O oráculo de um ex-maoísta convertido

(Major-General Carlos Branco, in Observador, 23/06/2024)

O major-general critica o teor de criticas que lhe foram feitas na Rádio Observador por José Manuel Fernandes.


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No passado dia 29 de maio, no programa Contra-Corrente da Rádio Observador, José Manuel Fernandes (JMF) colocou em causa a minha honestidade intelectual. Não foi a primeira vez, e lá tive de ir ouvi-lo. Utilizando a posição de que goza no solilóquio do seu oráculo, JMF lançou corajosamente invetivas insidiosas contra mim. Sublinho: contra mim, não contra as minhas ideias. O tema central do programa era a situação na Ucrânia. Fiquei arrebatado com tanta erudição. Aprendi tanta coisa. Até fiquei a saber que não é da NATO que Putin tem medo, mas sim da União Europeia.

Isto foi mesmo dito assim! Indo ao cerne da questão.

Como o mais esclarecido da “cantareira”, JMF consegue ver luz no meio da escuridão. Reparou em algo não acessível ao mais comum dos mortais: “[a maioria] não percebeu as intervenções mais perigosas, que fazem alguns generais que andam por aí, que estão aí todos os dias.” JMF alertava-nos para estarmos atentos a uns tipos perigosos, apontando o dedo delator aos “dissidentes”. Só ele é que tem o direito de “andar por aí”.

JMF atribuiu uma carga negativa ao que eu disse sobre a então anunciada conferência de paz em Genebra: “Atirou-se [Carlos Branco] contra a cimeira da Suíça,” mas sem explicar o que eu disse ou o que ele pensava sobre o assunto. Como se fosse pecado expressar um pensamento crítico. Estava a preparar a audiência para o que viria a seguir.

E prossegue, “entre outras coisas, não daria demasiada importância a estes pontos de vista se não percebesse… como alguns dos vídeos das suas [minhas] prestações têm impacto. Há pessoas que [embora] não o digam pensam o mesmo. Essas pessoas estão espalhadas por mais do que um partido. As suas opiniões não valem por si próprias, mas refletem um pensamento mais alargado. Eu diria que algumas delas valem por si próprias… quem conhece estes militares desde os tempos da academia militar diz-me que não fica surpreendido porque… sabia quais eram as suas opiniões políticas nesse período.”

Não deixa de ser cómico, um acérrimo ex-maoísta/estalinista e chefe de redação no jornal “Voz do Povo” invocar o passado dos outros, com mais de quatro décadas, para um juízo de censura sem contraditório. No fundamental, JMF parece manter-se quase na mesma, continuando a recorrer aos mesmos truques e jogadas de malabarista. JMF recordar-se-á certamente dos tempos em que escrevia cartas anónimas à direção do jornal para “entalar” colegas.

Ou de, em 2003, se prestar a publicar um alegado editorial apologético da invasão do Iraque pelos EUA (o mesmo país que uns anos antes tinha fornecido armas químicas a Sadam Hussein) em nome da “direção editorial” do “Público”, que originou uma veemente resposta de um antigo diretor e um enorme desconforto na redação, ao pretender associar o jornal a uma invasão ilegal.

JMF recordar-se-á certamente da harmonia e da concórdia que esse ato democrático provocou. Não se conseguiu distanciar das práticas dos tempos da “Voz do Povo”. Está-lhe na massa do sangue.

O truque de JMF é baixo: insinuar, denegrir e enlamear. Eu desconhecia ter alguma vez manifestado o meu pensamento político ao longo dos 40 anos de serviço. Alguns camaradas meus, naturalmente no exercício da sua liberdade, inscreveram-se em partidos políticos, concorreram a eleições (não foi o meu caso) e rabiscam no jornal de que JMF é diretor.

Coerentemente continuou a verve. “Mas apesar de tudo fizeram uma carreira, chegaram a generais e estiveram colocados na NATO. E eu interrogo-me como é que nós em Portugal colocamos nesses lugares de responsabilidade, na NATO, adversários da NATO.”

Sendo certo que no passado JMF se referiu à minha pessoa e às funções internacionais que exerci, não posso deixar de desafiar JMF a dizer onde é que já manifestei opiniões “adversárias à NATO”. Tenho vários textos publicados sobre o tema em jornais e revistas de referência. Se não o fizer terei de o considerar manipulador da opinião pública. Sou o único militar português que ocupou por três vezes cargos de relevo nas Nações Unidas e na NATO através de concurso internacional.

