Tanta verdade junta mereceu publicação – take XVI

(Por André Campos Campos, 06/09/2022)


(Este texto resulta de um comentário a um discurso que publicámos de Carlos Matos Gomes ver aqui. Perante tanta verdade junta, resolvi dar-lhe o destaque que, penso, merece.

Estátua de Sal, 06/09/2022)


Estamos a viver numa época crucial, em que nada voltará a ser o mesmo. A história por vezes desdobra-se lentamente durante décadas, mas pode acelerar de repente. Farei um balanço de 6 meses. Estou certo de que mais tarde, dezenas ou centenas de livros serão publicados para analisar os momentos que estamos a viver, ao vivo, no Outono de 2022.

Na história houve fracturas que provocaram imensas mudanças na nossa civilização ocidental: a do Império Romano, a da Igreja e no século XXI será a da civilização ocidental.

A Rússia está muito mais armada do que a UE nesta crise, mesmo que tenha de sofrer, tem energia que pode vender a outros e, sobretudo, o que menos se fala são os metais preciosos que tem em quantidade. A Europa cometeu um erro ao destruir a sua indústria há 30 anos, e hoje continuamos a acreditar que somos o centro do mundo, o que já não é o caso.

Seria interessante fazer um relatório sobre as decisões irresponsáveis e absurdas dos nossos líderes europeus desde o início deste conflito. No altar de uma russofobia sem sentido e no calor da altura, os líderes europeus tomaram decisões absurdas que estão a destruir a sua própria economia e o seu povo..

Um fecho das relações Rússia-Europa seria uma perda para a Europa e para a Rússia, e a Rússia não quer isso. Por outro lado, os EUA beneficiariam enormemente desta ruptura, que é uma das principais razões pelas quais a Rússia não quer que isso aconteça. O problema é a fidelidade de alguns líderes europeus aos EUA ou, pelo menos, às grandes empresas controladas por alguns indivíduos ou grupos nos EUA.

Penso que este é um ponto crucial e penso que os EUA estão prontos para destruir a Europa ou melhor, para pressionar a Europa a destruir-se a si própria, a fim de manter o controlo. E infelizmente, alguns líderes europeus demonstraram, e por vezes confirmaram verbalmente, que a sua lealdade não é para com o seu povo. Os nossos líderes estão prontos a destruir os nossos países para agradar a alguns grandes grupos. Acrescente-se a isto o facto de os meios de comunicação social europeus (e os meios de comunicação social ocidentais em geral) serem propriedade de um punhado de grupos, e a única questão que realmente se coloca é se uma revolução ainda é possível. Pessoalmente, penso que não é, e mesmo que fosse, as revoluções muitas vezes colocam pessoas extremamente perigosas no poder.

Há uma coisa que o Ocidente perde sempre de vista sobre a Rússia, e que é que, ao contrário do Ocidente, os russos não têm estado habituados a privilégios sociais artificiais adquiridos através da pilhagem de países estrangeiros. Os russos sabem como fazer com o que têm. Os líderes ocidentais habituaram durante demasiado tempo o seu povo a privilégios sociais artificiais. Agora que os países cuja pilhagem permitiu à Europa adquirir estes privilégios estão a acordar com o apoio de novas potências como a Rússia e a China, o Ocidente está em colapso e a dar-se conta de que sempre foi um gigante com pés de barro. Vejam Portugal agarrado desesperadamente a Moçambique e a outros países africanos que há muito saqueou e que agora já não o querem.

O objectivo da Rússia não é absolutamente a Europa, mas sim os EUA. Assim, concentrar uma análise nas estúpidas sanções da UE é realmente perder os BRICS e a guerra contra o dólar que a Rússia está a acelerar com os seus aliados… se a China é a fábrica do mundo, não devemos ignorar que a Rússia é o fornecedor de material do mundo! A dependência da Rússia não se limita apenas ao petróleo ou ao gás, mas também aos metais preciosos… algumas pessoas pensam que podem mesmo privá-la de microprocessadores, esquecendo que a sua gravação é feita por néon, uma matéria prima proveniente principalmente da Rússia… em suma, a Europa se auto-preparou para uma guerra, nem sequer é o alvo!

