O Chega, Ventura e a família Champalimaud

(Júlio Bessa Vintém, in Facebook, 04/02/2026, Revisão da Estátua)


(Começo por dar os parabéns ao autor, pela qualidade do texto, no que toca à desmontagem dos objetivos operacionais do projeto Chega e dos patrocínios ao seu líder. O autor baseou, parte da factualidade que apresenta, no livro do jornalista Miguel Carvalho, Por Dentro do Chega – A face oculta da extrema-direita em Portugal.

Estátua de Sal, 05/02/2026)


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Há uma ironia deliciosa, daquelas que fariam rir se não fizessem chorar, na narrativa venturiana do “povo contra as elites”.

André Ventura discursa contra o “sistema de interesses instalados” num hotel de luxo em Cascais onde o quarto mais barato custa mais que o salário mínimo de meio mês. Proclama-se voz dos abandonados e esquecidos enquanto janta em Monsanto com barões, condes e marqueses que financiam a sua cruzada populista com transferências de cinco dígitos. Promete “limpar Portugal” da corrupção enquanto esconde da Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) os nomes de quem realmente paga as contas do CHEGA.

É teatro, obviamente. Mas é teatro tão bem encenado, com cenografia tão convincente, que muitos milhares acreditam. Acreditam que o homem financiado pela família Champalimaud — donos dos CTT, de hotéis de luxo, de participações no que resta do império BES — é verdadeiramente o paladino do povo. Que o político apoiado por comerciantes de armas, especuladores imobiliários e aristocratas ligados a redes bombistas do pós-25 de Abril é genuinamente antissistema. É preciso uma suspensão da descrença, digna de ópera wagneriana.

Mas, talvez o mais fascinante, não seja a hipocrisia — essa é banal, universal, transversal ao espectro político. O fascinante é a elegância com que o esquema funciona. A precisão cirúrgica com que as políticas do Chega servem exatamente os interesses de quem o financia, enquanto a narrativa pública fala de outra coisa completamente diferente. É engenharia social de alto nível. Merece, no mínimo, análise.

Comecemos pelos factos. Não as teorias da conspiração, não as especulações — os factos duros, documentados, publicados por jornalistas que fizeram o trabalho aborrecido de ler extratos bancários e cruzar transferências.

A família Champalimaud, nas suas várias ramificações aristocráticas e empresariais, transferiu dezenas de milhares de euros para o Chega entre 2021 e 2022. Manuel Carlos de Melo Champalimaud, o maior acionista dos CTT na altura, dez mil euros. Miguel de Mendia Montez Champalimaud, dono do The Oitavos (esse hotel de luxo onde Ventura faz comícios anti elite), valores não especificados mas documentados. Miguel Vilardebó Sommer Champalimaud, dez mil euros. Mafalda Mendia Champalimaud, dez mil, repetidos. Eduardo Guedes Queiroz Mendia, ex-administrador da Espart (o braço imobiliário do Grupo Espírito Santo, aquele que implodiu levando as poupanças de milhares), também contribuiu generosamente.

Não são os únicos. João Maria Ribeiro Bravo, empresário que vende armas e helicópteros ao Estado português e que recentemente foi alvo de buscas da PJ na operação “Torre de Controlo” sobre alegado cartel de helicópteros, não só deu cinco mil euros como organizou almoços de angariação para o Chega. Miguel Costa Félix, do sector imobiliário e turismo, 2500 euros. Isto é apenas aquilo que facilmente se consegue confirmar e validar (apenas a ponta do novelo).

Pedro Maria Cunha José de Mello, também presente. E há mais — condes, marqueses, barões, gente com títulos que pensávamos extintos mas que afinal andam por aí, vivos, ricos, e a financiar o partido que promete defender os pobres contra os poderosos.

Alguns destes financiadores têm histórias particularmente saborosas. Miguel Sommer Champalimaud esteve implicado na tentativa do golpe spinolista de Setembro de 1974. Francisco Van Uden, monárquico na linha de sucessão ao trono, foi chefe operacional do ELP (Exército de Libertação de Portugal), organização terrorista de extrema-direita responsável por atentados no pós-revolução do 25 de Abril. Eduardo de Melo Mendia, quinto conde de Mendia, aparece nos Paradise Papers. Luís Mendia de Castro, quarto conde de Nova Goa, movimenta-se em instituições financeiras. São pessoas sérias. Gente de bem. Defensores da ordem, da hierarquia, da propriedade. Exatamente o tipo de aristocracia financeira que qualquer populista genuíno combateria até à morte. Mas Ventura não combate. Ventura agradece. E retribui.

