Como Washington e Ancara mudaram o regime de Damasco

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 17/12/2024, Trad. Estátua)

Abu Mohammed al-Joulani, antigo número 2 do Daesh, agora o novo mestre de Damasco, dá uma conferência de imprensa na grande mesquita dos Omeyyades.

Em 11 dias, a República Árabe da Síria, que desde 2011 resistiu corajosamente aos ataques dos jihadistas apoiados pela maior coligação da história, foi derrubada. O que é que aconteceu?


Com uma surpreendente desenvoltura, a imprensa internacional garante-nos que não estamos a assistir a uma mudança de regime militar na Síria, mas a uma revolução que derruba a República Árabe Síria. A presença do exército turco e das forças especiais americanas é-nos ocultada. Alimentam-nos com propaganda, repetidamente desmentida, sobre os crimes atribuídos a “Bashar”. Os assassinos canibais estão a ser transformados em revolucionários respeitáveis. Mais uma vez, a imprensa internacional mente-nos conscientemente.

Em 11 dias, a República Árabe da Síria, que desde 2011 resistiu corajosamente aos ataques dos jihadistas apoiados pela maior coligação da história, foi derrubada. O que é que aconteceu?

Em primeiro lugar, desde 15 de outubro de 2017, os Estados Unidos organizaram um cerco à Síria, proibindo-lhe todas as trocas comerciais e a participação das Nações Unidas na sua reconstrução [1]. Em 2020, esta estratégia foi alargada ao Líbano com a Lei César [2]. Nós, os membros da União Europeia, participámos todos neste crime. A maioria dos sírios estava subnutrida. A libra tinha entrado em colapso: o que valia 1 libra antes da guerra, em 2011, valia 50.000 quando Damasco caiu (a libra foi revalorizada três dias depois graças a uma injeção de dinheiro do Catar). Como as mesmas causas têm sempre os mesmos efeitos, a Síria foi derrotada como o Iraque antes dela, quando a secretária de Estado Madeleine Albright se felicitou por ter provocado a morte de meio milhão de crianças iraquianas por doença e subnutrição.

Por outro lado, se foram os jihadistas do Hayat Tahrir al-Sham (HTS) que tomaram Damasco, não foram eles que venceram militarmente. Em 27 de novembro, o HTS, armado pelo Catar e apoiado pelo exército turco disfarçado de “Exército Nacional Sírio” (SNA), tomou o controlo da autoestrada M4, que servia de linha de cessar-fogo. Além disso, o HTS e a Turquia dispunham de drones de alto desempenho manobrados por conselheiros ucranianos. Por fim, o HTS levou consigo a colónia uigure do Partido Islâmico do Turquestão (TIP) que estava entrincheirada em al-Zanbaki há 8 anos [3]. Os teatros de operações israelita, russo e chinês fundiram-se assim.

Estas forças atacaram então Alepo, até então defendida pelos Guardas da Revolução iranianos. Os guardas revolucionários iranianos retiraram-se sem dizer uma palavra, deixando uma pequena guarnição do Exército Árabe Sírio a defender a cidade. Perante a desproporção de forças, o governo sírio ordenou às suas tropas que se retirassem para Hama, o que aconteceu a 29 de novembro, após uma breve batalha.

Em 30 de novembro, o presidente sírio Bashar al-Assad deslocou-se à Rússia. Não para assistir ao exame que o seu filho Hafez estava a fazer na universidade de Moscovo onde estudava, mas para pedir ajuda. As forças russas na Síria só podiam bombardear os contingentes jihadistas, porque só são transportados por via aérea. Por isso, tentaram bloquear a rota ao HTS e à Turquia. Não podiam intervir no terreno contra eles. Alepo estava de facto perdida. Aliás, o presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, seguindo a tradição do seu país [4], jamais reconheceu a perda dos territórios otomanos da Grécia (Salónica), da ilha de Chipre, da Síria (Alepo) e do Iraque (Mossul).

Com as células jihadistas adormecidas reactivadas pela Turquia, o Exército Árabe Sírio, já exausto, teve de lutar em todas as frentes ao mesmo tempo. Foi o que tentou fazer, em vão, o general Maher el-Assad (irmão do presidente).

Ali Larijani, enviado especial do aiatolá Ali Khamenei, deslocou-se a Damasco para explicar a retirada dos Guardas da Revolução de Alepo e para definir as condições da ajuda militar da República Islâmica do Irão, culturalmente espantosas para um Estado laico.

Numa conversa telefónica com o seu homólogo iraniano, Masoud Pezeshkian, o presidente Bashar al-Assad afirmou que a “escalada terrorista” tinha como objetivo

tentar dividir a região, desmoronar os seus Estados e redesenhar o mapa regional de acordo com os interesses e objectivos da América e do Ocidente.

No entanto, o comunicado de imprensa oficial não transmite o clima da conversa. O presidente sírio quis saber quem tinha dado a ordem aos Guardas da Revolução para abandonarem Alepo. Não obteve resposta. Depois, avisou o presidente Pezeskhian das consequências para o Irão se a Síria caísse. Nada aconteceu. Teerão continua a exigir que lhe sejam entregues as chaves da Síria para a defender.

A 2 de dezembro, o general Jasper Jeffers III, comandante-em-chefe das Forças Especiais dos Estados Unidos (UsSoCom), chega a Beirute. Oficialmente, vinha controlar a aplicação do cessar-fogo oral israelo-libanês. Dadas as suas funções, é evidente que esta será apenas uma parte da sua missão. Ele irá supervisionar a tomada de Damasco pela Turquia atrás do HTS.

Perante uma força desproporcionada, o governo sírio ordenou às suas tropas que se retirassem para Hama, o que aconteceu a 29 de dezembro. A 5 de dezembro, os Estados Unidos renovaram no Conselho de Segurança das Nações Unidas as suas acusações de que o presidente Bashar al-Assad estaria a utilizar armas químicas para reprimir o seu próprio povo. Ignoram as numerosas objecções, testemunhos e investigações que demonstraram que estas acusações não passam de propaganda de guerra. As armas químicas são o primeiro argumento da gigantesca máquina de persuasão anglo-saxónica. Foram as armas químicas que permitiram a Jeffrey Feltman, o número 2 das Nações Unidas, proibir a reconstrução da Síria. Foram eles que convenceram a opinião pública ocidental de que “Bashar é o carrasco de Damasco” e o responsabilizaram por todas as mortes na guerra contra o seu país.