Todos os países da NATO têm vindo a trabalhar arduamente contra a Rússia há mais de 10 anos. Mesmo no desporto, nos Jogos Olímpicos, etc., etc. V. Putin teve uma paciência que muitas pessoas, inclusive nos EUA, não compreenderam. Foi a alma russa, a paciência, a diplomacia em primeiro lugar, até ao ponto do excesso, que fez com que a Rússia parecesse um bando de brincalhões que poderiam ser esmagados. Mas quando a Rússia começa, é impossível impedi-la, e ninguém conseguirá impedi-la, está-se nas tintas para a UE e a Máfia dos EUA, tem o seu plano e irá em frente com ele, aconteça o que acontecer.

O fim da URSS marca a mão dos oligarcas sobre a riqueza da Rússia, que é imensa e os mesmos oligarcas privatizaram empresas estatais na Rússia e saquearam a enorme riqueza do país em prole do Ocidente…Os acordos de gás de baixo custo que permitiram à Alemanha e à Europa alcançar um enorme crescimento nos anos que se seguiram à queda da URSS e, sobretudo, sem o baixo preço da energia russa fornecida à Europa, será que a Europa teria conseguido esse crescimento? Certamente que não, porque a economia é sobre energia transformada.

O Ocidente, especialmente a Europa, tem muito mais a perder neste conflito. Putin tem clientes potenciais para os seus recursos naturais, especialmente na Ásia, África e certos países europeus.
Não esqueçamos que a Rússia é um país muito grande que tem uma grande autonomia a todos os níveis.
A Europa perderá o curso da história de um mundo multipolar ao aceitar ser um fantoche dos EUA.

As sanções contra a Rússia não funcionaram e o Presidente Putin ainda não começou a sancionar a sério a UE – até agora pediu ao Ocidente que pagasse as suas contas por rublos.

Como português, estou profundamente chocado com a falta de antecipação por parte do nosso governo, bem como por parte da UE. Governar é prever. Não compreendo como se pode estar tanto ao serviço de uma ideologia que é prejudicial para o interesse comum do povo.

Há um lado positivo nisto, é que a Rússia está a permitir à Europa compreender o que significa ter uma descida súbita de energia, o que de qualquer modo é inexorável com a secagem dos combustíveis fósseis.

Putin está apenas a aplicar as estratégias de um dos maiores economistas russos e que é sem dúvida um dos 10 melhores economistas do mundo .. No entanto, toda a estratégia de Putin está lá e o objectivo actual dos russos não é apenas o Dombass, mas criar uma nova potência monetária internacional ..

Um aspecto esquecido mas não anedótico: a Alemanha tinha deixado a gestão de uma grande parte das suas reservas estratégicas de gás à Gasprom (sim, parece irreal, mas é verdade). Gasprom começou a esvaziar estes stocks em meados de 2021, sob o pretexto de algo, e assim o preço do gás já tinha subido significativamente na Europa no Outono de 2021. É apenas um pequeno passo até ver isto como um “plano” executado ao longo de anos.

A questão é: porque é que os políticos europeus não previram isto? Quando se é lituano e representa alguns por cento da economia europeia, é possível obter gás 100% russo, sabendo que o encontrará noutro lugar só por precaução (e especialmente que construiu um terminal de gás liquefeito em Klaipeda só por precaução). Quando se é a Alemanha e se representa 1/3 da economia, e não se tem um plano B, só se pode suspeitar que vai correr mal… Incompetência? Corrupção? Ambos?

A Rússia já exporta – sem os vender – os seus hidrocarbonetos e metais para países terceiros (A.S., Índia, etc.) que são depois reexportados disfarçados, para a Europa, com uma sobretaxa para os intermediários.

Os EUA são os vencedores desta charada: as indústrias dos países europeus estão em colapso (ou irão entrar em colapso) face aos custos adicionais de produção de energia, abrindo assim uma avenida comercial aos americanos & consorts, o que, ironicamente, irá também reforçar ainda mais a competitividade chinesa no mercado europeu.

A Rússia pode ter virado as costas à Europa Ocidental – e mesmo isto não é certo: a Hungria, por exemplo, mantém relações amigáveis com a indústria do gás – mas está a reforçar consideravelmente o seu papel no seio dos BRICS, e mais geralmente a sua imagem como um país “livre” entre os 2/3 da população da Terra que vê a bandeira estrelada com um olhar muito negativo.