Porque, aqui está o verdadeiro génio do esquema: as políticas do Chega alinham-se perfeitamente com os interesses de quem o financia, mas essa ligação nunca é explicitada. Nunca é discutida. Fica escondida nas entrelinhas dos programas eleitorais, camuflada por retórica sobre “povo”, “Nação”, “soberania”.

É preciso ler com atenção — e poucos lêem — para perceber que o partido que se apresenta como defensor dos trabalhadores tem no seu programa a privatização de tudo o que o Estado ainda controla.

Leiamos, então. Diretamente do programa do Chega, página 45:

“Ao Estado não compete a produção ou distribuição de bens e serviços, sejam eles serviços de Educação ou Saúde, ou sejam os bens vias de comunicação ou meios de transporte”.

Não é ambíguo. Não é metafórico. É literal. O Chega defende que o Estado se retire completamente da provisão de serviços. Saúde? Privada. Educação? Privada. Transportes? Privados. Tudo.

Página 49, sobre saúde especificamente:

“O Estado não deverá, idealmente, interferir como prestador de bens e serviços no Mercado da Saúde mas ser apenas, um árbitro imparcial e competente”.

Traduzindo do economês para português: acabar com o SNS. Não o reformar. Não o melhorar. Acabar com ele. Transformá-lo num sistema de seguros privados onde quem tem dinheiro tem saúde e quem não tem, azar. Exatamente o modelo americano que está a fazer a esperança de vida nos EUA decrescer, pela primeira vez em décadas. Exatamente o que beneficiaria os grandes grupos de saúde privada. Exatamente o que poderia interessar a quem tem investimentos nessas áreas.

E a flat tax? Ah, a flat tax. A Iniciativa Liberal teve o bom senso de recuar nesta barbaridade fiscal depois de economistas a trucidarem publicamente. O Chega não. Mantém no programa a taxa única de IRS de 15%, com ambição declarada de chegar a 0%. Para quem ganha 800 euros por mês, isto é desastroso — pagaria mais impostos que no sistema atual. Para quem ganha 10.000, 50.000, 100.000 euros por mês, é o paraíso fiscal. Uma redistribuição massiva de riqueza de baixo para cima, dos que trabalham para os que especulam, dos assalariados para os rentistas.

E o IMI? Também a 0%, segundo Ventura. Beneficiando essencialmente quem? Os grandes proprietários. As famílias com património imobiliário massivo. As fortunas fundiárias. Não as pessoas que compraram penosamente um T1 nos subúrbios. Essas pagariam através do IVA — que o Chega quer aumentar, concentrando a tributação no consumo, o imposto mais regressivo que existe, aquele que pesa mais sobre quem ganha menos.

Há, pois, um padrão aqui. Um padrão claro, documentado, verificável. As políticas do Chega beneficiam sistematicamente os ricos. Os muito ricos. Os obscenamente ricos. Privatização de serviços públicos? Ótimo para quem pode comprar os ativos privatizados. Flat tax? Maravilhoso para quem ganha rendimentos de capital. Fim do IMI? Perfeito para grandes proprietários. Parcerias público-privadas na saúde? Excelente para grupos privados do sector. Desregulamentação do mercado imobiliário? Fantástico para especuladores.

E para o povo que Ventura diz representar? Para os trabalhadores precários, os jovens sem casa, os reformados com pensões miseráveis, as famílias que dependem do SNS porque não têm dinheiro para seguros privados? Para esses, o programa do Chega oferece o quê exatamente? Retórica. Indignação. Inimigos convenientes — imigrantes, ciganos, esquerdalha. Mas, soluções concretas que melhorem as suas vidas? Nenhumas. Pelo contrário: políticas que as piorariam drasticamente.

