A Guidinha anda muito preocupada com isto tudo

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 03/11/2015)

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A Guidinha anda muito preocupada com isto tudo. Lá no prédio dela, na Graça, houve eleições para o condomínio. O Pedro e o Paulo, que têm muito boas maneiras e são muito bem educados, ganharam e ficaram muito contentes. Fizeram a festa, deitaram os foguetes, mas a outra lista, que tinha concorrido às eleições, disse que afinal quem tinha ganho eram eles porque todos juntos tinham mais votos que o Pedro e o Paulo. O Pedro ficou com aquela cara esfíngica que tem sempre e com os lábios ainda mais finos que o costume. Mas o Paulo não se calou. Foi a casa de todos os vizinhos dizer o que pensava, e explicou tudo muito bem, com aquelas inflexões da voz que ele tão bem sabe fazer para captar a atenção das pessoas, mas como a coisa não estava a resultar e não havia uma vaga de fundo para correr com os outros da sala pôs-se à janela a gritar que era um roubo de catedral e ficou muito vermelho e tudo e acho que nunca pensou que tal coisa lhe pudesse acontecer. Quem também nunca pensou num desvario assim foi o presidente da junta, para quem o Pedro e o Paulo se viraram, para que pusesse ordem no condomínio. O Aníbal primeiro ficou muito enervado, depois todo crispado e explicou com uma voz muito zangada o que pensava sobre o que podia acontecer se os outros tomassem conta do condomínio em vez do Pedro e do Paulo. Que haveria imensa chuva, e infiltrações, e rachas nas paredes, e que o prédio passava mesmo a correr o risco de desabar e que nunca por nunca deixava que os outros, que não o Pedro e o Paulo, tomassem conta do prédio. A Guidinha pensou que o caso era mesmo grave mas que podia ser resolvido mais tarde, porque o Aníbal está prestes a reformar-se e vai ser substituído pelo Professor Marcelo, que lê muito e dorme pouco e sabe de quase tudo – e o quase aqui é só porque o Professor é modesto. Mas o Professor, que supostamente devia gostar muito mais do Pedro e do Paulo que dos outros foi logo dizer o que pensava para a Voz do Operário, que por acaso é onde os outros gostam de estar, e isso deixou os que pensavam que gostavam do Professor muito mal dispostos. Ainda por cima, o Professor já veio dizer que não convoca novas eleições para o condomínio, que o condomínio não pode andar sempre em eleições, é sempre um despesão em papéis, e as pessoas do prédio não têm tempo para andar sempre escada acima escada a abaixo a votar. Vai daí, so que gostavam do Professor e iam votar nele para presidente da junta agora já dizem que não vão porque ele está feito com os outros, mas ainda não têm candidato. Há a Maria, que é pequenina e está sempre muito bem penteada, mas tem uma voz muito fininha e parece que os padres e aqueles senhores que usam avental numas cerimónias muito secretas gostam muito dela. O António também é Professor, cita muitos poetas e cantores, anda numa lufa-lufa, mas tirando o apoio de três ex-Presidentes da República parece que ninguém mais o apoia. Depois há um senhor que é padre, mas não dos que gostam da Maria, e que faz discursos muito inflamados sobre o 25 de abril e a liberdade e o capitalismo. E ainda há outros, mas como diz o avô da Guidinha, «é tudo da canhota». Por isso, o avô da Guidinha já anda a ver se arranja algum amigo que seja melhor que o Professor para votar nele. Bom, mas o problema é que enquanto isso não acontece, o prédio não pode ficar sem gerente porque há contas para pagar e elevadores para arranjar e rachas para tapar. Sim, porque rachas já há e não são poucas, embora o Pedro e o Paulo digam sempre que o prédio está lindo e os caboucos aguentam tudo, embora seja preciso mais um bocadinho de betão armado para ficar um brinquinho. Então o Professor Aníbal disse para eles ficarem a mandar no prédio enquanto as coisas não se resolvem e eles lá estão, mas parece que sem grande vontade, porque estão mesmo a ver que daqui a uma semana vêm os outros e tomam conta do prédio. Os outros são o António, a Catarina e o Jerónimo.

A Catarina anda muito contente e já escolheu onde vão colocar os quadros e as flores e já escolheu as persianas novas e os reposteiros e que o António tem concordado com tudo. O António não se sabe bem o que pensa porque anda para o calado. Faz assim uns sorrisos, diz assim umas palavras, mas anda mesmo a fugir a dizer o que quer que seja para os condóminos saberem se ele vai ou não diminuir o que cada um paga para o condomínio, o que daria muito jeito à mãe da Guidinha, embora depois possa não haver dinheiro para mandar arranjar o elevador ou os credores apareçam logo à porta a pedir para receber o deles antes que o dinheiro se acabe. Quem também não diz grande coisa é o Jerónimo, que já anda nisto há muito tempo, sempre viveu no lado esquerdo dos prédios e agora não se sente muito bem a ir para um condomínio onde tem de ficar mais ou menos no meio.

