Unanimismos e maniqueísmos, ou o colapso das democracias

(Por Pedro Almeida Vieira, in Pagina Um, 05/09/2024)

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Há assuntos onde proliferam estranhos unanimismos na imprensa (inter)nacional, que se iniciaram nos tenebrosos tempos da pandemia, quando se ausentaram as divergências de opinião e os argumentos dissonantes, que servem, as mais das vezes, para consolidar ou mudar opiniões.

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A UE para o Telegram – Estamos a ir atrás de ti

(Por Pepe Escobar, in Sputnik International, 27/08/2024, Trad. Estátua de Sal)

A saga de Pavel Durov é um presente que nos continuará a ser oferecido por muito tempo.  É disso que se trata, da guerra quente da informação.  Tentemos, portanto, analisar os diferentes elementos do caso.


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Um analista russo bem colocado acredita que a prisão de Pavel Durov está ligada a “protestos antifranceses nas suas antigas colónias – tendo a França perdido a sua tradicional ‘esfera de influência’ -, e onde a infraestrutura do Telegram foi usada para promover narrativas anticoloniais e antimacronistas”.

A isto acrescenta-se uma “tentativa de influenciar narrativas sobre a Ucrânia nos meios de comunicação russos e internacionais, que dependem fortemente da infraestrutura do Telegram”.

Paris tenta, de facto, desesperadamente se tornar-se útil em termos de operações psicológicas e guerra de influência/especial na Ucrânia.

No entanto, como observa o analista, os franceses não dispõem de meios técnicos para o fazer. Talvez tenha sido isto que levou Macron a decidir “exercer uma campanha de pressão pessoal contra o próprio Durov”. As autoridades francesas devem estar bastante desesperadas na sua tentativa de manter a cabeça no topo do jogo da política mundial. E o Telegram hoje é a política mundial”.

Paris estava apenas à espera de uma oportunidade. Quando o piloto do jato particular Embraer de Durov apresentou o seu plano de voo, não havia mandado de prisão na França. Foi só quando o jato já estava a caminho de Le Bourget que Paris apresentou o mandado à pressa. Durov não sabia nada sobre isso desde o início.

Resumindo: Paris foi avisada da chegada de Durov a França – talvez através da namorada de Durov, uma pós-obsessiva da ascensão social, residente no Dubai – e preparou a armadilha num abrir e fechar de olhos.

Uma eminência na prisão

Existe um mito de que o FSB, (Serviços secretos russos), pediu a Durov as chaves de criptografia do Telegram no passado. Isto é falso. O FSB queria que o Telegram lhe proporcionasse acesso privilegiado para investigar crimes graves caso a caso. Esta é uma enorme diferença em relação ao que o governo dos EUA faz com a Meta do Facebook ou com o Twitter/X através de “portas do cavalo”, completamente abertas.

No entanto, Durov embriagou-se com a propaganda de “liberdade e democracia” da NATO, rejeitou a Rússia e foi-se embora.

O que nos leva ao Presidente Putin. Putin tinha coisas melhores para fazer do que encontrar-se com Durov em Baku, e o Kremlin foi rápido a negar a reunião. Durov estava viajando pela Ásia Central e pelo Cáucaso, e os caminhos de ambos cruzaram-se no Azerbaijão. Mas há uma coisa que Putin nunca tolerará: a traição à Rússia. E isso aplica-se, à letra, a Durov.

Quando Durov visitou os Estados Unidos, os americanos, como era esperado, exigiram-lhe as “portas do cavalo” do Telegram para poderem espiar toda a gente. Por isso, ele veio a estabelecer-se, no Dubai e depois solicitou a nacionalidade francesa.

Durov tornou-se cidadão francês há apenas 3 anos – isto é, antes do lançamento da operação militar especial na Ucrânia – através de um programa especial de “estrangeiros proeminentes” criado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros da França. Muito poucas pessoas são elegíveis; apenas um “estrangeiro francófono que contribui com a sua acção eminente para a influência da França e a prosperidade das suas relações económicas internacionais”. Contudo, nem a sua “ação eminente” foi suficiente para o manter longe de uma prisão francesa.

Como obter essas chaves

A Comissão Europeia (CE) em Bruxelas pode ser sumariamente descrita como um notório bando de cobardes e/ou eurocratas psicopatas que elogiam alegremente os “nossos valores”.