Isto não é acidente. Não é incompetência. Não é Ventura a ser ingénuo e a deixar-se capturar por interesses que não compreende. É design. É o modelo de negócio. Mobilizar os ressentimentos legítimos das classes trabalhadoras — que existem, que são reais, que merecem atenção — e canalizá-los, não para políticas redistributivas que melhorariam as suas vidas, mas para uma agenda que serve os interesses da elite financeira e aristocrática que financia o movimento. É o velho truque. Tão velho quanto a própria política. Tão eficaz quanto sempre foi. Dar aos pobres um inimigo mais pobre ainda (o imigrante, o “subsidio dependente“) enquanto se rouba o que resta da sua proteção social para entregar aos ricos. É como funcionou o fascismo. Como funciona o populismo autoritário em todo o lado. Prometem ordem, Nação, tradição. Entregam desregulamentação, privatização, transferência de riqueza para os de cima.

E funciona porque a narrativa é convincente. Porque Ventura é bom no que faz — mobilizar emoção, criar identificação, desempenhar autenticidade. Porque os media amplificam sem contexto. Porque os adversários políticos respondem com indignação moral em vez de exposição factual. Porque a maioria das pessoas não vai ler os programas eleitorais, os extratos bancários, as investigações jornalísticas. Vão apenas ouvir o discurso, ver as imagens, sentir a raiva.

E há tantos motivos  para estar com raiva. Legitimamente. O sistema político português falhou a muita gente. A precariedade é real. Os salários são vergonhosos. A habitação é inacessível. Os serviços públicos estão degradados. As instituições perderam credibilidade. Tudo isto é verdade. Tudo isto precisa de resposta. Mas a resposta do Chega não é resposta — é exploração. É pegar nessa raiva legítima e usá-la para implementar exatamente as políticas que piorarão os problemas que a geraram.

Porque quem pensa que privatizar o SNS vai melhorar o acesso à saúde dos pobres é ingénuo ou desonesto. Quem acredita que uma flat tax vai beneficiar trabalhadores precários não percebe matemática básica. Quem imagina que acabar com a regulação do mercado de trabalho vai aumentar salários desconhece história económica elementar. Estas não são soluções. São transferências de riqueza e poder para quem já os tem em demasia.

E os financiadores do Chega sabem disto. Obviamente. Não são estúpidos. São, na verdade, bastante inteligentes. Investiram em Ventura porque viram uma oportunidade. Viram um talento performativo raro, combinado com uma ausência de escrúpulos ideológicos. Viram alguém que podia mobilizar as massas enquanto servia interesses de classe. Viram o veículo perfeito, para uma agenda que nunca ganharia eleições, se fosse apresentada honestamente.

Porque se Manuel Champalimaud se candidatasse às eleições com o programa “vou privatizar os CTT, o SNS, a educação pública, e baixar os impostos aos ricos“, seria trucidado nas urnas. Mas Ventura pode propor exatamente isso — desde que seja embrulhado em bandeiras, hinos, retórica nacionalista, e acuse os outros de serem as verdadeiras elites. É marketing genial. É terrível. Mas é genial.

E nós, espectadores mais ou menos cúmplices, assistimos. Alguns indignados, outros entusiasmados, a maioria apenas cansada. Partilhamos os escândalos, comentamos as polémicas, esquecemos os detalhes. Porque os detalhes são aborrecidos. Extratos bancários são aborrecidos. Programas eleitorais são aborrecidos. Análise de políticas fiscais é aborrecida. Ler este artigo é aborrecido. Muito mais fácil é ver Ventura a gritar, a apontar dedos, a prometer limpeza e ordem.

E enquanto isso, os Champalimauds, os Bravos, os Mendias, os condes e marqueses, vão transferindo os seus cinco e dez mil euros. Jantam em Monsanto. Almoçam no Oitavos. Financiam o homem do povo. E sorriem, imagino, com aquele sorriso de quem sabe que fez um bom investimento. Porque afinal, por uns milhares de euros — que para eles são trocos, loose change, o que gastam num fim-de-semana em Saint-Tropez — estão a comprar políticas que lhes valerão milhões.

É um esquema elegante. Eficiente. Rentável. E completamente legal. Porque em 2017, PS, PSD, PCP, BE e PEV votaram para abolir os limites de donativos a partidos. Abriram as portas. Deixaram o dinheiro fluir livremente. E agora surpreendem-se — ou fingem surpreender-se — que haja quem aproveite.

O Chega esconde nomes da lista de financiadores entregue à Entidade das Contas. Omite doações. “Esquece-se” de reportar transferências. E não há consequências. Porque não há fiscalização real. Porque a  Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) tem três pessoas para fiscalizar todos os partidos. Porque o sistema foi desenhado para não funcionar. Porque a opacidade convém a todos.