Se JMF soubesse do que fala, saberia que a NATO é um fórum onde se confrontam e se digladiam interesses. Saberia que vários ex-chefes militares da NATO manifestaram publicamente posições muito cuidadosas e preocupadas sobre a forma como os acontecimentos na Ucrânia se estão a desenrolar.

Sabemos como se comportam os cristãos-novos. Quando abandonou o maoísmo e se converteu ao “mercado” JMF teve de convencer os seus patrocinadores que era mesmo um tipo fiável. E daí quem se tornou um idiota útil foi JMF e não eu, como me acusou.

Por isso, JMF não debate, denigre. A divergência de opinião é para ele criminosa. Encorajo-o a informar os seus ouvintes daquilo que Kissinger, Kennan, Mearsheimer e tantos outros disseram sobre a expansão da NATO e como anteciparam com rigor o momento que estamos a viver.

JMF é daqueles que acham que os nossos interesses nacionais devem estar sempre subordinados aos interesses de outros, e que essa subordinação não pode ser discutida sob pena de heresia.

Ainda nos recordamos do sentido crítico de JMF quando acreditou nas armas de destruição massiva no Iraque e veio publicamente defender a intervenção norte-americana. “Deixem, pois, Bush e Blair fora” exultava JMF em abril de 2003. Uma comparação das suas previsões com os acontecimentos esvazia qualquer credibilidade que se lhe pudesse atribuir. Devia corar de vergonha e retratar-se publicamente pelo erro de análise. Coisa que até Colin Powell teve a altivez e a coragem de fazer de modo muito claro nos últimos anos da sua vida.

Naquela conversa de amigos do Contra-Corrente, a fingir ser uma coisa séria, JMF interroga-se porque é que sendo a Rússia o maior país do mundo “faz tanta questão em querer mais um bocadinho de território na Europa?”. JMF sabe muito bem que não foram ambições territoriais, mas sim a perspetiva de adesão da Ucrânia à NATO o que motivou a ação da Rússia, possível com a alteração da correlação de forças políticas em Kiev proporcionada pela revolução colorida de 2014.

Sabe, e se não sabe devia saber, que Putin, ao contrário do que fez com as repúblicas georgianas da Abecásia e da Ossétia do Sul, imediatamente reconhecidas pelo Kremlin após a operação militar em 2008, só reconheceu Lugansk e Donetsk passados oito anos após a saída forçada do poder de um presidente democraticamente eleito, nas vésperas da invasão da Ucrânia.

Putin queria manter as duas repúblicas rebeldes na Ucrânia porque ainda alimentava nessa altura a ilusão de poder vir a eleger um novo presidente ucraniano tipo “Yanukovitch”, apesar das novas autoridades instaladas na Bankovka terem ilegalizado o partido vencedor das eleições, para depois convocarem eleições “democráticas”. JMF sabe que está a mentir, e nós sabemos porquê. Exatamente como mentiu sobre as armas de destruição massiva de Sadam Hussein. JMF quer estar bem com os patrocinadores, mas acaba mal com a história.

JMF escolhe seletivamente acontecimentos para compor uma farsa histórica que lhe seja conveniente. Na amálgama das historietas que lucubra deve dizer-nos se o neonazismo na Ucrânia é uma ficção, ou se acredita mesmo que a Ucrânia alguma vez seria capaz de ganhar um conflito contra a Rússia, mesmo com a massiva ajuda internacional.

Um dia destes, não faltará muito tempo, acertaremos contas e veremos quem falou verdade à opinião pública, e quem andou despudoradamente a fazer propaganda e desinformação. Não perderei a oportunidade de o desmascarar. Ao contrário de JMF, a minha lealdade é com a pátria, e com os valores plasmados na Constituição da República portuguesa. É um ato patriótico alertar para os perigos de opções que podem ser dramáticas para o nosso futuro coletivo, fruto de décadas de experiência enquanto militar. Lamento que o bem instalado JMF contribua insidiosamente em sentido contrário nos seus solilóquios radiofónicos.

Senhor eucalipto

(Francisco Louçã, in Público, 30/06/2017)

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Assistir ao espectáculo de um adulto a comportar-se como um garoto cria uma certa vergonha alheia. Quando se trata de um debate importante para a comunidade, essa vergonha alheia transforma-se em pena. Tenho por isso pena do Dr. José Manuel Fernandes.