Agora com um excedente alimentar, uma riqueza de energia e metais, para não mencionar os seus batalhões de engenheiros e trabalhadores qualificados, as suas indústrias aeroespacial e militar: a Rússia pode facilmente seguir o seu caminho sem o Ocidente. E, tal como a RPC, estão em curso grandes esforços para recuperar o atraso no domínio dos semicondutores.

Abster-me-ei de tirar quaisquer conclusões… o meu presidente e o meu ministro das finanças são deuses gregos.


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Tanta verdade junta mereceu publicação – take XV

(Carlos Marques, 27/08/2022)


(Este texto resulta da resposta a um comentário a um artigo que publicámos de Eamon McKinney ver aqui. Perante tanta verdade junta, resolvi dar-lhe o destaque que, penso, merece.

O comentário, de Paulo Marques, era o seguinte:

“Eu gosto muito que me digam que há um lado onde os capitalistas não são abutres nem oligarcas, mas são muito preocupados com famílias e empresas. É bonito ter fé no capitalismo, uma vez que, ao contrário da pandemia, é um fenómeno natural inevitável.
Não sei o que os convence que há aliados, e não parceiros de conveniência, mas deve alimentar bem não só a convicção, mas a barriga. Afinal, estão preocupados quando é a deles, não é verdade?”

Estátua de Sal, 28/08/2022)


A propaganda começa logo nas palavras. Cá são “empresários”, lá são “oligarcas”. Cá são “democracias liberais” (mesmo quando matam tanta gente, como o apartheid de Israel), lá são pelo menos “regimes” ou “brutais ditaduras” (mesmo que garantam dos melhores níveis de desenvolvimento humano na região comparável, como Cuba). etc.

Ao entrar no debate, em que o “moderador” colocou a questão nestes termos, e o 1º interveniente os repetiu, quando chega a vez do comentador ligeiramente discordante (porque na TV comunista não entra, e quem não repetir a propaganda do regime é “populista” ou “putinista”), já não consegue usar outras palavras, é forçado a jogar no campo adversário com as chuteiras sem pitons.

Já não há trabalhadores, há “colaboradores”. Já não há patrões, há “CEO”. Os lucros são uma “virtude”, os salários (de quem fabricou o produto e criou a riqueza) são um “custo”. A soberania é “má” porque *ai ai o Orbán*, a violação da nossa Constituição e obediência a NÃO eleitos é “boa” porque *ai que bom vem de Bruxelas ou de Frankfurt*.

O gás Russo é uma “dependência”, o petróleo saudita é “verde”, bastando para isso ter uma tachinha extra ou entrar num qualquer “mercado de carbono”, que é um eufemismo para: quem acredita nisto é estúpido que nem uma porta, e se a maioria continuar a acreditar, o NeoLiberalismo continuará rei e senhor, como se tivesse sido já o fim da história.

Não é que a Rússia ou a China não sejam Capitalistas, mas há diferentes formas e níveis de Capitalismo. Há o de Capitalismo de Estado, o mais industrializado, o regulado e soberano, o (re)produtivo. Pode-se ter um SNS, uma Escola Pública, um sistema de pensões asseguradas. O Estado pode planear isto e aquilo até certo ponto. Ou pelo menos definir objectivos e promover certas áreas.

Ou então há aquilo que o Ocidente tem para impor à força, via troikas, austeridades, TINAs, sanções, e guerras. Não há plano, há cada vez menos Direitos, não há soberania nem regulação, o especulador decide, o “governador” obedece, e o povinho baixa a bolinha. Estou a descrever o Portugal de agora, ou o Portugal pré-1974? Já nem dá para distinguir bem…

Igualdade? Desenvolvimento Humano? Distribuição e redistribuição? O que é isso?! Não está no dicionário do lobby da Uber, Google, Santander, Raytheon e companhia. E se certos partidos “irresponsáveis” se atreverem a fazer frente ao estado a que isto chegou outra vez, toda a activar a maior máquina de propaganda e manipulação da história, e dar “maioria” de 41% àqueles que sabem bem obedecer à “iniciativa” certa.

