Da tribuna da Assembleia da República, a Ministra da Saúde assumiu a – “total” -responsabilidade dos desaventos, tragédias e erros praticados no e pelo seu ministério. E por si. Referia-se à grosseira incompetência no(s) caso(s) do INEM, mas ela bem sabe que há mais, muito mais.
Em todos os casos, em diversas áreas da saúde, a ministra demitiu-se de responsabilidades, atribuindo-as a outros – não raro demitindo-os a eles – ou à treta da “pesada herança”, a qual, a existir, mais devia ser um desafio à superação que uma pastosa desculpa para inércia.
Por todo o lado alguns dos melhores, perante os dislates da criatura, tomam a iniciativa de abandonar. É, de resto, um dos efeitos mais graves de que sofrem as instituições do Estado quando este é governado por incompetentes e trastes movidos por muitas e várias motivações que não as do serviço público – partem os melhores, por se recusarem a pactuar.
Mas voltemos ao princípio, ao momento em que a ministra assumia as suas responsabilidades. É que todos ficamos suspensos, esperando a mais do que provável demissão da senhora. Mas não! Diz ela que fica. E fica para resolver os problemas do sector. Ela, que, em tão pouco tempo, se tornou uma perita em criar problemas. Ela, que tem ostentado a mais insuportável irresponsabilidade. Ela, que reage aos mais tristes eventos ocorridos sob a sua guarda com uma insensibilidade quase patológica. Ela, cujos ódios de estimação parecem já ter interferido no desempenho de um cargo que devia ser invulnerável a caprichos pessoais. Ela fica.
Lembremos, devagar para até a senhora ministra e os seus admiradores perceberem: assumir a responsabilidade em situações como esta, é uma admissão que não se esteve à altura, que se prejudicaram pessoas e instituições por incapacidade para cumprir. Portanto, deixa-se a outro a oportunidade de fazer melhor, de mostrar uma competência de que não se foi capaz. Assumir responsabilidades implica um gesto, uma assunção de impotência e uma inevitável consequência, a partida. Não acontecendo isto, é apenas retórica para palermas que, parece, a ministra pensa que todos somos.
A ministra fica. Esperando, talvez, que os mortos do futuro lhe perdoem a insensatez. Já agora: o primeiro-ministro está feliz. Porque não é melhor que isto. Porque, simplesmente, não presta.
1 Uma eurodeputada do PS indignou-se porque a Grécia excluiu os portugueses da lista dos visitantes que está disposta a receber como turistas este Verão. Ela quer que a Comissão Europeia intervenha junto dos gregos, revertendo uma decisão que lhe parece inaceitável face ao conhecido “sucesso” de Portugal no combate ao coronavírus. Parece-me uma pretensão absurda: a Grécia — um dos países europeus que realmente registou um sucesso notável na luta contra a pandemia, apesar de albergar centenas de milhares de refugiados sírios — tem todo o direito de decidir quem são os visitantes que considera seguros ou perigosos do ponto de vista da saúde pública. Nós é que, como se vai vendo, não temos critério algum: entram todos livremente e a todo o tempo e venham de onde vierem, desde que venham fazer turismo e até, se necessário for, através de “corredores turísticos” — a favor de ingleses, por exemplo — que os dispense, aqui e no regresso, de quaisquer maçadas sanitárias.
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO
Por sua vez, Eduardo Cabrita, o ministro da Administração Interna, interrogado sobre quando reabriria a fronteira com Espanha, deu uma de macho lusitano, respondendo que não antes de 15 de Junho, pois que a Espanha ainda tinha a situação de saúde por controlar. Porém, adiante descaiu-se e lembrou que a própria Espanha tinha determinado o encerramento da fronteira até ao final do mês. Assim é: desta vez, e sem nos consultar, ao contrário do que ficara estabelecido quando do encerramento por mútuo acordo, a Espanha anunciou, já há semanas, que a fronteira terrestre com Portugal permaneceria fechada, seguramente até 1 de Julho. E a Renfe, a operadora pública da ferrovia espanhola, acaba de encerrar as duas ligações a partir de Portugal a Espanha e à Europa. (Houve depois uma pequena confusão, com a ministra espanhola do Turismo a anunciar que a fronteira abriria a 22, o nosso ministro dos Estrangeiros a afirmar que quem decidia a abertura da nossa fronteira éramos nós e Madrid a confirmar que vai abrir dia 1). Confusões diplomáticas à parte, dá-se coincidentemente o caso de a situação ainda descontrolada de que fala o ministro português em Espanha vir registando, desde há vários dias, menos casos de novos infectados que Portugal e registar, de segunda a esta quinta, um total de seis pessoas mortas do coronavírus (quando chegaram a morrer quase mil por dia…), enquanto que no mesmo período morreram 50 em Portugal. Eu, obviamente, não percebo nada do assunto, e, quanto mais oiço os especialistas, menos esclarecido fico. Mas, se repararmos que Portugal é um dos poucos países na Europa onde o vírus continua a matar paulatinamente, creio que o tal caso de “sucesso” já foi, mas já não é.
