A anedota é velha: no salazarismo um rústico legionário apresentou-se a exame da 4ªclasse para obter um emprego. Bastava uma farsa de exame. Pergunta o professor: Quem descobriu o Brasil. Resposta: Salazar! Desânimo do professor: O doutor Salazar descobriu muitas coisas, mas não o Brasil. Mas vamos à pergunta seguinte: Quem escreveu Os Lusíadas? Resposta pronta: Salazar. Comentário entristecido, o doutor Salazar escreveu obras maravilhosas, mas não escreveu os Lusíadas. Mas vou fazer-lhe uma pergunta a que com certeza responderá bem: Quem foi o primeiro rei de Portugal? Resposta do legionário: Salazar! Comentário desalentado do professor: Infelizmente não foi. Eu terei que o reprovar. Resposta do legionário: Com que então comunistas! (e sai)
Hoje fala-se de Manchester e sai a resposta do legionário: Ronaldo! Eu sei pouco da vida do futebolista Ronaldo e ainda menos dos vários jogadores de futebol que ganham a vida em Manchester. Mas para mim nem Manchester é o Estado Novo do bronco legionário, nem o Ronaldo é o Salazar que descobriu Manchester, que criou Manchester. Por razões pessoais conheço Manchester antes do empresário de futebol Jorge Mendes lá ter chegado, antes do futebolista Ronaldo e dos seus colegas de profissão. Quando me falam de Manchester não grito Ronaldo, como o legionário gritava Salazar. Sou do contra.
Por acaso escrevo no Porto e gostava de partilhar o facto de Manchester ter uma fortíssima e antiga relação com Portugal, e com o norte do país, que não foi construída ao pontapé nem à cabeçada, nem num estádio com milionários de calções e penteados com rendas de bilros.
Manchester é um dos berços da Revolução Industrial inglesa e da indústria têxtil a partir do século XVII, curiosamente desenvolvida por colonos flamengos com ligações às feitorias portuguesas. As fábricas de algodão, que substituíram as de lanifícios, foram ali fundadas por volta de 1820, e servirão de modelo à indústria têxtil que se instalará em Portugal no vale do rio Ave, com centro em Guimarães, através de engenheiros e empresários ingleses. Manchester adquiriu o apelido de Cottonopolis, com a utilização das Spinning Jenny, as máquinas a vapor fabricadas em Manchester e que viriam para Portugal, para o Vale do Ave, Covilhã e Tomar e permitiram a industrialização da fiação e tecelagem de pano. Manchester desenvolveu-se como o centro de distribuição de algodão cru e fios da nascente indústria têxtil. Dali partiram para várias partes da Europa e da América os técnicos e os empresários da indústria têxtil, entre eles os que vieram para Portugal.
O rápido crescimento de Manchester levou Benjamin Disraeli, que seria um dos mais importantes primeiros-ministros da era vitoriana, a afirmar: “O que Manchester faz hoje, o resto do mundo faz amanhã.”
Manchester é muito mais do que dois estádios de futebol e do que futebolistas. Seria para mim uma agradável surpresa que alguém nas televisões transmitisse uma reportagem sobre Manchester, o radicalismo político que esteve sempre presente na história da cidade, a sua abertura à inovação tecnológica – um dos cientistas do átomo, John Dalton, foi investigador em Manchester.
Mas há a bola (o dinheiro da bola) que tudo cala… é claro. E até cala a violência étnica e religiosa do Catar. Dos futebolistas nacionais ou estrangeiros de Manchester nem uma palavra. Há os patrocínios. Pois claro. Mas Manchester é mais do que artistas de relvas e bola. Acreditem. E o senhor de óculos é John Dalton, cientista de Manchester e não joga à bola.
No próximo dia 20 começa no Catar o 22º Campeonato do Mundo de Futebol, envolvendo 32 selecções, entre as quais a nossa. Antes que as nossas varandas se cubram de bandeirinhas nacionais e as crianças se vistam de camisolas do Ronaldo, antes que as televisões, os anunciantes e o Presidente Marcelo comecem a vomitar o insuportável discurso patrioteiro sempre associado aos feitos da selecção, convém pensar que não é nenhuma honra, antes uma vergonha, participar neste Mundial. Não sei se a nossa Federação de Futebol fez parte das que votaram contra o Mundial no Catar, das que votaram em consciência a favor ou daquelas cujos dirigentes se deixaram comprar para votar a favor. Espero bem que não tenha sido a última hipótese, mas todas são possíveis, pois só através da corrupção do colégio eleitoral — em grande parte provada — foi possível atribuir o Mundial a um país que, por razões climáticas, é forçado a organizá-lo pela primeira vez no Outono do Hemisfério Norte, forçando a alteração dos calendários estabelecidos na Europa para as provas nacionais e internacionais. Um país cujos nacionais se estão nas tintas para o futebol e cuja selecção (classificada no ranking da FIFA em 102º lugar e com o recurso a 17 estrangeiros em 23 jogadores) jamais conseguiria, não sendo anfitriã, apurar-se para um Mundial.