Queres melhor saúde? Toma lá um sub-financiamento crónico propositado.
Queres uma carreira? Toma lá uma cativação, e 500 horas extra, e não te queixes.
Queres investimento? Toma lá um ajuste directo para a negociata do amigo/conhecido.
Queres menos impostos? Toma lá um seguro que é para pagares o dobro.
Estás com pressa? Toma lá uma lista de espera.
A coisa está preta? Toma lá uma urgência fechada.
O quê? a Esquerda tem soluções baseadas nas ideias de Arnaut? Isso é “irresponsável”! Vamos antes para eleições!

E nas eleições, o que é que o povinho faz? Junta-se em rebanho para votar no lobo com a falinha mais mansa. E não é só cá. Nunca é só cá. A ignorância em massa, e a necessidade de pertencer (votar no que pode ganhar em vez de arriscar ser diferente), falam mais alto em todo o lado. O colectivo é histérico, estúpido, e suas emoções facilmente manipuláveis. Está cansado demais depois do trabalho. Vai comer tudo o que a Manipulação Social lhe der a comer no “noticiário” das 20h.

Se for preciso, até se consegue convencer a maioria que uma invasão dos EUA é “democracia” e que uma suástica tatuada é símbolo de “liberdade”. Que um adolescente na Palestina é um “terrorista”, e que os cereais em Odessa são para “matar a fome em África”. Que entregar refugiados a quem os persegue são “valores europeus”, e que o Putin está em simultâneo a ocupar com tropas e a bombardear a mesma central nuclear.

Vejam só que até convenceram a maioria de que o €euro é uma coisa boa. Realmente, quando a palha é boa e há tanto burro, tudo é possível. Portugal não aumenta o seu PIB/capita em valor real (descontando o deflator) desde 2007. Não converge com a média da Europa desde 2000. Está endividado até ao pescoço em todas as dívidas: privada, pública, e externa. Desde os anos 80 que não havia tantos pobres: 4.4 milhões (antes de apoios sociais **). Podia ser pior, diz um propagandista rosa, olhando para os 4.9 milhões em 2013… Trabalha-se para ser pobre. Vai tudo corrido pelo valor do salário mínimo. E ainda há o descaramento de dar uma ajuda aos empresários devido ao “aumento” anual. Poder negocial? Sindicalismo? Contratos colectivos? Nem vê-los! Isso são coisas da Esquerda “sectária” e “extremista”.

**
https://www.pordata.pt/Portugal/Taxa+de+risco+de+pobreza+antes+e+após+transferências+sociais-2399

E agora temos de empobrecer ainda mais. Dizia uma agente do Pentágono… quer dizer, uma comentadora na CIA… quer dizer, na CNN: “temos que perceber que é preciso este esforço”.
É preciso? Para quem? Para quê? É só records de lucros por todo o lado! Armas, armas, e mais armas. “Temos” que passar frio e fome, austeridade e desigualdade, tudo para que mais um tatuado com uma suástica receba o seu HIMARS que *ai ai tão bom que é, todos temos de saber que é tão bom* – sponsored by Lockeed Martin. Made in USA.

Os países inteiros são “ditaduras”. Os países destruídos são “democracias”. A resistência dos invadidos é “terrorismo”. Os crimes de guerra dos invasores são… não são nada. E ai de quem sequer falar neles. Será silenciado com dólares, ou com cassetetes. Quem faz um Assange, faz dois ou três. E se andarem onde não devem, ops, lá vai uma “bala perdida” para a cabeça da Shireen Abu Akleh.

E lá continuam eles com a propaganda que começa nas palavras: não é apartheid, é “única democracia liberal do Médio Oriente”. Não é terrorismo económico que mata crianças à fome, são “sanções para castigar os Talibã. Não é roubo colonial, é “operação militar especial de tropas da defensiva NATO para garantir o petróleo e os cereais da malvada Síria”. Não é racismo sistémico, são “forças da ordem que têm de nos salvar de terríveis criminosos colocando um joelho no seu pescoço”. Não é invasão NAZI em violação de acordos de PAZ contra civis do Donbass 9 dias antes da Rússia ter de intervir, é “defesa da democracia Ucraniana contra os separatistas pró-Russos”. E não é massacre de refugiados escuros na fronteira de Espanha, é “um sucesso do aliado Marrocos”.

Eles bem tentam, e infelizmente com elevadas taxas de sucesso, mas não é possível enganar toda a gente o tempo todo. Depois, eles comem tudo e não deixam nada, e mandam-nos comer brioches caso nos falte o pão. Se tentarmos a revolução pacífica, eles vão chamar-lhe “poder caído na rua”.

