(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 19/04/2016)

Daniel Oliveira
Estar cinco horas à frente da televisão a ouvir as declarações de voto dos deputados brasileiros durante a votação da admissibilidade do impeachment à Presidente Dilma Rousseff foi muitíssimo pedagógico. Valeu mais do que muitas leituras e muitas notícias. O retrato que faz da política brasileira em geral e das forças que estão a derrubar o PT em particular é demolidor. Porque é um autorretrato.
Já ontem escrevi aqui sobre o processo. Já escrevi várias vezes sobre aquelas que me parecem ser as razões profundas do legítimo descontentamento do povo brasileiro. Mas nenhuma explicação pode ignorar a grotesca feira de horrores que pôde observar quem se deu ao trabalho de ouvir aquelas intervenções. Elas são a imagem de uma democracia perdida.
Os homens, quase só homens, sucediam-se em frente ao microfone. Tudo era acompanhado por vaias, gritos, cantorias que impedissem que os argumentos se ouvissem. A câmaras de TV eram tapadas para não se verem alguns deputados que apresentavam, no meio do caos absoluto, as razões dos seus votos. A absurda falta de civismo transformava aquele Congresso num espaço indigno para se exercer a democracia. Pobre povo que é representado por tantos energúmenos. A falta de solenidade com que tudo se passava demonstrava que não era o futuro do Brasil, mas as suas próprias carreiras, que interessavam à maioria daqueles deputados.
Um dos poucos momentos em que se sentiu algum bom senso veio de um deputado que, não sendo do PT, votou contra a admissibilidade do impeachment. Com uma justificação curta: “porque a nossa democracia é frágil e imatura.” E o espetáculo dado por aquele Congresso mostrava até que ponto ele tinha razão. E explicava porque é que nos devemos assustar com o rumo que as coisas estão a levar.
Um a um, escrevia eu, os homens, quase só homens, sucediam-se em frente ao microfone. Um falava do “aniversário” da sua “neta”, outro votava “pelo Bruno e o Filipe” ou pelo seu “neto Pedro” ou pela sua mãe Nega Lucimar”. Praticamente todos referiam a mulher e os filhos pelo nome, mais a sua cidade ou a classe profissional a que pertenciam, dedicando-lhes os 10 segundos de fama a que nessa altura tinham direito. Sem qualquer preocupação em apresentar um argumento político ou dar àquele momento alguma dignidade institucional. Parecia que o futuro do país tinha sido entregue a um bando de adolescentes numa festa de finalistas.
Muitos, imensos, falavam de Deus. Muitos, imensos, referiam as suas igrejas evangélicas e votavam em nome delas. “Pelo povo assembleário”, “pela família quadrangular”, “pela renovação carismática”, “pelos fundamentos do cristianismo”, “pelos milhões de evangélicos que me trouxeram até aqui”. O Brasil positivista e maçom (também houve quem votasse “como maçom” e em nome do “grande arquiteto”) está a um passo de se transformar num Estado confessional evangélico.
O ódio social também não faltou: contra o assistencialismo e pelo trabalho, “pelo fim da rentabilização de desocupados e vagabundos”, para esmagar a CUT (central sindical). E o conservadorismo anuncia que quer derrubar Dilma contra a “proposta de que criança troque de sexo na escola”. Digamos que o rigor é uma coisa que não assiste aos deputados brasileiros.
E nem o elogio à ditadura esteve ausente. O deputado Jair Bolsonardo, militar na reserva, pré-candidato à Presidência e membro da comissão de direitos humanos do Congresso, dedicou o seu voto ao Coronel Ustra, “o pavor de Dilma Rousseff”, nas suas próprias palavras. Carlos Ustra foi chefe da Doi-Codi (órgão de repressão política do Exército) de São Paulo, responsável pelo assassinato de vários opositores políticos durante a ditadura militar e primeiro torturador de Dilma Rousseff.
O que o circo de domingo, no Congresso Nacional do Brasil, nos mostrou, não foi só a fragilidade das instituições, o completo abandalhamento da democracia e o total desrespeito pelo debate político.
Isso é relevante e todos os portugueses deviam ver aquelas cinco horas para, por mais incrível que pareça, sentirem algum orgulho pelo nosso Parlamento e pela nossa democracia. Mas o mais sinistro é percebermos que a liderança política deste processo de destituição, feito por corruptos em nome do combate à corrupção, se baseia numa plataforma onde se juntam saudosistas da ditadura, evangélicos fanáticos e um horda de oportunistas que encontraram aqui a possibilidade de chegar ou de se manter no poder. Não gosto de Dilma e envergonha-me a degradação ética do PT. Mas a desilusão não chega para ter dúvidas sobre quem está do lado da democracia.