ANTEVISÃO DA HOMILÍA DO PROFESSOR PARDAL DE SOUSA

marcelo

O Domingo está quente e acariciador. 7 de Junho do ano da graça de 2015, e são quase 9 horas da noite. Pardal de Sousa já está a postos, os apontamentos espalhados pela mesa redonda, os livros, por tantos serem, empilhados no chão, no lado direito da cadeira. José Aberto Galho dá o pontapé de saída:

– Boa noite, professor, hoje temos uma mão-cheia de casos notáveis para sujeitar à sua douta opinião mas, como é da praxe, vamos começar com as perguntas dos espectadores.

– Ó meu amigo José Aberto, diz bem, casos notáveis mesmo, mas antes de irmos às perguntas dos espectadores, queria dar-lhe este presente para que não me acusem de fazer discriminação de género – replica Pardal de Sousa. E continua, puxando de um saco de plástico de onde retira um bacalhau e uma cerveja de litro:

 – É que já me acusaram de só dar presentes à Tia Judite, e discriminar o meu amigo. Ora, sendo eu o comentador de todos os portugueses e de todas as portuguesas quero que fique claro que não faço qualquer discriminação de género, raça, idade, ou bolsa. E prosseguiu: – Aqui tem, para uma ceia com batatas da Beira e azeite alentejano, bem regada a cerveja fresca.

José Aberto pegou nas prendas com ar incrédulo e surpreso, agradeceu, tomou o peso ao bacalhau e foi balbuciando: – Mas ó professor, de onde lhe veio a ideia de me trazer tais petiscos?

Pardal de Sousa, sorriu e foi explicando com rapidez e decisão:

– Bem, eu não lhe ia dar uma prenda que não tivesse significado político, como deve calcular. Vamos por partes. O bacalhau tem duas faces, a direita e a esquerda. Ora olhe para a face direita.

José Aberto assim fez e foi dizendo: – Professor, há aqui um selo, que quer isto dizer?

– Meu caro José Aberto. É um selo de garantia. É o selo da coligação. Esse bacalhau é um bacalhau embrulhado a vácuo, com o selo de garantia de que Portugal não vai mais ter falta de dinheiro para o bacalhau porque os cofres da Ministra Luisinha Queque estão cheios e o País está longe da bancarrota. Foi-me dado pelo próprio Barítono Coelho para ver se me convence a não me candidatar às Presidenciais. Ora, como eu só decido depois das eleições legislativas e o bacalhau se podia estragar até lá, só me restava contemplar o meu amigo com esse excelente exemplar.

José Alberto ficou boquiaberto com a surpreendente explicação, pelo que foi dizendo: – Só me resta agradecer de novo, professor. Mas a cerveja? E a cerveja, a que se deve?

– A cerveja tem também um relevante significado político. Foi-me oferecida pelo Ministro Sério de Lima que já está a comemorar a privatização da TAP que, segundo ele, é irreversível e que vai ser muito bem vendida. O Efromovich paga com aviões em segunda mão e manda dinheiro suficiente para pagar os salários até ao fim do ano. Enfim, um grande negócio porque ninguém estava à espera que a TAP chegasse ao Natal. E agora vamos às perguntas que se faz tarde.

– Professor a primeira pergunta vem do nosso espectador Antoninho Vidrado de Portalegre que pergunta se o professor alguma vez brincou aos manifestantes e aos polícias. Pardal de Sousa, franziu as sobrancelhas e foi dizendo:

– Pergunta difícil, mas devo dizer que nunca fui de manifestações, nem mesmo no futebol. Prefiro ir sempre para o camarote, e de preferência, para o camarote presidencial. Quanto a polícia, também não tenho queda, a não ser que fosse para a polícia secreta, espionagem e contra-espionagem. Mas acho oportuno as crianças começarem a treinar desde o berço as tácticas de arremesso de pedregulhos e garrafas aos polícias, bem como as tácticas policiais de defesa, porque as manifestações sem uns petardos de parte a parte não tem piada nenhuma nem atraem as câmaras das televisões. E, se não vai lá a televisão, qual é o impacto da manifestação? Nenhum.

