Bom Natal

(Por Estátua de Sal, 23/12/2016)

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Natal. Seja lá o que isso for.

Não é por fazermos votos de bom Natal que passaremos a ter um Mundo melhor. Nem que a vida passe a ser melhor para milhões de deserdados e sofredores da iniquidade e de um sistema económico que prospera cada vez mais para poucos em detrimento da grande maioria.

Mas as comunidades também vivem de rituais e da partilha de comportamentos. As tradições são isso mesmo. Uma herança da memória de outros tempos, por vezes atavismos fora de época.
E essa partilha pode gerar uma resultante social, positiva ou não, construtiva ou não. Dinâmica para a esperança ou dinâmica para coisa nenhuma.

Natal. Seja lá o que isso for, é pelo menos uma pausa na rotina de muitos de nós. Algumas liturgias tomam conta do quotidiano. As prendas, as crianças, as ceias, os encontros e reencontros familiares, os presépios e outros símbolos para os crentes e até para os menos crentes.

E por isso mesmo, quer queiramos quer não, o Natal é sempre uma singularidade, no percurso do calendário anual. Quer para os que o vivem em esperança, em fervor e em otimismo, quer para os que amargamente sofrem o desânimo de nada ter para vivenciar, e para os quais o Natal é apenas mais um dia no caminho de um calvário repetido e constante. Lembremo-nos desses, reflitamos porque são as coisas assim e questionemos porque terão que ser assim.

E para que se mantenha a tradição, para todos os meus amigos e para todos os que me lêem. aqui ficam os meus votos de Bom Natal. Seja lá o que isso for. Seja lá o que cada um queira que seja.

 

“Não consigo encontrar a esperança”

(Entrevista a John Le Carré, in Expresso, 23/10/2016)

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No dia 25 de abril de 2013, quando John Le Carré lançou o seu 23.º romance, o Expresso foi entrevistá-lo a Londres. Agora, que acaba de lançar a coleção de memórias “O Túnel de Pombos – Histórias da Minha Vida”, republicamos a entrevista que lhe fizemos, publicada originalmente na revista de 23 de maio de…


Vivemos num mundo de convencionalismos superficiais, pensamos todos da mesma maneira e queremos todos comprar as mesmas coisas…

Se é verdade que o homem nunca foi tão livre, também nunca esteve tão acorrentado. Não sei onde está a esperança. Gostava de saber. Escrevi para a personagem Smiley [“O Peregrino Secreto”, 1990] um discurso em que ele diz aos jovens elementos dos serviços secretos: “Lidámos com o comunismo, agora temos de lidar com o capitalismo e os seus excessos e a seguir saber onde está a esperança.” Não consigo encontrar a esperança neste momento. Continuo à procura dela para perceber onde é que os meus filhos e os meus netos irão viver. A grande desvantagem de ser velho é perceber que pouco ou nada muda. Em 1956, 30 pessoas do meu departamento tinham estudado no Eton College. Não poderia imaginar que 60 anos depois iríamos continuar a ser governados por rapazes brancos e chiques de Eton. Para mim, é um mistério que seja assim, porque tivemos vários governos com um rosto aparentemente socialista e oportunidades de nos libertar de imensas coisas… Não aproveitámos. Podemos mudar de classe social por dinheiro ou casamento, mas continuamos a ter classes muito definidas. O establishment é quase sempre definido pelo acesso aos serviços secretos. A elite define-se a ela própria pelo que sabe, e é isso que a separa dos ignorantes. Mas o que a elite sabe não é necessariamente a verdade, como se viu na guerra do Iraque.

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ver restante texto em  “Não consigo encontrar a esperança” — Expresso