O Dr. Fernandes, que tem pergaminhos na imprensa – eu conheci-o na Voz do Povo, depois no Expresso e depois director do Público – capitaneia agora um projecto de agit-prop, o Observador, e nele entendeu que o incêndio de Pedrógão Grande seria a oportunidade de sacudir o país com uma intestina vaga de indignação. Se quem lê estas linhas deita os olhos a essa publicação online, já conhece o estilo da casa: Portugal é sempre uma crise alucinante, um governo trágico, um primeiro-ministro criminoso, tudo uma pepineira, pelo menos desde que Passos Coelho perdeu a maioria nas eleições. Portanto, nada de novo: na opinião da sempre fogosa brigada neoconservadora do Observador, este incêndio é só mais um fogo que arde para se ver, queime-se o governo e salvem-se os eucaliptos.

A querela é esta: os eucaliptos são ou não perigosos para a nossa floresta? Vejamos os factos. Diz o INE que Portugal tem 23% da sua área florestal entregue aos eucaliptos, ou cerca de 760 mil hectares. Só quatro países do mundo têm mais eucaliptal em termos absolutos do que Portugal: a China (mas é 104 vezes maior do que Portugal), o Brasil (92 vezes), a Austrália (83 vezes) e a Índia (36 vezes). Em termos relativos, nenhum país no mundo tem a superfície de eucaliptos de Portugal. Aos que me respondem com o argumento de “dá dinheiro”, pergunto só por que é que a Alemanha ou a Espanha não correm para este El Dorado. A resposta é que é perigoso, não é que os empresários alemães ou espanhóis sejam estúpidos. Sim, o nosso desordenamento florestal é grave, o abandono rural gravíssimo – mas é um desordenamento que promove os eucaliptos (77% do investimento na floresta em 2015 foi para eucaliptos), que são perigosamente combustíveis, sobretudo se plantados como o estão a ser. Portanto, mais vale travar a fundo e salvar a floresta deste negócio pirómano.

Mas o Dr. Fernandes não quer conversar. Quer bombardear. Por isso, ao teorizar sobre as razões para estarmos gratos aos eucaliptos, o Dr. Fernandes sente a necessidade de nos explicar, sobriamente, que não é um “miserável avençado das empresas de celulose”, do que não tenho dúvida. Mas, vai daí, acha-se obrigado a tratar os pontos de vista contrários como prova de “ignorância” (e repete “ignorantes”), “obsessão”, “arrogância”, “preconceito” e “confusão” de “cabeças conspirativas” (sic). Quem dele discorda, supremo atrevimento, são os “bota-faladura” (sic) (agradeço por isso que ele me inclua nesta lista como “sumo sacerdote”, o que pensariam os meus amigos se ele me esquecesse). Ler um texto de alguém que assina como jornalista e tão cheio de classificações insultuosas é confrangedor. O homem não se lembra de nada de quando foi director de um jornal de referência?

Mas ainda estava só a começar. Vem aí o melhor. São as “carinhas larocas” (sic) que o tiram do sério: “Quando a Catarina ou uma das manas Mortágua investe contra a chamada eucaliptolândia, os jornalistas que seguram os microfones quase acenam com as cabeças e depressa se esquecem de confrontar a sua doçura de hoje (quando morreram 64 pessoas num incêndio florestal) com a lendária agressividade dos tempos em que até as suas unhas encravadas eram culpa de Passos Coelho”.

O homem não gosta de ninguém, sobram os eucaliptos. Nem “da Catarina” nem das “manas Mortágua”, cuja “doçura” vitupera, pois contrasta com a sua “lendária agressividade” a respeito das “unhas encravadas”, nem dos jornalistas que, patetas, “acenam com a cabeça”. Se já chegou às “unhas encravadas”, não devemos mesmo ter pena do Dr. Fernandes?

As lágrimas furtivas de Fernandes

(José Soeiro in Expresso Diário, 24/02/2017)

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José Manuel Fernandes, que se celebrizou nos tempos em que, enquanto diretor do Público, fez dos editoriais do jornal uma apologia da ocupação e da guerra de Bush Jr. (quem não se lembra da revelação sobre “a lágrima furtiva” de comoção que lhe rolou pelo rosto quando a invasão se consumou?), vive agora numa irritação permanente, de que nos vai dando conta a partir do cantinho do Observador onde se refugiou.