Previsivelmente, a CE recusa-se a comentar a prisão de Durov, dizendo que se trata de uma “investigação nacional”. Uma “investigação” que por acaso foi “encorajada” pelo estado profundo americano, levada a cabo desde 8 de Julho pela polícia vassala macronista, em benefício da NATO,  e… da própria Comissão Europeia.

As acusações contra Durov reveladas pelo Ministério Público francês deveriam ser destruídas em tribunal por qualquer equipa jurídica digna desse nome. Essencialmente, as acusações são de que o próprio Durov é responsável por aqueles que abusam do Telegram. Ele é “cúmplice” de todos os delitos possíveis – desde a fraude organizada ao tráfico de drogas – até à vaga acusação de fornecer serviços criptografados sem uma “declaração certificada”.

As acusações sobre a falta de moderação do Telegram são falsas. Por exemplo, o Telegram censura ativamente a correspondência dentro da UE; Os residentes da UE não podem aceder a inúmeros chats e canais. Além disso, o Telegram não é afetado pela recente lei neo-orwelliana da UE contra mega redes sociais, uma vez que acolhe menos de 45 milhões de utilizadores europeus por dia.

Agora vamos concentrar-nos no motivo..

O atual Euro-gulag liberal-totalitário, ou EuroLag, é um enorme bloco de poder que não tem acesso ao conteúdo do Telegram.

O Telegram possui servidores próprios em todo o mundo, e o roteamento passa pela Amazon, Cloudfare e Google. Desde a criação do Telegram, os serviços de inteligência e vigilância americanos têm tido meios para o bloquear facilmente – se assim o desejassem.

Mas a UE é uma história diferente. Assim, Bruxelas, através de Paris, tenta adquirir pelo menos algum controlo sobre o Telegram – e sobre as redes sociais em geral. Um lembrete crucial – que poderia ser arquivado no patético departamento de Tecnologia: a Europa  não tem (itálico meu) redes sociais.

Daí as ameaças incessantes contra o Twitter/X e a  Lei neo-Orwelliana de Serviços Digitais sobre  a responsabilidade das plataformas em termos de conteúdo, que se aplica a todos, e não apenas ao Telegram.

A UE e a França querem ter o poder que a potência hegemónica (os EUA) já tem: acesso a tudo, aqui e agora, sem qualquer documento legal.

A questão agora é se eles conseguirão isso pressionando Pavel Durov. Não há evidências de que ele possua as chaves de criptografia do Telegram. E se eles prenderam a pessoa errada?

Nikolai Durov, irmão ultra discreto de Pavel, é o principal arquiteto genial do Telegram: mestre em matemática, dois doutoramentos, medalhas de ouro na Olimpíada Internacional de Matemática. Os franceses prefeririam fazer um acordo – daí o interrogatório prolongado: mas isso envolveria quebrar Pavel para que ele influenciasse Nikolai a entregar as famosas chaves.

Porquê agora? E a quem beneficia?

Como esperado, o interrogatório de Durov ocorre sem qualquer transparência. A França é uma sociedade atrozmente secreta, propensa ao silêncio absoluto sobre assuntos sérios, a uma lentidão extenuante, pontuada por raras declarações oficiais. É tudo uma questão de procedimento – e a burocracia é entorpecente.

No entanto, a burocracia francesa pode ter dado uma pista valiosa sobre o que realmente a incomoda. Simplesmente não pode aceitar que alguém utilize – ou forneça – os meios para “cobrir os rastos” em termos de transações financeiras, de contornar a censura e a vigilância.

Portanto, isto pode ir muito para lá da obsessão de obter todas ou parte das chaves de criptografia do Telegram. O aparelho burocrático francês quer fazer todos os possíveis para eliminar qualquer possibilidade de evasão – mantendo ao mesmo tempo o poder de punir qualquer pessoa.

Se a saga continuar, resultando num julgamento e, em última instância, numa pena de prisão de 20 anos, significa que Durov não terá quebrado face ao aparelho burocrático e que permanecerá sempre “um cúmplice”.

É improvável. Adeus ao brilho e ao glamour ilimitados, em troca de uma baguete de pão ao amanhecer numa prisão francesa?