Ao mesmo tempo, o Pentágono dizia ao HTS e ao exército turco que podiam prosseguir o seu avanço, tomar Damasco e derrubar a República Árabe Síria.

Em 6 e 7 de dezembro, realizou-se no Catar o Fórum de Doha. Participaram muitas personalidades do Médio Oriente, bem como o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov. À margem do Fórum, foi dada à Rússia, em representação do presidente al-Assad, a garantia de que os soldados do Exército Árabe Sírio não seriam perseguidos e que as bases militares da Federação Russa não seriam atacadas. Também foi dada uma garantia ao Irão de que os santuários xiitas não seriam destruídos, mas parece que Teerão já estava convencido disso.

De acordo com Hakan Fidan, ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Benjamim Netanyahu e Joe Biden consideraram que a operação deveria terminar ali. Foi o Pentágono que decidiu, com o Reino Unido, continuar até ao derrube da República Árabe Síria [5].

Em Nova Iorque, o Conselho de Segurança adoptou por unanimidade a resolução 2761 [6]. Ela autoriza que as sanções contra os jihadistas não sejam respeitadas durante as “operações humanitárias”.

As Nações Unidas, que nunca autorizaram a ajuda às populações esmagadas sob o jugo do Daesh, autorizaram subitamente o comércio com o HTS.

Esta reviravolta do Conselho de Segurança está de acordo com as instruções do conselheiro da ONU Noah Bonsey, como ele já havia sugerido em fevereiro de 2021, quando trabalhava para George Soros [7].

Abu Mohammed al-Jolani, o líder do HTS, dá uma entrevista a Jomana Karadsheh para a CNN. Ela sublinhou o facto de o sítio Rewards for Justice do Departamento de Estado continuar a oferecer 10 milhões de dólares por qualquer informação que leve à detenção do líder jihadista [8].

No dia 7 de dezembro, o HTS e a Turquia tomaram a prisão de Saïdnaya. A prisão de Saïdnaya foi um dos principais alvos da propaganda de guerra, que a apelidou de “matadouro humano”. Afirma-se que milhares de pessoas foram aí torturadas e executadas e que os seus cadáveres foram incinerados num crematório. Durante três dias, os Capacetes Brancos, uma ONG que tanto salvou vidas como participou em massacres, vasculharam a prisão e os seus arredores à procura de passagens subterrâneas secretas, câmaras de tortura e um crematório. Infelizmente, não encontraram provas dos crimes que tinham denunciado. No final, a jornalista Clarissa Ward encenou para a CNN a libertação de um prisioneiro que não via a luz do dia há três meses, mas que estava limpo, bem vestido e com as unhas aparadas [9].

As acusações de tortura e de execuções sumárias são tanto mais difíceis de suportar quanto Bashar al-Assad emitiu instruções em 2011 proibindo todas as formas de tortura, criou um Ministério da Reconciliação Nacional encarregado de reintegrar os sírios que se juntaram aos jihadistas e aplicou amnistias gerais cerca de quarenta vezes.

A 8 de dezembro, o presidente Bashar al-Assad ordenou aos seus homens que depusessem as armas. Damasco caiu sem um único golpe. Os jihadistas desfraldaram imediatamente cartazes impressos com antecedência e afixaram o símbolo do novo regime nos seus uniformes. O antigo combatente da Al-Qaeda, depois número 2 do Daesh, Abu Mohammed al-Jolani, cujo verdadeiro nome é Ahmad el-Shara, tomou o poder. Rodeado de conselheiros de comunicação britânicos, faz um discurso na Grande Mesquita Umayyad, inspirado no discurso do califa do Daesh, Abu Bakr al-Baghdadi, na Grande Mesquita Al-Nuri, em Mossul, em 2019.

O HTS trata atualmente os cristãos como mustamin (classificação islâmica para estrangeiros não muçulmanos que residem de forma limitada em território muçulmano), poupando-os ao pacto dhimmi (uma série de direitos e deveres reservados aos não muçulmanos) e ao pagamento do imposto jizya.

Em setembro de 2022, pela primeira vez numa década, realizou-se uma cerimónia em honra de Santa Ana na igreja arménia de al-Yacoubiyah, na zona rural de Jisr al-Shugur, a oeste de Idlib.

Três mil soldados do Exército Árabe Sírio exilam-se no Iraque. São desarmados e alojados em tendas no posto fronteiriço de Al-Qaim, sendo depois transferidos para uma base militar em Rutba. Bagdade anunciou que estava a tentar obter garantias de que poderiam regressar a casa [10].

As Forças de Defesa de Israel (FDI) lançaram uma operação para destruir os equipamentos e as fortificações do Exército Árabe Sírio. Em quatro dias, 480 bombardeamentos afundaram a frota e incendiaram os arsenais e os armazéns. Ao mesmo tempo, equipas terrestres assassinaram os principais cientistas do país.

Depois de mostrar aos jornalistas as fortificações sírias vazias ao longo da costa, Benny Kata, um comandante militar local, disse aos seus convidados: “É evidente que vamos ficar aqui durante algum tempo. Estamos preparados para isso.”

As FDI já estão a invadir a Síria um pouco mais longe, para além da linha de cessar-fogo nos Montes Golã, que ocupam. Anunciam a criação de uma nova zona tampão em território sírio, para proteger a atual zona tampão, em suma, para a anexar. Anexaram também o Monte Hermon para poderem vigiar toda a região.

A 9 de dezembro, o general Michael Kurilla, comandante-em-chefe das forças americanas no Médio Oriente Alargado (CentCom), deslocou-se a Amã para se encontrar com o general Yousef Al-H’naity, presidente do Estado-Maior jordano. Reafirmou o empenhamento dos Estados Unidos em apoiar a Jordânia caso surjam ameaças provenientes da Síria durante o atual período de transição.