Se nos sentarmos no chão e a polícia disparar balas de borracha e nos tentar atropelar, vão-lhes chamar “forças da ordem” a nós nos chamarão “violentos arruaceiros” (aqui estou a citar a RTP em relação à Catalunha). Vão querer ainda mais para os ricos e ainda menos para os pobres, e chamar-lhe “a new era of sacrifices and the end of abundance” (agora cito Macron, o tira-olhos dos coletes amarelos). Já não dá para aguentar mais. Queriam um Great Reset, mas acho que vão é ter uma Great Guillotine. Totalmente provocada e justificada. Tal como a intervenção Russa.


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Tanta verdade junta mereceu publicação – take XIV

(Por José André Campos Ferreira, 23/08/2022)


(Este texto resulta de um comentário a um discurso que publicámos de Vladimir Putin ver aqui. Perante tanta verdade junta, resolvi dar-lhe o destaque que, penso, merece.

Estátua de Sal, 24/08/2022)


Será que uma terceira guerra mundial poderia acontecer sem ninguém a querer? Será que os governantes e conselheiros militares poderiam subestimar as consequências de suas ações, causando a perda de milhões de vidas? Não sei. Mas se acontecesse, isso não seria a primeira vez.

108 anos atrás, líderes europeus levaram suas nações à Grande Guerra, mais tarde chamada de Primeira Guerra Mundial, sem se dar conta da dimensão dos horrores que estavam por vir. “A confusão os levou à guerra”, confessou David Lloyd George, primeiro-ministro britânico de 1916-1922.
“Nenhum dos governantes queria uma guerra dessa proporção”, escreveu o historiador A. J. P. Taylor, mas tudo que “queriam era ameaçar e ganhar”. O czar da Rússia achava que a paz devia ser mantida a qualquer custo. Ele não queria ser o responsável por nenhuma carnificina. Mas dois tiros disparados às 11h15 da manhã do dia 28 de junho de 1914, fizeram com que tudo fugisse ao controle.

Quando chegou 1914, rivalidades antigas entre países europeus criaram uma tensa situaçao, resultando em duas alianças opostas: A Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália) e a Tríplice Entente (França, Grã-Bretanha e Rússia). Estes países também tinham acordos políticos e econômicos com outras nações, incluindo as da região dos Balcãs.

Nessa época, os Balcãs eram uma zona de instabilidade política que sofria sob a soberania de países mais fortes, e havia ali muitas sociedades secretas que tramavam conseguir independência. Um pequeno grupo de jovens planeou assassinar o arquiduque austríaco Francisco Ferdinando em 28 de junho durante a visita a Sarajevo. A falta de proteção adequada facilitou o trabalho deles. Mas os jovens conspiradores não estavam bem preparados. Um deles jogou uma bomba pequena, mas errou o alvo, e os outros não conseguiram agir na hora certa.

Gavrilo Princip foi o conspirador que cumpriu a missão, mas por mero acaso. Como assim?
Quando Princip viu o arquiduque a passar de carro ainda ileso, ele tentou chegar perto, mas não conseguiu. Frustrado, atravessou a rua e entrou num café. Nesse meio-tempo, Ferdinando, irritado com o atentado, decidiu mudar o trajeto. No entanto, o motorista, sem saber dessa mudança, entrou pelo caminho errado e precisou dar meia-volta. Nesse momento, Principe saiu do café e viu-se literalmente de frente com seu alvo — o arquiduque no seu carro aberto a menos de 3 metros de distância. Ele se aproximou do carro e deu dois tiros, matando o arquiduque e sua esposa. O assassino, um ingênuo sérvio nacionalista, provavelmente não tinha idéia da repercussão que isso teria. Mas não cabe a ele toda a culpa pelos horrores que se seguiriam.