É por isso que a Guidinha anda muto preocupada com isto tudo, e o avô da Guidinha, e a mãe da Guidinha e o pai da Guidinha, porque não sabem se se devem dirigir ao Pedro e ao Paulo para lhe dizerem que as torneiras estão a pingar e o chão não anda encerado ou se devem esperar pelo António, pela Catarina e pelo Jerónimo.

Mas para já a Guidinha já percebeu que isto é tudo uma grande confusão e que o mundo era muito mais simples se fosse sempre como era antes, com o Pedro e o Paulo a gerirem e o condomínio e o António a abanar a cabeça e a dizer que sim.

Nove razões por que será bom ter um governo de esquerda

(José Vítor Malheiros, in Público, 03/11/2015)

José Vítor Malheiros

    José Vítor Malheiros

A primeira razão é mesmo aquela que o PSD e o CDS já adivinharam e vieram denunciar nos debates televisivos em tom inflamado, como se fosse razão para uma pessoa honesta ter vergonha.

A primeira razão por que será bom ter um governo de esquerda é mesmo (confesso, confesso) não ter de continuar a ver e ouvir Pedro Passos Coelho nove vezes em cada noticiário, primeiro como primeiro-ministro, depois como presidente do PSD, depois como candidato às eleições, depois como representante de Portugal (vá-se lá saber porquê) num Conselho Europeu, depois como conferencista numa conferência, depois como entrante numa feira agrícola, depois como sainte de uma audiência com Cavaco, depois como visitante daquilo e comentador da outra coisa. Isso, só por si, é um alívio.

Não é que seja pessoal, que não é. Não é só porque os seus lábios eternamente crispados e a escassez do seu léxico me arrepelam a vesícula. Não é só porque a sua cerviz curvada e as suas mãos postas frente a Angela Merkel me encanzinam. É mais político. Mas pôr fim à sua ubiquidade será uma bênção.

A segunda, mais séria, é porque poderemos ter um governo que, para equilibrar as contas, vai recorrer a outras medidas que não sejam rapar os rendimentos do trabalho, confiscar subsídios, aumentar o IRS, criar prestações extraordinárias sobre os salários, cortar pensões, reduzir prestações sociais, cortar serviços públicos, vender empresas públicas estratégicas fundamentais para a economia e vai (espero) encontrar meios de aumentar a receita fiscal olhando também para o património e para os rendimentos do capital e, principalmente, reduzindo a “fuga legal” aos impostos das grandes empresas e das grandes fortunas. Poderemos ter um governo que não acha que os trabalhadores são mimados, que os desempregados são preguiçosos, que os beneficiários de subsídios são parasitas, que os emigrantes são piegas. Poderemos ter um governo que olha para nós não como contribuintes mas como pessoas e cidadãos.

A terceira razão é porque o novo governo vai (espero) defender os interesses nacionais em Bruxelas e noutros fóruns internacionais, o que é uma novidade bem-vinda (quase que nos esquecemos como é que é, mas é possível) e discutir com os parceiros da União Europeia como se fossem parceiros em vez de sermos empregados deles apanhados em falta.

A quarta razão é porque o novo governo vai tentar fazer crescer a economia, o investimento, o emprego e o rendimento disponível dos portugueses, apostando na educação, que garante o reforço das competências; na investigação, que produz o conhecimento que é a matéria-prima mais importante que há; na inovação, que transforma o conhecimento em riqueza; na sustentabilidade social e ambiental, que garante que as próximas gerações não encontrarão um país delapidado e que criará novos mercados; no financiamento das PME, que representam a maioria da economia nacional.

A quinta razão é porque acabou o ilegal, ilegítimo, inconstitucional, imoral e estúpido cordão sanitário que impedia que os partidos à esquerda do PS se aproximassem do poder (veja-se como Cavaco reage à ideia de PCP e BE possam apoiar o futuro governo!) e que desperdiçava assim uma imensa quantidade de ideias e de capacidade de intervenção e afastava milhões da política ao certificá-la como um jogo viciado à partida, onde só a direita e a esquerda light podiam actuar.

A sexta razão é porque vamos enfim ter bancadas parlamentares que apoiarão o governo mas que não serão apenas a voz do dono, exemplos vergonhosos de submissão, de obediência e de subserviência mas que farão o seu dever como representantes do povo, apoiando quando necessário mas também discutindo e propondo alterações.
A sétima razão é porque teremos um governo que não confunde o Estado Social com a sopa dos pobres – como a pobre, pobre Isabel Jonet – e que sabe que o Estado Social é de todos para todos porque só assim se garante a justiça e a equidade e só assim se garante a qualidade e a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde, da escola pública, da Segurança Social, dos programas sociais.