No dia 10 de dezembro, o general Michael Kurilla visitou as suas tropas e as das Forças Democráticas Sírias (mercenários curdos) em várias bases na Síria. Concebeu um plano para garantir que o Daesh não saísse da zona que lhe foi atribuída pelo Pentágono e não interferisse na mudança de regime em Damasco. Os bombardeamentos intensos impediram imediatamente a aproximação do Daesh.

O HTS nomeou Mohammed al-Bashir, antigo “governador” jihadista de Idlib, como primeiro-ministro do novo regime. É membro da Irmandade Muçulmana, patrocinada pelo MI6 britânico. A França, que tinha negociado a nomeação de Riad Hijab (antigo secretário do Conselho de Ministros em 2012) com o seu enviado especial, Jean-Yves Le Drian, apercebeu-se de que tinha sido enganada.

Nessa mesma noite, já não estava em causa a possibilidade de Jean-Yves Le Drian se tornar primeiro-ministro de França. Em vez disso, o Eliseu convidou o procurador antiterrorista de Paris a aparecer no noticiário da France 2. Este pôs fim à aclamação do novo poder em Damasco e lamentou o facto de o HTS ter estado envolvido no assassinato do professor francês Samuel Patty (2020) e no massacre de Nice (86 mortos, em 2016). A imprensa francesa mudou de tom e começou a questionar o novo poder que a imprensa internacional continuava a apresentar como respeitável.

A 11 de dezembro, as principais facções palestinianas presentes na Síria (Frente de Libertação da Palestina, Frente Democrática para a Libertação da Palestina, Movimento Jihad Islâmica, Frente de Luta Popular Palestiniana e Comando Geral) reuniram-se em Yarmouk (Damasco) na presença de delegados do HTS (Departamento de Operações Militares). A Fatah e o Hamas não participaram na reunião. Foi-lhes pedido que fizessem a paz com o seu aliado israelita. Foi decidido que nenhuma fação teria um estatuto privilegiado e que todas seriam tratadas em pé de igualdade. Cada grupo comprometeu-se a depor as armas.

O general Michael Kurilla deslocou-se sucessivamente ao Líbano e a Israel durante três dias. Em Beirute, encontrou-se com o general Joseph Aoun, comandante das forças armadas libanesas, e sobretudo com o seu colega, o general americano Jasper Jeffers III. Em Telavive, encontrou-se com todos os chefes de Estado-Maior israelitas e com o ministro da Defesa, Israel Katz. Afirmou:

A minha visita a Israel, bem como à Jordânia, à Síria, ao Iraque e ao Líbano nos últimos seis dias, sublinhou a importância de ver os desafios e as oportunidades actuais através dos olhos dos nossos parceiros, dos nossos comandantes no terreno e dos nossos militares. Precisamos de manter parcerias fortes para enfrentar as ameaças actuais e futuras à região.

A 12 de dezembro, Ibrahim Kalin, diretor da Organização Nacional de Informações Turca (Millî İstihbarat Teşkilatı – MIT), é o primeiro alto funcionário estrangeiro a visitar o novo poder em Damasco. No mesmo dia, os mercenários curdos, que administram o nordeste da Síria para o exército de ocupação norte-americano, içam a nova bandeira verde, branca e preta de três estrelas do país, a do mandato francês. Kalin será seguido, a 15 de dezembro, por uma delegação do Catar.

Para validar as acusações de tortura contra o antigo regime, Clarissa Ward, definitivamente em forma, encena para a CNN cadáveres encontrados na morgue de um hospital de Damasco, tal como a mesma CNN tinha encenado os de uma morgue em Timisoara durante o derrube do regime de Ceausescu em 1989 [11].

Entretanto, de acordo com as Nações Unidas, mais de um milhão de sírios estão a tentar fugir do seu país. Não acreditam que os jihadistas do HTS se tenham tornado subitamente civilizados.

Fonte aqui.


Notas

[1] « Paramètres et principes de l’assistance des Nations Unies en Syrie », par Jeffrey D. Feltman, Réseau Voltaire, 15 octobre 2017.

[2] « Selon Hassan Nasrallah, les États-Unis veulent provoquer la famine au Liban », Réseau Voltaire, 17 juin 2020.

[3] « Les 18 000 Ouïghours d’Al-Qaïda en Syrie », Réseau Voltaire, 19 août 2018.« La CIA et les jihadistes ouïghours », Réseau Voltaire, 16 décembre 2019. « Uyghur fighters in Syria vow to come for China next », Sophia Yan, The Telegraph, Decembrer 13, 2024.

[4] « Serment national turc », Réseau Voltaire, 28 janvier 1920.

[5] « Fidan : Nous avons négocié avec la Russie et l’Iran pour qu’en Syrie, ça se passe sans effusion de sang », Anadolu Agency, 13 décembre 2024. « “Israël ne voulait pas qu’Assad tombe”, affirme le chef de la diplomatie turque », I24 News, 16 décembre 2024.

[6] « Résolution portant exemption des sanctions contre les jihadistes », Réseau Voltaire, 6 décembre 2024.

[7] « In Syria’s Idlib, Washington’s Chance to Reimagine Counter-terrorism », New Crisis Group, Noah Bonsey & Dareen Khalifa, February 2021.

[8] « Muhammad al-Jawlani », Rewards for Justice, site consulté le 14 décembre 2024.

[9] « ‘Are you serious ?’ : He spent months in a Syrian prison. CNN’s camera caught the moment he’s freed, Clarissa Ward, CNN, December 11, 2024.

[10] « خاص »
محمد عماد, 11 ديسمبر

[11] « Battered corpses show the horrors of life and death under Syria’s Assad », CNN December 12, 2024.

“Lentamente, as mulheres serão retiradas da vida pública”

(Ana França em entrevista a Karim Franceschi, in Expresso, 16/12/2024)

Karim Franceschi

Combateu quase cinco anos contra grupos em quase tudo semelhantes aos que destronaram Bashar al-Assad na Síria e por isso não vê como é que no Ocidente as pessoas parecem ter esperança num governo pluralista ou inclusivo. Karim Franceschi, ex-comandante da Brigada Internacional que combateu o Daesh, diz ao Expresso que a nova Síria, aos poucos, vai transformar-se num sítio muito escuro para as mulheres.


