Valha-nos Santo António, São Jerónimo e Santa Catarina

(Estátua de Sal, 02/11/2015)

calvão

O novo governo entrou em hoje em ação depois de São Cavaco ter concluído os trabalhos de parto e após um fim de semana de chuva inclemente a sul. A natureza não descansa ao domingo e não tem calendário nem agenda política. O primeiro do naipe governativo a mostrar serviço foi o novel Ministro da Administração Interna, Calvão da Silva. Lá vestiu as galochas e aterrou em Albufeira para se inteirar dos efeitos da tempestade.

Já estávamos habituados à criativa expressividade do personagem quando em douto parecer jurídico veio atestar a idoneidade de Ricardo Salgado, colocando na categoria das liberalidades o ato de este ter recebido catorze milhões de euros do construtor José Guilherme. Claro que, Ricardo Salgado também lhe deve ter pago a ele uma maquia choruda, num gesto largo, liberal e moscovita (citando Pessoa, na pele de Álvaro de Campos). Maquia capaz de inspirar qualquer Calvão a perorar de forma inspirada. Liberalidades com liberalidades se pagam.

Mas, chegado ao local da catástrofe, Calvão demonstrou mais uma vez a sua criatividade vernacular. Vejamos algumas das pérolas.

“A natureza é demoníaca”. Calvão foi, portanto ao Algarve, qual exorcista, para afastar os demónios. Parece-me que quis ser premonitório e dizer ao País, ao que estará sujeito se vier para aí um governo de esquerda. Serão raios, coriscos, cobras e lagartos a jorrarem dos céus.

O falecido, sim porque houve um falecido, não é coisa que o preocupe porque, “Ele entregou-se a Deus e Deus com certeza que lhe reserva um lugar adequado”, disse. Seguramente que o ministro tem razão. O além, seja lá onde for, deve ser, de facto, um sítio bem mais adequado do que um país que tem um ministro a proferir máximas deste jaez.

Sobre as condolências aos familiares da vítima, e a sua dor, considerou que ficam muito menos condoídos devido à sua excelsa presença, já que se considera, ele próprio, uma espécie de analgésico, “lenitivo para a dor” dos parentes do defunto.

No que toca aos finalmente, às coisas materiais, cuja gestão caem, essas sim, nas competências de um ministro a sério, a solução foi de gargalhada. Quem tem seguro, segurado está e as companhias que se avenham com os prejuízos. Quem não tem seguro que tivesse, sendo esta uma forma de se aprender, já que, “é bom reservar sempre um bocadinho para no futuro ter seguro”. Notável: para a sumidade ministerial a tempestade até foi bem-vinda já que terá efeitos pedagógicos sobre a necessidade de se poupar mais para pagar às seguradoras. Eu fiquei incrédulo, mas pensei, para comigo, que já tinha ouvido coisa parecida em qualquer lado. E lá descobri. É o mesmo tipo de raciocínio usado por de Passos Coelho, quando mandou os jovens emigrar e lhes descreveu as virtualidades da crise e os benefícios em saírem da sua zona de conforto.

Para esta gente, quanto mais crise, mais tempestade, mais ruína, mais miséria grassar pelo país, melhor! Eles receitam o estoicismo para os outros e a pregação do estoicismo para as suas ungidas personagens.

Este foi só o primeiro dia de atuação do governo pafioso e a calamidade veio ao de cima no primeiro momento, a somar à calamidade que se abateu sobre os nossos conterrâneos algarvios.

Mas maior calamidade do que aquela que se abateu sobre o Algarve, seria manter em funções, por mais que os quinze dias anunciados, um governo que alberga no seu seio, personagens deste calibre e desta igualha, capazes de proferir tamanhos dislates. E só de pensar nessa possibilidade o que me ocorre dizer não é valha-nos Santa Engrácia. O apropriado mesmo é dizer, valha-nos Santo António, São Jerónimo e Santa Catarina.

Estátua de Sal, 02/11/2015

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3 pensamentos sobre “Valha-nos Santo António, São Jerónimo e Santa Catarina

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