A oitava razão é porque vamos ter um governo que sabe o que é a Cultura e que não a confunde com a decoração de interiores, que sabe que a cultura é um factor de progresso social e individual, de bem-estar social e individual, algo essencial para a vida intelectual de cada um de nós e, por isso, para a nossa vida em sociedade, para o estímulo do conhecimento, da criatividade, do prazer da fruição, do sentido crítico e do sentido de humor sem os quais não se consegue inventar uma sociedade onde seja bom viver.

A nona razão é porque poderemos ter enfim uma governação e uma acção política que não é apenas obediência (à Comissão Europeia, ao Banco Central Europeu, ao FMI, ao Eurogrupo, à Alemanha, aos mercados, à Goldman Sachs, aos tratados existentes e a existir, aos poderes estrangeiros em geral) mas que pode ser invenção, imaginação, participação, debate e criação. A nossa invenção. Como numa democracia!

Valha-nos Santo António, São Jerónimo e Santa Catarina

(Estátua de Sal, 02/11/2015)

calvão

O novo governo entrou em hoje em ação depois de São Cavaco ter concluído os trabalhos de parto e após um fim de semana de chuva inclemente a sul. A natureza não descansa ao domingo e não tem calendário nem agenda política. O primeiro do naipe governativo a mostrar serviço foi o novel Ministro da Administração Interna, Calvão da Silva. Lá vestiu as galochas e aterrou em Albufeira para se inteirar dos efeitos da tempestade.

Já estávamos habituados à criativa expressividade do personagem quando em douto parecer jurídico veio atestar a idoneidade de Ricardo Salgado, colocando na categoria das liberalidades o ato de este ter recebido catorze milhões de euros do construtor José Guilherme. Claro que, Ricardo Salgado também lhe deve ter pago a ele uma maquia choruda, num gesto largo, liberal e moscovita (citando Pessoa, na pele de Álvaro de Campos). Maquia capaz de inspirar qualquer Calvão a perorar de forma inspirada. Liberalidades com liberalidades se pagam.

Mas, chegado ao local da catástrofe, Calvão demonstrou mais uma vez a sua criatividade vernacular. Vejamos algumas das pérolas.

“A natureza é demoníaca”. Calvão foi, portanto ao Algarve, qual exorcista, para afastar os demónios. Parece-me que quis ser premonitório e dizer ao País, ao que estará sujeito se vier para aí um governo de esquerda. Serão raios, coriscos, cobras e lagartos a jorrarem dos céus.

O falecido, sim porque houve um falecido, não é coisa que o preocupe porque, “Ele entregou-se a Deus e Deus com certeza que lhe reserva um lugar adequado”, disse. Seguramente que o ministro tem razão. O além, seja lá onde for, deve ser, de facto, um sítio bem mais adequado do que um país que tem um ministro a proferir máximas deste jaez.

Sobre as condolências aos familiares da vítima, e a sua dor, considerou que ficam muito menos condoídos devido à sua excelsa presença, já que se considera, ele próprio, uma espécie de analgésico, “lenitivo para a dor” dos parentes do defunto.

No que toca aos finalmente, às coisas materiais, cuja gestão caem, essas sim, nas competências de um ministro a sério, a solução foi de gargalhada. Quem tem seguro, segurado está e as companhias que se avenham com os prejuízos. Quem não tem seguro que tivesse, sendo esta uma forma de se aprender, já que, “é bom reservar sempre um bocadinho para no futuro ter seguro”. Notável: para a sumidade ministerial a tempestade até foi bem-vinda já que terá efeitos pedagógicos sobre a necessidade de se poupar mais para pagar às seguradoras. Eu fiquei incrédulo, mas pensei, para comigo, que já tinha ouvido coisa parecida em qualquer lado. E lá descobri. É o mesmo tipo de raciocínio usado por de Passos Coelho, quando mandou os jovens emigrar e lhes descreveu as virtualidades da crise e os benefícios em saírem da sua zona de conforto.

Para esta gente, quanto mais crise, mais tempestade, mais ruína, mais miséria grassar pelo país, melhor! Eles receitam o estoicismo para os outros e a pregação do estoicismo para as suas ungidas personagens.

Este foi só o primeiro dia de atuação do governo pafioso e a calamidade veio ao de cima no primeiro momento, a somar à calamidade que se abateu sobre os nossos conterrâneos algarvios.

Mas maior calamidade do que aquela que se abateu sobre o Algarve, seria manter em funções, por mais que os quinze dias anunciados, um governo que alberga no seu seio, personagens deste calibre e desta igualha, capazes de proferir tamanhos dislates. E só de pensar nessa possibilidade o que me ocorre dizer não é valha-nos Santa Engrácia. O apropriado mesmo é dizer, valha-nos Santo António, São Jerónimo e Santa Catarina.

Estátua de Sal, 02/11/2015