A derrota mediática de Israel

(Agostinho Costa, 25/01/2025)


Imagens da libertação de reféns doem mais a Israel do que 70 mil toneladas de explosivos que lançaram em Gaza. “É uma derrota mediática”.


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O Major-general Agostinho Costa considera que, perante a forma como ocorreu a libertação de quatro reféns israelitas, “estamos a assistir a um outro nível da guerra”. “Estamos a assistir a combates no âmbito mediático”, adianta o especialista em Assuntos de Segurança.

Apesar de o vídeo abaixo não mostrar as intervenções dos restantes participantes no painel, posso dizer-vos quer a pivot e o resto do painel, como sempre, tentaram minimizar as conclusões do Major-general, mas debalde. A realidade tem muita força e nós todos também vimos as imagens da libertação dos refens.

Ver aqui o vídeo da intervenção na CNN de Agostinho Costa.

Dia de festa no Ocidente

(Tiago Franco, in Facebook, 25/01/2025, Revisão da Estátua)

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O mundo tratará de interpretar a imagem da libertação dos reféns e as narrativas serão, agora, construídas. Ganhará, obviamente, aquela que tiver melhor capacidade de divulgação e mais acesso aos meios de comunicação.

O que eu vejo, ou o que tenho visto nos últimos dias, é uma comoção sem fim com a libertação de reféns em contraste com o desprezo reinante com as mortes do outro lado.

Este conflito muda, decisivamente, a forma como olho para o governo israelita e, até, a forma como olhava para o Hamas.

E é tudo uma questão de números e de alguma coerência, para podermos olhar quem nos rodeia com honestidade. Se de um lado morrem 1200 pessoas e, do outro, morrem 46000, desculpem, a minha escolha é lógica. E seguiria o mesmo raciocínio se as IDF tivessem assassinado 1200 pessoas e o Hamas, em resposta, matasse outras 46000.

Se todas as vidas valem o mesmo, então poupem-me as lágrimas de crocodilo. Ando há uma semana a ver as habituais apoiantes do genocídio (desta vez não vou fazer publicidade a anafadas e respetivas roadies) a contar a história de cada refém enquanto, em Gaza, continuam a morrer às dezenas todos os dias. Gente sem nome, apenas um número.

É aliás curioso que nos andem a dizer há meses que Gaza está controlada, a guerra acabou, o Hamas está destruído mas…as mortes continuam e a libertação de reféns é feita com esta demonstração de força dos locais. Estou certo que alguém explicará que eram todos figurantes.

Quem acha que habitantes de uma prisão (é isso que é Gaza), que se habituaram a ver familiares assassinados pelas bombas israelitas, passam a terroristas quando procuram vingança (nas fileiras do Hamas ou de outra força qualquer), estará provavelmente no lado errado da História.

Que povo conhecem vocês que depois de massacrado, deslocado, assassinado, anos a fio, procura outra coisa que não vingança?

Claro que podemos sempre escolher qual a  vingança que é terrorista e qual a vingança que é um direito. Mas isso já entra naquela história do racismo que rapidamente se torna desagradável e hoje não estamos aqui para incomodar.

Fico feliz que inocentes sejam libertados, venham de onde vierem. Não fico feliz quando percebo que o Ocidente continua a valorizar mais a vida de um israelita do que o assassinato de cinquenta palestinianos. Uma vida é uma vida. Ponto final.

O Hamas e Trump derrotam Israel

(Raphael Machado in Twitter, 19/01/2025)


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A confirmação de que Israel assinará a proposta de cessar-fogo mediada pelos países árabes e pelos EUA é o prego no caixão dos últimos esforços anti palestinos de Israel – bem como na carreira política de Benjamin Netanyahu.

Para todos os efeitos, só pode ser considerado uma derrota esmagadora do sionismo. Certamente não o fim do expansionismo israelense, mas a derrota de suas pretensões mais recentes, animadas pela reação à Operação Dilúvio Al-Aqsa.

Quando se fala em “vitória” e “derrota” numa guerra é necessário retornar a Clausewitz para recordar que a guerra é a continuação da política por outros meios. As guerras são, portanto, travadas para que se alcance objetivos políticos que não se pôde alcançar através de outras ferramentas.

E quais eram os objetivos políticos de Israel em Gaza? 1) Destruir o Hamas; 2) Expulsar a população palestina do norte de Gaza para anexar essa região; 3) Resgatar os prisioneiros israelenses em Gaza pela força; 4) Manter a ocupação militar permanente do resto de Gaza.

Nenhum dos objetivos foi alcançado. Portanto, Israel sofreu uma derrota humilhante. É irrelevante, aqui, falar sobre a quantidade de palestinos mortos ou prédios destruídos porque não é com base em cadáveres ou ruínas que podemos avaliar os resultados finais de um conflito.

