Aprender a viver com a incerteza radical

(Ricardo Paes Mamede, in Diário de Notícias, 10/03/2020)

O voo de um bando de estorninhos é um espectáculo fascinante. É-o por motivos estéticos, mas também científicos. Não existe um maestro que guie a acção daqueles milhares de pássaros. A coreografia única que produzem em conjunto baseia-se em regras simples de comportamento. Cada ave reage ao que fazem as outras que a rodeiam.

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O resultado é imprevisível: mesmo que tivesse a inteligência de um humano, nenhum estorninho saberia para onde iria o bando a seguir. Mas a imprevisibilidade – e a enorme complexidade que emerge a partir de regras tão simples – não conduz ao colapso do grupo. O bando mantém-se coeso e o resultado é impressionante.

As sociedades humanas têm muitas parecenças com um bando de estorninhos. Tentem regressar a Dezembro passado e lembrar o que se previa para 2020. Na lista não constava o assassinato do general iraniano Qassem Soleimani às mãos dos EUA, que pôs os mercados financeiros em transe logo no início de Janeiro. Nem a extensão do contágio internacional do novo coronavírus, cujos danos começam a ser evidentes. Nem o efeito do desentendimento entre a Arábia Saudita e a Rússia sobre o preço do petróleo. Ainda nem vamos a um quarto do ano e já estes e outros episódios nos obrigam a repensar muitas decisões.

Há diferenças importantes entre as sociedades humanas e um bando de estorninhos, é certo. Entre nós, há hierarquias bem definidas. Há leis e regras bem mais complicadas, umas escritas outras não. Há memórias estruturadas do passado, que influenciam as nossas escolhas. Há uma luta activa mais ou menos organizada pelas ideias, que ajuda a moldar regras e comportamentos. Em alguns aspectos, estas características tornam as sociedades humanas mais previsíveis do que um bando de pássaros. Noutros, pelo contrário, aumentam a complexidade e a imprevisibilidade.

Tal como no caso dos estorninhos, é possível reconstruir a sequência de casualidades que levou a cada um dos eventos referidos. Esse tipo de análise histórica e institucional ensina-nos muito sobre o funcionamento das sociedades humanas. No entanto, só por um improvável acaso alguém teria conseguido prever cada um deles, quanto mais tudo o que já se passou nos últimos dois meses.

Ainda há quem acredite que a previsão é o objectivo último da ciência. Nas escolas de Economia, por exemplo, os alunos são educados para acreditar na bondade de modelos formais que visam projectar as economias no futuro. Pelo contrário, têm pouco ou nenhum espaço para aprender sobre processos que se verificaram no passado em contextos específicos. Os modelos formais são úteis, sem dúvida. Mas estaríamos mal se as decisões fundamentais para a vida em sociedade se guiassem apenas – ou fundamentalmente – por eles.

Numa decisão pouco habitual, a OCDE anunciou que iria cancelar a publicação dos seus principais indicadores económicos avançados no início de Março, devido à incapacidade de prever neste momento os efeitos do novo coronavírus na economia mundial. Até lá, os governos terão de tomar decisões sem o conforto destas previsões oficiais.

Na verdade, as instituições internacionais também não têm capacidade para prever com o mínimo de precisão os impactos de uma descida abrupta do preço do petróleo, num contexto mundial marcado por níveis de endividamento público e privado sem precedentes históricos, por tensões políticas prolongadas em vários países produtores de petróleo, ou pela preocupação dos EUA face ao rápido desenvolvimento tecnológico da China. Isto não impede a OCDE de ir actualizando as suas previsões ao longo do ano – e ainda bem. O problema não está nas previsões, mas no uso que fazemos delas.

O conforto que muitos encontram nas previsões exactas dos modelos económicos é conveniente, mas é falso. Os responsáveis do futuro não podem ser ensinados apenas a construir modelos que assumem níveis de certeza que não existem. Igualmente importante é aprendermos todos a lidar a com a incerteza radical que caracteriza as sociedades humanas. Pelo menos tanto como os movimentos de um bando de estorninhos.