Foi muito bom enquanto foi preciso evitar o crescimento exponencial e a sobrecarga do SNS, cujas UCI nunca estiveram acima dos 60% e só episodicamente. Continuou muito bom quando nos pediram para continuar em casa para que a malfadada curva se achatasse. Mas, uma vez achatada, o raio da curva nunca mais passou daí, do estado de chata. São focos localizados, são populações particularmente vulneráveis, são testes a mais, é isto ou aquilo, mas os números aí estão, teimosamente iguais, dia após dia, semana após semana.
Pior, e verdadeiramente intrigante: o número de mortos não há maneira de se apagar, variando sempre entre os 10 e os 16 (com excepção dos 8, de quinta-feira). Tanto mais intrigante quanto o número de doentes em UCI — os mais graves — vem caindo sustentadamente. Há menos doentes graves e sempre os mesmos mortos? Quem explica isto?
2 Sou admirador sincero de Bruno Nogueira e ainda mais nos tempos que correm, em que ele parece ser a única alternativa consistente ao humorista oficial do regime e às suas estafadas entrevistas às figuras do regime. Porém, ao contrário de muitos, não tive ocasião de o seguir na sua empreitada de confinamento, pois que não tenho vida nas redes sociais, ocupado que ando na outra vida, a qual pouco tempo de sobra e nenhum interesse me deixa para partilhar a vida dos outros ou andar a oferecer o diário da minha. (Sim, já sei que se passam lá coisas interessantíssimas. Mas também sei e estou informado que se vomitam lá coisas que, podem crer, é um privilégio não ter de acompanhar, poupando-me diariamente ao espectáculo da alarvidade humana à solta em todo o seu esplendor).
Adiante, ao Bruno Nogueira e à Manuela Azevedo, de quem também sou admirador, há anos. Na belíssima Praça de Toiros do Campo Pequeno — que, como o nome indica, foi construída para correr toiros, mas que entretanto foi comprada por quem se dedica a outro ramo de espectáculo — resolveram eles dar o primeiro grande concerto de música ao vivo pós-covid. Aliás, dois concertos, com 2200 pessoas cada um — com distância de segurança nas entradas, nos lugares, etc. e tal. E bilhetes esgotados na net em 11 minutos, como não se cansaram de nos repetir. Não sei se foi autorizado previamente pela DGS ou só a posteriori, ou se nem chegou a ser: nestas matérias, abunda a confusão e o casuísmo, como já vamos aprendendo. O certo é que, apesar de, tanto quanto sei, ainda estar em vigor uma norma que proíbe ajuntamentos de mais de 20 pessoas, apesar de Lisboa registar 90% dos casos de novos infectados, seguramente que quem de direito não viu qualquer perigo para a saúde pública destes dois concertos. De outro modo nem se perceberia que no primeiro estivesse o primeiro-ministro e no segundo o Presidente da República. E não será, seguramente, a sua simples presença que tem o dom de tornar legal o que a lei classifica como ilegal: isto não é uma monarquia nem o governo do Sr. Boris Johnson, onde, para efeitos, de covid, uns são mais iguais do que outros.
E, justamente porque assim é, coloca-se a pergunta: se na Praça de Toiros do Campo Pequeno pode haver concertos de música, porque não pode haver touradas — ali e em praça alguma, mantendo as mesmas regras? Porque razão a senhora ministra da Cultura (presente no concerto, ao lado do PM), apoia os músicos e nem sequer se digna responder ao pessoal da tauromaquia? Achará que eles também não têm despesas para pagar, empregos para manter, famílias para sustentar? Ou, hipótese que me recuso a equacionar, a sua conhecida repulsa pelas touradas determina as suas decisões como governante, confundindo o que é uma legítima opinião de cidadã com um inadmissível abuso de autoridade democrática?
Mas deixem-me esclarecer que não sou frequentador de touradas, só ocasionalmente e na televisão, quando ainda estavam autorizadas transmissões televisivas. Sou, sim, frequentador da liberdade — a minha e a dos outros. E, sobretudo, há uma coisa, na política, que me repugna, muito mais do que as touradas repugnam a Graça Fonseca: a subserviência dos políticos perante o politicamente correcto. Se a ministra da Cultura, o PM e o PR foram a correr ver o concerto de Bruno Nogueira e viram as costas àqueles (e outros haverá) que têm o direito de exigir igual tratamento, é porque lhes disseram que “Bruno Nogueira é que está a dar”, enquanto que andar próximo do mundo das touradas não é recomendável. Saudosos tempos em que os políticos tinham ideias próprias de que não abdicavam, a vida de cada um era a vida de cada um e o povo que hoje eles beijam nas redes sociais e com que tiram selfies lia jornais e procurava andar informado, em lugar de os exterminar depois de ódio e difamações no conforto das redes sociais!