– Muito bem, professor. A pergunta seguinte vem da nossa espectadora, Dona Idosa de Sousa, da Marmeleira, que tem uma pensão de 1000€ que reparte com uma filha e dois netos e pergunta se o Governo lhe vai cortar a pensão como diz que ouviu dizer à ministra Luisinha Queque.

– Ora aí está uma pergunta pertinente que convém esclarecer. O Primeiro-Ministro já esclareceu  que os cortes nas pensões não são os cortes nas pensões. Quer dizer, falta dinheiro nas pensões mas pode-se pôr dinheiro nas pensões não tirando dinheiro das pensões. E sempre se pode dizer que, se se tirar dinheiro às pensões, não quer dizer que o reformado fique com menos dinheiro para ajudar os netos: como baixa a pensão, baixa o escalão do IRS e vai pagar menos impostos. Portanto, cortar nas pensões não significa cortar no rendimento dos pensionistas, pelo que a telespectadora pode estar descansada.

– Ficámos esclarecidos, professor, disse José Aberto. E prosseguiu: – A pergunta seguinte vem do nosso espectador Lampião da Silva da Brandoa que pergunta se o País ficou melhor ou pior pelo facto de Jorge Jesus ter ido para o Sporting.

Pardal de Sousa recostou-se violentamente na cadeira, como se lhe tivessem dado um murro no estômago. José Aberto sorria com ar de quem tinha feito uma maroteira. E tinha mesmo. Não tinha informado previamente, Pardal de Sousa, da existência de tão inusitada questão. Mas, Pardal de Sousa, não se intimidou:

– Uma verdadeira mente brilhante, o nosso espectador Lampião e Silva. Espero estar à altura de tão sagaz pergunta. Ora vejamos. Eu diria que o País está pior, ainda que possa estar melhor.

José Aberto não estava a perceber nada. Tinha cara de ponto de interrogação. Pardal de Sousa prosseguiu:

 – Está pior porque se Jesus não vai para o estrangeiro as exportações de treinadores não sobem e sem o aumento das exportações não há crescimento económico, como diz Barítono Coelho. Portanto, esta transferência de JJ para o Sporting, em vez de ir para o Qatar, favorece o Abrenúncio Costa e o PS e desfeiteia a coligação. Mas por outro lado, como não aumenta os números da emigração – em vez de 400000 que emigraram passavam a ser 400001 – contraria o cenário da oposição que diz que a emigração está a aumentar. Logo, menor emigração, melhor o País, mais difícil a tarefa do Abrenúncio e mais fácil a do Barítono e do Tropas.  Além disso, o País vai ficar melhor por outra razão. E daqui chamo a atenção da ministra Luisinha Queque. Como JJ vai ganhar 6 milhões, mais que no Benfica, e pagar muito mais impostos, a coligação, com o acréscimo de colecta, já pode colocar no programa eleitoral definitivo a descida dos impostos em 2016 e não só em 2019. Parece-me pois, que por aí o País vai ficar melhor. Do ponto de vista desportivo o País não ficará muito melhor. Só ficaria se JJ voltasse para o meu Braga de onde nunca deveria ter saído. Mas enfim, é a vida, como dizia o Tó Terres.

José Alberto estava siderado com tão profundas, mas cristalinas explicações. Pardal de Sousa era mesmo genial. Mas, após um ligeiro entreacto, prosseguiu:

– Bem, professor, não temos mais perguntas, pelo que vamos aos livros. Pardal de Sousa não se fez rogado e foi dizendo:

– Bom. Como perdemos algum tempo com o bacalhau, vou só referir algumas das obras mais importantes ficando as restantes para a semana. Em primeiro lugar, a biografia de Barítono Coelho, “Como se faz um nó de gravata”. Excelente na explanação da técnica do nó que não deve ser cego para evitar o enforcamento do engravatado. A seguir, “Como aumentar a despesa sem aumentar a receita” de Brutus de Carvalho. Muito bom. Exemplar mesmo. À atenção de Abrenúncio Costa para que possa reduzir a austeridade e cumprir as promessas eleitorais respeitando, ao mesmo tempo, os compromissos do défice. Depois temos “Há mais marés que marinheiros”, obra póstuma, só agora editada, e encontrada no espólio desse grande navegador que foi o Almirante Thomaz. Desta vez, à atenção do Presidente Acabado Silva que quer voltar ao mar quando já não temos marinheiros porque os que tínhamos ou morreram ou emigraram. Enfim, obra essencial para o Presidente poder terminar o seu mandato em paz com as marés já que em terra os ventos não sopram de feição lá para os lados de Belém.

