Senhor eucalipto

(Francisco Louçã, in Público, 30/06/2017)

jose_manuel_fernandes

Assistir ao espectáculo de um adulto a comportar-se como um garoto cria uma certa vergonha alheia. Quando se trata de um debate importante para a comunidade, essa vergonha alheia transforma-se em pena. Tenho por isso pena do Dr. José Manuel Fernandes.

O Dr. Fernandes, que tem pergaminhos na imprensa – eu conheci-o na Voz do Povo, depois no Expresso e depois director do Público – capitaneia agora um projecto de agit-prop, o Observador, e nele entendeu que o incêndio de Pedrógão Grande seria a oportunidade de sacudir o país com uma intestina vaga de indignação. Se quem lê estas linhas deita os olhos a essa publicação online, já conhece o estilo da casa: Portugal é sempre uma crise alucinante, um governo trágico, um primeiro-ministro criminoso, tudo uma pepineira, pelo menos desde que Passos Coelho perdeu a maioria nas eleições. Portanto, nada de novo: na opinião da sempre fogosa brigada neoconservadora do Observador, este incêndio é só mais um fogo que arde para se ver, queime-se o governo e salvem-se os eucaliptos.

A querela é esta: os eucaliptos são ou não perigosos para a nossa floresta? Vejamos os factos. Diz o INE que Portugal tem 23% da sua área florestal entregue aos eucaliptos, ou cerca de 760 mil hectares. Só quatro países do mundo têm mais eucaliptal em termos absolutos do que Portugal: a China (mas é 104 vezes maior do que Portugal), o Brasil (92 vezes), a Austrália (83 vezes) e a Índia (36 vezes). Em termos relativos, nenhum país no mundo tem a superfície de eucaliptos de Portugal. Aos que me respondem com o argumento de “dá dinheiro”, pergunto só por que é que a Alemanha ou a Espanha não correm para este El Dorado. A resposta é que é perigoso, não é que os empresários alemães ou espanhóis sejam estúpidos. Sim, o nosso desordenamento florestal é grave, o abandono rural gravíssimo – mas é um desordenamento que promove os eucaliptos (77% do investimento na floresta em 2015 foi para eucaliptos), que são perigosamente combustíveis, sobretudo se plantados como o estão a ser. Portanto, mais vale travar a fundo e salvar a floresta deste negócio pirómano.

Mas o Dr. Fernandes não quer conversar. Quer bombardear. Por isso, ao teorizar sobre as razões para estarmos gratos aos eucaliptos, o Dr. Fernandes sente a necessidade de nos explicar, sobriamente, que não é um “miserável avençado das empresas de celulose”, do que não tenho dúvida. Mas, vai daí, acha-se obrigado a tratar os pontos de vista contrários como prova de “ignorância” (e repete “ignorantes”), “obsessão”, “arrogância”, “preconceito” e “confusão” de “cabeças conspirativas” (sic). Quem dele discorda, supremo atrevimento, são os “bota-faladura” (sic) (agradeço por isso que ele me inclua nesta lista como “sumo sacerdote”, o que pensariam os meus amigos se ele me esquecesse). Ler um texto de alguém que assina como jornalista e tão cheio de classificações insultuosas é confrangedor. O homem não se lembra de nada de quando foi director de um jornal de referência?

Mas ainda estava só a começar. Vem aí o melhor. São as “carinhas larocas” (sic) que o tiram do sério: “Quando a Catarina ou uma das manas Mortágua investe contra a chamada eucaliptolândia, os jornalistas que seguram os microfones quase acenam com as cabeças e depressa se esquecem de confrontar a sua doçura de hoje (quando morreram 64 pessoas num incêndio florestal) com a lendária agressividade dos tempos em que até as suas unhas encravadas eram culpa de Passos Coelho”.

O homem não gosta de ninguém, sobram os eucaliptos. Nem “da Catarina” nem das “manas Mortágua”, cuja “doçura” vitupera, pois contrasta com a sua “lendária agressividade” a respeito das “unhas encravadas”, nem dos jornalistas que, patetas, “acenam com a cabeça”. Se já chegou às “unhas encravadas”, não devemos mesmo ter pena do Dr. Fernandes?