Karim Franceschi nasceu em 1989 em Casablanca, filho de um antigo guerrilheiro toscano que lutou contra os fascistas nas montanhas da Toscana durante a Segunda Guerra Mundial, de quem herdou o compromisso com uma ideia de sociedade anticapitalista. A mãe é marroquina e Franceschi só se mudou de Marrocos para Itália já era adolescente. É “pelo menos metade árabe”. A sua história na Síria começou em 2014, quando viajou até Kobane, uma cidade maioritariamente curda, no norte do país, para ajudar as populações que viviam na altura subjugadas às tropas do autoproclamado Estado Islâmico (ISIS, em inglês), ou Daesh. Percebeu que cantar as canções revolucionárias que o seu pai havia entoado nos anos 40 não era tudo o que podia fazer. Ele podia combater. Sentia que podia, e acabou por descobrir que é um bom atirador furtivo.

Em janeiro de 2015, juntou-se às Brigadas de Proteção da População (as YPK, braço armado do Partido dos Trabalhadores Curdos, o PKK, considerado um grupo terrorista pela Turquia), e em Kobane, após um rudimentar treino, participou nas batalhas pela libertação da cidade, na altura já com a ajuda dos Estados Unidos, que, no entanto, deixaram para as brigadas curdas boa parte do trabalho. Foi quando se tornou “Marcello”, o nome de guerra do pai que o filho abraçou para si. Em 2017, foi o líder da Brigada Internacional na libertação de Raqqa.

O Daesh caiu por causa dos curdos, e agora Franceschi vê o mundo “esquecido” da sua “enorme dívida moral” para com um povo a ser “dizimado” por “um país da NATO”, diz o ex-guerrilheiro ao Expresso, referindo-se à ofensiva turca contra os curdos no norte da Síria. Não tem qualquer tipo de dúvida sobre quem são e o que querem os homens que tomaram conta da Síria, que o Ocidente entroniza ao chamar-lhes “rebeldes”. Ele conheceu-os e combateu-os quando eram islâmicos radicais assumidos. E não mudaram muito, na sua opinião. “Contrataram empresas de comunicação de topo, e estão a vender uma ilusão ao Ocidente.” E o problema é, principalmente, este: a liberdade das mulheres.

Lutou quase meia década contra o Daesh. Muita gente considera os homens que acabaram de tomar o poder na Síria pouco diferentes. A Síria foi afinal tomada por islâmicos radicais?

Bom, não há grande diferença. Quer dizer é preciso distinguir entre o Hayat Tahrir al-Sham (HTS) e o Exército Nacional Sírio (SNA) que são duas entidades separadas, mas ambas têm muitos ex-militantes do ISIS [Daesh]. A quantidade de informação publicamente disponível permite-nos saber, sem margem para dúvidas, que [Abu Mohammed] Jolani [atual líder da revolução e do HTS] era o segundo comandante de Baghdadi [ex-líder do Daesh, morto num bombardeamento da coligação anti-Daesh] quando este estava no Iraque. Mas Jolani foi fazendo várias mudanças nos grupos que liderava, umas de maquilhagem, outras verdadeiras mudanças, tanto ideológicas como organizacionais. E a última delas aconteceu em 2017, quando o HST nasceu e se separou da Al-Qaeda. Jolani teve de matar as pessoas que não concordavam com essa mudança e livrar-se dos elementos mais radicais, dos que queriam uma jihad internacional, porque ele queria concentrar-se na governação de Idlib [província do noroeste da Síria onde se concentravam os rebeldes anti-Assad] e apresentar-se como um rebelde moderado. Dito isto, é preciso compreender de onde ele vem, ou seja, ele subiu nas fileiras do ISIS durante a insurreição no Iraque e não é como se pessoas como eles fossem deixar chegar um homem simpático e acolhedor ao topo de um grupo daqueles. Ele cortou muitas gargantas, mas é também tremendamente inteligente, muito mais que outros líderes do ISIS, uma organização megalómana, completamente louca.

Porque é que diz isso, o que é que viu que o pudesse levar a tirar a conclusão de que eram caóticos, mal organizados?

Eu vi-os a lutar entre si. Uma parte do ISIS uniu-se para matar os ex-generais, ex-oficiais dos serviços secretos, burocratas afastados pelo regime de al-Assad. Tinham uma guerra interna, mataram a parte mais eficiente do seu suposto Estado. E a fação do ISIS que ganhou foi a que era mais ideológica, corânica, feita de sacerdotes em vez de estadistas.

Certo. E Jolani escolheu os estadistas?

Ele já não tinha estadistas, mas sim, foi pela via pragmática. Só que a ideologia central é a mesma. Ambos os ramos queriam o mesmo: um Estado Islâmico. A diferença é que Jolani está muito mais consciente do poder da comunicação, aperfeiçoou as suas capacidades de comunicação de uma forma impressionante. E pôs na prisão, ou pior, os elementos que não alinharam com a sua nova narrativa, aqueles que ameaçavam o Ocidente, aqueles que ameaçavam Israel, aqueles que falavam da jihad global, ele eliminou tudo. E desde 2018 que se vinha preparando, de muitas formas, incluindo as diplomáticas, para fazer exatamente o que fez agora.

Falou do SNA, o Exército Nacional Sírio, apoiado pela Turquia. Como ex-comandante de uma força que lutou pelo direito dos curdos a manter o seu estado autónomo, provavelmente vê com apreensão o avanço deste exército…

Esses também mudaram de nome várias vezes. Mas os seus líderes são sempre os mesmos. E nunca mudaram a nível organizacional. E o que eles são é simples de definir: mercenários turcos, remanescentes do ISIS. Depois deste ter sido derrotado pelos curdos, alguns conseguiram fugir antes de todo o território estar fechado e controlado pelos curdos. E juntaram-se-lhe os tipos radicais que nem o HST quis, como contei em cima. Os crimes de guerra estão documentados, são eles mesmos que os filmam. São a pior escumalha que saiu da revolução síria, pedem dinheiro aos comerciantes para não lhes incendiar as lojas, é uma máfia, um cartel. Jolani não os quis em Idlib, então a Turquia ofereceu-lhes um trabalho, e assim nasceu o exército que invadiu Afrin [noroeste da Síria, fronteira com a Turquia] em 2018 para criar o suposto corredor de segurança [que a Turquia alega ser essencial para impedir que os curdos cometam ataques terroristas na Turquia]. O exército oficial da Turquia entrou com tanques e com a sua superioridade aérea, bombardeamentos, drones, tudo.