O cenário estava montado.
Antes de 1914, a maioria dos europeus tinha um conceito ilusório da guerra. Para eles a guerra era benéfica, nobre e gloriosa — isso apesar de se dizerem cristãos. Alguns governantes chegaram a acreditar que a guerra promoveria a união nacional e fortaleceria o povo. Além disso, alguns generais garantiram aos seus governantes que poderiam vencer a guerra com facilidade, num só golpe. “Derrotaremos a França em duas semanas”, gabou-se um general alemão. Ninguém imaginou que milhões de homens ficariam confinados em trincheiras por anos.
Além do mais, nos anos anteriores à guerra, “uma grande onda de nacionalismo se espalhou pela Europa”, diz o livro Cooperation Under Anarchy (Cooperação sob Anarquia). “Escolas, universidades, políticos e a imprensa uniram-se para incentivar o nacionalismo exagerado e a glória.”
Os líderes religiosos pouco fizeram para controlar esta febre destrutiva. O historiador Paul Johnson disse: “De um lado enfileiravam-se a Alemanha protestante, a Áustria católica, a Bulgária ortodoxa e a Turquia muçulmana. Do outro, a Inglaterra protestante, a Itália e a França católicas e a Rússia ortodoxa.” Ele acrescentou que a maioria dos clérigos “estabeleceu uma equivalência entre cristianismo e patriotismo. Soldados cristãos de todas as denominações foram exortados a matar uns aos outros em nome de seu Salvador”. Até mesmo freiras e padres foram mobilizados, e milhares destes morreram mais tarde em combate.

As alianças européias, que deveriam evitar uma grande guerra, talvez tenham contribuído para que ela ocorresse. De que modo? “A segurança das potências européias era interdependentes”, diz Cooperation Under Anarchy. “Cada potência sabia que a sua própria segurança estava ligada à segurança dos seus aliados, e assim se sentia compelida a agir rapidamente para defendê-los, mesmo que fossem eles os instigadores.”
Outro fator de perigo foi o plano Schlieffen da Alemanha, chamado assim por causa do ex-chefe do estado-maior alemão General Alfred von Schlieffen. O plano, envolvia um ataque inicial rápido, foi preparado na suposição de que a Alemanha teria de lutar contra a França e a Rússia. Assim, o objetivo era uma vitória rápida sobre a França e daí um ataque contra a Rússia, que ainda não teria tido tempo de se mobilizar. “Uma vez que o plano [Schlieffen] entrou em ação, o sistema de alianças militares praticamente forçou a Europa a entrar numa guerra geral”, diz a World Book Encyclopedia.

Antes da guerra, o cenário mundial era dominado por impérios, a maioria deles desenvolvidos por poderosas potências européias. A guerra causou o colapso destes impérios, e hoje a estabilidade do mundo não mais é mantida por alguns poderosos países europeus. Em vez disso, vemos algo que ameaça até mesmo a sobrevivência da humanidade: a incessante luta pela superioridade entre duas superpotências, a Rússia e os Estados Unidos capitalista. Isto também tem suas raízes na Primeira Guerra Mundial.
Antes da guerra, a Rússia era um país enorme e atrasado, dominado pela Igreja Ortodoxa Russa e governado pelo czar. Os Estados Unidos, embora fortes, de modo algum eram encarados como rivais das potências européias. A Primeira Guerra Mundial alterou tudo isso.O poder dos Estados Unidos no fim da guerra, em todos os sentidos, ultrapassava em muito ao de todos os outros. A vasta riqueza dos Estados Unidos, comparada com o esgotamento econômico das potências européias, proporcionou-lhes seu atual domínio mundial.

Na Rússia, antes da guerra já havia prenúncios de rebelião. Durante a guerra, a Rússia tomou posição contra a Alemanha, de modo que a Alemanha soltou do exílio na Suíça o revolucionário russo Lênine e o enviou de volta à sua terra natal, na esperança de aumentar problemas internos ali. A estratégia teve sucesso e a Rússia saiu da guerra. O partido de Lênine, os bolcheviques, assumiram o controle da revolução russa, e o resultado direto desse acontecimento é a Rússia que vemos hoje.

Independente da rivalidade existente entre as superpotências, há hoje agitação e instabilidade sem precedentes entre as nações e dentro delas. Como parte dessa herança ele alistou “a ascensão de Hitler, a Segunda Guerra Mundial, os levantes e as revoluções que grassam num mundo sem disciplina política”. Ainda se lê nos jornais a respeito de derramamento de sangue e sofrimento. E lembrem-se de que a Segunda Guerra Mundial incitou o desenvolvimento das bombas nucleares, que ameaçam a própria existência da vida na terra.