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6 pensamentos sobre “Senhor eucalipto

  1. Eh pá, mas vale a pena perder tempo com um gajo destes? Eu ainda me lembro do início do Público, não do Público de que ele foi director, mas do inicial, do genuíno, um jornal de grande categoria, com o Vicente Jorge Silva e o Jorge Wemans. Este gajo é, como tantos outros, de duas uma: ou um vendido ou uma pessoa de convicções fracas. As iniciais ou as actuais…

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  2. Meu caro Francisco,
    O dr. Fernandes é só mais um que vive do sistema capitalista e gosta de protagonismo.
    O Observador paga-lhe muitíssimo bem, mesmo que, no balanço de encerramento anual possam acumular prejuízos.
    Também a SIC (grupo) está tecnicamente falida há muito tempo e contínua a evacuar anti-comunismo primário por todos os poros, como convém ao capitalismo e aos capitalistas, assim como a quem, não sendo capitalista e até reclamando-se de esquerda, não se importa com as atrocidades do capitalismo enquanto sistema económico e social dominante, e lhe vai dando o benefício da dúvida, mesmo sabendo que, por exemplo, hoje morrem de fome e subnutrição, em média, 17 crianças por cada minuto que passa, e ontem morriam menos!
    Só que, como bem sabes, ndea SIC evacua-se muito, mas é de uma maneira “democrática”. Assim, por rxemplo:
    – tanto evacua o lobo xavier (o tal conselheiro de estado, teu colega, aliás, deste estado capitalista e burguês em que somos – eu falo por mim e mais uns quantos que conheço pessoalmente – que, ao que é suposto, num intervalo de intimidade com um parceiro, enquanto este foi à WC, lhe sacou do telemóvel uns SMSs e os foi levar ao Presidente dos afectos, visando quebrar a espinha dorsal à GERINGONÇA – a queda do Centeno);
    – como fala o maior luso historiador vivo que tem a maior biblioteca privada de Portugal, que quis ser comunista, depois esquerdista, depois qualquer coisa politicamente falando e que aterrou no partido dito popular e depois social e democrata – o ppd/psd de duarte lima, Iisaltino, dias loureiro, cavaco, barroso, miguel macedo, passos coelho, hemínio loureiro, deste gajo agora que inventou uns suicídios para o vidente poder meter msis ins grãozitos na engrenagem da GERINGONÇA, e quejandos, tudo doutores, eu sei, mas deixa, ó Francisco, que o meu ego se sinta massajado por eu não escrever o Dr. tal como tu fazes ó fernandes(eco) nem, sequer, com maiúsculas – de onde conseguiu ver que no Iraque havia armas químicas, que, na análise ao passado recente luso blá blá blá mas cavaquismo e cavaquistas nem vê-los, e só ataca o vidente porque foi este quem impediu ele subir ao poder, o que, porventura, terá sido a última oportunidade do ilustre historiador;
    – como evacua o tópógídio do mendes(eco), ou a parva(zeca) do gomes ferreira que é tão esperto e inteligente que até já há uns anos esceveu um “livro” a que deu o admirável, arrojado quanto sugestivo título de “O meu programa de governo”;
    – como falou o José Magalhães (depois de ter abandonado o PCP porque “agora o ps é que está a dar mais”) e o “António”, e fala agora o “coelhone”;
    – como, etc., etc.

    Mas, no conjunto, todos estes pasquins e seus maneis fernandes(ecos) contribuem para a manutenção do sistema capitalista. E, como tão bem sabes, ó Francisco, este é um hediondo sistema que há mais de 400 anos da sua existência cometeu as maiores atrocidades e barbaridades e, como bem sabes também, continuará a cometê-las se não for estancado o seu ímpeto vampiresco (cada vez mais acentuado), se não for morto.
    Mas enquanto houver moinhos de vento como o Bloco dito de esquerda (que dirá o Major Tomé que foi deputado eleito pela então ultra-revolucionária UDP, a única força política dita de extrema-esquerda que, ao tempo, conseguia representação parlamentar em toda a Europa dita democrática, ao constatar agora que o BE se nega a enviar representantes parlamentares seus a Cuba, em uma visita oficial de estado do PR àquele país, pela simples razão de que “o BE é contra todas as ditaduras” ?????), haverá sempre Dons Quixotes…
    Mas, também como deves saber, meu caro Francisco, ainda há os que, estando-se a c@gar para os fernandes(ecos) e todos os outros fascistas e capitalistas vampiros, continuam a alimentar a sanha de esganar a burguesia!

