Davos é um fóssil vivo de um império em guerra consigo e com os outros

(Hugo Dionísio, in Strategic Culture, 28/01/2024)

O Fórum Económico Mundial dá-nos o privilégio excepcional de estudo que só os fósseis vivos nos podem dar.


O Fórum Económico Mundial dá-nos o privilégio excepcional de estudo que só os fósseis vivos nos podem dar. Representativo de uma era que podemos assumir como em processo de superação, senão materialmente, pelo menos na tendência observada, em Davos encontramos tudo o que é a ideologia neoliberal e supremacista ocidental, todas as suas potencialidades, falácias e as próprias causas da sua destruição. Como num fóssil vivo, em cada palavra, em cada expressão, tema ou conclusão, encontramos as razões fundamentais, pelas quais, a espécie não venceu, nem poderia vencer.

Davos fala-nos, sobretudo, de um problema de adaptação ao mundo real. A todo o momento, o Fórum Económico Mundial revelou, em toda a sua extensão, o ressentimento, a amargura e a desilusão, em relação a um mundo que revelou e insiste em revelar, cada vez mais teimosamente, não aceitar as premissas que fariam do neoliberalismo um sistema hegemónico duradouro e universal.

Nesse sentido, o Fórum de Davos constitui uma lição moral. Uma lição moral do ocidente à maioria global, numa espécie de choro recriminatório por esta não aceitar as soluções que tão “sábia e racionalmente” este tinha para transmitir; mas também uma lição de moral da maioria global ao ocidente, que esta aproveitou, em cada oportunidade, em cada exíguo momento de atenção dispensada, para transmitir as razões, pelas quais, o contrato proposto nunca seria aceitável.

Os temas escolhidos revelam, sobretudo, aquelas que são as grandes preocupações e desilusões do ocidente, bem como os que considera serem os pilares constitutivos de uma tentativa de regresso a um paradigma perdido. Um paradigma que, hoje, o ocidente sente escapar-se-lhe entre os dedos.

O primeiro tema é emblemático e diz muito do nível de desilusão: “Alcançando Segurança e Cooperação num Mundo Fracturado”. Se, por um lado, revela que o ocidente se sente inseguro, ao eleger a “segurança” como um dos pontos de partida da sua análise, por outro lado, revela também as dificuldades com que o ocidente se confronta quanto à imposição do seu modelo de “cooperação”, cada vez mais renitentemente aceite pelos países da maioria global. O resultado e a causa estavam bem espelhados no próprio tema, quando classificou o estado actual geopolítico como “mundo fragmentado”.

Neste “mundo fragmentado” encontramos o alfa e o ómega do discurso hegemónico. A recusa, cada vez mais explícita, por parte da maioria global, em aceitar os ditames da “nação indispensável”, “da nação liderante”, resulta, aos olhos desta gente como uma fragmentação, um vazio de poder. O sinal é evidente: os EUA continuam com dificuldades em encontrar o seu espaço no mundo, sendo que, tal dificuldade constitui um perigo imenso. Uns EUA nervosos, com crise de identidade e em estado de negação, são um perigo para si próprios, mas também são um perigo para os outros, para mais considerando todo o potencial destrutivo aos eu dispor. Ao eleger a “segurança”, quase podemos dizer que, lá no fundo, e sem nunca o assumirem, os EUA sabem de onde vem, realmente, o problema.

As condições de “segurança” definidas pelos EUA, também estão omnipresentes em Davos, na qualidade de “espectador ausente”. Um mundo seguro é um mundo sem Rússia, país removido, autoritária e discricionariamente, do evento. Diz muito de um evento que se diz “mundial”, a remoção da maior potência nuclear e uma das duas maiores potências militares do planeta. Trata-se, também, do maior país do mundo em território, com maior diversidade/quantidade de recursos naturais, um parceiro estratégico de importantes países, que representam mais de metade da população mundial, como China, India e Irão; um líder tecnológico na área espacial, aeroespacial, nuclear, naval, militar; e um dos maiores produtores de alimentos e cereais do mundo. Falar em “segurança”, “cooperação”, “energia”, “natureza” e “clima” sem envolver a Rússia, só pode ser uma brincadeira de mau gosto. Mas, para os EUA e, logo, para Davos, um mundo “seguro” é um mundo sem contradição de qualquer espécie, daí que não vejamos nenhum dos renegados habituais, como Cuba, Nicarágua ou República Popular da Coreia. É a política externa dos EUA que nos diz, a todos, quem faz, ou não, parte do “fórum mundial”.