Karim Franceschi em Kobane, Síria, na luta contra o Daesh em 2015

Três dias depois de o HTS ter lançado esta revolução, já o SNA estava a atacar os curdos. Não tiveram intervenção nas movimentações contra o Assad, focaram-se nos curdos. Quando finalmente começaram a investir na direção das tropas do regime, estas já tinham recuado, e os civis curdos ficaram desprotegidos nessas áreas. As forças russas, o exército de Assad e as milícias iranianas controlavam a área de Sheba, que é a zona rural a norte de Alepo, e, nesses anos todos [2020-2024], não permitiram que os curdos se fortificassem ou trouxessem grandes tropas ou equipamento, pelo que houve muito pouca resistência. Apoderaram-se de toda a região e deram início à sua limpeza étnica. Nestas zonas havia 200.000 deslocados internos que já tinham sido obrigados a sair de Afrin em 2018, aquando da criação do tal corredor de segurança que ainda agora mencionei…

Sim, e agora estão a ter de se deslocar outra vez, com muito menos meios e já traumatizados por anos de vida em tendas. Os efeitos nas crianças são particularmente nefastos, há vários artigos sobre isso. Dito isto, não vi ainda provas dessa limpeza étnica recente. Não é uma desvalorização, pergunto apenas no sentido de entender se o HTS pode ter mais mão agora no SNA do que antigamente e por isso impedir a violência contra os curdos.

Há imagens, não muitas porque não há imprensa estrangeira no terreno, mas há imagens destas longas marchas de pessoas na rua com todos os seus pertences que estavam a deslocar-se para leste, para o resto do território, para encontrar refúgio. Estamos a falar de centenas de milhares. E depois disso, eles atacaram Manbij [norte da Síria] e tomaram a cidade [poucas horas após a entrevista os Estados Unidos assinaram um cessar-fogo e o SNA retirou-se de Manbij] e começaram a matar militares de curdos feridos nos hospitais, uma das coisas mais escandalosas que se pode fazer.

“Lentamente, as mulheres serão retiradas da vida pública”: entrevista a Karim Franceschi, ex-comandante internacional contra o Daesh

E, portanto, não acha que o HTS vá fazer alguma coisa para parar isto?

Não vão fazer nada. É preciso compreender que, antes de mais, o HTS vê os curdos como o seu maior inimigo. Não é por racismo, nem por serem de outra etnia, se os curdos fossem islamistas o HTS não teria nenhum problema com eles. Há alguns curdos que estão com o HTS, mas a maioria não está. O problema é o princípio fundamental da AANES [Administração Autónoma do Norte e Leste da Síria], a revolução das mulheres, a governação local partilhada com as mulheres. Os rebeldes e os sírios que os apoiam estão confortáveis com a gestão local, sempre a tiveram em muitas províncias, não estão é confortáveis com a revolução das mulheres. Esse é o seu grande problema, porque não querem que o Estado ou uma entidade governamental imponha os direitos das mulheres. Eu não sou meio árabe, sou berbere de Marrocos, cresci num ambiente muçulmano, por isso não é que não seja islamofóbico, mas há uma tradição, e que se manteve mesmo durante o regime de Assad, de, por exemplo, um homem ter várias mulheres, e os crimes de honra existem, mesmo na AANES. E houve grandes tumultos quando, por exemplo, o pai do presidente do cantão de Jazira, que é a região de Qamishlo [na zona autónoma curda], foi preso porque batia na mulher, portanto a mãe do presidente. Foi um grande escândalo, prender alguém de 65 anos porque bateu na mulher, algo que eles fazem constantemente.

Mas poderá haver uma espécie de compromisso em que as mulheres possam ter alguns direitos e mesmo assim a sociedade ter o Islão como religião oficial? Por exemplo, as mulheres no Egito, na Jordânia, na Turquia, no Líbano, trabalham, estudam. Claro que todos estes países são diferentes entre si.

Imagina, tens um leão em casa, ou um tigre, que domesticaste, ele parece manso, mas consegues garantir que ele não te vai morder um dia quando se sentir ameaçado? Temos de olhar, antes de mais, para o passado destes homens, mas neste momento isso não está a acontecer porque eles são muito inteligentes, têm conselheiros muito bons com eles, sabem como manipular os meios de comunicação ocidentais e a perceção ocidental. E estão a especializar-se nisso desde 2018. Contrataram empresas de comunicação de topo, e estão a vender uma ilusão ao Ocidente. Estas equipas, de especialistas formados em universidades do Ocidente, estão a elaborar, muito metodicamente, a propaganda do HTS, são-lhes dados pontos de discussão, explicam-lhes o que realçar, o que retratar, o que censurar, o que dizer do seu passado, como explicar as mudanças, a moderação que agora dizem apoiar, etc. Mas o que eles querem é implementar um Estado Islâmico, lentamente. Neste momento, o que estão a tentar fazer é algo mais importante do que implementar a lei sharia, isso será numa segunda fase. Agora estão a tentar formar um Estado. E por isso continuam em estreita colaboração a com a elite ba’atista [do partido Ba’ath, o partido da família Assad que esteve 53 anos no poder]. Eles não querem desmantelar o Estado, querem adaptá-lo, sem grandes reestruturações, porque a ideia de Jolani é dizer ao mundo que não é um agente do caos, que não é um rebelde sem cabeça, que não quer nem permite instabilidade.