    E,
    《Ao lado dos explorados,
    no combate à opressão,
    não me importa que me matem!
    Outros amigos virão!》

    Um abraço, Francisco, do
    aci

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  3. Este comentário é ainda acerca do Post do “Estatuadesal” lá de trás onde ficaram por responder as quetões colocadas pelo “anticapitalista” e a própria “estatuadesal”. Só o faço agora porque estava fora da residência e o meu velho cmputador portátil ficou sem net ironicamente devido a actualizações que desactulizaram a velha pen sapo que usava.
    Ao caro “anticapitalista” digo que alguém querer ser radicalmente coerente uma vida inteira com princípios e doutrinas sócio-filosóficas datadas mesmo quando esses princípios e a vida mudam radicalmente face aos novos pensamentos e tempos científicos, sociais e morais, não é necessáriamente uma prova de inteligência. Até Cunhal, grandemente elogiado pela sua elevada coerência, foi capaz de romper com a sua obstinada coerência e engolir um sapo-elefante ao mandar votar em Mário Soares. Também, actualmente, no mesmo sentido Jerónimo rompeu sua coerência de “anticapitalista” a toda a prova para gerar uma geringonça governativa de tipo social-democrata que fosse melhor para os portugueses ao mesmo tempo que eliminava do poder a direita mais pura e dura depois de Abril/74.
    Penso eu que é essa radical maneira de querer ser coerente em política, para mais em política, onde tudo é relativismo e pragmatismo, que o leva a estranhar com espanto o facto de ontem os angolanos serem “turras” e hoje serem “irmãos”. Se reparar todos os heróís de um país são os bandidos ou “turras” de outro país e vice-versa: basta olhar a história de Portugal e Castela.
    Também o caro faz uma referência não abonatória ao positivismo da democracia ou sociedade dita ocidental. Pois uma das grandes críticas feitas ao marxismo é esse mesmo de querer combater e aniquilar o capitalismo utilizando os métodos positivistas do capitalismo de forma a tornarem o trabalho e a produção mais eficazes e produtivos que na sociedade capitalista; ou seja, em vez de melhor sociedade no sentido de mais bem-estar e felicidade para o povo impunha-lhes mais trabalho e luta pela produção numa disputa com o capitalismo para ver quem produzia mais.

    Ao caro “estatuadesal” digo que ao contrário do que pensa o Sartre e o seu “existencialismo” foi/é a doutrina que afirma paradoxal e perenptoriamente que o “homem está condenado a ser livre” e não gregário. Na sequência de Jules Lequier que previu a possibilidade de haver actos que não tem causa (viu isso ao despreocupadamente arrancar uma folha de loureiro) e lhe chamou um “acto livre” sem causa anterior ou com o poder de ser a causa de si mesmo e a isso chamou liberdade, expressão de livre determinação.
    Para Sarte a essência não existe já inteiramente e segundo um plano a partir do qual o mundo tivesse sido engendrado, pelo contrário, a essência é objecto de uma aposta, de uma criação da minha liberdade que se apodera do mundo para lhe conferir um destino. Não é preciso pai para aquele que, não sendo nada, sabe esculpir-se a si próprio , engendrando nesse processo uma realidade à altura da sua liberdade. Foi deste modo de pensar que a liberdade é inata à existência e não à consciência que o existencialismo vulgar se pode reduzir à sua expressão mínima de que “a existência procede a essência”.