Economista e Professor do ISCTE

Não é possível prever quase nada na História

(Pacheco Pereira, in Público, 29/02/2020)

Pacheco Pereira

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Um homem que se diz socialista está muito à frente na competição pela nomeação para candidato presidencial americano no Partido Democrático. Sim, nos EUA. No Parlamento português foi apresentado e recusado administrativamente um projecto de castração química. Uma maioria de deputados portugueses votou a favor da legalização da eutanásiaVasco Pulido Valente morreu e uma nuvem de panegíricos ouviu-se por todo o lado. Parece que não foi ele que morreu. A ameaça de uma epidemia levou as equipas de futebol italianas a jogar em estádios vazios de público. Um governo português tentou fazer um aeroporto pela enésima vez e falhou porque uma lei de que ninguém se lembrou dá a um grupo de pequenos municípios um direito de veto sobre a obra. Um jogador negro saiu do campo por ter sido insultado com frases de carácter racista e subitamente todo o Portugal desatou a fazer juras anti-racistas. Nos EUA, um mentiroso patológico sofrendo de uma perturbação narcisista caminha, com muito poucos travões, para uma autocracia. A NATO, que parecia eterna, está comatosa. O ditador da Coreia do Norte é tratado pelo Presidente dos EUA como se fosse seu namorado. Um cavaleiro tauromáquico, cuja profissão é torturar animais em público, foi processado por maltratar uns galgos que tinha a morrer à fome. Angola sob a direcção do MPLA tornou-se a capital africana do combate à corrupção. Soldados portugueses estão no Kosovo, no Mali ou no Afeganistão, terras essas de quem nem sequer no Estado-Maior devia haver um mapa decente que não fosse do National Geographic. O Reino Unido entrou para a União Europeia e depois saiu. Há um movimento no PS e no Bloco de Esquerda para candidatar Ana Gomes à Presidência da República. Portas é lobbyista de negócios latino-americanos e africanos. Marcelo Rebelo de Sousa é Presidente. O aeroporto da Madeira tem o nome de um jogador de futebol. O Partido Socialista é defensor do défice zero e das “contas certas”. A Maçonaria tentou tomar conta do PSD. Um número significativo de portugueses usa uma rede social criada para que meia dúzia de estudantes soubessem que namorados tinham (ou não tinham) as suas colegas na universidade. A Quadratura do Círculo tornou-se a Circulatura do Quadrado. Os adolescentes passam o dia a mandar mensagens uns aos outros. Centenas. Ainda não há TGV. Um partido que quer um Serviço Nacional de Saúde para os animais tem um grupo parlamentar. Santana Lopes saiu do PPD/PSD e não tem nada. O Presidente francês tem um exército aguerrido de gente vestida com coletes amarelos. O desprendimento de glaciares na Antárctida é notícia de primeira página. Há paradas de orgulho LGBTQ+ em Vila Real. Ninguém sabe o que é o +, mas ninguém liga, nem ousa perguntar. Existe censura feita por uma multidão de anónimos na Internet. A verdade está moribunda nas redes sociais. A mentira domina as redes sociais. Vladimir Putin manda na verdade e na mentira e o Presidente dos EUA é o seu discípulo dilecto. Podia encher páginas e páginas disto.

Pensem sobre cada um destes factos e andem 30 ou 20 anos para trás e vejam quantos destes acontecimentos seriam previsíveis. Com muito esforço encontramos dois com alguma similitude com eventos passados, o que significa que existe uma débil recorrência: um, mais um falhanço de governos com a construção de uma grande obra pública por uma combinação de negligência e arrogância; outro, a precedente epidemia da gripe das aves, mas mesmo assim muito mais mitigada do que a actual do coronavírus. Mas a maioria é efectivamente surpresa, não se estava à espera e não se previu.

Embora possa haver algumas tendências de fundo, no essencial a História é sempre surpresa e é por isso que os homens sábios da política e da acção devem ler Clausewitz. Adaptado aos tempos modernos, isso significa que se se quer atravessar um deserto sólido de chão duro porque não chove há 500 anos, o bom comandante de tanques prepara-se para a chuva e lama.

Fazer planos e previsões dá-nos a sensação psicológica que dominamos o futuro, mas o ruído é a voz da natureza. É por isso que esta coluna se chama o “ruído do mundo”.


Setembro, uma rentrée de alto risco

(Jorge Nascimento Rodrigues, in Expresso Diário, 03/09/2018)

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O regresso de férias não augura uma rentrée pacífica. Pelo contrário, os analistas apontam para cinco riscos mais importantes que vão marcar os mercados financeiros em setembro, um mês que pode tingir-se de vermelho desde as bolsas ao mercado da dívida e cambial.