O Hamas, em vez de destruído, está mais forte do que nunca, segundo o Jerusalém Times. O seu ritmo de ataques aumentou, bem como as baixas causadas diariamente ao Exército de Israel. A população palestina não vai a lugar algum, ela permanece ocupando todo o território de Gaza. Netanyahu, ademais, não conseguiu resgatar os prisioneiros. E as circunstâncias tornaram inviável cogitar a possibilidade de manter tropas permanentemente em Gaza.

E os termos do cessar-fogo evidenciam bem essa derrota. Israel terá que abandonar Gaza e receberá prisioneiros de volta, mas terá que entregar prisioneiros palestinos em uma troca na qual Israel terá que entregar 3 prisioneiros palestinos para cada 1 prisioneiro israelense. O mesmo acordo foi recusado, em maio de 2024, por Benjamin Netanyahu.

É óbvio que Israel violará o cessar-fogo. E é claro que tanto Israel quanto a Resistência Palestina aproveitarão o cessar-fogo para se rearmarem. Não obstante, ficou claro que o lado em maior desvantagem durante as negociações era o lado sionista.

Mas a peça central para entender esse cessar-fogo é o fato de que o negociador que mais teve influência no aceite israelense foi Steve Witkoff, emissário de Donald Trump para as negociações de paz no Oriente Médio. Witkoff, que é um magnata imobiliário, teria pressionado, ameaçado e desrespeitado Netanyahu até arrancar dele a paz.

Além de obrigar Netanyahu a se reunir no Shabbat, Witkoff teria ameaçado cortar o apoio militar e econômico estadunidense a Israel em caso de recusa da paz. O Times of Israel confirma que o papel principal na mesa de negociações foi do assessor de Trump.

Mas como assim? Os “especialistas” não prometeram que Donald Trump era o “candidato do sionismo” e que ele era mais sionista que Joe Biden? Ele não teria vindo para exterminar os palestinos, destruir a Mesquita Al-Aqsa e, basicamente, atuar como o “Messias” de Israel?

Aparentemente o próprio Trump não recebeu tal memorando.

Os analistas geopolíticos sérios não estão minimamente surpresos. Já no ano passado, durante o período eleitoral, já havia indícios de que Trump estava buscando se distanciar de Netanyahu. Entre as raízes desse distanciamento estaria a rapidez com a qual Netanyahu tratou a vitória de Biden nas eleições anteriores. Mas o próprio fato de que Netanyahu deu início a um genocídio sob a proteção de Biden já designava a figura de Netanyahu como uma personalidade política apodrecida e, portanto, não apenas inútil quanto prejudicial.

Já na campanha, Trump apontou que o principal impedimento para a paz no Oriente Médio era Benjamin Netanyahu. Eventualmente, também o acusou de traição mais de uma vez e por diversos motivos, até o momento em que o insultou de forma bastante dura e agressiva. A rotura se aprofunda com o acordo de paz imposto por Trump, com Netanyahu se recusando a ir à posse do novo presidente dos EUA.

Agora, a questão passa a ser: por que Trump abandonou Netanyahu e está pressionando pela paz na questão Israel-Palestina?

Não é por nenhum anti sionismo, pacifismo ou humanitarismo.

A questão é que, em um primeiro lugar, o ônus de apoiar Israel no contexto geopolítico contemporâneo é muito alto. O apoio a Israel obviamente foi uma das coisas que custou a vitória a Biden. O que Trump ganharia, exatamente, apoiando Netanyahu e Israel? Absolutamente nada.

Em segundo lugar, é necessário apontar para o fato de que em seu novo mandato Trump tem o apoio do Big Oil, das grandes petrolíferas dos EUA que esperam um nível maior de apoio em comparação com o período Biden. Ao contrário do que se costuma acreditar, a Big Oil tende a preferir soluções diplomáticas para os conflitos no Oriente Médio porque conflitos militares reduzem a estabilidade regional e dificulta os investimentos de longo prazo.

Em terceiro lugar, hoje em dia Trump possui também conexões empresariais e familiares com o mundo árabe, como a família Boulos, ao qual ele se vinculou pelo casamento de sua filha Tiffany a Michael Boulos. O pai de Michael é um empresário importante com conexões inclusive no Eixo da Resistência, o que passa a contrapor a influência de Jared Kushner, marido de Ivanka, sua outra filha.

Por outras palavras, os interesses empresariais de Trump e a sua atual base de apoiantes económicos apontam para a estabilização do Levante, o que contrasta com o messianismo escatológico da elite sionista, que empurra para o estabelecimento de uma Grande Israel, independentemente dos custos.

Fonte aqui