José Aberto não resistiu e disse: – Ó professor não está a ser um pouco injusto com essa recomendação de leitura para Acabado Silva?

– Ó José Aberto. Por que carga de água estaria a ser? Eu só aconselho bons livros e bons escritores. O Almirante, grande navegador, era visita lá de casa ainda eu andava de bibe. Até me deu um aquário com peixinhos e uma caravela com a cruz de cristo quando fiz quatro anos e entrei para a escola (sempre fui muito precoce, graças a Deus). Por isso, se Acabado Silva, em fim de mandato, se lembra finalmente que a vocação do País está no mar, depois de ter destruído toda a nossa frota pesqueira e mercante quando foi Primeiro-Ministro, só posso aconselhar-lhe esta obra fundamental para a redefinição da nossa arte de marinhar.

– Muito bem – rematou José Aberto. – Vamos então aos temas da semana. O primeiro é o nome da coligação e as linhas programáticas que apresentou. O que acha o Professor do nome e do programa?

– Eu diria que o nome é explosivo. Para a frente dá uma ideia de revolução. A coligação quer revolucionar o País. E todos os indicadores dizem que já está a revolucionar: as exportações de alfarroba e de Galos de Barcelos estão em alta, o crescimento está aí. Bem vê, andar para trás é andar para a bancarrota. Quanto às linhas programáticas estão perfeitas. São as que foram seguidas até aqui, só que certificadas com o selo de garantia. Ora, como sabe, os consumidores-eleitores não são parvos: só compram produtos com garantia. E por isso não vão deixar escapar esta oportunidade.

José Aberto estava meio convencido mas, e pagavam-lhe para isso, ainda assim tinha que contradizer para dar um ar mais convincente à peroração:

– Mas, professor, a oposição diz que é só “mais do mesmo”, e que a garantia é a garantia da austeridade, do desemprego e da fome e miséria para muitos. E que andar para a frente é um suicídio quando na frente está o abismo. Nesse caso tem é que se andar para trás.

Pardal de Sousa não se intimidou. A resposta estava mais que preparada:

– A oposição faz o seu papel. Mas quando há bancarrota nem sequer há oposição. Logo, para haver oposição, não pode haver bancarrota, logo não se pode andar para trás. Quanto ao desemprego, está alto sim, mas podia estar pior e já esteve muito pior. E não vejo porque havemos de lamentar os desempregados. Tem tempo livre à brava. Podem ir à ópera, à praia e ao futebol em qualquer altura e eu vejo-me aflito para não perder os grandes jogos. Olhe, vim hoje de Berlim depois de ver o Barça a ganhar a Champion  e aqui estou. Enfim, uma estafa a que os desempregados não estão sujeitos. E sobre a fome, é mais uma falácia do PCP e do BE, já que o Abrenúncio não se espraia muito nesse tema. Com o sucesso que tem os Bancos Alimentares contra a Fome da minha amiga Isabelinha Choné, acha que alguém passa fome neste País? Acredite, José Aberto, é só propaganda para assustar os eleitores.

– Muito bem, professor. Vamos ao último tema de hoje, a última grande novidade da semana. Parece que José Trocas vai sair da cadeia de Évora e vai para casa. Isso significa que está inocente? Ou significa que já não pode perturbar o inquérito? Será que o facto vai beneficiar o PS nas intenções de voto?