Agosto terminou com as bolsas mundiais a registarem uma subida modesta. Com exceção de Nova Iorque, as praças financeiras registaram perdas nas bolsas, com a América Latina e a Zona Euro a destacarem-se em terreno negativo. O mês que findou teria acabado no vermelho à escala mundial, se os índices das duas bolsas norte-americanas não tivessem registado máximos históricos com os preços das ações a revelarem alguma exuberância. Nos mercados cambiais, a situação piorou para várias economias emergentes importantes, em particular para as cinco que dão corpo ao novo acrónimo do mundo financeiro, os BRATS – para Brasil, Rússia, Argentina, Turquia e África do Sul – que viram as suas moedas afundarem-se mais um mês face ao euro e ao dólar. Na zona euro, os temores de novo contágio, agora provocado pela Itália, renasceram, com os juros da dívida transalpina a 10 anos a manterem-se em máximos de quatro anos, acima da linha vermelha dos 3%.

O índice global de incerteza política subiu em junho – últimos dados disponíveis divulgados pela Kellogg School of Management, da Universidade Northwestern, nos EUA – para níveis muito superiores aos de setembro de 2008, quando a crise financeira atingiu o auge, mas ainda se mantém abaixo dos picos registados aquando da vitória do Brexit e da tomada de posse de Donald Trump como presidente dos EUA:

As perguntas para setembro são por isso muitas. Vão as bolsas norte-americanas continuar em euforia ou uma escalada na guerra comercial travada pela Casa Branca vai finalmente fazer estragos em Wall Street? Os principais mercados emergentes vão gerar uma crise transversal? Itália vai provocar uma nova vaga de crise nas dívidas soberanas dos periféricos do euro, nomeadamente em Portugal? A política monetária dos dois principais bancos centrais do mundo vai apertar-se ainda mais? O Brexit vai gerar um divórcio amigável ou caminha-se para um cenário de não se obter acordo até final do ano?

Muitos analistas consideram que as perspetivas para setembro são pessimistas e abrangem cinco riscos.

1 – ESCALADA NAS GUERRAS COMERCIAIS DE TRUMP

O presidente norte-americano decidiu usar a guerra comercial como arma geopolítica em direção a diversos parceiros comerciais e adversários geoestratégicos. Muitos analistas não esperam que essa estratégia abrande antes das eleições para o Congresso dos EUA no meio mandato presidencial a 6 de novembro. O pior risco para a economia mundial é que haja uma confluência de várias guerras comercias e uma escalada dificultando um recuo.

As frentes de guerra comercial são múltiplas. A mais importante diz respeito ao confronto com a segunda maior economia do mundo, a China. A guerra comercial poderá escalar para a aplicação, já no início de setembro, de taxas aduaneiras norte-americanas em relação a mais 200 mil milhões de dólares (€172 mil milhões) de importações da China, implicando uma retaliação adicional de Pequim em relação a exportações dos EUA no valor de 60 mil milhões de dólares (€52 mil milhões).

A renegociação do Tratado de Comércio Livre da América do Norte (conhecido pela sigla inglesa NAFTA) ainda está por terminar com o Canadá, objetivo que Trump considerou não ser de “necessidade política”, e tem três meses para que o México dê o ‘sim’ final ao acordo preliminar já obtido. O presidente norte-americano ameaçou o Congresso do seu país para não se intrometer no assunto da renegociação da NAFTA, se não “acabará com o Tratado por completo”.

A negociação com a Comissão Europeia, nomeadamente no sector automóvel, vai voltar à agenda, depois da trégua assinada por Trump e Jean-Claude Juncker, tendo o presidente norte-americano considerado recentemente que as propostas europeias “não são ainda suficientemente boas”.

As sanções norte-americanas ao Irão e à Rússia vão estar na ribalta. No caso de Teerão, as sanções poderão vir a ter um impacto no mercado petrolífero global. Em relação a Moscovo, o pacote norte-americano abrange a exclusão da Rússia do mercado de crédito nos EUA e proibição de exportação de produtos sensíveis em termos de segurança. Os efeitos colaterais já se estão a sentir, com uma quebra de mais de 50% do investimento direto estrangeiro na Rússia no primeiro semestre de 2018.

Finalmente, o presidente norte-americano já ameaçou com o abandono da Organização Mundial do Comércio por parte dos EUA.

