiram 5 mil milhões de dólares, descartando os interesses europeus com o seu: “Fuck UE”.

Os líderes da UE baixam a cabeça e seguem como cãezinhos de Pavlov a manada dos rinocerontes. Para isso serviu a estratégia de diabolização da Rússia e a entrada para a NATO dos países do Leste e Bálticos, semicolónias geridas por Washington, (exceção para a Hungria).

Culpar a Rússia pela escalada das tensões não passa de um ardil. Desde o golpe de Estado de 2014 apoiado pela CIA, um poder neonazi obcecado em antagonizar a Rússia foi instalado e financiado na Ucrânia contra a Rússia. A UE, o FMI, os EUA desde 2014 deram e continuam a dar dezenas de milhões de euros ou dólares sobretudo em armamento para que um Estado falido e disfuncional prossiga a função que o império lhe destinou. Os EUA propunham-se agora um adicional de 800 milhões de dólares em assistência militar.

A invasão russa é, sem dúvida, contra o direito internacional, mas terá sido a forma de evitar mais sofrimento tanto no Donbass como na Ucrânia. Putin enfatizou que o povo do Donbass viveu oito anos de genocídio e o dilema russo era: esperar passivamente pelo maior envolvimento da NATO ou desmantelar os preparativos do anunciado ataque ao Donbass e à Crimeia.

É dada relevância a um pseudo presidente como Zelensky que nada controla no país, que no seu discurso se limita a representar a farsa encomendada pelos seus donos. Nada do que diz tem que ver com o papel de um presidente em exercício, sendo incapaz de apresentar um plano, uma estratégia para o drama em que envolveu o seu país. Títere de Washington pede desalmadamente o envolvimento direto da NATO… O que significa a confissão da derrota do poder intensamente treinado e armado pela NATO que os “comentadores” diziam ir derrotar a Rússia. A sua petulância não tem cura.

Os cãezinhos pavlovianos da UE sentem-se bem por seguirem os rinocerontes dos EUA. Em 10 de março o então ministro da defesa dizia no Expresso, “sentiu-se a desorientação (das tropas russas) logo nos primeiros dias” “Uma aventura que Putin está destinado a perder.” “A situação vai correr muito mal para a Rússia do ponto de vista político, económico e militar” etc. Em contradição a estratega Ana Gomes (PS) das armas de destruição massiva no Iraque, quer a interdição do espaço aéreo ucraniano pela NATO. Confissão da derrota do poderoso exército ucraniano criado pela NATO…

Militarmente não há muito a dizer, pode ver-se aqui e aqui o evoluir da situação. O exército ucraniano não tem um mínimo de condições para realizar quaisquer movimentos estratégicos, as ações táticas resumem-se a estabelecer pontos de resistência em algumas cidades. Recorde-se o tempo que os EUA levaram para acabar com a resistência, por exemplo, em Faluja no Iraque, e não tinham os pruridos, a contenção, que agora existe por parte da Rússia nem corredores humanitários.

A própria Newsweek o reconhece: “O coração de Kiev mal foi tocado. E quase todos os ataques de longo alcance atingiram alvos militares.” “Na capital, as autoridades da cidade de Kiev dizem que cerca de 55 prédios foram danificados e 222 pessoas morreram desde 24 de fevereiro. É uma cidade de 2,8 milhões de habitantes.” “Se nos convencermos de que a Rússia está bombardeando indiscriminadamente, ou [que] não está causando mais danos porque seu pessoal é tecnicamente inepto, não vemos o conflito real”.

O presidente da República quis dar em Moçambique lições de direito internacional que não aplicou na Líbia, Iraque, Afeganistão, etc. A resposta do presidente moçambicano devia fazê-lo corar e ir ler outros livros a ver se aprendia alguma coisa além do que os EUA dizem.

Mas existe efetivamente um drama na Ucrânia. Os descendentes ideológicos dos criminosos de guerra nazis estão entre os combatentes mais cruéis e malignos que Washington já empregou para implementar sua agenda de política externa. Segundo a  organização comunista ucraniana Borotba, “perseguem, torturam, matam quem se lhe opõe ou é suspeito disso.” Sabem que enfrentam julgamentos, a morte ou prisões duríssimas na Rússia.