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO
Em 24 de Outubro, o dirigente vitalício do Catar, o emir Tamin bin Hamad Al Thani, explodiu de indignação com as “críticas feitas de invenções e duplos padrões” dirigidas ao seu país e “sem precedentes em relação a qualquer outro país organizador”. E com razão. Além da questão da corrupção na escolha do Catar, da questão do clima e das nulas credenciais do país em matéria futebolística, e apesar de toda a cobertura dada pela FIFA, o Catar tem sido alvo de um rol de críticas relativas à forma como conseguiu pôr de pé este Mundial e, designadamente, construir de raiz 10 estádios, que, a seguir ao evento, não servirão para nada, num país em que não há memória de um jogo de futebol alguma vez ter tido mais do que mil espectadores num estádio. Mas, em contrapartida, o Catar tem muito, muito dinheiro: tem, por exemplo, a maior reserva mundial de gás natural, agora tão precioso. E consta que o emir, ao contrário dos seus súbditos, gosta muito de futebol, tanto que, através da Qatar Sports Investments, além de patrocinar a Roma e o Bayern de Munique, é dono do PSG — onde, troçando das regras do fair-play da FIFA e UEFA, que só se aplicam a pobres, juntou um trio atacante composto por Mbappé, Neymar e Messi, que custam em salários, sem contar com direitos de imagem, mais de €250 milhões por ano. Mas para organizar este Mundial, que o extasiado presidente da FIFA, Gianni Infantino, afirma que será o melhor de sempre, o emir não olhou a despesas: foram €330 mil milhões de custos, o equivalente a toda a riqueza produzida em Portugal durante um ano inteiro. Só que Portugal tem 10 milhões e meio de habitantes e o Catar tem três milhões, dos quais só 320 mil são catarianos, gozando de todos os direitos de cidadania, como o de não pagar impostos. Todos os restantes são emigrantes asiáticos, dos quais 72% homens trabalhando na construção civil e 28% mulheres trabalhando como empregadas domésticas. Claro que foram estes homens que o regime empregou para construir os estádios e tudo o mais, trabalhando oito a 12 horas por dia, seis dias por semana, debaixo de temperaturas extremas e em condições iguais aos que nós contratamos para as estufas de Odemira ou os olivais e amendoais do Alqueva: entregues à protecção de um kafala, com o passaporte retido, amontoados como gado, sem quaisquer direitos sindicais ou sociais. 6500 deles morreram a construir os 10 estádios onde as vedetas e os seleccionadores pagos a peso de ouro e especializados na fuga aos impostos se vão exibir para o mundo inteiro, não se esquecendo de cantar os respectivos hinos a plenos pulmões para que o povo em casa ou nas bancadas pense que eles se batem pela pátria.
Antes que as televisões, os anunciantes e o Presidente Marcelo comecem a vomitar o insuportável discurso patrioteiro sempre associado aos feitos da selecção, convém pensar que não é nenhuma honra, antes uma vergonha, participar neste Mundial
Pois, o emir está zangado com tudo isto. O emir não percebe como é que as melhores empresas de consultadoria de imagem inglesas e europeias ou vedetas como Xavi Hernández ou o pateta do David Beckham, que só sabia marcar cantos e variar de penteados, não conseguiram mostrar ao mundo como o Catar — que até sedia uma televisão, a Al Jazeera, tantas vezes melhor do que as grandes marcas internacionais — não era aquilo que um relatório da ONU de há um par de anos classificava como “uma sociedade de castas de organização medieval”. É verdade que o próprio Governo do emir não ajudou muito quando começou a divulgar conselhos ao milhão de visitantes previstos para o Mundial de que deveriam “respeitar os costumes do país” e aos milhares de jornalistas que irão cobrir o evento avisos de que não poderão entrevistar pessoas na rua ou em suas casas, em especial os trabalhadores estrangeiros, ou entrar em edifícios públicos. Acontece que entre os costumes do país está a proibição da homossexualidade, que lá é crime, e o Governo fez saber que tolerará a sua entrada (como não?) mas não tolerará as suas manifestações. Quanto às mulheres, estão autorizadas a conduzir automóveis mas não se aconselha que saiam à rua sozinhas: Alá não gosta e, além disso, o Catar é suspeito de tolerar, sim, simpatizantes da Irmandade Islâmica e do Daesh.