Pardal de Sousa. Sorriu com deleite. Esta era uma praia apetecida onde se ia deliciar fazendo um bodyboard de sonho. Assim foi:

– Essa é a pergunta dos três em um. Bem. Primeiro, ainda não saiu da cadeia. Pode não querer sair, ou o juiz pode não acatar a sugestão do procurador. Mas, se for para casa, é bom porque parecia mal estar tanto tempo preso sem acusação. Já começava a transformar-se em mártir e os portugueses têm grande tendência para se reverem e e idolatrarem os santos e os mártires. Por isso, tinha que sair para que a Justiça não tivesse que se defrontar com peregrinações em caso de vir a ser condenado. A seguir. Sobre a perturbação do inquérito. Sempre me pareceu excessiva essa justificação da Justiça para o manter preso. Mas suponhamos que sim, que estando preso não podia perturbar o inquérito.  A ser verdade, também não podia perturbar o PS. Não podia falar, o caso estava a sair da agenda mediática, já não se falava da governação socialista, nem da bancarrota, nem do despesismo. Sendo libertado, nas próximas semanas não se vai falar de outra coisa e a coligação vai poder voltar a dizer aos portugueses que o Governo de Trocas foi a causa de todas as desgraças. Logo, a libertação de José Trocas vai ser um bálsamo perfumado para a coligação.

José Aberto, agora, estava de boca aberta. Era lógica mas sagaz a análise de Pardal de Sousa. Como sempre. Mas ainda retorquiu:

– Não está a querer dizer que a Justiça liberta agora José Trocas para “ajudar” a coligação e poder “colar” mais facilmente o PS de Abrenúncio à governação de José Trocas?!

Pardal de Sousa, agora, conteve uma pequena gargalhada e ficou-se por um sorriso enigmático e complacente:

– Ó José Aberto, você deve ter jeito para escrever romances policiais. Eu não disse nada disso. A Justiça tem os seus tempos e as suas liturgias. Estão no castelo de Témis, a Deusa da Justiça, enclausurados, e nem sequer devem saber que vai haver eleições e que estamos a ter a campanha eleitoral mais longa da democracia. Por coincidência, a notícia de que Trocas poderá sair para casa ocorreu no dia em que o PS aprovou o seu programa eleitoral, e num sábado o que só prova que os magistrados são esforçados e empenhados e que merecem o aumento de regalias e vencimento que o Governo lhes vai já dar. É merecido e só espero que, caso Abrenúncio ganhe as eleições, não venha a retirar-lhes esse merecido prémio.

– Muito bem, professor. Só uma última pergunta: Já nos pode confirmar que se vai candidatar à Presidência da República? Já se decidiu?

Pardal de Sousa, desta vez, não gostou muito. Esta também não tinha sido combinada. José Aberto estava a abusar. Contudo, tinha que responder e sair-se bem. Só que, respondeu não olhando para o interlocutor, nem mesmo para a câmara:

– Ó José Aberto, você é mesmo um grande ficcionista. E como essa pergunta não estava no guião eu vou castiga-lo dizendo-lhe o seguinte: eu nunca falei em candidatar-me. Eu nunca disse isso. Eu estou como os magistrados. Eu estou enclausurado no castelo de Minerva, a Deusa da Sabedoria, e nem sequer sei se vai haver, ou quando vai haver, eleições Presidenciais.

Estátua de Sal. 07/05/2015

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Nove garantias e um bacalhau

(Nicolau Santos, in Expresso, 06/06/2015)

Nicolau Santos

    Nicolau Santos

Paulo Portas apresentou as nove garantias com que a maioria se vai apresentar às eleições de outubro. Dissequemo-las.

1 “Garantimos que Portugal não voltará a depender de intervenções externas e não terá défices excessivos.” Ora, isto é válido para quanto tempo? Funciona sempre? Só por quatro anos? Só com esta maioria? Como a resposta deve ser positiva, o que se deseja é longa vida e muita saúde aos drs. Pedro Passos Coelho e Paulo Portas. E que ganhem muitas eleições.

2 “Garantimos uma legislatura de crescimento económico, 2% a 3% nos próximos quatro anos.” Mas isto, claro, “se não existirem crises internacionais com efeitos sistémicos”. Não é grande garantia, mas reconhece que os acontecimentos externos têm algum impacto na nossa economia.

3 “Garantimos uma legislatura em que a redução continuada do desemprego seja a prioridade máxima.” Ainda bem, porque nos últimos quatro anos as políticas prosseguidas só podiam redundar numa explosão do desemprego, a que se tem seguido uma redução gradual. Mas resolver o desemprego com emigração, cursos temporários de formação profissional, pessoas que desistem de procurar emprego e são eliminadas das estatísticas e a criação de empregos precários e pouco qualificados pagos em média a €800 não resolve os problemas de competitividade do país.