Duas outras questões inevitáveis. Porquê agora? Porque a UE precisa muito disso. E a quem beneficia? Os principais candidatos são o “espírito de corpo” da burocracia francesa ultra regulada e as suas ligações oligárquicas franco-europeias. O desejo também é um fator. Durov é russo, estrangeiro, e o Telegram, que tem um bilião de utilizadores em todo o mundo, é um sucesso retumbante.

Tudo pode acontecer no futuro – incluindo o bloqueio do Telegram em França e na UE. A maioria mundial não se importaria nada.

Entretanto, milhares de cidadãos ficam surpreendidos com o facto de um tecno-globalista narcisista poder ser tão ingénuo a ponto de acreditar que o totalitarismo liberal alguma vez protegerá a sua liberdade.

Fonte aqui.


A detenção de Durov é reveladora de um novo nível de desespero das elites ocidentais

(Por Martin Jay, in Strategic Culture Foundation, 26/08/2024, Trad. Estátua de Sal)

A liberdade de expressão não existe, de facto. A liberdade de expressão tem um preço muito elevado para aqueles que a querem proteger e acarinhar e agora a França vai testar o panorama político para ver como a detenção de Durov vai afetar as sondagens à popularidade de Macron.


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A prisão de Pavel Durov marca um novo ponto baixo na linha de escória do lado da banheira – a banheira sendo democracias ocidentais e a linha é o seu desespero para permanecer no poder à custa do controle das redes sociais. Durov, que é dono do Telegram e mora em Dubai, pode ficar preso por meses, e possivelmente anos, pelas acusações forjadas que o estado francês conjurou simplesmente, porque ele se recusa a permitir que qualquer governo tenha uma porta de entrada no Telegram. Ele lutou com unhas e dentes durante anos com o Ocidente, em particular com os EUA, que têm usado todos os truques sujos para obter acesso à plataforma e prosseguir os seus próprios propósitos nefastos – destruir figuras da oposição, suas estratégias etc. – em vez do que está sendo fantasiado, ou seja, identificar terroristas e criminosos internacionais.

Enquanto o Reino Unido se interroga como o seu próprio estado se afundou na lama de um novo nível totalitário nos últimos dias, com a prisão de cidadãos que apenas se limitaram a gostar de uma publicação numa plataforma de comunicação social, o Ocidente prendeu esse génio russo-francês com dupla nacionalidade que é acusado dos crimes dos criminosos que têm atividade no Telegram. Assim, será acusado de terrorismo e de tráfico de menores, de droga e de tudo o mais que encontrarem na plataforma, na qualidade de cúmplice de tais crimes. É claro que as mesmas regras não serão aplicadas a Elon Musk, que certamente tem criminosos na sua plataforma – o X -, ou a qualquer outra plataforma de redes sociais.

Mas quantas destas plataformas estão também a tomar a mesma posição que Durov em relação às “pressões” dos estados, nomeadamente dos EUA? Somos levados a acreditar que a maioria não está a tomá-la; à luz da sua detenção, devemos assumir que muitas delas já permitiram algum tipo de acesso a elas, por parte do Estado profundo. Elon Musk gosta de se gabar da sua recusa em cumprir as exigências da UE no sentido de “moderar” quem autoriza a entrar no X, acrescentando que outras plataformas de redes sociais aceitaram o acordo que Bruxelas lhes ofereceu: cumpra os nossos pedidos e nós concedemos-lhe alguma clemência em futuras multas antitrust. Esta oferta, que ele afirma ter sido aceite de bom grado por outras plataformas, é quase como a UE oferecer um envelope castanho, cheio de dinheiro, a um homem num bar. É um suborno e dá uma ideia do carácter antidemocrático da UE e de como ela funciona na sombra.

Esta detenção pelos franceses tem, no entanto, mais que se lhe diga, na medida em que podemos assumir que a França a não agiu sozinha para capturar Durov. Podemos assumir que o FBI e a CIA provavelmente pressionaram Macron a fazer este terrível trabalho sujo, mas talvez também Israel tenha tido uma palavra a dizer. Ainda recentemente, Netanyahu se queixou de que dados roubados ao governo estavam a ser trocados no Telegram e pediu a Durov que interviesse para os recuperar. Não obteve resposta. Terá a Mossad participado na detenção do chefe do Telegram? Assim parece, uma vez que é difícil acreditar que Durov voasse para o espaço aéreo francês de livre vontade. Terá sido uma operação de rapto para que o avião e o piloto aterrassem em Paris? O canal de televisão francês TF1 afirmou que Durov, que vive no Dubai, viajava do Azerbaijão e foi detido por volta das 20 horas (18:00 GMT) de sábado, 24 de agosto, mas não disse se o destino final do avião era a França.