E os combatentes dele vão ocupar posições ministeriais? Ele tem dito que quer um governo de tecnocratas…

Os ex-combatentes tornar-se-ão oficialmente o exército sírio. Tornar-se-ão a polícia síria. Vão tomar conta dos tribunais. Vão tornar-se a nova lei, e quando começarem esse processo, veremos a sharia [lei islâmica, particularmente restritiva dos direitos das mulheres]. Assim que os vários países os começarem a retirar da lista de terroristas, assim que a ‘lei César’ [um conjunto de sanções impostas pelos Estados Unidos depois da descoberta de ficheiros que provaram as horríveis torturas cometidas pelo regime de Assad] expirar, vão começar a empurrar mais e mais as mulheres para dentro de casa, um dia todas terão de usar lenço, depois véu completo, depois serão retiradas da vida pública porque é esta a ideia que eles têm da mulher. O problema é com a revolução das mulheres. Portanto, o problema da região pela qual combati, volto a dizer, é que é liderada pela revolução das mulheres.

E teme que, um dia, a região autónoma também terá de ser absorvida por esse novo Estado que está a descrever?

Haverá uma guerra. E o que se passa é que já estamos a assistir a essa guerra. Neste momento, o SNA está a fazer o trabalho sujo na vez do Jolani, para que ele não destrua já a sua reputação junto das potências ocidentais atacando mulheres. O SNA está a bombardear continuamente em Rojava. Bombardearam Tell Tamer, que é uma cidade cristã. Têm estado a bombardear Raqqa e Qamishli, o aeroporto foi bombardeado e uma série de material militar das Forças Democráticas da Síria [nome oficial das forças curdas que lutaram contra o Daesh] foi destruído.

O exército que está a ajudar o SNA, o exército turco, é da NATO. O que é que os outros países da NATO, na sua opinião, deveriam estar a fazer?

É a Turquia que está a bombardear. Nem é só a ajudar, é mesmo a bombardear diretamente, além de ajudar.

Os Estados Unidos, que lutaram contra o Daesh ao lado dos curdos, não vão intervir para evitar a destruição da região autónoma dos curdos?

É uma espécie de esquizofrenia o que se passa com os EUA, porque eles têm um grande papel no que Jolani está a fazer. Quer dizer, os Estados Unidos têm um prémio de 10 milhões de dólares (9,5 milhões de euros) pela cabeça de Jolani. Ele anda por aí de dia, aparece em público. E os americanos podem apanhá-lo com um ataque de drones quando quiserem. Não estou a dizer que o deviam matar. Só estou a dizer que o facto de não haver sequer qualquer conversa sobre o facto de ele ser um criminoso segundo os próprios Estados Unidos, revela que há um nível de grande tolerância. Estão a torná-lo normal, vão ungi-lo rei da Síria.

E isso está a ser mal recebido na zona autónoma?

Sim, está a criar problemas na zona autónoma porque os habitantes estão a ver a traição dos americanos aos curdos e ao projeto AANES. Os americanos seguiram em frente e agora estão a apostar num cavalo novo. Em primeiro lugar, e acima de tudo, os líderes locais procuram a sua sobrevivência tribal. Sobreviveram aos impérios otomanos, aos impérios anteriores, e querem sobreviver também a este conflito. Muitos estão a tentar abandonar o barco porque não querem ficar na mira quando a Turquia chegar e os americanos abandonarem os curdos. É por isso que muitos árabes, mesmo na zona autónoma, já estão a pensar seriamente jurar fidelidade ao novo governo de Jolani, tentando posicionar-se favoravelmente na nova Síria. E parece que os americanos abandonaram os curdos, porque se há bombardeamentos da Turquia em espaço protegido pelos norte-americanos, a mim parece-me que há uma aceitação tácita destas investidas turcas. Que outra explicação pode haver? E até que ponto é esta a vontade da antiga administração? Não faço ideia nenhuma.

Os curdos estão a ficar sem tempo. O momento é muito desfavorável, até porque a propaganda turca, que está a controlar a narrativa árabe na Síria, através de dezenas de contas nas redes sociais e canais de televisão, diz que os curdos são pró-Assad e por isso é obviamente muito perigoso. As pessoas ferozmente islâmicas no AANES, que existem, estão suscetíveis a estas narrativas e isso é mentira e é perigoso. Mas há um público para esta propaganda, claro, e até já têm surgido protestos nestas bolsas conservadoras da região autónoma, totalmente fabricados por notícias falsas turcas. Eles falam de ‘domínio curdo’ nessas histórias de propaganda, mas que domínio curdo? Manbij era governada por um conselho árabe, os militares eram todos árabes, a polícia também, o mesmo se passa com Raqqa, com Deir ez-Zor, portanto, todos os enclaves árabes, todas as regiões árabes são governadas por locais autónomos, pelo que o seu único problema é com este quadro constitucional no qual os direitos das mulheres são protegidos.

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Diria que essa é a grande luta do futuro na Síria? As mulheres?

Sim, mas as pessoas esqueceram-se das batalhas de Kobane e do projeto igualitário e democrático em vigor na região autónoma. E a comunidade internacional tem uma grande responsabilidade nisso, porque a Turquia faz parte da NATO e, no passado, utilizou fundos da Europa para fazer o que fez em Rojava. Lembrem-se que a primeira ideia, a forma como os turcos venderam à União Europeia a necessidade de construir este corredor de segurança, foi dizer que ali ficariam instalados os sírios que queriam passar para a Europa, isto durante a crise das migrações. Como sabemos, receberam dinheiro europeu para a alegada gestão dessa crise. A ideia é e sempre foi destruir qualquer autonomia curda. O Ocidente tem sido cúmplice até certo ponto. Continuam a vender armas a Erdogan, continuam a negociar com ele. E o que está a acontecer na Síria vai desestabilizar toda a região durante muito tempo, e isso vai ter consequências tangíveis e bastante imediatas para o Ocidente, sendo a mais óbvia uma segunda grande onda migratória quando as guerras sectárias começarem a estourar. Para além disso tudo, temos o dever moral de apoiar aqueles que derrotaram o ISIS e se sacrificaram tanto para o fazer.

Como se explica então esse abandono de que fala?