4 “Garantimos a eliminação progressiva da sobretaxa de IRS e a recuperação gradual do rendimento dos funcionários públicos.” No fundo, a austeridade com esta maioria acaba em 2019, desmentindo várias declarações de Passos Coelho anunciando o fim de austeridade e que as medidas seriam pontuais. É caso para abrir as garrafas de champanhe. A austeridade vai durar somente nove anos!

Vamos colocar na Constituição a regra de ouro da dívida pública que vai ser violada até 2035? E ficámos a saber que com esta maioria a austeridade acaba em 2019

5 “Garantimos que as reformas na Segurança Social serão feitas por consenso e respeitarão a jurisprudência do Tribunal Constitucional.” E os €600 milhões que a ministra das Finanças disse ser necessário cortar nas pensões? Já não são necessários? Ou só são cortados se o PS concordar?

6 “Garantimos um Estado social viável e com qualidade.” Ainda bem, porque o que se fez durante estes quatro anos foi enfraquecer a função social do Estado, cortando o subsídio de desemprego, o rendimento social de inserção, o abono de família em todas as prestações sociais.

7 “Garantimos pugnar por inscrever na Constituição um limite à dívida pública.” Ora, com a dívida pública nos 130% do PIB, a redução para os 60% deverá demorar 20 anos, desde que existam excedentes primários anuais de 1,5% a 2%. Vamos colocar na Constituição uma regra que vai ser violada até 2035?

8 “Garantimos particular importância às questões da demografia, da qualificação das pessoas e da coesão do território.” Na atual legislatura a demografia levou uma forte machadada com a emigração de mais de 300 mil pessoas em idade ativa. Na qualificação das pessoas, o Governo liquidou as Novas Oportunidades e não criou nada em contrapartida.

9 “Garantimos um Estado mais justo e eficiente.” Seguramente que todos os portugueses subscrevem este ponto. Tem toda a razão o dr. Portas, estas garantias são o contrário dos “programas feitos com base num leilão de promessas, como se se tratasse de vender bacalhau a pataco”.


A luta de Salvador Guedes

Salvador Guedes preparou-se pessoal e profissionalmente para ser o sucessor do pai, Fernando Guedes, à frente dos destinos da Sogrape. Com os irmãos, Manuel e Fernando, tem conduzido a fase que caracteriza como de exportação do processo produtivo, depois de o pai ter consolidado a profissionalização e a evolução técnica da companhia e de o avô ter sido responsável pela criação do vinho mais conhecido a nível internacional da Sogrape, o Mateus Rosé. Infelizmente, não será ele a liderar o final desse processo. No Natal de 2011, teve os primeiros sintomas, em julho de 2012 soube que tinha esclerose lateral amiotrófica. Hoje é o rosto do projeto “Todos contra ELA”, que visa apoiar a APELA (Associação Portuguesa de Esclerose Lateral Amiotrófica). Na corajosa entrevista que deu a Ana Sofia Fonseca (Revista E da semana passada), Salvador Guedes não se mostra amargurado nem revoltado, antes luta contra o avanço da doença e procura ajudar outros que sofrem do mesmo mal. Há pessoas que não merecem o mal que a vida lhes reserva. Salvador Guedes é seguramente uma delas. Que vença a luta que trava é tudo o que se deseja.


Há fome em Portugal

O sucesso que o Banco Alimentar Contra a Fome tem vindo a conseguir em Portugal é preocupante. Com efeito, se hoje existem 21 bancos alimentares no continente, Açores e Madeira, isso só pode significar que as pessoas com carências alimentares (isto é, que não comem uma refeição decente por dia) estão a aumentar exponencialmente, apesar do maravilhoso sucesso do programa de ajustamento desenhado pela troika e entusiasticamente aplicado pelo Governo. Os bens alimentares recolhidos são entregues a 2650 instituições de solidariedade social para apoiar 425 mil pessoas, mais 100 mil que há três anos e mais do dobro de há dez anos. E há ainda as 800 cantinas sociais financiadas pelo Estado. Ou seja, pelo menos 5% da população portuguesa, meio milhão de pessoas, passa fome — que só é minorada por este notável esforço de solidariedade privada. Mas a quem é que interessa isto? São os danos colaterais do sucesso português.