Mas este conceito de “segurança” é aprofundado com um acontecimento espectacular, nunca visto na história da diplomacia: falar de paz entre dois países, envolvendo apenas um deles. Não lembraria aos maiores ditadores da história, mesmo que fosse para fazer de conta. Com os EUA, quais luminárias da “democracia liberal”, nem para fazer de conta. Com efeito, e para sinalizar bem ao mundo que, para o Fórum Económico Mundial – desculpem, para os EUA – “segurança” significa “aceitar as condições unilaterais impostas e sem pestanejar”, o evento abre com uma conferência de imprensa que dá conta de uma reunião entre os Assessores de Segurança Nacional (a 4ª) para alcançar uma “paz justa e duradoura na Ucrânia”.

Uma “paz justa” que não é negociada, mas imposta; uma paz com “justiça” que não envolve negociações com um dos países envolvidos no conflito; quer-se “duradoura” uma paz que tenha sido construída à revelia do principal, e mais forte, dos interessados. Bem-vindos ao “quero, posso e mando”, que é responsável pela derrota do ocidente, como tão bem escreveu Emmanuel Todd no seu último livro “La Défaite de l’óccident”.

Claro que, alguém minimamente sério teria de se questionar sobre a credibilidade disto tudo. Como é suposto fazer cumprir um plano de paz que não é negociado, mas imposto, para mais, por quem não tem capacidade para o fazer. E aqui somos imediatamente chegados ao objectivo fundamental do WEF: continuar a vender a ilusão de um mundo impossível, dominado em toda a extensão pelo ocidente, e em especial, pelos EUA.

Reminiscente de uma era de “cooperação” em que, ou as nações aceitavam, ou eram imediatamente sancionadas, excluídas do comércio diplomático, político, financeiro, militar e até cultural, todo o discurso relativamente à “segurança”, “cooperação” é enquadrado num outro conceito: “refazer a confiança”.

Para os EUA e o ocidente colectivo, é tudo muito claro, a cooperação está em perigo porque “não existe confiança entre as partes”. Mas como em tudo o que envolve a doutrina hegemónica e as narrativas encomendadas, a análise nunca vai às últimas consequências; a análise nunca vai ao ponto de colocar o dedo na ferida. Afinal, fazendo-o, rapidamente o WEF perderia o seu efeito propagandístico e doutrinador. Talvez nem pudesse existir.

Não é, portanto, de admirar que um dos pilares teóricos do Fórum de Davos, deste ano, seja o “Barómetro da Cooperação Global 2024” em colaboração com a sempre expedita, competente e bem mandada Mackinsey. Segundo este “Barómetro” – e sobretudo considerando as palavras de Jane Harman (Freedom House, “pro-free trade”, “pro-free market” e “progressive” (falta saber em quê) e ex-congressista) -, a cooperação global está pelas ruas da amargura. É claro que, bem vistas as coisas, e olhando para os dados, percebemos que, em 2012, o índice de cooperação estaria nos 0,87, em 2020 (período definido como de referência), estaria nos 0,97 e, em 2022, nos 0,96. Ou seja, em 2012, período em que os EUA ainda chafurdavam impunemente na sua prepotência hegemónica, o índice de cooperação era inferior. Então, porque está mal agora?