Acho que agora o Ocidente vê a Rússia como a maior ameaça e está completamente concentrado no conflito ucraniano, que é também uma das razões pelas quais não está focado na Síria. Vê-se a derrota da Rússia na Síria e a potencial perda de portos no Mediterrâneo como uma vitória. O foco passou a ser esse e não compreendem que é uma forma muito redutora de ver o mundo. Perceberam-no depois da Primeira e da Segunda guerras mundiais. E depois esqueceram-se. E agora estamos de volta a isso, a essas trincheiras em que tentamos posicionar-nos com esses blocos.

Os Estados Unidos, e o Ocidente como um todo, falando de forma geral, tem uma história complicada no Médio Oriente, em que cometeu muitos erros…

Sim, claro, e agora estamos a apoiar literalmente uma versão do ISIS, podemos tentar manipulá-los durante algum tempo, mas depois o tiro sairá pela culatra. Isso sempre aconteceu. Historicamente, o Ocidente tentou utilizar a jihad para fazer avançar as suas políticas externas. Fizemo-lo no Afeganistão, em todo o lado e o tiro saiu pela culatra e depois nasceu a Al-Qaeda e nasceu o ISIS e agora estão a fazê-lo de novo.

E por que é que se juntou à luta armada? O seu pai foi partisano, mas nem todas as pessoas que tiveram pais revolucionários se juntam a lutas armadas na vida adulta…

Sim, ele foi partisano, há essa ligação emocional. Mas o que se passou foi que eu fui para lá a primeira vez, para Rojava, apenas como voluntário, um ativista dos direitos humanos. E depois senti que tudo estava a tornar-se muito pessoal. Senti que não pertencia aos ativistas, que pertencia à resistência armada.

E por que é que não pertencia aos ativistas? O que é que lhes faltava? Ou a si?

Os ativistas tiveram um papel muito importante, todos tiveram. Mas um dia, numa aldeia perto de Suruc, na frente de batalha por Kobane, comecei a aperceber-me que aquilo era uma guerra a sério e que não parava. Durante a noite, podíamos ver as explosões e ouvir os combates dentro da cidade. Não parava. Era uma coisa fora deste mundo, inferno na terra, literalmente tudo ardia, os combates, a dois quilómetros do nosso acampamento de ativistas, eram tão reais e tão espetaculares que podíamos ver as bombas a sair, os cogumelos a iluminar o céu, os foguetes a voar por todo o lado e o som dos combates era como se a batalha estivesse a passar na televisão. Depois vi fotografias das pessoas que estavam a lutar: raparigas e rapazes adolescentes, homens, mulheres, mas todos muito jovens. E nós estávamos a ver aquele fogo lá ao fundo, a cantar a Bella Ciao e também lá estavam ativistas turcos e curdos, vindos de todo o Curdistão, e nós estávamos a cantar, a cantar, à volta das fogueiras, e eu só conseguia pensar que quem estava a fazer a diferença eram os que estavam lá dentro e eu pertencia lá, só queria estar lá com eles, senti que a minha gente estava do outro lado, a lutar.

Recentemente falou-se da possibilidade de libertação de Abdullah Öcalan [fundador do Partido dos Trabalhadores Curdos e preso há cerca de 25 anos na Turquia] como caminho para uma paz entre os dois povos. Poderia ser uma boa oferta para que os curdos abandonem aquilo a que os turcos chamam insurreição terrorista para conquistar solo turco?

Que insurreição?

Bom, há vários ataques – e mortes – atribuídos a milícias curdas desde 1984 e recentemente houve outro, a uma empresa de construção aeroespacial que matou cinco pessoas.

É um ataque legítimo, um alvo legítimo, a empresa produz armas. Acho que se eles querem paz podem começar por parar de bombardear os curdos, matar civis e destruir infraestruturas. Continuam a bombardear alvos civis, o que constitui um crime de guerra. E têm estado a bombardear sem parar os curdos nas montanhas iraquianas. Há décadas que estão a fazer uma guerra de extermínio dos curdos. Por isso, se quiserem acabar com a guerra, podem fazê-lo num dia. Os curdos estão sempre a tentar retomar as conversações e parar a agressão.

Escreveu um tweet dizendo que talvez o HTS entrasse em rota de colisão com os turcos do SNA por causa da sua proposta de descentralização. Pode explicar isso?

O HTS não me parece estar a dar início a um Estado inclusivo e claro que terá de se livrar do SNA. Essas pessoas não vão largar as armas facilmente e a Turquia não vai permitir que elas as larguem. Talvez tenha de haver uma guerra com a Turquia, a certo ponto, porque esta gente não vai largar os seus territórios, os seus domínios como gangues e máfias que são. O Estado não pode ter cartéis, não pode ter rebeldes, não pode ter instabilidade, não pode ter nada disso. Se continuarem a fazer o que estão a fazer, estão a minar o Estado, a sua autoridade e tudo isso. E Jolani não vai aceitar qualquer dissidência.

Mas Jolani não pode lutar contra um exército da NATO, certo? Os rebeldes não terão força para isso, suponho.

Podem, porque mesmo que os turcos entrem, não podem entrar com grandes números, porque uma coisa é tentar arrasar os curdos, outra é destruir bases do Jolani e dos seus rebeldes, que, de momento, são deuses na Síria. Ele tem mesmo muito apoio popular, e Erdogan tem entre a sua base muitos islamistas que adoravam ver Jolani coroado, e, por isso, entrar numa guerra direta com o HTS para salvar o SNA não é eleitoralmente sustentável para o Presidente turco.

E se houver mesmo uma nova guerra para preservar o modelo governamental da AANES, volta para lutar?

Não. Construí um batalhão internacional muito bem-sucedido, mas levei um ano a treinar toda a gente, a fazer com que se comportassem como militares, a criar coesão e disciplina. Éramos 30 mas em Raqqa eu estava com toda a frente, eram 120 homens sob o meu comando. Só que para construir um pelotão eficaz é preciso tempo e agora não há tempo. Mesmo que eu fosse lá para recriar a brigada internacional levaria um ano para a tornar eficaz. E como há uma grande falta de vozes, vozes em língua inglesa que possam traduzir o que está a acontecer para uma audiência ocidental pensei que pudesse ficar cá a fazer isso por agora.

