Somos contra imigrantes e pode-se bater nas mulheres

(Ana Sá Lopes, in newsletter do Público, 03/07/2025)


Cara leitora, caro leitor:

Não queremos cá imigrantes e não nos incomoda grande coisa que um homem, mesmo ocupando elevados cargos públicos, bata na mulher. É uma definição triste, mas é isto que somos, em Julho de 2025. Todos aqueles que atacam a imigração em nome de um suposto feminismo – em Portugal as mulheres são muito bem tratadas e a violência doméstica é condenada judicial e socialmente de forma exemplar – bem podem limpar as mãos à parede.

Dois casos (e meio):

1. O Governo avançou com as mudanças à lei da nacionalidade, mostrando que consegue ir não “além da troika”, como no passado, mas além do Chega, se preciso for. Claro que o Chega nunca ficará satisfeito com as mais desumanas leis inventadas por Montenegro. A radicalização anti-imigrante, com as consequências sociais que daí advêm, vai agravar-se.

A resposta do ministro Leitão Amaro à pretensão do PS de que as propostas e projectos lei sobre nacionalidade baixassem à comissão sem votação (uma forma de remeter uma discussão mais profunda para a sede de comissão parlamentar respectiva) é de antologia.

O Chega não precisa de estar no Governo para estar no Governo: a adopção das políticas da direita populista radical nesta matéria por Montenegro e companhia mostram ou uma enorme ingenuidade – acha que é assim que mata o Chega – ou uma vontade de humilhar o PS que, na situação difícil em que se encontra, estava disponível para fazer vários acordos com o Governo.

As duas ideias (copiar o Chega achando que lhe rouba os votos e humilhar o PS, que está na mó de baixo) devem ter sido metidas na varinha mágica e saiu uma mistura digna de quem se esqueceu da velha social-democracia do PSD, que ainda tem aqui e ali uns defensores, embora agora já não tenha a ex-deputada Rubina Berardo, que se fartou das políticas de direita populista.

Então o que disse Leitão Amaro, seguindo o guião anti-imigrante da direita populista? A votação de sexta “vai testar cada partido e demonstrar onde está”. “Querem preservar o que ainda sobra de uma época de facilitação ou contribuir para uma mudança de política que vem a ser feita desde o ano passado?”, perguntou, provando que o interlocutor preferido não será o PS.

Resta dizer que o velho Montenegro, como aqui explica o Filipe Santa-Bárbara, defendia o reagrupamento familiar como uma forma de integração de imigrantes. O novo Montenegro já não. O Chega, no fundo, é que ganhou as eleições.

Gouveia e Melo, que andou a esforçar-se para mostrar o seu centrismo, também deu a sua contribuição para o discurso anti-imigrantes esta semana: “Claro que precisamos de gente por causa da nossa demografia. Mas não é qualquer gente. Devemos de alguma forma conseguir controlar os fluxos para defender também os interesses portugueses”. Não precisando Portugal de “qualquer gente”, segundo o candidato presidencial, era bom que ele fizesse a lista daqueles que não quer. Alemães? Louros de olhos azuis? Milionários com direitos a vistos gold? Era sumamente interessante.

O discurso contra o imigrante é hoje dominante no mainstream social e está associado não a políticas públicas – quem paga as reformas dos portugueses? – mas a um ódio visceral em grande parte racista, a roçar o slogan “A Europa será branca ou não será”. Sabem o que vai acontecer? Não será.

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2. O Governo marcou esta quinta-feira as eleições autárquicas para 12 de Outubro. Esta sexta-feira, o presidente da Câmara de Vizela, cujo processo de violência doméstica foi agora reaberto pelo Ministério Público – depois de um arquivamento surreal, tendo em conta as provas apuradas no hospital –, vai reapresentar a sua recandidatura, desta vez como independente. José Luís Carneiro seguiu o procedimento de Pedro Nuno Santos e manteve a retirada do apoio do PS à recandidatura.

Mas sabem o que fizeram os socialistas vizelenses? Vão todos apoiar Victor Hugo Salgado. Em massa. Estão nas listas. Aparentemente, negociaram com a direcção não virem a ser expulsos. São todos “Victor Hugo Salgado”, como dizem. A mulher do presidente da câmara ficou com o nariz partido? Não interessa. O PS vizelense não quer saber o que se passa na casa de cada um.