A verdade é que, olhando às várias formas de cooperação definidas (comercio e capital; clima e natureza; Inovação e tecnologia; saúde e bem-estar; paz e segurança), existem apenas duas que estão abaixo dos níveis de 2020: a saúde e bem-estar (pouco) e a paz e segurança (muito abaixo). E por aqui, percebemos, imediatamente, a grande preocupação e o que está por detrás da agenda, deste ano, do WEF, e o porquê do “problema” da Cooperação.

Uma vez mais, os EUA dão-nos uma lição da sua proverbial falta de vergonha: o que terá acontecido para a cooperação em segurança ter caído tanto, especialmente a partir de 2015? O que terá motivado tal falta de confiança? Qual o foi o país que, de repente, rasgou todos os tratados de não proliferação de armas nucleares que tinha com a Rússia? Qual foi o país que formou o QUAD, o Aukus, que expandiu a NATO para o leste europeu, afectando a confiança com dois dos principais pólos mundiais de cooperação militar: a China e a Rússia? Que país cujos dirigentes falaram, constantemente, em “derrota estratégica da Rússia”; “contenção da China” e “aniquilação do Irão”? O que terá isto a ver com a degradação dos níveis e confiança?

E na saúde e bem-estar? Quem é que utilizou o Covid-19 como arma de arremesso contra a China? Quem prolifera e proliferou laboratórios secretos de investigação biológica, especialmente à volta da Rússia e China? Como disse, os relatórios e análises do Fórum Económico Mundial têm uma virtude fantástica: todos estamos a ver quem é o culpado, mas eles insistem em nunca o apontar.

No único exemplo real de cooperação entre iguais, com respeito pela diversidade de cada um e com a capacidade de olhar para o que une, ao invés do que separa, sem imposições, autoritarismos, birrinhas e discricionariedades; num exemplo concreto de emancipação dos países em desenvolvimento e revelador da sua capacidade de cooperação, união e tomada do seu próprio futuro nas suas mãos; o WEF achou por bem apenas atribuir-lhe um secundaríssimo painel, em que a jornalista esteve mais preocupada em desenterrar diferenças e divergências, do que pontos de cooperação real. Refiro-me aos BRICS. Por aqui tiramos duas conclusões imediatas: o modelo de cooperação entre iguais, que os BRICS representam, não é valorizado, mas ostracizado, pelos EUA; os EUA e seus vassalos continuam à procura de “vender” um modelo neocolonial de cooperação. Cooperar, para os EUA é um jogo em que só um é que ganha, daí que o conceito de “coopetição” introduzido, seja perfeito: revela, em si, toda a intenção por detrás da tal “cooperação”, que é “competir” e aniquilar o opositor, fazendo-o acreditar que se está a “cooperar”. Acho demasiado a China ter comprado a coisa, mas, sabendo que os chineses jogam no longo prazo… esperaremos para ver.

Mas, então, porque razão o BRICS teve direito a um painel? Quer porque os EUA queriam demonstrar que não têm receio de projectos “menores” de cooperação, quer porque sucumbiram a alguma pressão da China e India, para o provar, o facto é que lá tiveram de o aceitar. Contudo, mostrando bem claramente o espaço que lhe atribuem no cenário das relações políticas globais. A ver vamos por quanto tempo mais conseguirão secundarizar este bloco de interesses convergentes.

Contudo, do lado de cá, a realidade insiste em impor-se e demonstrar que nada mudou, por mais narrativas que se criem. Um exemplo concreto? A negociação do acordo EU-Mercosul. Depois de acordada a versão provisória do acordo, eis que a EU faz chegar ao Brasil uma proposta final, contendo um anexo que prevê a aplicação de sanções aos países amazónicos, no caso de incumprimento das metas de protecção florestal amazónica. Tudo feito unilateralmente, sem ouvir os interessados. Eis o que significa “refazer a confiança”.