Às vezes dou comigo a pensar que, se se trata de avaliar um político, é mais honesto ser como Donald Trump, que não pretende enganar ninguém: é um dos maiores malfeitores que a Humanidade já pariu e desgraçadamente tem o poder e o narcisismo patológico suficientes para rebentar com a Humanidade inteira. Mas esse não disfarça, não beija nem abraça qualquer um e insulta livremente quem lhe apetece. Num Twitter perto de si.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
Se o leitor ou a leitora tem estado com atenção, estes dias recentes têm demonstrado uma das características mais divertidas do discurso político em Portugal: essa curiosa mistura de presunção e pesporrência, que tem erguido brilhantes carreiras pelo menos desde o Conde de Abranhos. Se para mais tivermos alguém que precise de se afirmar neste campeonato do peito feito, então a receita é certa, vai haver superlativos.
Hugo Soares, novel líder parlamentar do PSD, logo que Montenegro decidiu antecipar a sua preparação para a disputa pela liderança do partido, sagrou-se campeão neste tormentoso caminho, ao anunciar um ultimato mal tomou posse: aqui estou e de voz grossa, ou o governo cede em 24 horas, nem mais uma, ou então cai o Carmo e a Trindade, nem imaginem o que vai acontecer. O atrevimento merece consideração, pois representa toda uma educação, um savoir faire, um treino que vem de longe e uma ambição que aponta para voos altos. Na frase pesada, na pose solene, no queixo aprumado, está toda uma política. Ou se chegam em 24 horas, ou nem sabem o que vai acontecer.
Não tinha resultado bem da primeira vez, quando Hugo Soares veio exigir um referendo sobre a adopção por casais homossexuais, esclarecendo aliás que todos os direitos podem ser sujeitos a referendo. À distância, bem se pode apreciar a insignificância da demanda, o desconcerto com o tempo, o absurdo da doutrina referendária (o PSD, como os outros partidos, nem quer ouvir falar de referendos, muito menos abrir a caixa de Pandora do conflito constitucional). Mas, enfim, era um líder da JSD, era uma manobra de diversão, mesmo que pouco divertida, e ninguém levava a mal, como no Carnaval. Agora, seja porque dessa vez foi levezinho, seja porque se trata já do líder parlamentar, o ultimato tinha de ser mais ameaçador: ou 24 horas ou isto vai raso.
Só que, por vezes, a precipitação é má conselheira. O jovem advogado e agora líder esqueceu-se de que o ultimato estava a bater a porta errada, e não se dirigia ao governo, antes à Procuradora-Geral da República, e que portanto não era questão política, mas judiciária. Depois, quando o ultimato foi ganhando forma, esclareceu-se que redundaria na tremenda convocação de uma reunião da comissão permanente da Assembleia da República. Na emergência nacional, afinal estamos a falar de uma ditadura que ocultaria lista de mortos por sinistros motivos, poderia ser a convocação extraordinária do plenário da Assembleia, podia ser uma moção de censura, podia ser uma manifestação dos generais do PSD com espadas à porta de Belém, podia ser tudo (e aliás Assunção Cristas, cavalgando a onda, esclareceu logo que, por ela, ia mesmo ser tudo, “não abdico de nenhum instrumento legal”), afinal era uma reunião da comissão permanente, um susto.
Bastou então que as autoridades judiciárias fizessem um comunicado e, o respeitinho é muito bonito, Hugo Soares veio declarar que a partir de então ficava sem efeito o ultimato, que a reunião não era precisa, que vamos conversando, que isto está tudo a ir para férias. De Assunção Cristas e da sua moção de censura, nada mais se soube.
Entradas de leão, saídas de sendeiro, ou segura-me se não eu bato-lhe, tudo isto é uma maçadora repetição de um discurso político que começou em tragédia com o anúncio dos falsos suicidados de Pedrógão e termina com esta farsa de aproveitamento político dos mortos verdadeiros. Mas é a isto que estamos reduzidos quando faltam argumentos onde sobra azedume, não é?
NB– Agostinho Lopes, dirigente do PCP, resolveu atacar-me pessoalmente como forma de defender as ideias, para mim surpreendentes, de que o controlo do Estado sobre as terras sem proprietário é um “esbulho” e que a dispersa e desaproveitada propriedade da floresta não é problema incendiário. Conhecendo a sua elegância e cordialidade desde quando convivemos no parlamento, percebo as circunstâncias políticas que levaram ao seu excesso e ponho por isso uma pedra sobre o assunto.