Na UE, alguns esboçam reticências quanto ao caminho seguido. Na cimeira da NATO, o chanceler alemão Scholz expressou claramente sua oposição a penalidades sobre a energia da Rússia. O primeiro-ministro belga alertou para sanções contra a Rússia que enfraqueceriam desnecessariamente a economia da UE. Macron da França defende os meios diplomáticos para se conseguir um acordo de cessar-fogo e a retirada das tropas russas da Ucrânia: “Queremos parar a guerra que a Rússia lançou na Ucrânia sem entrar em guerra. Esse é o objetivo” e “se queremos fazer isso não devemos entrar na escalada nem das palavras nem das ações.” “Geograficamente, quem enfrenta a Rússia são os europeus. Os Estados Unidos são um aliado no quadro da NATO, com o qual compartilhamos muitos valores, mas quem convive com a Rússia são os europeus.” (Lusa 27 de março de 2022). Vamos ver como fica o discurso dos “comentadores” sobre a “unidade da NATO”…

Um instituto de pesquisa económica da Bélgica estima que a curto prazo, para reduzir a dependência energética da UE em relação à Rússia o custo pode chegar a 100 mil milhões de euros. A Rússia fornecia 40% das necessidades coletivas de gás da UE, 27% das suas importações de petróleo e 46% das importações de carvão.

A UE encontra-se praticamente em estagnação económica desde 2000, as guerras e as sanções aplicadas a países que se opõem a Washington só contribuíram para o seu medíocre desempenho. Ao conter a Rússia, a UE vai tornar-se mais dependente dos EUA em termos de energéticos e comerciais conduzindo à degradação da sua competitividade e nível de vida da população.

O descontentamento das populações e empresários já se começou a fazer ouvir. Note-se que os reflexos condicionados podem ser anulados por outros mais fortes. Falamos da sobrevivência…

3 – Transformações quantitativas e qualitativas

Biden perde a compostura e diz disparates:  o país que funciona mais como uma oligarquia do que como uma democracia, diz que esta guerra é uma luta entre a democracia e os oligarcas. É sem dúvida o contrário. A primeira condição para a democracia é a soberania do povo, por isso democracia e imperialismo são incompatíveis. Para dar uma hipótese à democracia é necessário que um Estado hegemónico deixe de policiar o mundo em função dos seus interesses.

Os outros povos compreendem os riscos que correm seguindo os rinocerontes. Os EUA/NATO apoderam-se de depósitos financeiros e aplicam sanções aos Estados e cidadãos que não lhes obedeçam. Olham também para a correlação de forças, os EUA/NATO perderam na Síria, no Afeganistão, e só fazerem frente à Rússia atrás do drama ucraniano que impulsionam. Entendem que os rinocerontes têm pouca visão, reduzida inteligência, força bruta que utilizam mal.

“A China insiste para que os EUA tomem ações concretas para diminuir as tensões na Ucrânia. As suas práticas só farão com que os Estados Unidos fiquem ainda mais desacreditados no mundo.” Por outro lado, “para a China as suas relações com a Rússia são o mais importante ativo estratégico e não podem ser alteradas pelas provocações dos EUA”.

Os rinocerontes estão encurralados. A era pós-Guerra Fria acabou. Nunca os EUA foram desafiados de forma tão direta como pela intervenção da Rússia na Ucrânia. As velhas regras que os EUA impuseram – pela força – deixarão de existir. Apesar da pressão dos EUA nenhum Estado árabe participa da guerra económica contra a Rússia nem a maioria dos países da América Latina e da África, além do Irão, Índia, Paquistão e China. A Arábia Saudita e outros estados do Golfo resistiram a bombear mais petróleo para compensar a proibição dos EUA às importações de petróleo russo e está em negociações com a China para trocar parte de seu petróleo por yuan. Moscovo está a criar com a China criando um sistema económico e financeiro separado do dólar. A crise russo-ucraniana mina a retórica dos EUA e da UE sobre o conflito árabe-israelita. Os Estados Unidos pregam o pacifismo aos palestinianos perante décadas de ocupação e agressão de Israel, na Ucrânia logo nos dois primeiros dias de conflito, cerca de 30 países enviaram mísseis e armas avançadas para a Ucrânia (agora destruídos…). Aos palestinianos até mesmo é negado o direito à resistência pacífica.