E assim continuamos. Ventura grita contra as elites. As elites financiam Ventura. O povo aplaude. Os ricos enriquecem. Enquanto isso o SNS definha. Os salários estagnam. As casas ficam inacessíveis. E daqui a uns anos, quando as políticas do Chega forem implementadas — se forem —, quando os hospitais públicos forem entregues a privados, quando a flat tax transferir mais milhares de milhões para o topo, quando a última rede de proteção social for desmantelada, talvez olhemos para trás e perguntemo-nos como é que deixámos isto acontecer.

Ou, provavelmente. não. Provavelmente estaremos demasiado ocupados com a próxima indignação, o próximo escândalo, o próximo inimigo conveniente que Ventura nos apontar. Porque o espetáculo não para. Nunca para. E nós somos simultaneamente audiência e combustível, vítimas e cúmplices.

Bem-vindos ao populismo do século XXI. Onde os paladinos do povo têm contas nas Ilhas Caimão e os defensores dos trabalhadores jantam com marqueses. Onde a retórica é de esquerda mas as políticas são de direita radical. Onde tudo é performance, nada é real, e os únicos que ganham são precisamente aqueles contra quem o populista diz lutar.

É deprimente. É previsível. É evitável. Mas não será evitado. Porque evitá-lo exigiria ler os programas, seguir o dinheiro, conectar os pontos. E isso dá trabalho. Muito mais trabalho que partilhar mais um vídeo de Ventura e sentirmo-nos indignados ou validados.

Então os Champalimauds continuarão a transferir. Ventura continuará a gritar. O povo continuará a acreditar. E os condes continuarão a sorrir, porque afinal descobriram a formula perfeita: comprar uma revolução popular que serve os interesses da aristocracia.

É quase poético. Se não fosse trágico.

A hora de André Ventura não chegou

(Boaventura Sousa Santos, in Brasil247, 31/01/2026)


A ideia da fragilidade da democracia portuguesa assombra os democratas portugueses por várias razões.


André Ventura (AV) é o líder da extrema-direita portuguesa. Com alguma razão, diz que na segunda volta das eleições presidenciais (8 de fevereiro) é ele o candidato da direita tout court. De fato, na segunda volta os dois candidatos são ele e António José Seguro (AJS), antigo secretário-geral do Partido Socialista (2011-2014), que se apresenta como candidato do centro-esquerda, humanista, progressista. Muitos antigos dirigentes e conhecidos militantes da direita moderada têm manifestado o seu apoio a AJS, o que mostra que só formalmente e por um período curto AV se pode designar líder da direita. Dados os evidentes sinais de rejeição de AV, é muito provável que AJS ganhe as eleições e seja o próximo Presidente da República portuguesa.

Prognosticar que a hora de AV não chegou é relativamente fácil. As grandes questões são duas: a hora de AV ainda não chegou ou não chegará nunca? E se a resposta for a de que ainda não chegou, a segunda questão é: O que deve ser feito para que nunca chegue? Claro que esta última pergunta só é feita por quem, como eu, não queira que Portugal volte a ser governado pela extrema-direita. Foi apenas há 52 anos que Portugal pôs termo a um regime de extrema-direita que durou 48 anos. O grande líder desse longo e trágico período foi António de Oliveira Salazar, a personagem a que AV tem apelado, afirmando que “Portugal precisa de três Salazares”. Portanto, quem estiver de acordo com o que esta frase revela fará a pergunta oposta à minha: O que deve ser feito para que a hora de AV chegue o mais rapidamente possível?

A questão existencial

A questão de saber se a hora de André Ventura chegou ou não é uma questão existencial para os democratas portugueses porque, ao longo da sua mais recente carreira política e tendo em conta os dirigentes de que se rodeou ou que a ele se chegaram, AV tornou-se um perigo para a sobrevivência da democracia portuguesa.

No subconsciente coletivo dos democratas portugueses domina a ideia de que a democracia portuguesa é muito frágil e que pode ser facilmente destruída por qualquer pulsão autoritária. Aliás, é bem possível que AV esteja bem ciente desse subconsciente coletivo e jogue com ele. Sabe que com a sua demagogia assusta os democratas, mas, ao mesmo tempo, alimenta a pulsão autoritária que o pode levar ao poder.