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    • Ao caro José Neves direi:
      Continuar a bater, mesmo que doutamente, em teclas não menos doutas, depois de eu lhe ter afirmado que
      《este tipo de discussões, não me dão qualquer tesão. E creia que não é pelo facto de ter nascido em 1944.》
      querendo, nesta última parte, dizer-lhe que mesmo velho ainda vou tendo alguma. Só que não é para desperdiçar em doutas discussões filosóficas indo ao mais profundo dos “Sartres” ou outros doutos quanto ilustres operários da Filosofia que se empenharam, durante tempos infindos, nas discussões dos “existencialismos”, dos “essencialismos” e de outros “ismos” como o “romantismo” e o “realismo”, enquanto a História da Civilização se ia fazendo desde que, partindo da BARBÁRIE, onde os mais frágeis eram dizimados, sem contemplações, pela mãe NATUREZA, o Homosapiens conseguiu fazê-los sobreviver e até realizarem-se como seres Humanos. A isto eu chamo Civilização, consubstanciada nos direitos humanos, que o seu querido – ou não atacado – capitalismo teima, como sempre, em não cumprir, ainda que plasmados em também doutas cartas e por quase todos rubricadas, como são as da ONU (agora chefiada por um ilustre portuga militante activista do “socialismo em liberdade, não à cubana nem à chinesa mas de abundância o da Europa connosco” e católico apostólico romano praticante, o que, como sabemos, lhe permite ir vivendo com alguma tranquilidade, não só pelos obscenos vencimentos que recebe, mas também por ter a certeza de que qualquer sacerdote, em im qualquer confessionário, lhe põe o contador dos pecados a zeros desde que se confesse arrependido, reze umas avé marias e uns padre nossos, meta uma notinha na caixa das esmolas e tome o senhor na eucaristia seguinte; depois, se morrer, tem a certeza que vai directamente para o céu, se não morrer, pode continuar a pecar, correndo o único risco de morrer antes da confissão seguinte e ficar sujeito a ir prá porra do inferno), e a isto eu posso chamar realismo, versus idealismo, onde, segundo parece, o caro José Neves navega e se sente muito à vontade, mas que eu me interrogo se, transformar o território da discussão política – seja ela o que for – num território das elites burguesas previligiando a sobrevivência dos mais fortes, acaso, não estaríamos a correr o risco de reciclar ou legitimar uma reinterpretação das teses do meu querido e saudoso Mestre Darwin?
      Se é isso que o caro José Neves pretende, esqueça, porque não estarei disponível para qualquer contributo. Rebelo mais aquela velha máxima do saudoso Vasco: 《ó Evaristo, tens cá disto?》. E pela simples razão de que, entre um Evaristo e o outro, no filme da vida real e concrecta aqui na Terra, eu escolho ser o Vasco Santana!…
      Não entendeu o caro José Neves o significado das minhas confessadas incapacidades de sintetizar seja o que quer seja, nem as não menos confessadas modéstia e humildade, mas eu explícito agora, com a devida vénia:
      Fiz testes vocacionais aos 17 anos, na então NORMA, para escolher seguir Letras ou Ciências. Deu mediano, o meu AÍ!…
      Mas, como o caro José Neves saberá muitíssimo melhor do que eu, a inteligência é hereditária, e não está à venda em qualquer farmácia. Mas, como a honestidade, mesmo a intelectual, é um acto contínuo, se bem que esta, a meu ver, ao contrário daquela, não admita graus nem adjectivações. E nesta arena eu dou cartas e corto orelhas.
      Também devia ter levado em conta, caro José Neves, que ainda só tive 3 (três) filósofos inspiradores da minha filosofia de vida, e logo: o 1°, era analfabeto declarado; o 2° ninguém sabe ao certo, mas como era filho de carpinteiro, e mataram-no aos 33 anos, não poderia ser muito douto; e o 3°, não passou de um reles comunista(zeco) que, num adágio popular onde um padre barrigudo diz para o Zépovinho do saudoso Bordalo: 《vê lá bem onde vais votar, olha que eu ouvi dizer que os comunistas comem criancinhas ao pequeno almoço e matam os velhos com injecções atrás da orelha e… (entretanto o magro Zépovinho, interrompendo o padre barrigudo) acrescenta: e eu também ouvi dizer que até vão ao cu aos boateiros!?!?….
      E essa do
      《em vez de melhor sociedade no sentido de mais bem-estar e felicidade para o povo impunha-lhes mais trabalho e luta pela produção numa disputa com o capitalismo para ver quem produzia mais.》
      ser obra do meu querido e saudoso velho barbudo Karl, que deu a cara, e até sacrificou a própria vida e a da mulher e filhos (dois morreram crianças por falta de tratamento médico), foi quem mais estudou e investigou as leis do capitalismo para as melhor e mais adequadamente as combater enunciando leis que ainda hoje se verificam, etc., etc., essa, escrevia eu, “só contaram pra você”, ó caro José Neves!…

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  4. Caro “Anticapitalista”,
    Eu não imputo a Marx quer a ideia quer a frase que cita acima e que diz que só contaram isso para mim mas sim ao marxismo, aquele que derivou da utilização prática da doutrina marxista e foi aplicado durante décadas. A frase é minha, e talvez pouco clara, e deriva especialmente da crítica que os marxistas Sul Americanos, inclusive Che Guevara, fizeram perante o “socialismo real”, na altura, em pleno vigor na antiga URSS.
    Marx era demasiado estudioso, inteligente e conciso para produzir uma tal ideia e propo-la para aplicação prática. Aliás, ele previu bem essa situação quando sugeriu que o socialismo e o comunismo só poderia surgir de uma sociedade avançada.

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