Quem me quiser há-de saber as conchas

a cantiga dos búzios e do mar.

Quem me quiser há-de saber as ondas

e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes,

a laranjeira em flor, a cor do feno,

a saudade lilás que há nos poentes,

o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva

que põe colares de pérolas nos ombros

há-de saber os beijos e as uvas

há-de saber as asas e os pombos.

Quem me quiser há-de saber os medos

que passam nos abismos infinitos

a nudez clamorosa dos meus dedos

o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma

em que sou turbilhão, subitamente

— Ou então não saber coisa nenhuma

e embalar-me ao peito, simplesmente.

 (Rosa Lobato de Faria, in ‘Quem me quiser há-de saber as conchas…’ in “A Noite Inteira Já Não Chega — Poesia 1983-2010”, Guimarães 2012, Babel)

A reinvenção de Passos

(Pedro Adão e Silva, in Expresso, 06/06/2015)

Pedro Adão e Silva

                  Pedro Adão e Silva

Passos, que se apresentou como homem de ruturas e no Governo se revelou socialmente insensível, pretende agora recandidatar-se como referencial de estabilidade

Quando surgiu como candidato a líder do PSD, Passos Coelho surpreendia pela combinação de voluntarismo ideológico com radicalismo pueril. A sua proposta política não passava por gerir as coisas tal como tinham sido geridas. O propósito era mesmo mudar, para citar o título do livro que então publicou. Mudar o Estado, a sociedade portuguesa e, supõe-se, também os portugueses. Tudo com a densidade de pensamento que tem acompanhado a sua carreira.

Depois, aproximou-se a campanha eleitoral e com ela um chorrilho de falsas promessas. O candidato a líder de partido impetuoso, armado de uma revisão constitucional refundadora, era substituído pelo futuro primeiro-ministro que garantia que se fosse Governo não seria “necessário despedir pessoas nem cortar mais salários”; até porque era chegada a altura de “cortar em gorduras e de poupar. O Estado vai ter de fazer austeridade, basta de aplicá-la só aos cidadãos”. Afinal, tinha de “se dizer basta: a austeridade não pode incidir sempre no aumento de impostos e no corte de rendimento”.

Alçado ao Governo, emergiu outro Passos Coelho — diferente do pós-jota candidato a líder do PSD e do futuro primeiro-ministro em campanha. O palco político passava a ser ocupado pelo homem austero, desprovido de compaixão, que dava asas ao experimentalismo nas políticas e via no desemprego “uma oportunidade”, aconselhava os portugueses a serem “menos piegas” e a deixarem a sua zona de conforto, emigrando. A imagem colou-se-lhe, e mesmo quando os portugueses lhe reconhecem a obstinação, não esquecem a falta de humanismo e a distância perante o sofrimento concreto das pessoas. Sintomaticamente, “Somos o Que Escolhemos Ser”, essa obra de fino recorte literário que percorre os episódios da vida de Pedro, não podia ser mais distante de “Mudar” e não tem outra preocupação que não seja humanizar, de forma irremediavelmente tosca, o Pedro frio e insensível que os portugueses hoje identificam.

As eleições são sempre um momento de avaliação da legislatura que termina e de posicionamento perante o que se anuncia para os próximos anos. Daí que, esta semana, Passos Coelho não tenha hesitado em reinventar-se uma vez mais, procurando livrar-se do passado que se lhe colou. Na apresentação do “programa” eleitoral, deu garantias de que os próximos anos serão de “segurança, estabilidade, previsibilidade” e em tom confessional disse mesmo, “que bom para os portugueses não terem de viver em sobressalto à espera de novas medidas, de novos desenlaces, sem saber o que é que poderia acontecer”.

O mesmo Passos Coelho que se apresentou como um homem de ruturas, para logo se transformar num candidato de mentiras, e que no Governo se revelou socialmente insensível, pretende agora recandidatar-se como referencial de estabilidade. São demasiadas reinvenções em muito pouco tempo: à primeira, caem muitos; à quarta, já só cai mesmo quem quer.