(Zé-António Pimenta da França, in Facebook, 24/07/2024)

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Os mais velhos dentre nós lembrar-se-ão dos momentos de sucessão na falecida URSS: o Politburo do PCUS (Partido Comunista da União Soviética) nomeava o candidato selecionado para ascender a secretário-geral do PCUS, o dirigente supremo da URSS. Horas depois, o Comité Central do PCUS emitia um comunicado em que anunciava que o candidato nomeado tinha sido eleito “por unanimidade”. E logo todas as esferas superiores, intermédias e organizações de base do PCUS demonstravam júbilo pela sábia eleição e nomeação do escolhido. O Politburo nunca falhava, sabia sempre interpretar os anseios dos militantes do PCUS.
O mesmo se passou nesta sucessão verificada no Partido Democrático dos EUA. Biden renuncia à presidência, logo a seguir é nomeada Kamala Harris como a escolhida para se candidatar à presidência dos EUA. E nas horas seguintes é o desfile de notáveis do Partido Democrático a manifestar-se em demonstração de unanimidade no apoio total à escolhida.
Não há, no Partido Democrático dos EUA, nenhum Politburo que possa escolher à porta fechada o candidato e o nomeie. Não está previsto nos estatutos nem na orgânica do partido.
O que está previsto é que isso seja feito em congresso partidário. Há uma série de candidaturas que se vão apresentando e, depois de uma campanha eleitoral interna e de vários debates da campanha, os militantes escolhem o candidato em congresso.
No caso presente argumenta-se que não havia tempo para isso, embora haja muitos que defendam que havia. O que se passou é que um grupo de pessoas (sabe-se lá quem), sem qualquer cabimento na estrutura oficial do partido, substituiu-se ao congresso e ter-se-á reunido para nomear Kamala Harris. Ao menos, na URSS, toda a gente sabia quem eram os membros do Politburo, a sua constituição era pública, era oficial. No Partido Democrático não. Serão os financiadores (quem paga, manda!) a gente com mais poder dentro da estrutura partidária? Não se sabe. Sabe-se que os Clintons, os Obamas e a Nancy Pelosi (determinantes na queda de Biden) não queriam esta candidata. Mas os poderes ocultos escolheram. Reuniram-se e escolheram, nomearam e pronto, já está.
E aparece toda a gente a apoiar, uns atrás dos outros, as manifestações de júbilo são gerais, todos concordam que é a candidata certa. Até já há sondagens a mostrar que ela já vai à frente do Trump…
Não podemos negar que o processo de escolha e nomeação acaba por ser bem-parecido com o da falecida URSS.
Dois dias, dois golpes no Partido Democrático: no primeiro, reuniram-se e decidiram deitar abaixo Biden (ver o meu texto de ontem sobre a queda do Biden, aqui). Fizeram-no de forma simples e expedita: congelaram-lhe o dinheiro para a campanha eleitoral. Foi como se apertassem o pescoço ao Biden até não mais poder. O homem, que queria a toda a força continuar na corrida, não teve outro remédio senão renunciar.
Um dia depois escolheram a sucessora à porta fechada. Foi anunciada e logo choveram os milhões em apoio à mulher providencial, já não falta dinheiro à candidatura.
Num partido cheio de fações muito diversas, que não se podem ver umas às outras, não deixa de ser estranho que a unidade tenha surgido num ápice para combater a ameaça trumpista. Nem uma voz a contestar. Os que pediam um congresso aberto, onde os militantes escolheriam entre os candidatos que lá se apresentassem, calaram-se todos. milagre!…
Que se lixe o congresso aberto. É assim a democracia americana: o dinheiro é que manda, põe e dispõe, escolhe e rejeita. Qual democracia de base, qual quê? Quem tem dinheiro manda. Os outros obedecem e nem piam…
Dois dias, dois golpes que de democráticos nada têm … Tudo congeminado no segredo, bem longe dos holofotes. Poderes ocultos, são eles que mandam. Neste caso puderam mais que gente tão poderosa como os casais Clinton, Obama e Nancy Pelosi que derrubaram o presidente em exercício.
O dinheiro fala muito alto e o poder funciona da mesma forma em todo o lado…