Significa isto que AV seja fascista? Não. Significa apenas que as mudanças que diz querer levar a cabo e a retórica violenta com que as formula faz crer que ou deseja impor uma ditadura ou está conscientemente a correr o risco de soltar forças autoritárias que podem vir a impor a ditadura, inclusive contra a sua vontade. Por isso, o perigo de AV para a democracia é duplo: reside no que ele controla e no que ele solta e não controla.

De onde vem o subconsciente coletivo dos democratas portugueses?

A ideia da fragilidade da democracia portuguesa assombra os democratas portugueses por várias razões. Em termos estritamente quantitativos, Portugal da época pós-revolução francesa só há pouco tempo contabiliza mais tempo em democracia do que em ditadura. Há uma sensação de instabilidade que contraditoriamente aumenta com a estabilidade da democracia. Os últimos cinquenta anos da história portuguesa não têm precedentes em termos de convivência democrática. Em 1974, Portugal regressava à Europa de que partira no século XV e regressava a uma Europa que, graças a duas Guerras Mundiais, se tinha convertido num lugar seguro para a democracia e livre do vírus do fascismo. São três as razões principais pelas quais a energia ascendente e democrática se tem vindo a enfraquecer e com isso a assombrar o subconsciente coletivo dos democratas.

A Troika forever

A partir da crise financeira de 2011, algo começou a abalar os termos de referência da convivência democrática no contexto europeu. Portugal foi ferido na sua autoestima pela Troika (Comissão da União Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) ao ser tratado como um país mal governado, incapaz de exercer eficazmente a sua soberania, ao contrário dos países mais desenvolvidos da Europa. Aliás, foi tratado por dois destes, a Alemanha e a Holanda (o Primeiro-Ministro Mark Rutte chegou a dizer “não se pode gastar tudo em mulheres e álcool e depois pedir ajuda”), com alguns laivos de racismo, do tipo daquele racismo insidioso que sempre tem dominado as relações entre países desenvolvidos e países subdesenvolvidos. A tragédia agravou-se quando o novo Primeiro-Ministro, Passos Coelho, não só se propôs seguir o receituário troikiano, como decidiu aumentar a dose austeritária. Com um certo masoquismo, aceitava-se a punição e declarava-se a rendição. Era uma pulsão autoritária de tipo novo que adotava o miserabilismo salazarista de maneira anti-salazarista. Enquanto Salazar manobrava com o seu servilismo, Passos Coelho exultava com ele.

Desde então, Portugal nunca mais recuperou as energias ascendentes que tinham emergido com a revolução do 25 de Abril de 1974. Houve um momento de esperança no meio da tragédia. Durante a pandemia do coronavírus, Portugal foi um dos países que melhor procurou proteger a sua população. Fê-lo porque tinha ao seu dispor, ainda que já em crise, a grande arma democrática do pós-1974: o Serviço Nacional de Saúde, que durante um breve período foi considerado um dos melhores do mundo. Acontece que a pulsão democrática que se instaurara em 2011 impediu que se tirasse a única conclusão capaz de fortalecer a democracia: reforçar o SNS para o tornar mais robusto de modo a continuar a ser a expressão viva do que é um serviço público ao serviço de todos. Pelo contrário, a degradação do SNS agravou-se depois da pandemia e o fantasma da pulsão autoritária ganhou mais força.

Uma nova geração de políticos de centro-esquerda ou de direita dita moderada foi emergindo e, quase sem distinção, não se deram conta de que toda a austeridade é autoritária porque é sempre seletiva e atinge sempre aqueles que mais precisam de serviços públicos robustos. A miséria moderna nasce sempre de paredes meias com a opulência moderna. Não há pobres, há grupos e classes sociais empobrecidas porque há grupos e classes sociais enriquecidas. A geração Troika ficou conosco depois de a Troika externa ir embora. Assim se foram corroendo as expectativas democráticas dos portugueses.

Houve muitos mini-André Venturas antes do André Ventura. E mais virão depois dele. Estão a ser incubados tanto na Iniciativa Liberal como no Chega. São dois partidos gêmeos, uma vez que as propostas que qualquer deles propõe só podem ser implementadas em ditadura.