2 – CRISE TRANSVERSAL NOS MERCADOS EMERGENTES

O abrandamento do crescimento económico na China e o seu impacto nas cadeias de fornecedores, a subida das taxas de juro pela Reserva Federal norte-americana (Fed) encarecendo o endividamento em dólares, as guerras comerciais em curso e problemas políticos e financeiros internos em diversas importantes economias emergentes estão a provocar estragos nas bolsas e nos mercados cambiais desses países.

Os analistas já cunharam o acrónimo BRATS para o grupo mais vulnerável que compreende o Brasil, Rússia, Argentina, Turquia e África do Sul. A Argentina, recentemente intervencionada pelo Fundo Monetário Internacional, e a Turquia têm estado na ribalta.

As bolsas das economias emergentes perderam quase 4% em agosto e já acumularam um recuo de 9% desde início do ano. Em agosto, o peso argentino, a lira turca, o rand sul-africano, o real brasileiro e o rublo russo perderam entre 41% e 8% face ao euro.

O risco é se os BRATS contagiam o mundo emergente e em desenvolvimento e geram crises globais como as de 1981/82 e 1994/1999.

3 – CONTÁGIO ITALIANO REACENDE CRISE DAS DÍVIDAS SOBERANAS

Setembro vai marcar o primeiro confronto entre o governo italiano e a Comissão Europeia a propósito das metas do orçamento transalpino para 2019. O risco é que o governo em Roma opte por fazer regressar o país ao procedimento por défice excessivo, com o défice orçamental acima de 3% do PIB, desencadeando uma escalada política com Bruxelas.

Com a probabilidade desse cenário em crescendo, os mercados financeiros têm reagido negativamente. O índice MIB da bolsa de Milão registou uma queda de 5,4% em agosto, liderando os recuos mensais à escala mundial. Os juros das obrigações italianas a 10 anos fecharam em 3,24%, um máximo de quatro anos, e o Tesouro em Roma teve de pagar 3,25% no último leilão de agosto de títulos naquele prazo. O prémio de risco da dívida italiana subiu para quase 300 pontos-base, o equivalente a 3 pontos percentuais acima do custo de financiamento da dívida alemã, e quase duas vezes mais do que o prémio de risco da dívida portuguesa.

O risco apontado pelos analistas é que os juros da dívida italiana prossigam a escalada acima da linha vermelha de 3% e façam regressar o temor de uma nova crise das dívidas soberanas dos periféricos do euro, nomeadamente da Grécia, Chipre, Portugal e Espanha.

4 – BCE E FED REALIZAM REUNIÕES IMPORTANTES DE POLÍTICA MONETÁRIA

Os dois mais importantes bancos centrais do mundo, a Fed norte-americana e o Banco Central Europeu (BCE) reúnem-se em setembro para tomar decisões de política monetária.

O BCE é o primeiro a reunir a 13 de setembro, antes do programa de compra de ativos, nomeadamente de aquisição de dívida pública emitida pelos membros do euro, ser reduzido mensalmente para metade a partir de 1 de outubro. O BCE já antecipou que deverá descontinuar o programa no final do ano, mas que esse objetivo depende do andamento dos dados económicos. Prosseguirá, no entanto, o reinvestimento do capital recebido aquando das amortizações dos títulos que detém em carteira e prevê não mexer nas taxas diretoras antes do final do verão do próximo ano. Os mercados da dívida, em particular dos periféricos do euro, incluindo Portugal, são particularmente sensíveis a nuances nesta estratégia anunciada.

Por seu lado, a Fed deverá proceder a uma nova subida dos juros na reunião de 26 de setembro e os mercados de futuros preveem ainda uma última subida do ano na reunião de 19 de dezembro. Os analistas monitorizam o impacto destas subidas da taxa diretora na evolução dos juros dos títulos do Tesouro norte-americano, nomeadamente a 10 anos, situando-se acima de 3%. A subida das taxas da Fed têm um impacto mundial, particularmente agudo nas economias mais endividadas em dólares.

5 – BREXIT AMIGÁVEL OU SEM ACORDO

Os analistas e os investidores vão estar particularmente atentos à conferência do Partido Conservador, no governo, a 30 de setembro e a um cenário pessimista de não obtenção de um acordo ate à cimeira europeia de 18 de outubro.