Antes de 1914, a maioria das nações eram governadas por uma aristocracia privilegiada e hereditária. As estruturas de classes eram rígidas. A Primeira Guerra Mundial acelerou o colapso desse sistema. Foi a Primeira Guerra Mundial que rompeu com a estrutura social do século 19; as reivindicações de reconhecimento do Homem Comum não mais podiam ser negadas. Hoje é difícil imaginar o poder que as antigas classes dominantes possuíam.

A SEGUNDA Guerra Mundial rebentou em setembro de 1939. 2 anos depois, os exércitos de Hitler invadiram a Polônia ocidental, a França e vários outros países europeus e grande parte dos Balcãs. Daí, em 1941, os vitoriosos nazistas voltaram a atenção para o leste.

Em junho daquele ano, os exércitos alemães invadiram a União Soviética. Por volta de dezembro, já haviam tomado toda a parte ocidental do país e tinham chegado aos arredores de Moscovo. A sobrevivência daquela nação pendia na balança.
No entanto, o rigoroso inverno e a resistência determinada das tropas e dos guerrilheiros soviéticos estancaram a onda alemã no fim do ano. Mas, era óbvio que, na primavera setentrional seguinte, mais ataques seriam efetuados. O governo soviético sabia que seu povo tinha de ser estimulado para o que estava à frente. Era necessário um esforço máximo.

Algo que tornou mais fácil esta tarefa foi a perversidade dos invasores alemães. A devastação que causaram, a matança de milhões de pessoas, suas pretensões de superioridade racial e sua clara intenção de exterminar muitos dos eslavos, enfureceu os soviéticos.

Muitos países foram tão massacrados pela Segunda Guerra Mundial que a sua principal prioridade tinha de ser a recuperação económica. A falta de alimentos perdurou na Europa por vários anos depois da guerra. A Espanha, embora oficialmente neutra na Segunda Guerra Mundial, havia sido profundamente afetada pela sua própria guerra civil (1936-39) e por embargos comerciais — cupons de racionamento de alimentos ainda eram usados em junho de 1952.
No Extremo Oriente, a lembrança das atrocidades dos japoneses ainda estava viva na memória de vítimas na Birmânia, China, Filipinas e outros países orientais. Os Estados Unidos, embora se saíssem como nação vitoriosa, sofreram a perda de uns 300.000 militares, cerca da metade destes nas zonas de guerra do Pacífico. No Japão, a pobreza, a tuberculose e longas filas de distribuição de alimento racionado foi o que restou para a população civil.

Embora a Alemanha e a União Soviética tivessem assinado um Tratado de Amizade, de Cooperação , Hitler invadiu território soviético em 22 de junho de 1941. Essa ação levou a União Soviética para o lado da Grã-Bretanha. O exército soviético ofereceu forte resistência, apesar dos espetaculares avanços iniciais das forças alemãs. A 6 de dezembro de 1941, o exército alemão foi realmente derrotado em Moscovo. No dia seguinte, o aliado da Alemanha, o Japão, bombardeou Pearl Harbor, no Havaí. Sabendo disso, Hitler disse aos seus ajudantes: “Agora é impossível que percamos a guerra.” A 11 de dezembro, ele declarou guerra aos Estados Unidos. Mas subestimou a força da União Soviética .

Por fim, em 1945, os exércitos alemães recuaram. As tropas soviéticas invadiram a Alemanha.

A Rússia, chamada oficialmente “Federação Russa”, não é um país de uma só nação ou de um só povo. Como o nome indica, é uma federação de nações, um mosaico de tribos, línguas e povos, cada um com sua própria cultura.

Após a Primeira Guerra Mundial, a Ucrânia foi dividida entre quatro países vizinhos. Os territórios do centro e do leste da Ucrânia foram tomados pela Rússia comunista e incorporados à União Soviética. A Ucrânia ocidental foi dividida entre três outros países. As regiões da Galícia e da Volínia foram anexadas à Polônia; a Bucovina, à Romênia e a Transcarpática, à Checoslováquia.

No fim de 1917, a Revolução Russa acabou com os 370 anos de domínio dos czares. Os novos governantes da Rússia, os bolcheviques, tinham planos ambiciosos: estabelecer um novo tipo de governo humano, diferente de todos os anteriores. Assim, em poucos anos foi formada a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, ou URSS. Com o tempo, ela abrangeria um sexto da superfície terrestre.


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