A idade de ouro salazarista

A segunda razão do específico subconsciente coletivo dos democratas portugueses é a insidiosa reabilitação do passado salazarista. Precisamente a partir da mesma altura da Troika, tornaram-se mais audíveis as vozes que visavam reabilitar o regime ditatorial, separando-o sutilmente da figura do ditador. Conhecidos cientistas sociais que há anos mantêm colunas de opinião semanais nos jornais de referência foram construindo a ideia de que o ditador Salazar foi um dos grandes estadistas portugueses do século XX. E fizeram-no recorrendo aos meios de comunicação cada vez mais capturados pelas forças políticas de direita de modo a inculcar essa ideia no subconsciente dos portugueses. A repressão, a censura, a tortura, a guerra colonial, a miséria foram desaparecendo do imaginário português sobre Salazar. A austeridade seletiva, que foi o seu modo de governar, foi subliminarmente substituída pela figura austera do ditador.

As realidades do país da época do salazarismo evaporaram da memória dos portugueses. Em 1970, eu estava a trabalhar para o meu doutorado na Universidade de Yale. No dia 31 de agosto escrevi no diário: “Uma notícia do NYT (New York Times) traz-me à realidade do país que deixei para trás: ‘auxílio americano a Portugal em queijo, leite e farinha (distribuído pela Caritas) vai ser suspenso: 350.000 crianças dependem dessa alimentação. Triste país o meu’. E dois dias depois, também no NYT: “crise da indústria de conservas de sardinha em Portugal: mais um foco de emigração do Algarve para Gibraltar”.

Isto não é o produto de trabalho sociológico, é apenas um registro jornalístico que põe a nu o que era Portugal em 1970, quatro anos antes da Revolução de Abril. A idade de ouro dos empresários da reabilitação do passado era afinal uma idade de fome e chumbo para a maioria dos portugueses que nela viviam e morriam.

A política do ódio, o nacionalismo excludente e a esquerda suicida

O fantasma que assombra o subconsciente coletivo dos democratas portugueses é alimentado por um terceiro fator. Consiste no modo como, no curto período de uma geração, o estilo de convivência que existia entre as diferentes forças políticas e entre os cidadãos se alterou profundamente. A cultura da exclusão tomou o lugar da cultura de inclusão. Isso ocorreu a muitos níveis. A desigualdade social, que era uma manifestação de injustiça, passou a ser uma fatalidade, uma culpa dos excluídos ou até mesmo uma condição da prosperidade coletiva. Um país com uma longa tradição de emigração assumiu-se como país anti-imigração. Um país com uma forte componente islâmica na sua cultura tornou-se islamofóbico. Uma cultura de fronteira propensa ao interculturalismo tornou-se xenófoba. Um país com uma baixa taxa de criminalidade e sem ameaças externas converteu a segurança na sua grande prioridade, reforçada pela subserviência ao bunker político de Bruxelas que inventou uma ameaça externa (a russofobia) para reinventar a sua sobrevivência enquanto classe política parasitária.

Esta energia descendente, porque destrutiva, consome as mentalidades e as relações sociais, sobretudo as juvenis, corrói os laços de solidariedade entre gerações, alimenta o narcisismo e transforma a egolatria na única forma de altruísmo. As forças políticas que sempre estiveram ao lado dos excluídos (classes de trabalhadores com trabalho e de trabalhadores sem trabalho, povos e populações discriminadas), que sempre propuseram a inclusão das grandes maiorias e que mais recentemente se tornaram mais sensíveis à discriminação sexual, racial e cultural, estão hoje reféns da política do ódio e da balcanização das consciências que ela produz.

Para que a hora de AV nunca chegue

Os três fatores que alimentam o subconsciente coletivo dos democratas portugueses são suficientemente evidentes para mostrar que os democratas têm de mobilizar-se para que a hora de AV nunca chegue. Devem estar conscientes de que se nada fizerem, essa hora chegará. Sem o disparo de um tiro. Os tiros virão depois e as balas entrarão tanto no corpo como na alma. Por agora, as forças de esquerda ainda não souberam identificar onde estamos. Se não soubermos onde estamos, nunca saberemos para onde vamos ou devemos ir. Torna-se evidente que para lutar contra a pulsão autoritária que hoje AV e amanhã a AV&Co representam é preciso ir contra a corrente. Ora, as esquerdas sempre foram na corrente da divisão. Enquanto não aprenderem a ir na contracorrente da união, os minutos da hora AV vão contando.