Eis, a traços largos, o retrato do país que albergará o próximo Mundial de Futebol. Mas o futebol não tem culpa nenhuma disto. Algures, em estádios do antigamente, como o La Bombonera, em Buenos Aires, onde Diego Armando Maradona começou a elevar-se aos céus ao serviço do Boca Juniors, ainda hoje a multidão enche o estádio sem precisar de ir ao engano, porque aí ainda o futebol é genuíno. Feito de arte, geometria, dor e alegria. A toda a volta, onde estão os ídolos que as televisões e os jornais promovem e as massas idolatram, há toda uma teia de sanguessugas — na FIFA, na UEFA, nas federações nacionais, nos grandes clubes — que explora a “festa do povo” em seu benefício próprio e que de há muito perverteu tudo. O jogo agora chama-se dinheiro. E a cobiça é tanta que, depois de a UEFA ter inventado um outro Campeonato da Europa de Selecções a que chama Taça das Nações e que alterna com aquele a cada dois anos, é a vez de a FIFA querer também um Mundial de dois em dois anos e de os grandes clubes da Europa congeminarem outra Champion’s League só para eles e com lugar cativo para eles todos os anos. Tudo isto, claro, é feito à custa de uma overdose de jogos absurda e de uma exploração extrema do esforço dos jogadores. Mas os grandes jogadores aceitam porque também a eles só uma coisa verdadeiramente lhes interessa: o dinheiro. Já alguém viu um jogador de futebol, nas imensas viagens que faz ou nos intermináveis estágios em que tem de permanecer, ocupado a ler um livro ou um jornal que não seja desportivo? Já alguém o viu de visita a um museu, um monumento, umas ruínas históricas? Não, ocupam todos os tempos livres a jogar futebol na PlayStation, a postar imagens das férias no Instagram ou a debitar banalidades para os seguidores no Facebook.
E tudo isto, claro, alimenta-se do terceiro factor: o público. No dia em que não houver público nos estádios o futebol definhará até morrer, como se viu durante a covid. E é uma pena se o que nos leva ao estádio, seja tanto a beleza do jogo como a descarga de adrenalina e tudo o mais que precisamos de descarregar e que um jogo de futebol permite como poucas coisas mais, não seja também uma oportunidade para descarregar contra todo o universo sujo escondido por detrás do jogo.
Se os espectadores soubessem (se os jornalistas desportivos lhes contassem…) o luxo em que vivem e viajam os dirigentes dos clubes, das organizações de futebol, das federações, os agentes que chulam os clubes, os da UEFA e da FIFA, a riqueza que acumulam enquanto eles, espectadores, só gastam o seu dinheiro a manter o negócio milionário dos outros, talvez as coisas fossem diferentes.
Se a multidão que enche os estádios com o seu amor à camisola (o único que é genuíno) tivesse o mesmo espírito crítico para com jogadores e dirigentes — em matéria de corrupção, de fiscalidade, de negociatas — que tem para com os políticos, talvez o futebol fosse menos indecente. Ou, ao menos, mais envergonhado. Não estou a ver as opiniões públicas a engolir um prémio das Nações Unidas para os direitos humanos atribuído ao Catar.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
(Publico este texto como uma espécie de aparente interregno da campanha da guerra. E digo aparente porque com o mundo a desabar diariamente à nossa volta, a grande preocupação de D. Marcelo I é a bola e a sua vocação para treinador de bancada. E lembrei-me do Titanic e do filme: o barco a afundar e a orquestra impávida e serena a tocar na proa do navio. E fica tudo dito sobre a qualidade dos nossos líderes e sobre a sua margem de manobra no conflito: não podem ir além da discussão sobre a marca das chuteiras.Ou talvez nem isso.
Estátua de Sal, 08/06/2022)
Vi, como muitos portugueses, o jogo de futebol entre as selecções de Portugal e Suíça. Pese, porém, a clareza do resultado – mais que satisfatório, há que dizê-lo – e um jogo sem incidentes de maior, senti que me faltava algo. Qualquer coisa que desse sentido a tudo o que se passou, que clarificasse no espectro mais largo da nossa existência individual e colectiva as implicações futurantes do acontecido.
Porque, admitamo-lo, todos suspeitámos que por detrás dos acontecimentos mais felizes que vivemos se esconde a sombra inspiradora de quem ordena e orienta a realidade. Este vazio existencial que me atormentava não tardou a preencher-se, iluminando toda a obscuridade da dúvida.
Não de banalidades que preocupam os cidadãos de pouca imaginação e ainda menos fé – como comprar comida suficiente, pagar as contas básicas, pôr um dedal de combustível no depósito…-, mas do que realmente importava. Marcelo reflectia sobre o jogo, sobre a forma dos jogadores, sobre a estratégia desenvolvida, enfim, filosofava e iluminava-nos as nossas ansiosas sombras.
Teceu, até, para benefício de todos nós, considerações sobre a possibilidade de a próxima Liga das Nações se realizar em Portugal, ideia que encheu os corações de alegria, pois todos temos saudades do calor humano que essas realizações trazem, bem como as oportunidades de refazer áreas das cidades contempladas após a festivas actividades dos fanáticos das equipas vencedoras e os compreensíveis desabafos dos das equipas vencidas – agressividade transferida, chamam-lhe os especialistas.
E pronto, era isto que queria sublinhar. Somos felizes. Quantos países têm a ventura – salvo seja – de ter um presidente que ajude o seu povo, trôpego como um a galinha, a voar como uma águia? Obrigado, senhor Presidente, por mais este momento de pura felicidade nacional.