Se, o Barómetro da cooperação, nos diz muito do que pretende o Fórum Económico Mundial, não menos explícito é o “Relatório sobre os Riscos Globais 2024”. Aí encontramos a razão de viver de grande parte dos discursos pseudocientíficos que pululam pelo Fórum de Davos. O relatório deste ano aponta como principal risco o da “desinformação e informação errada”. A recente derrota ocidental na narrativa sionista, deve ter tocado todas as sirenes. Se lhe adicionarmos o facto de a maioria global não ter comprado a narrativa ucraniana… Não há dúvida de que, nos tempos que correm, o ambiente não está muito propício às falaciosas narrativas dos EUA. Sobre a forma de combate a esta “desinformação”, também estamos apresentados: no fórum falou-se de “educação”, na prática censuram-se as redes sociais; omitem-se buscas no google, controlam-se os meios de comunicação, censuram-se os meios de comunicação da Rússia e perseguem-se jornalistas como o Julien Assange.

O Fórum Económico Mundial revela-se de uma utilidade confrangedora para os críticos dos EUA: as soluções que aponta para o futuro, podem ser observadas, em tempo real, totalmente ao contrário, pelos EUA e seus vassalos. Quase como se, nos quisessem transmitir, indirectamente, o seguinte: “estão a ver esta medida? Os EUA e seus vassalos, fazem-na ao contrário”!

Mas, o resto dos temas são eles próprios reveladores das preocupações ocidentais: a carência de mão de obra em “criando crescimento e empregos para a nova era”, ao mesmo tempo que na União Europeia e nos EUA se impede a dignificação das condições de trabalho dos trabalhadores das plataformas informáticas e se descobre o escândalo, através do qual a Uber comprou o favor dos governos europeus e em que se usam as tecnologias digitais para suprimir postos de trabalho e degradar os salários; o domínio da inteligência artificial em “inteligência artificial como uma força motriz da economia e sociedade”, ao mesmo tempo que movem a guerra de semicondutores contra a China, para impedir este país, e os seus aliados, de atingirem a fronteira tecnológica, principalmente na área militar; o domínio da energia em “uma estratégia climática de longo-prazo, natureza e energia”, ao mesmo tempo que guerreiam pelo petróleo no médio oriente, tentam a internacionalização (ou será “ocidentalização”) da amazónia e a imposição e condicionalidades climáticas que impedem os países empobrecidos de se desenvolverem e afirmarem a sua soberania. Um autêntico cardápio de intenções maliciosas.

Para quem pretende dar uma lição ao mundo sobre o futuro, a elite globalista de Davos comete demasiados pecados, só explicáveis pelo seu proverbial complexo de superioridade. Desde logo, o da arrogância, ao partirem do princípio de que a elite ocidental tem algo a ensinar a quem quer que seja.

O supremacismo, bem presente quando vemos Klaus Shwab elogiar o louco Milei por trazer a “argentina de volta aos valores ocidentais”, demonstra o que é Davos, um pólo de propaganda da ideia civilizacional ocidental, mesmo que à custa de um país destruído e um povo na mais abjecta miséria. Por aqui, Klaus Shwab diz-nos: não importa que fiquem todos na miséria, contanto que venham em direcção “aos valores ocidentais”.

O cinismo é outra das características das elites globalistas, neoliberais ou neoconservadoras. Davos é um festival de doutrinação do resto do mundo, à custa do apagamento, do silenciamento e condicionamento do debate crítico dos problemas, apenas dando voz à narrativa ocidental. Por fim, o elitismo de quem se acha superior aos demais, também está bem presente na constituição dos painéis, esmagadoramente ocidentais, maioritariamente americanos e recorrendo, aqui e ali, a alguém do sul global, apenas para dar uma ideia de diversidade.

Debate aberto, crítica, confronto de ideias, argumentação e contra-argumentação, cooperação real, no verdadeiro sentido da palavra, reunindo o que une e afastando o que separa, tomando decisões em conjunto, ao invés de contra alguém, respeito pela diversidade étnica, cultural, ideológica, como uma visão verdadeiramente democrática pressupõe, respeito pelas crenças, tradições e características de cada povo, como deve uma visão universalista… Nada disso vimos em Davos.

Em Davos assistimos a um império em luta consigo (com a “desinformação”) e com os outros (“segurança”), incapaz de encontrar um lugar num mundo que se recusa a vê-los como superiores… Daí a tentativa de revestir o monstro com trajes atractivos, mas que se revela, mesmo assim, pela sua latente brutalidade…

Como em tudo… Em Davos vende-se o que ninguém quer comprar…. Daí o tanto marketing que se faz!

Fonte aqui.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

DAVOS. O preocupante discurso de Von Der Leyen pela liberdade de pensamento e expressão

(Charles Sannat, in La Cause du Peuple, 21/01/2024, trad. Estátua de Sal)

Eis Ursula Von Der Leyen , apelidada por algumas más línguas, incluindo eu mesma, “Cruella” Von der, a hiena, a líder da matilha de uma tropa terrível que come e devora todas as ovelhas simpáticas que acreditavam que podiam vaguear livremente pelos prados, cantando, dançando, conversando e lendo como quisessem.


Não. Para a presidente do grande comité (de Bruxelas), o principal perigo que enfrentamos não é o feio Putin (apelidado de Palputine) ou a guerra na Ucrânia.

Não. Para a Cruella de Bruxelas, o principal perigo não são as alterações climáticas (não estou a dizer-vos que deveis ter medo, digo-vos, no entanto, que todos os dias apresentamos o aquecimento global como a causa do nosso terrível sofrimento. futuro).

Não. O principal perigo para Cruella é… a liberdade de pensamento e expressão.

Ela não diz exatamente assim, mas é exatamente isso que ela explica de qualquer maneira: “A nossa principal preocupação para os próximos anos não é o conflito ou o clima, é a desinformação e a má informação seguida de perto pela polarização nas nossas sociedades. Estes riscos são graves porque limitam a nossa capacidade de enfrentar os principais desafios globais que enfrentamos, como o clima, mudanças geopolíticas, demográficas ou tecnológicas. 

O que diz a Cruella da Comissão é muito lógico de compreender. Ela não comete erros.

Se se pretende impor grandes mudanças no nosso modo de vida, ligadas a uma grande mudança nas políticas climáticas, geopolíticas, demográficas ou tecnológicas que serão levadas a cabo contra o povo, é necessário, para que o povo as aceite, controlar muito precisamente o que pode ser dito e, portanto, pensado.

O problema com o conceito abrangente de “desinformação e desinformação” é que podemos lá incluir qualquer coisa que não vá na direção da casta de Davos, estas 5.000 pessoas que governam o mundo porque dirigem as 5.000 maiores empresas, as 5.000 maiores multinacionais.

A casta de homens de Davos (e mulheres, há total paridade na maldade), precisa controlar o que pensamos e, portanto, o que podemos dizer.

Este é todo o sentido da luta da grande comissão de Bruxelas contra a rede Twitter de Elon Musk.

Nunca se esqueça. Não somos um pouco livres da mesma forma que não estamos um pouco grávidos. Somos livres ou não somos.A liberdade é o regime geral. A proibição é sempre a exceção.

Para a liberdade de expressão, esta citação atribuída a Voltaire (provavelmente erradamente) permanece cruelmente relevante: “Não concordo com o que você diz, mas lutarei até a morte pelo seu direito de dizê-lo. »

Pode ver o discurso de Von der Lyen em Davos, aqui.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Davos: Fórum do entretenimento mundial!

(Hugo Dionísio, in Facebook, 19/01/2023)

É de rebentar a rir até não podermos mais! Já passei a fase do choro, da raiva e da depressão. Desta feita, a estratégia a utilizar só pode ser a da ridicularização.

Não sei o que é mais ridículo, se o tempo de antena que a imprensa corporativa do Atlântico Norte dá ao Fórum Económico Mundial – que de “mundial” tem muito pouco, não passando de uma feira das vaidades da vassalagem mais rica do império -, ou o facto de desfilarem notícias, comentadores da ordem e eloquentes conclusões sobre as “preocupações” e “soluções” manifestadas pela aristocracia bilionária e seus capatazes. Ao mesmo tempo, tentam fazer-nos acreditar que uma gente que vive absolutamente à margem das dificuldades do comum dos mortais e da esmagadora maioria da Humanidade, quer, de facto, salvar o mundo. É de doidos!

Ouvir o milionário John Kerry, do clã Clinton, ex-candidato a presidente dizer “é o que somos”, a propósito de poderem ridicularizar o facto de gente como ele querer um mundo melhor, salvar o planeta, entre outros objectivos nada consonantes com a sua prática política; ouvir Mário Centeno (ex-chefe do Eurogrupo) dizer qualquer coisa como “afinal isto (referindo-se à economia) pode não correr assim tão mal”; ouvir o mentor, Schwab, dizer que Davos tem “um espírito positivo”… ; é melhor do que assistir aos melhores filmes dos Monty Pyton. É uma comédia sem fim, regada com vinhos e whisky – será que podem comer caviar? – que custam mais do que um trabalhador médio ganha num ano.

Uma das questões fundamentais – jamais colocadas pelos mesmos órgãos que nos querem fazer acreditar nos nobres objetivos de Davos -, consiste em perguntar: “Afinal, para que Humanidade se dirigem as reflexões desta gente”? É que, partindo dos temas que ocupam a agenda da edição deste ano e da lista de “convidados” e principais oradores, imediatamente percebemos que a “Humanidade” a que se dirigem, não é a mesma que povoa este imenso planeta, mas apenas uma minúscula parcela.

O conflito no leste europeu dominou a maioria das intervenções. Ora, acreditar que, para a maioria da Humanidade, esse conflito tem importância, é viver numa bolha fechada e absolutamente opaca. Uma rápida busca pelos principais órgãos de comunicação dos países do Sul Global (85% da humanidade) e todos percebemos que, o conflito em causa, não apenas não está nas prioridades do dia, como nem sequer nas do ano. Simplesmente, quase não se fala do assunto e quando se fala, nem sempre o fazem em termos que agradem à elite que domina as nossas vidas e que nos condena, todos os dias, a uma vida pior.

Os “iluminados” que falam em Davos, falam por quem, afinal? Em jactos pessoais ou institucionais, que poluem numa viagem o que um automóvel de um trabalhador polui em anos, a Davos, vão os representantes, capatazes (CEO, CFO, CTO…) daquela percentagem de seres “excepcionais” que se apropriaram de 63% da riqueza produzida desde 2000, em plena pandemia de Covid, enquanto os salários dos trabalhadores europeus estão estagnados há 20 anos e os dos americanos há 50. E é a Oxfam, financiada em parte pela NED (o mesmo é dizer pela CIA), que o vem dizer, no seu último relatório. É também a mesma Oxfam que vem dizer que 50% da riqueza está concentrada nas mãos desse 1% da população. Os tais que adoram Davos.

E o autismo é de tal ordem que temos de ouvir a anglo-germânica Ursula Von der Lata gabar-se de que a UE “aplicou as mais fortes sanções, fazendo o regime de Moscovo enfrentar 10 anos de regressão económica e falta de tecnologias críticas na sua indústria”. Mas, afinal, de que mundo fala ela? Estará a Europa – que ela governa com uma procuração passada por Washington -, em condições de se gabar de tal coisa? Estará a situação económica da Europa melhor do que a do país que ela acusa de ter pela frente “10 anos de retrocesso económico”? Esse país que, apesar das piores sanções da história do imperialismo, teve apenas uma quebra de 2,1% do PIB e uma inflação de 11%, prevendo-se já este ano crescimento e uma inflação de 3 a 4%. Estará a UE em condições de poder regozijar-se com tal realidade? Afinal, como está a economia da UE?

Não estará a indústria da UE, por causa das sanções arquitectadas pelos seus mestres, a enfrentar insolvências e deslocalizações? Não está a Alemanha a colocar empresas em lay-off para poder fazer face à falta de gás e aos elevadíssimos preços que, por causa das suas políticas, triplicaram? Não estará a inflação na UE a galopar, o desemprego a aumentar e a economia a retrair-se? Não estará isto tudo a acontecer quando a UE sanciona, ao invés de ser sancionada? Não representará, esta realidade, um falhanço total das ações da Comissão Europeia na proteção do seu espaço? Sendo o país mais sancionado da História, não poderá o maior país do mundo regozijar-se, por oposição, não apenas pela capacidade de resistir ao maior ataque económico e militar desde a Segunda Guerra Mundial, mas, e apesar disso, por conseguir diversificar mercados, fornecedores e até aumentar a produção em áreas chave? O que diz isto, de uns e outros?

Poderá um europeu médio, nos dias de hoje, dizer que nada mudou na sua vida, nos últimos anos, como nós vimos acontecer com transeuntes entrevistados nas ruas de Moscovo, no programa de Tucker Carlson? Deveria dar que pensar. E o que diz isto de Ursula e das suas gentes? Do seu autismo, arrogância, autocracia e falso triunfalismo?

Diz Úrsula que “existem nações a observar com muita atenção o conflito” e que “não se pode permitir que achem que podem invadir quando quiserem”, e por isso – qual louca a lembrar o papel de Jack Nicholson em “Voando sobre um ninho de cucos” -, “a Rússia tem de ser punida”! Afinal, de que nações fala ela? Não serão nações que, ao contrário das dela, nunca invadiram qualquer país, pelo menos nos últimos séculos? E como se arroga ela de um qualquer direito universal para punir nações inteiras? Afinal, quais são as nações que invadem a seu bel-prazer, senão as que a suportam? Eis o caricato da questão: é que ela parece mesmo acreditar nas suas próprias mentiras! E isso é trágico, porque por muito louca que a achemos, ela, uma corrupta empedernida, contra a qual estão a decorrer investigações conduzidas pelo próprio Tribunal de Contas europeu, manda nas nossas vidas, fazendo-o sem qualquer escrutínio ou avaliação!

Ficasse o discurso por aqui e já não seria mau. Mas quando vamos para o dualismo maniqueísta das “democracias” contra as “autocracias”, está tudo arrumado.  Eu gostaria de saber qual foi o processo de consulta utilizado para que os povos europeus se pronunciassem sobre a necessidade de embarcarmos nesta guerra – sim, porque somos parte desta guerra –, e nos sujeitarmos ao ricochete das sanções, trocando uma dependência de gás barato, por uma de gás três vezes mais caro e de pior qualidade. Alguém colocou esta questão aos povos? Será que os europeus pretendiam pagar mais caras as suas casas, energia, alimentação e outros bens essenciais, como resultado da guerra económica movida? Ou, ao contrário, o que é veiculado na Imprensa corporativa do Atlântico Norte, não será que isto tudo acontece “por causa da guerra”, nunca expondo quais os mecanismos através dos quais a “guerra” nos afecta?

Será democrático, uma elite tomar todas as decisões, para mais uma elite não eleita, baseando-se na manipulação que faz através de órgãos de comunicação totalmente arregimentados, incapazes de uma mensagem dissonante e, mesmo quando a apresentam, logo a enquadram com o necessário comentador que tem a função de “explicar” ao público espectador como a enquadrar na narrativa oficial fornecida?

Como podem admirar-se, os poderes instituídos, da enorme crise que os grupos económicos que exploram a actividade de imprensa atravessam? Em Portugal, desde 2017, os principais grupos tiveram 191 milhões de euros de prejuízos. Porque será?

Imaginem um qualquer trabalhador, ou estudante, abaixo dos 50 anos, com estudos, capacidade de pesquisa de informação, conhecimentos informáticos suficientes para contornar os condicionamentos do Google e outros motores de busca da Califórnia, e com uma rede de amigos, de todo o mundo, com quem se relaciona em plataformas de comunicação. Essa pessoa, habituada a receber e a procurar e pesquisar a informação que pretende, ao contrário do espectador tradicional acima dos 50 que se habituou apenas a receber, seja através da TV, da imprensa escrita ou das sugestões do Google e plataformas sociais da Califórnia – que funcionam num circuito fechado em conexão com as primeiras -, olha para notícias como “Moscovo bombardeia central nuclear de Zaporizhzhia”, isto depois de os mesmos terem noticiado que essas mesmas forças tinham controlado a central logo nos primeiros dias da operação, ou “Moscovo pode ter rebentado o Nord Stream”.

Se formos para outras áreas, somos confrontados com contradições como as que se têm visto aquando das manifestações violentas no Irão, que os porta-vozes atlantistas apoiam sem excepção, mas que, quando as manifestações violentas acontecem na Europa, nos EUA ou em países nos quais perpetram golpes institucionais, como o Peru ou a Bolívia, nesses casos condenam a violência, apelando à “ordem democrática”. Isto já para não falar do apagamento da Palestina, cuja repressão e genocídio acontece há mais de 70 anos, ou nas guerras de agressão contra inúmeras nações, cujas consequências devastadoras para as respectivas populações nunca são apontadas como “crimes de guerra”.

Perante tanto brincar com a nossa inteligência e tão descarada hipocrisia, não admira a crescente desconfiança na imprensa corporativa do Atlântico Norte e a sua identificação como braço armado comunicacional da elite autocrática e neo-feudal da classe rentista que se formou com a financeirização da atividade económica mundial.

Mas o circo de Davos significa muito mais. Quem olhar atentamente, não deixa de identificar a desgraça da vida de muitos que aí desfilam. Fernando Haddad, ministro de Lula, disse em Davos, numa mensagem muito pouco velada, aos seus interlocutores a norte da América, que o Brasil pretende adiar a conferência dos BRICS de 2024 para 2025, pois, segundo as suas palavras, como têm de organizar o G20, não querem fazer coincidir dois eventos desta magnitude num mesmo ano. Esta posição levantou suspeitas, sobretudo entre alguns parceiros BRICS, após o que sucedeu em 8 de Janeiro no Brasil e após o mais que certo envolvimento das agências de segurança imperiais na organização do sucedido e do seu financiamento. Para muitos, o 8 de Janeiro, foi um sério aviso a Lula: “ou te alinhas”; ou “descarrilas de vez”. Pouco dado a comédias como as de Davos, a Casa Branca passa as suas mensagens através de actos sempre caracterizados por enorme contundência: “é só estalar os dedos e já foste”!

Esta acção de Haddad mostra bem o que é Davos, realmente. Um desfile de prestação de juramentos de vassalagem, mesmo que envergonhados e habilidosos, aos poderes de facto, em oposição frontal aos crescentes espaços de verdadeira cooperação internacional, despidos do tradicional dividir para reinar do imperialismo ocidental, como é o caso dos BRICS. Como em qualquer cerimónia de juramento real, há sempre que contar com os tradicionais e imprescindíveis bobos da corte. Afinal, quem, no meio de tanta miséria, nos faria rir, senão as Ursulas deste mundo? Não obstante, esta ação de Haddad, não deixa de nos trazer uma certa sensação de negritude… E não é de humor negro! É que a sujeição de muitos quadros do PT à doutrina identitária neoliberal – que celebra a liberdade individual enquanto oprime a colectiva, o que, por sua vez, impede a primeira -, não tem nada de engraçado. É uma tragédia para a América Latina.

Daí que a grande ironia que Davos nos traz, e que quem o noticia é incapaz de nos contar, é que, em Davos, programa-se, não a “salvação do mundo” e muito menos a sua libertação, mas a sua continuada e renovada submissão aos interesses que até aqui o trouxeram.

Davos é como um qualquer circo… Como em qualquer circo, no meio de todo o espectáculo, é na parte dos palhaços que mais rimos, e é também nessa parte que melhor percebemos o que o circo é! Entretenimento!

O entretenimento esconde as condições nefastas em que o circo opera! E quem melhor do que os palhaços, para o disfarçar perante as crianças?

Eis, pois, Davos no seu esplendor!

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.