Fonte aqui

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Obrigado, Bangladesh

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 30/01/2026)

O que Ventura não suporta é que o jornalismo desfaça a sua tese insultuosa de que os imigrantes vivem de subsídios e que, pelo contrário, demonstre que ele é que vive de mentiras.


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À saída de uma vila alentejana dou com um dos muitos cartazes que o Chega e o seu chefe, André Ventura, espalharam por Portugal inteiro: “O Alentejo não é o Bangladesh.” Pois não, não é: o Bangladesh não precisa de importar alentejanos para conseguir sustentar a sua agricultura, para fazer as sementeiras e as colheitas, para apanhar a azeitona e a amêndoa. Tivesse o Bangladesh uma barragem como a do Alqueva — “Construam-me, porra!” (a tal que ia dar trabalho a todos os alentejanos e tornar prósperos os seus agricultores) — e hoje não haveria ninguém a trabalhar no regadio do Alqueva nem a tornar próspera a sua agricultura. Mas, felizmente para os alentejanos, os “violadores, assaltantes e bandidos” com que, segundo Ventura, o “socialismo” e os “partidos de esquerda” encheram o país nos últimos anos, vindos de África, do Bangladesh ou do Brasil, não se importam de fazer o trabalho duro nos campos que a maioria dos alentejanos já não quer fazer. E, mesmo dormindo em barracões ou contentores, ou em casas onde cabem 30 no lugar de três e pagando aos senhorios alentejanos por 30 e não por três, essa gente estranha que o socialismo importou continua a trabalhar, recebendo o ordenado mínimo e vivendo em condições de indignidade. Ou mesmo fazendo trabalho forçado e semiescravo nos campos alentejanos, vigiados e ameaçados por guardas da GNR, em regime de supranumerário e ao serviço de “empresários” agrícolas apoiados por dinheiros europeus e que, tal como André Ventura, vão à missa todos os domingos e são contra o acordo com o Mercosul, porque, dizem, os do Mercosul podem vender mais barato porque não têm as preocupações sociais deles. Obrigado, Bangladesh!

Obrigado, Bangladesh
Hugo Pinto

Numa praça de uma aldeia algarvia entro num café cujo interior está submergido por uma intensa vozea­ria, digna de um souk árabe. Mas não — sossega, Ventura —, não são árabes, são algarvias, e esta é a sua ocupação diária: tagarelar e jogar à raspadinha. O dia inteiro, porque não há nada de necessário para fazer que os imigrantes não façam: eles trabalham e os algarvios votam no Chega — ao que parece porque temem que eles venham substituí-los e com isso fazer submergir esta nossa exaltante civilização judaico-cristã. Na mesa em frente da minha estão três mulheres em desabrida gritaria, às quais se vem juntar também uma empregada da casa. E ali estaciona à conversa, até que alguém lhe grita do balcão: “Ó Mena, anda trabalhar que há clientes à espera!” Aí, a provável votante do Chega vira-se, furibunda: “Eles que esperem, não vês que estou na conversa? Era o que faltava!” Por um momento imagino a mesma cena protagonizada por um empregado ou empregada que fizesse parte do rol dos assaltantes, violadores ou bandidos de que fala Ventura — devia ser bonito! Porque o Algarve — que vive quase exclusivamente da prestação de serviços aos turistas — dá-se ao luxo de votar no partido que quer expulsar os que prestam esses serviços e sem os quais todo o Algarve colapsaria em dois tempos. Porque os africanos, brasileiros, asiáticos, essa ralé de assaltantes e violadores, além de servirem nos hotéis, nos restaurantes e nos campos de golfe, também estão na construção civil, ajudando a construir os hotéis, vivendas e aldea­mentos onde os turistas dormem, servidos pelos imigrantes. Obrigado, Bangladesh!

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Em Lisboa vou a um lar da terceira idade — por razões pessoais e não em campanha eleitoral. Ali, onde uma sociedade sem tempo para os pais nem espaço para a velhice entrega os seus velhos a guardar, não há um só, uma só trabalhadora portuguesa: uma só! São todas africanas e, sobretudo, brasileiras — que, com o seu feitio de ternura inata, substituem-se aos filhos ausentes, tratando os utentes por “minha querida”, “meu amor”. Suponho que sem estes imigrantes os nossos pais e avós estariam abandonados em casa ou ao frio nos jardins públicos, servindo de cenário para as reportagens televisivas sobre os reformados. Obrigado, Bangladesh!