A comunidade mundial evita tomar partido entre os EUA e a Rússia. A Declaração de Islamabad, emitida após a 45ª reunião dos ministros das Relações Exteriores dos 57 membros da Organização da Conferência Islâmica, recusou-se a aplicar sanções contra a Rússia e, em vez disso, aconselhou a cessação das hostilidades na Ucrânia, aumentar a assistência humanitária e uma “decidida ação diplomática”. Posição idêntica à da China e Índia. Nenhum país do continente africano e da Ásia Ocidental, Ásia Central, Sul e Sudeste Asiático impôs sanções contra a Rússia. Este é também o consenso dentro da ASEAN.

A Rússia, pretende que a Ucrânia seja um “Estado neutro e desmilitarizado, embora com seu próprio exército e marinha”, modelo rejeitado até agora. A neutralidade exigiria que os EUA e os outros grandes países ocidentais fornecessem garantias de segurança explícitas e detalhadas, sobre futuras ameaças à integridade territorial e soberania da Rússia e que a Ucrânia não representasse mais uma ameaça potencial à segurança da Rússia. Mas a Ucrânia nada faz sem instruções de “terceiras partes” dizem os negociadores russos.

Os Estados Unidos estão a descobrir que o mundo se afasta deles. Não o vão tolerar, tentarão usar a força para manter o controlo sobre a humanidade.

A guerra na Ucrânia prenuncia uma transformação qualitativa ao nível geopolítico. Não é o fim do imperialismo, mas talvez seja o princípio do fim, já que a Síria representou o fim do princípio, isto é, da sua expansão.

Fonte aqui


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Da “Desinformação” à Chapada, escondi o Kusturica debaixo da cama

(Raquel Varela, 30/03/2022)

A chapada de Hollywood é a cereja no bolo de uma sociedade histérica, despolitizada, onde a violência verbal e física ganhou. É um espelho, Hollywood ganhou outra vez, do estado do mundo. Se não concordas comigo, levas porrrada. Podia ter dado uma lição ao mundo aquele tipo, fazer uma piada melhor, desprezá-lo, no seu discurso criticá-lo, ignorá-lo. Não. A ideia é cancelar o opositor porque se foi ofendido. O “ofendido” permite tudo, já que é um critério subjectivo – quem define se é ou não ofensivo é o ofendido. A chapada é assim a estilização cinematográfica da censura, que foi introduzida nos países democráticos, com o nome “combate à desinformação”. Em Hollywood não se escrevem textos longos justificativos e leis rebuscadas para censurar opiniões contrárias e cancelar cientistas ou maestros. Aprenderam com os anos de chumbo pós guerra fria. Faz-se uma cena inesquecível. É o cinema, também ele em fase de decadência.

Pelo mundo, e aqui também (no jornal Expresso um novo, bom, Manifesto), surgem manifestos públicos contra o cancelamento e a censura, agora que uma piada, ou uma ofensa, como queiram (não tenho opinião, pode ser uma, outra ou as duas), redundou em culto da violência filmada em directo. E que todos os que estão contra os falcões da NATO são acusados de putinismo, e Tolstoi banido. Já comecei a preparar o exílio da minha Biblioteca. É que como disse o escritor Andrea Camillieri, os escritores da cerveja e do vinho são bons, mas os melhores são de longe os da vodka.

Nunca subscrevi a censura de qualquer texto, incluindo de vários nos quais não me revejo, nem na forma nem no conteúdo. Censurar palavras, por mais brutais que sejam, é uma atitude anti-democrática. Ponto. Devem proibir-se partidos de extrema direita porque não são correntes de opinião – são organizações de violência, a política é a fachada da milícia. Mas não se pode proibir ninguém de dizer bacoradas fascistas. Pode e deve proibir-se a sua organização – e essa é a nossa moldura Constitucional, correcta a meu ver.

Há um crime de difamação tipificado na lei, é preciso que os tribunais funcionem a defender a honra de quem é posto em causa. Mas isso é matéria de tribunais. Antes disso há o mais importante, o nosso civismo. Acima de tudo e sempre, somos obrigados à defesa pública de quem é injustamente atacado, ou com métodos canalhas, de quem é ofendido. Para isso, para tomar posições públicas contra métodos ignóbeis não precisamos de esperar por um tribunal, basta termos coragem e valores. Agora, não precisamos da comissão europeia, dos nossos governos ou de directores de jornais a fazer as vezes dos tribunais, e em nome do que eles definem como desinformação censurar o nosso acesso aos textos e palavras de outros.