Os detalhes sobre a detenção são muito vagos, mas, de acordo com a Reuters, Durov, cuja fortuna foi estimada pela Forbes em US$ 15,5 biliões, disse que alguns governos o tentaram pressionar, mas que o Telegram deverá permanecer uma “plataforma neutra” e não um “ator na geopolítica”.

Outra questão que se coloca com esta detenção é a de saber se se trata de um esforço internacional dos países ocidentais, liderados pelos EUA – com Israel a fazer parte desse esforço – para “testar as águas”, ou seja as opiniões públicas, com vista a outras detenções. Há semanas que os analistas têm sido considerados teóricos da conspiração, quando sugeriram que Elon Musk será detido, ou acusado caso esteja ausente, pelas autoridades britânicas, devido a algumas das publicações mais controversas que fez sobre a situação política no Reino Unido, ou mesmo pela UE, que parece ter iniciado uma batalha legal contra ele, depois de ele se ter recusado a responder a duas cartas que lhe foram enviadas por um Comissário Europeu francês. Talvez até os democratas nos EUA possam jogar a mesma cartada, uma vez que Musk perdeu toda a credibilidade como ator neutro na política americana, depois de ter apoiado tão abertamente Trump, o qual lhe prometeu um cargo no seu novo governo, caso venha a entrar na Sala Oval.

A liberdade de expressão não existe, de facto. A liberdade de expressão tem um preço muito elevado para aqueles que a querem proteger e acarinhar e agora a França vai testar o panorama político para ver como a detenção de Durov vai afetar as sondagens à popularidade de Macron.

No passado, o Presidente francês fez um péssimo julgamento ao convocar eleições parlamentares, imediatamente após as eleições europeias, que deram tanto poder aos grupos de extrema-direita, pelo que parece que ele é bom a suicidar-se e a cair sobre a sua própria espada. É possível que tenha tido em conta que Durov não tem a popularidade de Assange, por exemplo, o qual não suscitou assim tanta raiva política quando esteve preso durante anos numa cela imunda e húmida no Reino Unido, sob acusações forjadas pelos Estados Unidos.

O que é especialmente preocupante é que, prender pessoas poderosas que têm milhões de seguidores na Internet está a tornar-se uma tendência a que as pessoas se estão a habituar. A guerra entre aqueles que querem controlar a verdade percebida e aqueles que detêm a verdade real está a aquecer.

Scott Ritter, Andrew Tate, Richard Medhurst foram todos presos com poucos dias de diferença, enquanto o próprio Musk encerrou o comediante egípcio Bassem Youseff, que tinha 10 milhões de seguidores no X.

Estamos a assistir a um novo nível de desespero: as elites ocidentais têm mais medo do que nunca de que, depois de desperdiçarem centenas de milhares de milhões de dólares na Ucrânia e de iniciarem uma guerra mundial no Médio Oriente, os eleitores deixem de ter confiança nas suas decisões, uma vez que os cidadãos lutam cada vez mais para pagar as compras ou até mesmo para aquecer as suas casas.

É um novo marco no dogma cego das elites recorrerem a táticas, que nos levariam a desprezar a China ou a Coreia do Norte por as utilizarem há apenas alguns anos. É um novo nível de pânico que nunca vimos antes.


Sobre o autor, Martin Jay:

Martin Jay é um premiado jornalista britânico baseado no Marrocos, onde é correspondente do The Daily Mail (Reino Unido), que anteriormente relatou sobre a Primavera Árabe para a CNN, bem como para a Euronews. De 2012 a 2019, ele estava baseado em Beirute, onde trabalhou para vários títulos de mídia internacionais, incluindo BBC, Al Jazeera, RT, DW, bem como reportando como freelancer para o Daily Mail do Reino Unido, The Sunday Times e TRT World. Sua carreira o levou a trabalhar em quase 50 países na África, Oriente Médio e Europa para uma série de grandes títulos de mídia. Ele viveu e trabalhou no Marrocos, Bélgica, Quênia e Líbano.

Fonte aqui