Quando lermos um acórdão de um juiz a desculpabilizar a violência doméstica – e têm sido vários – lembremo-nos do caso de Vizela. A justiça reflecte sempre a sociedade e a sociedade não se importa absolutamente nada com a violência doméstica. Estamos no tal país que não quer imigrantes porque respeita imenso as mulheres, não é?

P.S. Nas minhas férias, li que Pedro Adão e Silva apresentou um livro de um condenado num caso de violência doméstica, Manuel Maria Carrilho, na Feira do Livro de Lisboa. Além de condenado por violência doméstica, Carrilho foi condenado em vários processos de difamação contra a ex-mulher e a família da ex-mulher, quando foi para os jornais acusá-los de coisas de que me abstenho por manifesto pudor de reproduzir.

Espero agora que Pedro Adão e Silva apresente o próximo livro de José Sócrates – pelo menos esse ainda não foi condenado. Isto é o nosso país, a alegada elite e a alegada não elite. Acho que Alexandre O’Neill foi o melhor trovador da coisa: “País engravatado todo o ano/e a assoar-se na gravata por engano”.

Até para a semana.

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Contra a memória curta: Gouveia e Melo e o naufrágio da Democracia

(António Garcia Pereira, in NoticiasOnline, 05/06/2025)

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Crise em Portugal

Vive-se hoje, em Portugal, uma situação de impasse político e de grave crise económica e social, que ameaça explodir a qualquer momento. Segundo um recente relatório do Instituto Nacional de Estatística (INE), existem dois milhões e cem mil pessoas em risco de pobreza e exclusão social, mesmo após as chamadas transferências sociais. Ou seja, mesmo depois de receberem subsídios como os de doença ou dedesemprego, o Rendimento Social de Inserção ou o Complemento Solidário para Idosos. Sem essas prestações sociais, o número de concidadãos nessa situação de risco de pobreza ou exclusão duplicaria.

Ainda segundo o INE, um quarto destas pessoas tem trabalho, mas os seus salários são de tal forma miseráveis que não conseguem escapar à pobreza; e mais de 50% dos jovens têm contratos precários. Por outro lado, segundo o Eurostat, enquanto o custo médio da mão-de-obra por hora(incluindo salários, contribuições patronais para a Segurança Social, apólices de seguros e outros encargos) na zona euro, em 2024, foi de 37,30€, em Portugal não ultrapassou os 18,20€, ou seja, apenas 48,8% daquele valor.

A Saúde é o desastre que se conhece, com cerca de um milhão e seiscentos mil portugueses sem médico de família e inúmeras urgências hospitalares sistematicamente encerradas.

A crise da Habitação não cessa de se agravar, com rendas cada vez mais incomportáveis e despejos contínuos e crescentes, alguns dos quais já executados pelos senhorios através do recurso a milícias privadas.

Austeridade à vista

Sob o pretexto da guerra na Ucrânia e ao mesmo tempo que se calam quanto ao genocídio praticado pelo governo de Israel na Palestina, tanto o Governo português como os demais governos europeus preparam-se, servilmente, para aumentar as despesas militares. Começa, igualmente, afalar-se abertamente no regresso do défice, com tudo o que isso representa em termos de política de austeridade – algo que Povo Português conhece bem, sobretudo desde os tempos da tróica. Ou seja, cortes nos já magros salários, pensões e direitos sociais, bem como facilitação e embaratecimento da contratação precária e dos despedimentos – tudo isto num contínuo anunciar de medidas em que as de um dia são ainda piores do que as da véspera. Não por acaso, o antigo ministro de Passos Coelho e actual economista chefe da OCDE, Álvaro Santos Pereira, veio mesmo dizer aquilo que os grandes patrões sempre pretenderam, ou seja, que, para combater o défice – reconhecido, assim, expressamente – será preciso rever a Constituição e acabar com a proibição dos despedimentos sem justa causa.

A ameaça autoritária em construção

Ora numa situação como esta, de crise grave e de relativo impasse político, a solução encontrada pelas grandes corporações – desde logo a banca e as grandes empresas multinacionais – é a de pôr o PSD, com a cumplicidade de um PS dito responsável e colaborante, a aplicar o programa do partido fascista Chega: defesa intransigente dos interesses da banca e das grandes empresas,privatização de tudo o que ainda puder ser privatizado(não apenas na economia, mas também na saúde e na educação), cortes nos direitos sociais, combate a tudo o que cheire a cultura e desenvolvimento do espírito crítico e reforço da repressão (legal, institucional e policial) sobre quem proteste ou pense de forma diferente.