Não opto por passar férias com um grupo de homofóbicos, bloqueio ofensas no meu mural, sou assinante de um jornal, estrangeiro e de literatura; também não passo férias com gente progressista que mede as minhas palavrinhas e se irrita com anedotas – não tenho, como se diz no Brasil, saco para fanáticos, de espécie alguma. Gosto de gente que aceita piadas de tudo e até aceita que eu num dia mau diga um disparate; gosto de gente imperfeita; acho que o humor, desde os Gato Fedorento, não tem graça nenhuma porque não se enfrenta com o poder, é só fait divers e tiros ao lado, o humor bom incomoda o Poder, este em geral é para crianças de 5 anos de idade. Mas isso é a minha casa, as minhas decisões, a minha opinião, que neste caso só em mim tem consequências, não as imponho a ninguém.

Estive contra a censura seja do que for porque ela é Estatal. Podemos decidir não estar ou não ouvir, o Estado não pode decidir por nós. Estive contra quando se quis criminalizar o piropo, quando se insistiu em condenar legalmente o discurso de ódio, quando, para supostamente proteger homossexuais, negros, mulheres, deficientes, animais (estes últimos os mais violentos verbalmente, de longe), se institui a normalização da censura, da violência verbal, da calúnia; estive contra quando o aquecimento global se tornou matéria de delito de opinião e todos os cientistas críticos da área eram acusados de trumpistas! (agora já começam as notícias a explicar que não é assim tão consensual o apocalipse…coisas da crise energética), estive contra, com vários intelectuais (mas poucos dos que hoje se indignam e bem contra a russofobia), quando as medidas de mitigação da pandemia passaram por censura, proibições, processos disciplinares e despublicação.

Estive contra a nova palavra introduzida pelo jornal Público em Portugal, a despublicação. Ironia da história, o Público despublicou um artigo por, alegou o seu director, colocar em causa o consenso sobre a vacinação de jovens, sendo que agora o Página Um tornou público esse parecer, escondido pela DGS, e nada mais nada menos que metade dos seus conselheiros foram contra a vacinação de jovens, medida adoptada oficialmente na Escandinávia.

Atenção que sou contra mesmo se só fosse um contra. As opiniões não são como os votos para parlamentos, as maiorias não se impõem. As opiniões são de cada um, livres, a maioria ou os consensos não podem condicionar as opiniões. Quantas vezes na história quem esteve totalmente na margem estava correcto? A subjectividade não se transfere. Ciência não se faz com voto de braço no ar. Não se vota um consenso. Ciência é liberdade. O mesmo para a arte. Não sou a favor da invasão mas sou contra que se expulsem maestros, sejam ou não pró Putin. Vargas Llosa foi apoiante da ditadura do Peru, não gostaria de jantar com ele, mas adoro os seus livros. A arte não tem nem pode ter condicionantes. Esse aliás foi o debate da Oposição de Esquerda, na URSS, contra o Estalinismo. Há URSS para lá de Estaline e de Putin.

Estive contra a proibição da RT, que não assistia até ao dia em que foi proibida, agora dá-se o caso patético de me mandarem “clandestinamente” uma entrevista do Kusturica na RT a dizer que esta guerra é o segundo acto da NATO – o mesmo Kusturica que ouvi e dancei há 4 meses no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra. Esse, um proscrito. Recebo-o às “escondidas”. É tudo ridículo.

Os critérios, amplamente conhecidos dos académicos críticos, são a metodologia que sustenta os argumentos, a coerência, a intenção da verdade, a verificação externa de argumentos, a fiabilidade das fontes, etc. O combate pelo conhecimento e pelo acesso à verdade faz-se com educação e politização, com debate aberto, com desenvolvimento de uma ciência livre de pressões do Estado e do Mercado; com organização dos que não têm poder e com teoria crítica e formação. Não se faz com censura. Não se luta contra as ideias – que consideramos erradas – à chapada.

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