O pobre cronista sente-se perseguido por tudo. São os cartazes do Bloco contra a precariedade que é obrigado a ver de cada vez que entra em Lisboa. É Catarina Martins que lhe entra pela casa adentro a falar do tema “todos os dias”, quando não mesmo “todas as horas”. É o PS que, depois da auspiciosa Terceira Via na Europa, estaria agora “colonizado pelas ideias radicais” dos bloquistas. E é até a Direita, que teria deixado de ser uma reserva de bom senso: apesar de votar contra as medidas de combate à precariedade, o que esta aponta ao Governo é o defeito de este não ter ainda diminuído a precariedade tanto quanto apregoou. “Porque não se calam com isso dos precários?”, pergunta Fernandes em tom de desespero. O Universo está de pernas para o ar e o cronista sente-se abandonado por toda a gente, não há sequer PSD e CDS que lhe valham. O vírus do esquerdismo invadiu todos os cérebros e o mundo conspira contra ele: “a linguagem que utilizamos todos os dias está corrompida, foi contaminada pela ideologia de bloquistas e comunistas e nem demos por isso”.

O tom é apocalíptico, mas tem o mérito de denunciar como o campo político a que Fernandes pertence se sente derrotado. Durante anos, apresentaram a precarização como uma fatalidade que liberta e como um imperativo para combater a “segmentação do mercado de trabalho”. A solução da Direita era arrasar com os direitos laborais de todos e promover uma harmonização no retrocesso: “o nosso problema não é acabar com o trabalho precário – é tornar menos definitivos todos os restantes contratos de trabalho. O problema está a ser colocado de pernas para o ar”, explica o cronista, desconsolado. Só que essa ideia, que a Direita política e académica tentou vulgarizar, foi derrotada na sociedade portuguesa. Ninguém a deseja. Surpresa das surpresas, as pessoas compreenderam que era uma trapaça que só tinha um efeito: comprimir salários, instalar a insegurança no quotidiano, promover uma competição que mais não era que uma domesticação pelo medo, tornar a vida uma aflição permanente. E, facto incontestável, a precarização só produziu desemprego: mais de 60% dos pedidos de subsídio de desemprego resultaram da cessação de um contrato a prazo. A realidade não para de fazer desfeitas aos nossos liberais.

Com uma maioria negociada à esquerda e uma Direita em retirada, Fernandes agarra-se à única tábua de salvação que parece ter encontrado no caminho: a OCDE e os seus relatórios.

É certo que a OCDE continua a combinar uma recolha interessante de dados com o seu pressuposto de sempre, que é a ideologia da flexibilização laboral como solução para o mundo do trabalho. Sugere aliás o que a Direita portuguesa não tem coragem de verbalizar: acabar com os limites ao despedimento que estão na própria Constituição e demolir a contratação coletiva. Só que até a OCDE reconhece que a precarização real foi tão longe em Portugal, nomeadamente por via da transgressão à lei, que no meio do relatório lá vai dizendo que a fiscalização do trabalho devia ser reforçada. Correndo o risco de agravar o estado de exasperação de Fernandes, não resisto a dar-lhe mais esta má notícia, que uma leitura menos atenta do relatório pode ter deixado escapar: mesmo a OCDE, que é o que se sabe, considera excessivo o recurso dos patrões portugueses aos contratos a prazo e sugere que se agravem as contribuições para a segurança social dos empregadores que recorrem a esta modalidade precária de emprego.

O último ano e meio, é certo, não tem sido um paraíso e muitos problemas estruturais do país e do seu atraso económico mantêm-se: salários médios muito baixos, níveis inadmissíveis de precariedade, uma percentagem insustentável de desempregados sem apoio, o fardo da dívida a impedir um investimento público consistente capaz de promover mais emprego. Mas uma coisa é certa: a ideologia da precarização foi derrotada no campo das ideias.

A solução da Direita, que era responder à precariedade abolindo os direitos do trabalho, não tem adeptos entre o povo. É isso que a deixa com os nervos à flor da pele. Agora, é a hora da Esquerda. Por mais que Fernandes desespere, o combate à precariedade é mesmo para continuar. Por isso, meu caro José Manuel, vai ouvir falar muito dele, porque está ainda a dar os primeiros passos. O melhor é ir-se habituando.