Aliás, apesar de todas as lamentações, se muitos portugueses ainda recebem pensões de reforma, e actualizadas anualmente acima do valor da inflação, devem-no às contribuições dos imigrantes que cá trabalham para a Segurança Social, permitindo inverter o que parecia vir a ser um caminho sem retrocesso em direcção à insustentabilidade financeira. Em Espanha, o Governo socialista acaba de avançar para a legalização extraordinária de meio milhão destes imigrantes, desde que não tenham antecedentes criminais; em Portugal, André Ventura pretende expulsá-los todos ou, não o conseguindo, obrigá-los a pagar contribuições e impostos durante cinco anos antes de poderem ter acesso a quaisquer benefícios: um esbulho cristão. Perdoa-lhes, Bangladesh!

Ainda em Lisboa, como tantos de nós tantas vezes para não ter de sair para almoçar, chamo a Uber Eats, e lá aparece um indiano, paquistanês ou bengali escorrendo água da chuva e sem tempo a perder para tirar o capacete. Imagino-o à noite, no seu barracão atulhado de outros “assaltantes” como ele, longe do seu país, da sua aldeia, da sua mulher, dos seus filhos, dos seus pais — como outrora os nossos emigrantes na Alemanha ou em França, cujos descendentes hoje votam à distância no Chega. Imagino-o na sua solidão diária, contando os dias e os anos até que uma lei desumana lhe permita o reagrupamento familiar, e sem que nenhum de nós, a quem eles tanto servem, se detenha a pensar como viverão estes homens na flor da idade e privados de tudo — estes “violadores”, como assegura o Dr. Ventura —, mas de cujas violações, assaltos e bandidagem não temos notícia. Obrigado, Bangladesh!

O Dr. André Ventura, licenciado em Direito e candidato à Presidência da República, também está em guerra contra o comportamento deste “jornalismo”, que, tal como “os partidos de esquerda” e o “socialismo que mata”, desvaloriza “tudo o que é violador, assaltante e bandido que entra em Portugal”. O Papa Francisco, um homem que os cristãos e os não cristãos respeitavam, disse em tempos que o que matava era “este capitalismo”, e não o socialismo. Mas é sabido que Ventura não gostava do Papa Francisco, achava-o nada menos do que “um anti-Cristo”. Bem vistas as coisas, Ventura não é cristão, é católico português, coisa bem diferente. “Este jornalismo”, de que Ventura não gosta, é aquele que revela os números e as verdades que contrariam as suas teses sobre os imigrantes: que são eles que respondem pelos lucros da Segurança Social e, graças a isso, a contenção do défice público; que são eles que asseguram uma taxa de natalidade positiva; que são eles que garantem a viabilidade económica da agricultura, da construção civil, do turismo, das pescas; que são eles que limpam as ruas das nossas cidades, que nos trazem comida ou remédios a casa, que tomam conta por nós dos nossos pais e avós, que constroem as pontes, as estradas, as vias férreas e as Expo com que o país se quer mostrar modernizado — e, ao contrário do que queria Ventura, a taxa de criminalidade entre os imigrantes é irrelevante. O que Ventura não suporta é que o jornalismo recorde isso aos portugueses, que vá ouvir os empresários que reclamam mais imigrantes e não menos, que desfaça a tese insultuosa de Ventura de que os imigrantes vivem de subsídios. O que não suporta é que o jornalismo demonstre que é ele que vive de mentiras, chegando ao ponto de inventar, em directo na RTP, uma “notícia do dia” sobre um cigano que teria entrado aos tiros numa escola, “disparando para o ar sobre as crianças” (?) — e que era absolutamente falsa, como tantas outras que ele e o seu partido divulgam sem sombra de pudor. E não gosta que o jornalismo conte que há elementos do Chega entre os grupúsculos neo­nazis de camisas pretas que querem derrubar a democracia — a que Ventura prefere chamar o “sistema”.

“Deus, pátria, família e trabalho”, eis o credo de André Ventura, “o candidato do povo” contra o sistema. Soa familiar e é familiar. Pobre povo se algum dia voltar a querer viver em ditadura, às mãos de quem quer pôr isto na ordem! Logo verá o chefe dizer-lhe que se ocupe da família e do trabalho, que de Deus e da pátria ocupa-se ele. E assim viveremos mais 50 anos felizes, como as nações sem história.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia