E vamos calar-nos porquê, senhor Presidente?

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 19/02/2021)

(Pronto, Miguel, lá te publico: certeiras e justas críticas ao Governo e ao Presidente. Mas como no tempo histórico não há rewind – e apesar de, em teoria, ser sempre possível fazer melhor -, ficamos todos sem saber se, outro qualquer Governo, o teria feito. Assim sendo, deixo-te um conselho: antecipa tu as “boas medidas” e manda email ao António Costa. Talvez assim ele passe a falhar menos…

Comentário da Estátua, 19/03/2021)


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Se bem o li, no seu discurso de posse, Marcelo Rebelo de Sousa fez um sermão zangado aos que criticam a gestão da pandemia por parte do Governo e aos que procuram “bodes expiatórios” a quem assacar culpas pelo que correu e corre mal. Já antes, também avisara, solene, que não contassem com ele para desencadear ou alimentar “crises políticas”, a pretexto de alguns, incluindo eu próprio, se atreverem a dizer o que salta à vista de todos: que o actual Governo integra, em postos-chaves, notórios incompetentes na função e para o momento que atravessamos. Mas, que eu saiba, tal não é crime de lesa-majestade, nem, conforme nos repetem, a democracia ou o direito à crítica estão suspensos. E defender que o Governo se desembarace dos incompetentes, dos que só lá estão porque servem o partido e não o país, não é o mesmo que defender nem uma mudança de Governo, nem uma crise política: é defender que sejam chamados os melhores para enfrentar um momento de emergência nacional, sem olhar a cores políticas e a currículos partidários. Compreendo que o Presidente se queira manter na sua zona de conforto e de não conflito, na sua ponderada gestão dos timings de actuação que mais lhe convêm, mas, entretanto, há gente a morrer sem razão, há gente a perder o emprego, há empresas a falir, há portugueses desesperados e cansados de esperar. Não, Marcelo não tem razão nenhuma para nos pedir para continuar a ser pacientes, silenciosos e acomodados.

Tivemos aqui, de um lado, dez milhões de cidadãos que, muito antes de quem os devia orientar, perceberam o perigo que aí vinha e voluntariamente fecharam-se em casa, inventaram novas formas de vida, de trabalho e de sobrevivência e, com isso, evitaram o colapso do serviço público de saúde, faz agora um ano. E tivemos, do outro lado, um Governo que começou por dizer que a pandemia nunca cá chegaria, depois que estávamos absolutamente preparados para ela, e, a seguir lançou o país em pânico porque não tinha camas, nem ventiladores, nem máscaras (que começou por declarar que não serviam para nada e acabou a agradecer às fábricas de têxteis que se reconverteram para as fabricar). Tivemos depois um país civil que, passada a primeira vaga da pandemia, lambeu as suas feridas e lançou-se à reconstrução de uma economia devastada e curada com pensos rápidos pelo Governo, enquanto este, incapaz de sufocar os surtos residuais de infecção na região de Lisboa e Vale do Tejo, por não tratar de montar uma rede de rastreio, liquidou a imagem do “milagre português”, tão louvado por Marcelo e, com isso, o Verão do turismo. E ao longo desse Verão de 2020, em que a ausência de turistas estrangeiros só foi minimizada pela presença dos portugueses, o Governo nada fez, durante três decisivos meses, para se preparar para a anunciada segunda vaga, preferindo esperar para ver se ela viria, de facto. E, quando veio, declarou-se espantado por ter chegado tão mais cedo e mais forte do que esperava. E entrámos então no infernal ciclo dos estados de emergência, ao sabor de indicadores sempre atrasados, de palpites de ocasião e de anunciadas certezas, logo contraditadas pelos mesmos uns dias depois, com a mesma certeza. E os portugueses sempre confiantes, obedientes, crédulos em quem decidia em seu nome. Entra Novembro, e com a iminência da chegada das vacinas e vários países a prepararem há meses a logística da sua aplicação, só então, e depois de interpelado de fora, é que o Governo se lembra de acordar para o assunto e nomear à pressa uma task force encabeçada por um socialista disponível, e repousa sobre o assunto, após convocar as televisões para filmarem a “sala de comando” da operação de vacinação. Mas, para espanto geral, descobre-se que o comandante da operação, um mês após entrar em funções e ter produzido uma série de declarações — grandiloquentes umas, assustadoras outras — havia aceitado desempenhar em acumulação o cargo de presidente do conselho de administração de um hospital privado. E que, mais umas semanas decorridas e invocando uma grave ocorrência ética nesse hospital, se demitia — mas não do hospital e sim da task force da vacinação. (Felizmente, foi substituído por alguém com menos ego e mais sentido de missão). E os portugueses sempre a assistir.

Veio o Natal e, por estritas razões de popularidade, o Governo decretou soltura geral — não apenas por quatro dias, mas até meados de Janeiro, quando tivesse ocasião de avaliar os resultados do seu gesto de conforto. Desconfiados, os portugueses ainda acorreram a fazer testes preventivos, em massa e por conta própria. Mas isso não evitou o desastre anunciado: quando o Governo quis, enfim, saber o resultado do seu aventureirismo, descobriu que Portugal era o pior país do mundo em número de casos e de mortes por rácio de habitantes e logo depois deparou-se com o espectáculo de terror de filas de ambulâncias à porta dos hospitais esperando horas para entregar doentes que não tinham onde ser recebidos: Manaus em Lisboa. Entrámos então em dois meses de severo confinamento, do qual só agora começamos timidamente a sair, com avisos solenes de que, se não nos portarmos bem, tudo voltará atrás.

Mas, vejamos, onde é que nos portámos mal? Os portugueses aguentaram estes dois meses e tudo o resto sem manifestações de rua, sem desobediência civil organizada, como em quase todos os outros países da Europa e do mundo, sempre confiantes de que o Governo sabia o que estava a fazer e, mesmo quando manifestamente não foi o caso, sem terem sequer escutado um pedido de desculpas que lhes era devido. Milhares de empresas fecharam portas para sempre, outras viram perdidos anos de esforço, dezenas ou centenas de milhares de trabalhadores perderam os seus empregos, sem que o Estado lhes acorresse na dimensão em que outros países o fizeram porque passou anos a endividar-se quando o não devia. Centenas de milhares de crianças ficaram sequestradas em casa com os pais, privadas de um ano de infância, de ensino e de alegria. Dezenas de milhares de portugueses morreram antes de tempo porque o SNS suspendeu as consultas, os tratamentos e as cirurgias de todos os doentes não-covid durante quase um ano — apesar de tantos médicos e enfermeiros terem estado em casa sem fazer nada, enquanto os outros estavam, de facto, a tratar dos doentes covid e a dar o melhor de si, e apesar dos 900.000 dias de faltas ao serviço a mais do que em 2019 no SNS. E, por mais que o desmintam, descobrimos ainda que só temos 47% dos mais de 80 anos vacinados e um número irrisório dos com mais de 65 anos e patologias de risco associadas vacinados, porque, mesmo sabendo que somos dos países mais envelhecidos do mundo e que a vacina da Astrazeneca não fora testada em maiores de 65 anos e não era, pois, recomendada para eles, foi nessa que preferencialmente apostámos de entre os lotes comprados pela Comissão Europeia, porque era a mais barata e a que dava menos trabalho a armazenar e a distribuir. E, assim, em lugar de seguir o critério de vacinar preferencialmente para salvar vidas — o único critério eticamente aceitável e seguido pelos outros —, fomos assistindo a sucessivas justificações para adoptar outros critérios e vendo passar à frente dos que verdadeiramente estão ameaçados de morrer as habituais clientelas do Estado. Tudo junto, para chegarmos ao fim de 2020 com mais 10% de profissionais no SNS, tal como toda a gente reclamava, um aumento não calculado ainda de gastos acrescidos, mas uma diminuição tão acentuada da população portuguesa que, pela primeira vez em muitos anos, a idade mínima para a reforma, em lugar de subir, desceu: hoje, graças ao número brutal de mortos de 2020, os sobreviventes podem-se reformar mais cedo.

Marcelo não tem razão nenhuma para nos pedir para continuar a ser pacientes, silenciosos e acomodados

E os portugueses, senhor Presidente, devem continuar mudos e calados, como mudo e calado tem estado o Governo português, na sua função de presidir durante seis meses ao Conselho da União Europeia, perante o absoluto desnorte e descalabro que é o plano de vacinação europeu, cuja boa execução era, segundo garantiu o próprio primeiro-ministro, o ponto número 1 da agenda europeia neste seis meses?

Eu não pretendo ignorar — e já o escrevi várias vezes — quão difícil tem sido a tarefa de governar neste terrível último ano. Nenhum governo teve de enfrentar circunstâncias tão difíceis e imprevisíveis antes e, por isso, muitas hesitações e muitos erros são compreensíveis e aceitáveis. Mas se há coisa que não é possível dizer é que os portugueses não ajudaram o Governo. Mesmo quando muitos dos seus erros foram de pura soberba, de preconceito ideológico ou de manha propagandista. Para esses, eu acredito que já não vai haver mais paciência e mais contemplações por parte dos portugueses. É bom que o Governo e o Presidente estejam conscientes disso.


2 É bastante provinciana esta obsessão que tantos estrangeiros — e os portugueses, particularmente — têm em se preocuparem com a questão da Monarquia britânica. Não vejo os ingleses interessados em ocuparem-se dos sistemas constitucionais dos outros países e, aliás, como escreveu um inglês, o Reino Unido é, de facto, uma República, cujo Chefe de Estado é chamado de Rainha mas que detém menos poderes do que qualquer Presidente da República, em qualquer lugar do mundo. E, por alguma razão, ou várias, os ingleses dão-se bem com o sistema. Neste triste caso dos Duques de Sussex, trata-se apenas de mais uma tentativa dos americanos de conseguirem injectar algum royal glamour no seu republicaníssimo sistema constitucional. Wallis Simpson foi um tiro pela culatra, Grace Kelly um wrong target de uma Princesa fabricada pelas revistas sociais de um suposto Principado cujo Chefe de Estado é o Presidente da República Francesa. E esta patética Meghan (que eu só descobri que era negra porque ela e Oprah fizeram disso o chamariz da entrevista, à boleia do “Black Lives Matter”) é, patentemente, uma arrivista de ocasião, que afirma ter fugido de Inglaterra para escapar aos tablóides e se entrega, numa entrevista combinada ao detalhe, nas mãos do expoente máximo do jornalismo tablóide. “Oh!”, “Uau!”, “What?”, dizia Oprah, arregalando os olhos de estudado espanto, enquanto deixava por fazer as perguntas essenciais: de que viviam os duques, actualmente? De que se ocupavam, além das fraldas do Archie e da capoeira da sua casa de Santa Barbara? E a pobre Meghan tinha querido suicidar-se porque um tablóide tinha escrito que ela pusera a cunhada em lágrimas por causa de uns ramos de flores e a “Instituição” recusara prestar-lhe “apoio psicológico”? E alguém da “firma” manifestara preocupação ao Harry sobre “quão escuro” seria o Archie, mas o Harry (entretanto autorizado por elas a juntar-se à entrevista) não podia dizer quem fora e isso bastou a Oprah para ter o seu “caso”? Um caso que, dizem, é suficiente para abalar uma Monarquia cuja Rainha há mais de 50 anos preside a uma Commonwealth onde 70% dos seus pares são visivelmente escuros e nunca daí veio problema algum — até à Meghan entrar em jogo. Oh, God save the Queen!

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


Desconfinei

(Amadeu Homem, in Facebook, 16/03/2021)

Hoje o sol chamou-me e eu não resisti. Peguei na máscara, meti debaixo do sovaco a bolsa das compras e saí. O meu primeiro alvo levou-me a percorrer a Rua Marechal Saldanha, mesmo aqui ao lado do meu retiro de estudante, desta abençoada Travessa do Sequeiro. Por esta vez não encontrei a revoada de pombos a debicar pedaços de pão velho, que uma alma caridosa, moradora de um anónimo andar, solta para as aves e que acabam por me cair em cima. Não levo a mal e rio-me interiormente. Em pleno coração de Lisboa, só no Bairro da Bica um incauto passeante pode levar com uma saraivada de pedaços de pão, caindo em perfeito estado de generosidade no meio da rua, para que os pombos se alimentem.

O meu alvo de sempre ou quase sempre era o Miradouro de Santa Catarina, com a sua estátua do Adamastor. Azar o meu: estava fechado. Mas havia uns bancos exteriores de mármore, batidos generosamente pelo sol, que se ofereciam ao comprazimento. Escolhi um deles e por ali estive três quartos de hora, com o Cristo Rei ao longe, com a Ponte ao longe e com o sulco de “ferry boats” em demanda dessa outra Banda que eu faço questão de conhecer a palmo, quando o vírus amainar. Isto no caso desse bruto não me “limpar o sebo”…

A seguir retrocedi, alcancei o Calhariz, procurei uma Farmácia, comprei por lá um frasco de gotas para a minha rinite alérgica e avancei para o Largo de Camões. Passei à beirinha do “meu” Cinema Ideal, carrancudamente fechado; verifiquei que a “Manteigaria” já estava aberta – Deus seja louvado! -, paguei e abichei dois pastéis de nata (quero lá eu bem saber da silhueta!) que comi com voracidade, um a seguir ao outro.

Segui no sentido do Chiado e dei-me conta que a Igreja de Nossa Senhora da Encarnação estava aberta. Ainda estava por visitar. Disse para os meus botões: – É já! É mesmo hoje!

Na entrada estava sentado um galfarro jovem, que me apareceu em fingimento de mendigo. Ignorei-o e entrei.

A Igreja é um espaço amplo, com altas abóbadas de berço e duas zonas laterais com altares temáticos. Na teia, existiam quatro crentes, três homens e uma mulher, de idades problemáticas por se encontrarem todos de máscara.

Visitei, um por um , todos os altares e parei durante mais tempo diante da imagem da Rainha Santa Isabel, que foi desde sempre uma espécie de manipanso deste incréu. Depois verifiquei que do lado direito existia um pequeno corredor. Sou piolho de costura. Onde vislumbro uma porta, entro. Meti-me por lá. Era um corredor sem nada de valioso, descontando umas inscrições pias e uma homenagem ao Padre Abel Varzim, cofundador da Liga Operária Católica e resistente ao Estado Novo.

Este corredor lateral por onde a minha curiosidade me tinha levado, era decorado, no teto encurvado e anão, por uma frustre tentativa de imitação das pinturas da Capela Sistina, ou seja, um completo e irrefragável desastre estético! Mas houve um mostruário, com literatura sacra, que mereceu a minha especialíssima atenção. É que nele se encontrava um título que rezava assim: ” Santo Inácio de Loiola – Autobiografia”. Uma autobiografia do fundador da Ordem católica mais pedagógica e mais elitista? Interessa-me! Quero mesmo ler isto! Tenho de ler!

Regressei ao corpo principal do templo e vislumbrei um rapaz de sapatos de ténis e barbas, de costas voltadas para mim, mas que deveria ter algumas responsabilidades cultuais, pois se movimentava à vontade junto ao sacrário.

– Pst! Pst! Ora faça favor!

O jovem veio ter comigo, com uma expressão um tanto assarapantada. Eu disse-lhe: – Quero comprar a Autobiografia de Santo Inácio de Loiola.

O “sapatilhas”, muito correto, replicou: – Faça o favor de me seguir.

Levou-me então a um escritório onde se encontravam vários livros em cima de uma mesa. Selecionou o livro que eu pretendia e eu indaguei: – Quanto devo pagar?

E ele, o “sapatilhas”: – Nove euros.

Paguei com uma nota de dez e explicitei: – Não quero troco. O euro em demasia é para os pobres.

Depois disto tudo, passei pelo Minipreço e pude concluir o dia com a compra de vulgaridades de boca, mas também com duas garrafas de vinho, uma “Terras do Pó” (Casa Ermelinda Freitas) e outra ” Sossego” (Alentejano, Vinho Tinto, Touriga Nacional, Aragonez, Syrah, 2019). Também merquei um ” Raposeira – Reserva – Meio Seco”, mas dessa nem falo, porque acabei de o ingurgitar, enquanto isto redigia. Ou seja, deu a alma ao Criador!

Perguntarão: – E bebeu-o todo?

– Claro que bebi! Uma mixuroquice de 75 centilitros… Por quem me tomam?

Oportunismo filial II

(José Gameiro, in Expresso, 05/03/2021)

José Gameiro

“Não sei se se lembra? Estive cá a falar consigo há uns meses. O meu filho estava a controlar-me a vida, durante o primeiro confinamento. E agora repete a graça.” Claro que me lembrava, o homem, por um lado, ficava sensibilizado pela preocupação do filho, mas por outro tinha perdido a liberdade e fazia coisas na clandestinidade. Chamava-lhe, e bem, o oportunismo filial.

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“Durante o verão correu tudo muito bem. Um ou outro telefonema do Algarve para saber o que estávamos a fazer, onde tencionávamos ir, nada demais. Estava entretido com os amigos, voltou à condição de filho… Mas agora com este confinamento voltou tudo, ainda pior. Preciso mesmo que me ajude, isto não pode continuar. Já no Natal, apesar de termos sido aconselhados a ter cuidado, mas nada nos impedia de estar com a família, começou a chatear. Vocês são uns inconscientes, dão ouvidos a esses epidemiologistas que acham muito bem que se façam testes rápidos para se sentirem seguros. Eu só vou ao Natal de família se comermos fora da mesa, está fora de questão ficarmos todos sentadinhos e depois já sei como é… A partir daqui foi sempre a piorar. Se no primeiro só se preocupava comigo, agora tomou o comando da casa. Faz as compras, nada de produtos calóricos, que engordámos muito, todas as refeições com saladas, parecemos uns grilos. Em abono da verdade nunca comi tão bem, inventa e sai sempre ótimo. Com o agravar dos contágios dissemos à empregada para não vir. Olhe, acordo de manhã com o aspirador e com o frio a entrar pelas janelas. Abre tudo, diz que é preciso arejar, para expulsar os miasmas. Quer-nos obrigar a fazer testes regularmente. Muito antes desta nova diretiva de fazermos testes sem prescrição, já ele e os amigos os faziam. Ó pai é muito simples, telefona para a linha SNS 24, diz que teve um contacto suspeito, tosse, espirra, parece que tem menos olfato e passado pouco tempo recebe um código para ir fazer um teste de borla. Claro que nunca o fiz, mas não deixo de reconhecer que foram precursores da testagem maciça…”

Balbuciei, mas isso é bom, não é? Estava tão exaltado que não me respondeu.

“Calma que ainda não ouviu tudo. Um dia destes aceitámos um convite para ir jantar a casa de um amigo meu. Vive sozinho, tem uma mesa com quatro metros, o risco é quase nulo. Fez uma cena, que não podíamos ir, amuou, pintou a manta e, depois, como não é parvo, disse-nos que também ia sair. Está a ver, como se fossemos todos iguais. Isto da pandemia mudou muito a hierarquia familiar. Acha que vai voltar ao normal?”

Tentei pôr água na fervura. Claro que sim, é passageiro e traduz a preocupação dos jovens com os mais velhos. Levei logo com a resposta. “O senhor doutor é um ingénuo. Diga-me lá qual é a preocupação dele com o que lhe vou contar. Há uns dias chamou-me à casa de banho, com um ar de caso. Que grande bagunça que isto está. As coisas da mãe e do pai, todas misturadas, decidi arrumar tudo, as suas para um lado e as da mãe para o outro. Ah, pus no lixo toda a tralha que vocês tinham aqui. Não têm vergonha andam a roubar os frasquinhos dos hotéis, parecem uns putos, contentes por usarem gel com cheirinho. Não contente, chegou à dispensa e fez o mesmo. Metade foi fora. Aqui tinha razão, muita coisa já estava fora de prazo.”

Tentei falar, mas não me deixou. “Já estou a acabar, mas não posso deixar de lhe contar mais uma. Quando vou às compras trago-as num daqueles sacos de papel ecológicos que depois ponho lixo. Acusou-me de não me preocupar com o planeta: ‘O pai vai guardar o saco e usa sempre o mesmo, até poder.’ E agora tentou comprar-me: ‘Se o Pai se portar como deve de ser, ensino-lhe um sítio onde pode ir saborear o seu cafezinho. Basta dizer que é meu pai e tem tudo o que quiser… Mas não pede um café, pede um bitoque…’”

Quebrei todas as regras e perguntei ao senhor: “Onde é o cafézinho?”