Trump e Israel mal podem esperar para começar a bombardear o Irão

(Caitlin Johnstone, 17/12/2024, Trad. Estátua de Sal)


Tanto Israel quanto o novo governo Trump estão ansiosos para começar a bombardear o Irão o mais rápido possível, agora que Assad está fora do caminho.

A comunicação social israelita relata que as IDF agora veem os ataques aéreos no Irão como muito mais fáceis de executar, agora que os seus pilotos não precisam se preocupar com as defesas aéreas sírias ao longo do caminho, enquanto o The Wall Street Journal relata que a equipa de Trump está a avaliar as suas opções de ataques aéreos contra o Irãoo para evitar que ele possa obter uma arma nuclear (apesar de não haver evidências de que o Irão esteja atualmente a tentar obtê-la.

Um novo artigo do The Washington Post intitulado “O colapso da Síria e os ataques israelitas deixam o Irão o exposto” relata que “o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu sinalizou o desejo de capitalizar os ganhos contra o Hamas e o Hezbollah e enfrentar Teerão de forma mais agressiva sob uma nova administração dos EUA”. O artigo observa que Trump expressou abertura à guerra com o Irão, dizendo que “tudo pode acontecer”.

Isso ocorre quando os afiliados da Al-Qaeda que capturaram Damasco garantem ao mundo que a Síria não permitirá mais ser usada como plataforma de lançamento de ataques contra Israel.

Depois de Assad ter sido deposto, recebi um monte de comentários esquisitos aos meus textos, alegando que Israel estava de alguma forma triste com esse desenvolvimento, porque Israel e Assad estavam secretamente do mesmo lado. Esta é uma das teorias da conspiração mais estúpidas que alguma vez me pediram que acreditasse. E quem me pediu que acreditasse não foram QAnoners malucos ou a comunicação social liberal, mas um setor de esquerdistas pró-Palestina que também adoram a NATO.

Os EUA odeiam a Al-Qaeda, depois amam a Al-Qaeda, depois odeiam a Al-Qaeda, depois amam a Al-Qaeda. Eles separam-se, voltam a ficar juntos, separam-se novamente. “Estávamos numa pausa!” “Não estávamos numa pausa!” Eles vão ou não vão? Continue assistindo e descubra!

Revoluções falsas em todos os lugares para onde olhamos. Viva, os bravos combatentes da liberdade derrubaram o ditador na Síria! Viva, Donald Trump está a lutar contra o Estado Profundo! Hooray, Bernie Sanders e a AOC estão a transformar o Partido Democrata e a lutar por justiça económica!

À medida que a necessidade de uma verdadeira revolução se torna cada vez mais urgente, estamos a assistir a cada vez mais revoluções falsas destinadas a manter o status quo no lugar. A raiva das pessoas contra a máquina é aproveitada por um falso populismo bilionário e por um progressismo de merda, para que a sua energia política possa ser alimentada de novo pela máquina. As pessoas são treinadas para aplaudir os rebeldes estrangeiros que são apoiados pela CIA e lutam para expandir o poder do império dos EUA, em vez de aplaudirem os grupos que, em todo o mundo, lutam contra o domínio imperial.

Eles canalizam a nossa atenção e energia para revoluções falsas, para nos impedir de lutar por uma verdadeira. Quanto mais descontente o público estiver, mais necessário será eles fazerem isso. Quanto mais tempo continuarmos a ser redirecionados para becos políticos sem saída, por aqueles que beneficiam do status quo imperial, mais tempo o status quo imperial continuará a abusar de todos nós.

Os apoiantes de Israel dirão que o antissemitismo é um dos maiores problemas do mundo e, se você lhes perguntar exemplos de onde o antissemitismo perigoso está a ocorrer na nossa sociedade, eles listarão coisas como as Nações Unidas, a Amnistia Internacional, a Irlanda e o Papa.

Muitas vezes vejo perguntas como “Porquê os bilionários estão a destruir o mundo dessa maneira? Qual é o sentido de acumularem tanta riqueza se você vão passar o resto da vida num qualquer bunker subterrâneo?”

Tais perguntas assumem um nível de racionalidade que não acredito que os bilionários possuam. Os bilionários são movidos por forças inconscientes e irracionais dentro de si mesmos, não por preocupações racionais. Tornar-se um bilionário é em si um ato irracional. Ninguém precisa de tanto dinheiro. A segurança, a proteção ou a qualidade de vida de alguém, não é significativamente melhorada por ter biliões de dólares em vez de milhões. Não importa quanta riqueza você controle, você só pode dirigir um carro de cada vez, usar um fato de cada vez, morar numa casa de cada vez. Depois de um certo nível, acumular mais dinheiro torna-se um absurdo sob qualquer métrica possível.

As pessoas que acumulam tanta riqueza não estão a comportar-se racionalmente – elas estão a tentar preencher um buraco dentro de si mesmas que nunca poderá ser preenchido. Elas estão a reagir ao trauma da primeira infância e compelidos por mecanismos de enfrentamentos psicológicos disfuncionais. Elas estão, inconscientemente, a tentar compensar as histórias de deficiência e carência; a tentar perseguir a aprovação do pai, morto há muito tempo; a tentar sentir uma sensação de controlo, num mundo que parecia muito ameaçador para elas quando eram pequenas.

Se elas nem sequer estão a agir com base em qualquer preocupação real com o seu próprio futuro, então por que agiriam com base em preocupações com o futuro do planeta?

As pessoas obscenamente ricas que governam o nosso mundo estão a destrui-lo, não por estupidez ou despeito, mas por compulsão inconsciente.

Um viciado em heroína não continua a drogar-se por não entender que a heroína lhe faz mal ou porque não receia vir a ter uma overdose um dia; continua a drogar-se porque o seu vício é impulsionado pela dor interior e forças psicológicas que o habitam e que ainda não trouxe à consciência.

Tornar-se um bilionário e tornar-se um viciado em heroína são comportamentos destrutivos, irracionais, impulsionados por dinâmicas internas irracionais. A única diferença é que os bilionários estão a levar-nos a todos com eles para o abismo.

Fonte aqui.