Neste quadro, e dentro da velha e conhecida táctica de procurar “colocar todos os ovos no mesmo cesto”, é muito importante, para as forças mais retrógradas da sociedade portuguesa, fazerem eleger um Presidente da República que, sob a capa de uma pretensa independência, de um pretenso rigor e de uma suposta eficácia, garanta luz verde ao regresso em força das políticas de austeridade e da repressão — e que, simultaneamente, reforce os seuspoderes, atropelando tudo e todos, inclusive a própria Constituição que jurou respeitar e fazer respeitar.

O candidato do sistema e o que se esconde por detrás da máscara

Ora, este é o papel que assenta, que nem uma luva, nalaboriosamente construída, e mediaticamente amplificada, figura de Gouveia e Melo. Na verdade, este não passa de um produto encomendado pela classe dominante a uma Comunicação Social que, desde há anos, se gaba de criar e vender presidentes como quem vende sabonetes,produzindo e amplificando tudo o que possa favorecer aimagem messiânica do “Salvador da Pátria” e escondendo tudo o que, do seu passado e do seu presente, possa contribuir para pôr a claro o seu verdadeiro carácter, bem como as suas reais ideias e ambições.

Tal já vem sendo denunciado – é certo que por muito poucos –, mas quem quiser analisar mais detalhadamente alguns desses aspectos pode fazê-lo facilmente, consultando, por exemplo, tanto um artigo que escrevi em 2024 – Gouveia e Melo: o “Messias” da Marinha ou o naufrágio da Democracia? – como um artigo de Jorge Silva Paulo, publicado em Novembro de 2021 – Não Aprenderam Nada: Gouveia e Melo, outro Menino-de-Oiro.

E, seguramente, um dia se saberá quais as razões que terão levado grande parte da Comunicação Social, dos jornalistas e dos comentadores do pensamento dominante a incensar continuamente Gouveia e Melo, silenciando factos e circunstâncias como os seguintes (e que desafio os seus habituais defensores oficiosos a, com provas, virem desmentir):

− O modo como, por meio de sinistras operações de homicídio de carácter, afastou e “liquidou”, um a um,todos os seus potenciais concorrentes ao cargo de Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA).

− A forma prepotente e ultra-autoritária com que sempre exerceu todos os cargos por onde passou – dos submarinos ao CEMA – instaurando um clima de medo, atacando, destituindo e demitindo quem dele discordasse ou simplesmente quisesse cumprir a lei.

− O modo e os verdadeiros motivos por que foram, por sua iniciativa, demitidos responsáveis da Marinha,designadamente no Algarve, ou a razão por que temmovido processos judiciais, inclusive criminais, com custas pagas pela Marinha, contra os seus críticos.

− A verdadeira máquina de propaganda e de autoelogio que montou na Armada: desde a criação de um gabinete de comunicação – que monitoriza toda a Comunicação Social e as redes sociais para fazer clipping de tudo o que diga respeito à Marinha e, sobretudo, a si próprio – até ao cultivo de relações privilegiadas com certos jornalistas, sempre prontos a publicitar as suas posições sob a tão anónima quanto desresponsabilizante fórmula das “fontes próximas da Marinha”.

− A publicação – que ninguém quis investigar nemdebater a sério – no último número da Revista da Armada sob a sua direcção, de um póster de página inteira que o retrata de braço dado com El-Rei D. João II, como se de um autêntico herói nacional se tratasse.

− A realização de operações navais, como a da passagem das linhas do Equador e do Círculo Polar pelo submarino Arpão, com Gouveia e Melo a bordo, sem qualquer justificação ou utilidade militar, implicandoelevadíssimos custos e servindo apenas para finspropagandísticos em seu proveito.

− A “doutrina” – a qual, de acordo com Gouveia e Melo e alguns dos seus apoiantes, porque modelando condutas, prevaleceria sobre a própria Constituição – do chamado “duplo uso” dos meios da Marinha, com a qual tem procurado justificar concepções e práticas absolutamente ilegais e inconstitucionais, como a colocação desses meios a praticar, sozinhos, actos da competência exclusiva das autoridades judiciárias ou dos órgãos de polícia criminal (tais como detenções ou apreensões de droga ou de pesca ilegal). E alguém se preocupou em saber se o Ministério Público – sempre célere em instaurar processos-crime ou averiguações preventivas – adoptou semelhante conduta perante estas actuações de Gouveia e Melo, em especial no Algarve?

− A forma abusiva – por vezes até ridícula, mas amplamente propagandeada – com que tentou retomar o protagonismo público após o período da vacinação, por meio de entrevistas televisivas encomendadas, procurando escamotear o papel desempenhado por forças policiais especializadas, como a Polícia Judiciária, para se vangloriar de uma alegada “inovadora estratégia” no combate ao narcotráfico no Algarve, chegando mesmo a afirmar ser bem mais eficaz do que as autoridades espanholas.

− Do ponto de vista da Ética, que ele tantas vezes invoca, o ensurdecedor silêncio que Sua Excelência manteve perante a forma miserável como o anterior CEMA, Almirante Mendes Calado, foi afastado do cargo antes de tempo por António Costa, para permitir a ascensão de Gouveia e Melo ao mesmo cargo – situação que gerou uma mais do que justificada onda de indignação e de solidariedade praticamente por toda a Marinha, com a única e significativa excepção do próprio Gouveia e Melo.

Tudo isto revela bem o carácter e o pensamento de Gouveia e Melo, em múltiplos campos e aspectos que, em alguns casos desde há muitos anos, embora conhecidos,praticamente ninguém questiona – nem a Comunicação Social, nem os outros candidatos ou putativos candidatos presidenciais.

Mas práticas e concepções anticonstitucionais sobre o papel das Forças Armadas num Estado que se proclama de Direito democrático, e também sobre a natureza e a missão da Autoridade Marítima Nacional e da Polícia Marítima; vaidade extrema e total narcisismo; perseguição implacável a quem dele discorde ou critique; ausência de camaradagem e de solidariedade; malversação da verdade dos factos para construir as narrativas convenientes; e contínua auto-promoção pessoal, inclusive à custa do erário público, tudo isto já deveria ser mais do que suficiente para, ao contrário do que por aí se diz, sabermos ao que vem Gouveia e Melo.

Acresce que, após a apresentação da sua candidatura, vem agora ao de cima (ainda que disfarçado ou “modernizado”) o bafiento e salazarento discurso dos “Salvadores da Pátria”. Mesmo que, a conselho dos seus assessores, tente agora dizer o contrário, esse discurso ésignificativamente próximo do de Ventura e do partido Chega: o descrédito dos partidos políticos e do parlamentarismo, a suposta necessidade de “regenerar” a Nação e, sobretudo, a ideia de que o país só pode ser salvo por um Messias independente, supostamente impoluto, eficaz e de pulso firme.

E assim se chega ao ponto mais significativo da natureza ultra-reaccionária e perigosa das posições de Gouveia e Melo, tão típica dos Bonapartes de todos os tempos: o culto da personalidade levado ao extremo; a ideia de que, por supostamente encarnar os anseios de toda a comunidade, tudo lhe é legítimo fazer, porque os fins justificariam os meios, mesmo os mais ilícitos ou ilegítimos, inclusive faltar à verdade e sacudir responsabilidades para os seus subordinados quando as coisas correm mal.

O caso Mondego

Foi assim, aliás, na entrevista conduzida pela jornalista Sandra Felgueiras, na passada segunda-feira, 2 de Junho, quando Gouveia e Melo, confrontado com a demonstração da completa e muito grave ilicitude da conduta da Marinha por si então chefiada face aos marinheiros do Mondego – patente no Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo de 30 de Abril último, que arrasou a argumentação da mesma Marinha e anulou, por quatro fundamentos distintos, as sanções aplicadas a 11 dos 13 militares – tentou defender o indefensável.

Antes de mais, tentou negar que foi ele quem, em claríssima violação da ética militar e do próprio Regulamento de Disciplina Militar, deu, de dedo esticado, uma reprimenda pública a todos os 13 militares do “Mondego” (superiores e subordinados hierárquicos), com altifalantes ligados e a Comunicação Social chamada para dar publicidade ao vexatório “puxão de orelhas”, numa postura absolutamente indigna, que, aliás, lhe valeu bastantes (ainda que “encolhidas”) críticas, desde logo no interior da própria Marinha.

Depois, e por um lado, mostrou que, apesar de estar na reserva há cinco meses, continuou, e continua, a ter acesso a informação sobre o processo. Mas mais grave ainda:faltou deliberadamente à verdade sobre este, ao mesmo tempo que deixava claro qual é, afinal, a sua concepção, muito própria e completamente errónea, de um Estado de Direito.

Já antes, quando, em Dezembro último, o Tribunal Central Administrativo Sul anulara as referidas sanções, Gouveia e Melo tentara fazer crer que a decisão ilícita não fora sua, mas do seu subordinado Comandante Naval – o que é falso. O que foi então anulado judicialmente foi a decisão do próprio Chefe do Estado-Maior da Armada, relativa ao recurso hierárquico que para ele fora interposto. Decisão essa subscrita por Gouveia e Melo e com 12 (doze!?)páginas de tentativa de justificação do injustificável.

Posteriormente, já em Abril de 2025, perante novo acórdão – desta vez do Supremo Tribunal Administrativo – que acrescentou um quarto fundamento (a não realização das relevantes diligências de prova requeridas pela defesa) aos três já enunciados pelo TCA Sul – Gouveia e Melo arrogou-se declarar que “não concordava” com a decisão. Como se, perante uma decisão judicial, fosse admissível àAdministração Pública (inclusive à Administração Militar) qualquer outra conduta que não a de cumprir e fazer cumprir essa decisão, tal como imperativamente estipula e impõe o artigo 205.º, n.º 2, da Constituição da República Portuguesa.

Mas, na referida entrevista televisiva, Gouveia e Melo foi ainda mais longe, desde logo insinuando que “o assunto ainda está na Justiça”, como se o Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo não fosse já definitivo. Ou será que o impoluto Almirante também defende – e opina, pelo menos – que a Marinha deve agora lançar mão de subterfúgios, manobras dilatórias ou pretensos recursos, designadamente de pretensa inconstitucionalidade, para assim tentar adiar o trânsito em julgado do Acórdão, tal como, por exemplo, fez recentemente o arguido Mário Machado?

Gouveia e Melo afirmou ainda – e também falsamente –que “os factos estão lá”, quando o Supremo, sem entrar na respectiva apreciação, apenas listou os factos que constavam do Acórdão do TCA-Sul, os quais resultaram (apenas) da versão e dos documentos apresentados pela Marinha. Precisamente porque não houve qualquer prova da defesa e, logo, também não houve.

Mais ainda: Sua Eminência afirmou que o Supremo Tribunal Administrativo teria dito que “há problemas que podem levar à anulação das sanções”, quando, na verdade, aquele Supremo Tribunal anulou efectivamente as sanções, e fê-lo com base em múltiplas violações da lei e da Constituição. Pretender, assim, reduzir essas violações (como a não informação dos arguidos quanto aos seus direitos, a nomeação de um instrutor com intervenção directa nos factos e evidente conflito de interesses, a ausência de audiência dos arguidos após novas diligências da acusação e a recusa da realização de prova essencial para a defesa, requerida de forma oportuna e fundamentadamente requerida) a meros “problemas”processuais, é desvalorizá-las de forma absolutamente inadmissível. Mais do que isso, constitui mesmo uma conduta absolutamente indigna, não apenas do cargo que Gouveia e Melo exercia, mas sobretudo do cargo de Chefe de Estado a que agora se candidata. 

Na verdade, um personagem que considera meras formalidades os princípios constitucionais, que se apropria de todos os êxitos – mesmo os que o não são – e culpa sempre os subordinados pelos insucessos, e que não hesita em falsear a verdade dos factos, é um problema grave para a Democracia.

Até porque amanhã, dentro desta lógica profundamente ditatorial, poderá estar a defender, e a praticar, que, desde que seja para perseguir pessoas “perigosas” (como divergentes de opinião, opositores políticos ou dirigentes sindicais, por exemplo), não faz mal faltar à verdade ou violar a lei. E por que não – tal como foi feito aos militares do Mondego – impedir tais arguidos de terem advogado, de se defenderem ou de produzirem prova? Ou,já agora, permitir à acusação realizar diligências após conhecer a defesa e, de seguida, escondê-las da mesma?

O desafio que se impõe

É isto, Caros Concidadãos, que se pode esperar de um Presidente da República?!

E a verdade é também que todos aqueles que têm a possibilidade – e, sobretudo, a obrigação – de evidenciar e não deixar apagar ou destruir a verdade dos factos, como os políticos ditos democratas e os jornalistas ditos independentes, mas se escusam a fazê-lo – porventura embriagados com aquilo que lhes parece ser o cheiro a Poder – não merecem melhor juízo.

Inquisidores-mores do Reino (mesmo que disfarçados de impolutos democratas) e ferozes ditadores envergando paternalísticas e messiânicas vestes, já os tivemos vezes suficientes na nossa História.

A Democracia não sobrevive à cumplicidade nem ao silêncio. E é disso, mais do que de qualquer inimigo externo, que ela corre hoje maior risco. A indiferença dos justos é o terreno mais fértil para o avanço dos autoritários. Cabe-nos impedir que a máscara caia tarde demais. Porque, depois, já não será apenas o passado que se repete – será o futuro que se perde!

Fonte aqui

Gouveia e Melo: um populista de farda como epitáfio da democracia

(Por Pedro Almeida Vieira, in Página Um, 01/06/2025)

Imagem gerada por IA

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Portugal vive hoje sob um regime político que se apresenta como democrático, mas que já não o é. Persistem as eleições, os parlamentos, os jornais, os partidos, os discursos inflamados na Avenida da Liberdade para comemorar o 25 de Abril. Não há perseguições nem presos políticos. Mas falta-lhes todo o resto. Falta já a substância.

A democracia portuguesa – e, por extensão, a de toda a União Europeia – tornou-se um teatro de sombras, onde os actores se movimentam obedientes a um guião traçado por interesses supranacionais, alheios à vontade popular. A liberdade política esvai-se sem tiros nem quarteladas, numa erosão subtil, mas implacável, em que o cidadão comum é reduzido a figurante.

Tal como em Matrix, os portugueses continuam a acreditar que vivem numa democracia porque ainda votam, ainda discutem política, ainda protestam de vez em quando. Mas já não mandam. Já não decidem. Já não influenciam. O poder efectivo – aquele que determina o rumo da Economia, os modelos de governação, os critérios de financiamento, as regras sociais, os limites da acção individual e colectiva – reside noutras mãos. Mãos frias, cinzentas, instaladas em Bruxelas, Estrasburgo e Frankfurt. Mãos de burocratas não eleitos, ou eleitos por cliques governamentais sem qualquer representação directa de vontades nacionais. A Comissão Europeia, hoje desprovida de qualquer sentido de solidariedade ou humanismo, tornou-se uma instância autocrática que olha para os cidadãos como carne para canhão, peças sacrificáveis num tabuleiro de xadrez onde só importa proteger o rei e os bispos.

Onde antes se vislumbrava um projecto de desenvolvimento económico e social, temos agora um modelo de gestão tecnocrática e autoritária, que invoca a “governança” para justificar a opressão fiscal, a vigilância digital, a neutralização da dissidência e o esvaziamento do Estado-Nação. Em nome da estabilidade, da transição ecológica, da saúde pública ou da “resiliência”, tudo é permitido – menos resistir.

A comunicação social mainstream, falida e dependente cada vez mais do ‘oxigénio’ das corporações e do Estado – porque os seus clientes tradicionais, os leitores, já não lhe concedem a credibilidade e o valor económico de outrora –, traiu os seus princípios. Neste novo cenário, deixou de ser watchdog para ser o petdog, abanando a cauda a cada migalha do poder.

Portugal, outrora nação soberana, é hoje um protectorado sem identidade política – mais submisso aos ditames dos comissários europeus do que o foi à Coroa espanhola entre 1580 e 1640. A diferença é que, ao menos, o domínio filipino não disfarçava a sua natureza. Hoje, os nossos dirigentes sorriem, assinam, bajulam e até agradecem por sermos tutelados. E não são apenas os burocratas estrangeiros os culpados: são, sobretudo, os nossos próprios políticos, que cedo perceberam que em Bruxelas há mais poder, mais visibilidade e melhores poisos do que em São Bento. De Durão Barroso a António Costa, temos assistido a uma sucessão de ambiciosos que trocaram a lealdade à pátria pela ascensão nas hierarquias internacionais. Portugal serve já apenas como trampolim.

E, no entanto, os tempos difíceis não surgem apenas do exterior. A deriva antidemocrática alastra também no plano interno, disfarçada sob novas roupagens. Se muitos se escandalizam com o Chega – e bem, diga-se, pois a retórica populista não oferece soluções, apenas ressentimentos –, poucos se apercebem de que o verdadeiro risco está na emergência de uma nova direita pretensamente respeitável, que nasce das borralhas de um antigo PSD e CDS e que se tenta reabilitar à boleia de uma figura tão popular quanto perigosa: o Almirante Gouveia e Melo.

Há quem trema com os apoiantes do Chega. Eu tremo tanto ou mais com os que se juntam, discretamente, em redor de Gouveia e Melo. Começa-se pelo novo BFF (best friend forever) do Almirante: Isaltino Morais, o velho cacique que gere Oeiras como um paxá num feudo medieval. Junte-se-lhe Rui Rio, o ex-presidente do PSD, agora mandatário da candidatura a Belém, com contas a ajustar com os seus ‘fantasmas’ que o impediram de ser primeiro-ministro. Adicione-se ‘senadores’ reformados do PSD ou derrotados do CDS, bem da vida por terem aproveitado da rede de contactos políticos uma existência inteira, mas saudosistas das luzes da ribalta, como Ângelo Correia, António Martins da Cruz e Francisco Rodrigues dos Santos. Esta frente discreta, mas não menos inquietante, de figuras em busca de redenção ou vingança compõe um coro de sombras que encontra em Gouveia e Melo uma âncora, um novo D. Sebastião vestido de almirante. É isso que tentam vender.

Aliás, de entre os sete fundadores e membros da direcção de apoio ao Almirante – Honrar Portugal, que curiosamente repete uma denominação com laivos de Estado Novo de um grupo de pensamento do Chega no Facebook –, não é de admirar que haja quatro especialistas em marketing, porque Gouveia e Melo é um produto apenas com embalagem: Carlos Sá, Catarina Santos Cunha, Manuel Vaz e Tiago Mogadouro. De facto, bem precisam de vender um senhor que de carisma tem zero, sem um pensamento teórico, político ou social minimamente estruturado sobre assunto algum, que lê o teleponto como um boneco de cera – talvez seguindo as recomendações de Tiago Mogadouro, que é director-geral do Museu Madame Tussaud, em Nova Iorque.

Mas mais preocupante ainda é ver neste grupo avançado de lugares-tenentes de Gouveia e Melo – que se tornou conhecido por ter sido o director logístico de um produto (vacinas contra a covid-19) durante três trimestres – uma constitucionalista, Teresa Violante, que já defendeu, sem pudor, que houve, sim, atropelos constitucionais durante a pandemia, mas que tal problema se resolve facilmente: basta mudar a Constituição. Talvez também queira mudar a Constituição para que os atropelos cometidos por Gouveia e Melo, na sua sanha justiceira a bordo do NRP Mondego, se tornem legais.

É este o perigo de se embarcar em populistas – que é exactamente aquilo que Gouveia e Melo é. Se a lei incomoda, muda-se a lei. Se os direitos atrapalham, cortam-se os direitos. Tudo pela eficácia – e ele já defendeu ser contra a burocracia, porque, hélas, promove a corrupção. A democracia, com os seus equilíbrios, os seus freios e contrapesos, os seus incómodos, é hoje vista como um obstáculo.

O problema da crise dos partidos tradicionais, que fizeram crescer os populismos e os extremismos, faz também ‘nascer’ este tipo de figuras que, tal como André Ventura, querem mudança – mas essa mudança vem acompanhada de veneno. Em vez de vir revestida de ideias, vem mascarada com palavras como “modernização”, “responsabilidade” ou “realismo”. Traz, na verdade, um conteúdo bem mais sinistro: menos democracia, mais controlo.

Gouveia e Melo é o rosto ideal para esta operação – e será talvez o mais desejado aliado, mesmo que involuntário, de André Ventura. Se Gouveia e Melo for eleito para Belém, aí teremos um populista sem ideias – ou com ideias feitas por outros –, mas com farda e voz grave. Um produto de marketing, com teleponto e conselheiros.

Um símbolo de autoridade artificial, que seduz quem anseia por ordem, mas não percebe que está a abrir caminho ao autoritarismo. A ascensão de Gouveia e Melo não representa apenas um risco político: representa um sinal de desespero democrático. Quando o povo deposita as esperanças num almirante vazio de pensamento, é porque já perdeu a confiança nos partidos, nas instituições, na democracia em si mesma.

Portugal vive, pois, um tempo de simulacro: simulacro de soberania, simulacro de debate, simulacro de escolha. E como em todos os simulacros, o espectáculo continua – com Gouveia e Melo em Belém seguirá, pois, em agonia, já sem alma, sem sentido e sem verdade.

Fonte aqui