A greve é como a guerra, deve ter custos para todos quererem a paz

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 07/02/2019)

Daniel

Daniel Oliveira

Como jornalista tive poucas oportunidades para fazer greve e, desde que trabalho fora das redações, passaram a ser nenhumas. As poucas que pude fazer, não as furei. Sou filho de uma sindicalista e ser fura-greves é falha grave. A greve errada critica-se e combate-se no sindicato, não se fura. Porque isso fragiliza quem fica sozinho na luta e, em última análise, todos os trabalhadores. Foi o que aprendi quando a solidariedade de classe (não confundir com corporativismo) tinha alguma coisa a ver com sindicalismo. Sempre contestei o discurso dos que se dizem defensores da greve mas a querem sem custos para economia, para os clientes e utentes, para as empresas e até para os patrões. A greve é a arma dos trabalhadores que equilibra a sua relação com o empregador. É por isso mesmo que ela é legal e o lockout não. Se não prejudicar ninguém é inútil.

No caso das greves de trabalhadores do Estado, a coisa funciona de uma forma um pouco diferente: o alvo é o poder político democrático, os prejudicados são os cidadãos. Espera-se que o prejuízo dos cidadãos (e os custos financeiros associados, quando existem) funcione como pressão junto do poder político e o obrigue a ceder. Mas não há um confronto entre o trabalho e o capital. Enquanto o trabalhador do privado luta com o patrão para a divisão da riqueza, o trabalhador do Estado luta, em última análise, com os contribuintes, grupo em que ele próprio se inclui. Há quem tente substituir, no seu discurso, o lucro dos privados pelo dinheiro que é dado aos bancos ou coisas semelhantes. É um mero exercício retórico. Isto não diminui o direito à greve dos funcionários públicos, apenas os confronta com outro tipo de dilemas éticos que o sindicalismo consciente não costuma ignorar.

O facto de eu não furar greves e de defender este direito (não apenas formal) como condição da democracia, não implica que apoie todas as greves. Até posso defender as reivindicações de uma greve e opor-me a essa greve, se considero que os seus métodos são pouco éticos ou se os efeitos são desproporcionados para o bem que pretendem alcançar. É seguramente o que acontece com a greve dos enfermeiros, à qual nem sequer estou seguro que se possa realmente chamar de greve.

Como já escrevi, considero a generalidade das reivindicações dos enfermeiros justas. Tão justas como as dos professores que, não sei porquê, não merecem a mesma simpatia dos sectores que mais têm apoiado os enfermeiros. A minha crítica é à forma encontrada para tornar esta greve mais eficaz e os precedentes perversos que estão a ser abertos. Dois pequenos sindicatos, capitaneados pela bastonária e representados por um movimento inorgânico sem uma liderança responsável, encontraram o que julgam ser o ovo de Colombo: uma greve que, não tendo qualquer custo relevante para quem a faz, pode prolongar-se durante anos. Através de uma recolha de fundos informal, sem os requisitos mínimos de transparência (o que permitirá, a ser replicada, aproveitamentos perigosos), financiam-se uns poucos enfermeiros para não trabalharem.

As greves cirúrgicas não costumam ter fundo de greve, os fundos de greve só costumam ser usados para pagar a greve de todos os que para ele contribuíram. Os enfermeiros estão a fazer uma greve por procuração, sem custos para os grevistas e baratíssima para quem, beneficiando dos efeitos da greve, não a tem de fazer. Se a isto juntarmos o facto de o fundo de greve não o ser realmente e a greve cirúrgica ser numa área que pode custar vidas, temos um bingo. Perante a grosseira perversão do instituto da greve e a ausência de razoabilidade, de ética sindical e de sensibilidade social, defendo, dentro dos limites da lei, a requisição civil

É importante juntar os vários elementos desta greve. Apesar de não ser tradicional em Portugal, muitos sindicatos por essa Europa fora têm fundos de greve. Eles permitem greves mais longas. Muitos sindicatos recorrem a greves cirúrgicas, focadas num sector com maior impacto. Isso deve ser cauteloso e excecional. Usar um fundo de greve para parar um sector específico tem o problema de poder tornar a greve eterna, porque o efeito é brutal para um custo mínimo.

As greves cirúrgicas não costumam ter fundo de greve, os fundos de greve só costumam ser usados para pagar a greve de todos os que para ele contribuíram. Aquilo a que estamos a assistir é a uma greve por procuração, sem custos para os grevistas e baratíssima para quem, beneficiando dos efeitos da greve, não a tem de fazer. Se a isto juntarmos o facto de o fundo de greve não o ser realmente e estar aberto a contribuições externas e até anónimas, e a greve cirúrgica ser numa área que pode custar vidas, temos um bingo. Cada coisa isolada, sendo excecional, pode ser aceitável. Todas juntas são inaceitáveis.

O sindicalismo tem uma ética associada. Só assim ele pode ter a proteção constitucional que lhe é dada. Não é por nunca lhes ter ocorrido que os sindicatos tradicionais não associaram um crowdfunding a uma greve cirúrgica. Nem sequer é pelas novas tecnologias. Se os contribuintes são mesmo enfermeiros isto já era fácil de fazer. É porque, ao contrário destes movimentos e da bastonária, eles estão familiarizados com essa ética, com que lidaram e que ajudaram a construir em décadas de luta. Ao contrário de quem lidera esta greve, têm passado, uma tradição ligada à valores e um futuro a preservar. O mal que esta greve está a fazer ao sindicalismo só pode ser indiferente a quem se está nas tintas para o sindicalismo.

Há um debate ético sobre a utilização de drones nas guerras que se aplica às greves. A utilização de drones protege um dos lados de qualquer baixa ou até mazela física ou psicológica. Esta excessiva proteção pode levar a uma insensatez patológica. Não há urgência para o fim da guerra, não há limites para o que se quer conquistar e não há qualquer sensibilidade para os efeitos do que se está a fazer. Não há ética associada ao combate. Sem risco na guerra não há motivação para a paz. É o que acontece com esta greve. Só uma guerra de que dependa a sobrevivência de um dos lados pode ser levada até à morte do lado oposto e eternizar-se até que algum deles sucumba. O mesmo acontece com as greves. E é isso que explica que os mineiros ingleses tenham, em 1984, feito uma greve de um ano. Ou venciam ou acabam enquanto mineiros e trabalhadores. Alguém que diga que é o caso dos enfermeiros insulta décadas de luta dos trabalhadores.

A greve dos enfermeiros é legítima. As requisições civis, determinadas pela lei e pela justiça, também o são. Talvez só o uso das duas possa garantir que as partes se sentem à mesa. Perante uma grosseira perversão do instituto da greve e a ausência de razoabilidade, de ética sindical e de sensibilidade social, defendo, contra tudo o que é a minha cultura política mas dentro dos limites da lei, a requisição civil. Esta greve, feita por poucos por procuração remunerada de outros, perverte o direito à greve e fragiliza o sindicalismo. Não é por acaso que os que sempre combateram este direito a aplaudem com tanto afinco.

VOLTA DIABO, ESTÁS PERDOADO

(In blog, O Jumento, 17/12/2018)

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Durante algum tempo a extrema-direita fina apostou tudo na vinda do diabo, Passos Coelho meteu na sua grande e brilhante cabecinha que o mafarrico vinha em setembro de 2016 e os seus crentes andaram um ano em regime de sabática política, convencidos de que voltariam aos gabinetes governamentais em finais desse ano, para depois pedirem mais um resgate que lhes permitiria governar mais uma legislatura sem respeitar regras.

O mafarrico não veio e durante muitos meses ficaram convencidos que de era uma questão de tempo. Para se entreterem enquanto o dito não aparecia foram-se entretendo com incêndios ou, na falta de melhor, com o Metro de Lisboa. O disparate chegou ao ponto de a Assunção Cristas propor que Lisboa tivesse mais estações de Metro do que paragens de elétricos.

Mas o mafarrico não apareceu. O Passos Coelho percebeu que o melhor seria procurar emprego porque para esperar pelo regresso ao governo o melhor seria ter onde se sentar, logo alguém achou que o seu brilhantismo intelectual não merecia menos do que uma cátedra e o pobre homem lá foi dar cabo da credibilidade académica do currículo dos alunos do ISCSP.

Sem diabo a alternativa acabou por ser ficarem com o diabo no corpo e apareceu então a destingida bastonária dos Enfermeiros, rapariga próxima do agora catedrático, Começou com greves por tudo e por nada, mas como tanta greve estava a ir ao bolso dos enfermeiros teve uma brilhante ideia: porque não uma greve paga que matasse dois coelhos, (o catedrático do ISCSP e o deputado do PAN que me perdoem), com uma cajadada? Dá-se cabo do SNS e mandam-se centenas de clientes para os privados ao mesmo tempo que os enfermeiros das cirurgias metem férias pagas generosamente por gente anónima!

Tem sido um regabofe. Os enfermeiros fazem greve, os juízes vão pelo mesmo caminho e agora é o Marta Soares, que depois de ter traído o seu amigo Bruno de Carvalho aparece a exigir o apuramento de responsabilidades políticas num acidente com que nada tem que ver. Pelo meio ainda houve um assalto a um paiol que até deu direito a um memorando sobre o mesmo, devidamente enviado por gentis militares.

Durão Barroso chegou ao poder ajudado pela queda de uma ponte. Passos Coelho foi ajudado por uma crise financeira. O PSD parece estar a ficar viciado em empurrões para chegar ao poder.


Fonte aqui

Morrer sem querer

(Dieter Dellinger, 16/12/2018)

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Ouvi no noticiário da vergonhosa TVI, a não menos vergonhosa bastonária da Ordem dos Enfermeiros, CAVACO, dizer que estão a morrer pessoas por falta de cirurgia.

A nova “Anjo da Morte” portuguesa culpa o governo no sentido de que ou fazem o que ela quer ou matam milhares de portugueses.

É um abuso de uma falsa autoridade sobre a classe dos enfermeiros dos blocos operatórios, principalmente quando os dois novos sindicatos tinham poucas pessoas inscritas, mas agora têm todos os profissionais auxiliares dos blocos operatórios que , para receberem os 1.200 euros por mês de greve, são obrigados a estarem inscritos nos dois sindicatos do PSD de RUI RIO.

Dinheiro que não acredito que foi doado por outros enfermeiros, já que as enfermeiras dos blocos são cerca de 5.000, segundo um noticiário, e um mês de greve corresponde a 6 milhões de euros que só pode vir de quem tem muito, ou seja, seguradoras de saúde chinesas, Grupo Mello, dos Hospitais CUF e outros hospitais privados, sendo um deles chinês.

O capital chinês quer a morte dos portugueses para aumentar a sua clientela em, segurados e doentes privados.

Disse “auxiliares nos blocos operatórios” porque os cirurgiões são os médicos altamente especializados nessa tarefa e os únicos legalmente autorizados a realizarem cirurgias.

Os enfermeiros têm as seguintes tarefas auxiliares divididas por três pseudo doutoras sem doutoramento:

Uma leva ao cirurgião os instrumentos cirúrgicos, como bisturis, etc. Outra apoia o médico anestesista, mas não injeta o medicamento da anestesia que é feito pelo respetivo médico ou médica. Está ali só a ver e apoiar em algo que corra mal ou a levar a máscara de oxigénio com os tubos ao anestesista. Uma terceira enfermeira é a doutora ambulante, não está a fazer nada, mas pode ser útil se ocorrer um problema grave e não estar no bloco um desfibrilador, por exemplo. Então essa “ambulante” vai buscar.

Mas, geralmente há tudo no bloco e o cirurgião preparou o material e sabe quais os problemas que podem acontecer, pois estudou isso tudo.

As doutoras enfermeiras é que não estudaram nada disso e não lhes é autorizado meter a mão na abertura cirúrgica, salvo quando o médico tem as duas mão ocupadas e precisa de outras para segurar algo, mas se pedir ajuda vai dizendo o que deve a auxiliar fazer.