E continua o diário da Diana – 12 anos – Escola C+S da Musgueira

(Carlos Esperança, in Facebook, 06/02/2025)

Juntos para a fotografia a ver o andebol

(O texto que segue é mais uma deliciosa e pertinente alegoria. Provavelmente mais ancorada na realidade do que seria desejável. Os meus parabéns ao Carlos Esperança.

Estátua de Sal, 06/02/2025)


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Ainda não falei da minha mãe aqui no meu diário. Ela, ao contrário do meu pai, tem estudos, fala pouco e sabe o que diz.

Na semana passada fiz 13 anos e ela diz-me coisas que não dizia antes. Ela fez o 12.º ano com nota para Medicina e todos os cursos, mas os meus avós viviam longe de Lisboa e não podiam pagar-lhe o quarto e os estudos.

Discorda do meu pai quanto aos políticos. Não os trata por doutores e tem humor. Está sempre a ver se eu a percebo. Há três anos, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, onde havia guerra civil há 10, o meu pai, durante o jantar, quando acabou de comer a salada russa, de que gosta muito, e disse: ainda bem que fizeste salada ucraniana!

Depois começou a dizer: quando o André for primeiro-ministro, as ruas, largos e praças 25 de Abril, passam a chamar-se Prof. Dr. André Ventura e, sorridente, vestiu o casaco a caminho do café. Ao fechar a porta, a minha mãe disse: para parvo só faltam penas. Eu tinha nove anos e só sabia que as pessoas não tinham penas. Agora já sei que, se só lhe faltavam penas, então já era. Agora é o Trump que diz as tolices dele. Aquilo pega-se!

Quanto ao deputado dos Açores, Miguel Arruda, delinquente mental, ela prefere brincar e dizer que ele rouba malas para levar a Maria Vieira às campanhas do Chega em São Miguel e trazê-la para Lisboa sem pagar bilhete e gritar milagre, porque se morre sem oxigénio.

E a Maria é bactéria anaeróbia! Desmanchei-me a rir porque, já não tenho nove anos, sei o que são bactérias anaeróbicas. A minha mãe tem muita piada!

Marcelo e Montenegro foram a Oslo ao jogo de andebol porque queriam ficar na fotografia. Os jogadores até se portaram bem, e os dois fizeram figura triste. Há coisa mais pacóvia do que ir tão longe, quem governa e quem dá palpites, só para a fotografia? Portugal, se não morre de riso, há de morrer de vergonha. A minha mãe tem razão.

Gosto muito da minha mãe. Hei de voltar a falar das conversas comigo, mas agora tenho de fazer os deveres. Quero continuar a ser a melhor aluna.

Musgueira, 06 de fevereiro de 2025 – Diana

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(Carlos Esperança, in Facebook, 28/01/2025)

(O texto que segue é mais uma deliciosa e pertinente alegoria. Provavelmente mais ancorada na realidade do que seria desejável. Os meus parabéns ao Carlos Esperança.

Estátua de Sal, 28/01/2025)


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Ontem, o meu pai chegou muito satisfeito e bebeu a garrafa de vinho toda ao jantar, e não bateu à minha mãe nem a mim:

Que grande homem o Dr. Trump, que já expulsa os imigrantes, que roubam empregos a americanos como os paquistaneses roubam passageiros ao meu táxi. E, quando os países recusam recebê-los, não os invade, dispara tarifas e logo aceitam, até oferecem o avião do Dr. Presidente para os ir buscar. É preciso expulsar imigrantes algemados e manter as boas tradições dos barcos negreiros, agora nos aviões.

O Dr. Trump é que sabe. É contra quem vive à custa dos americanos, não é como nós, só nos salvamos quando voltarmos a ter um presidente almirante e um professor de Direito a governar. Já não falta muito e agora já todos estão a ver. Foi por isso que só convidou o André para a posse. É o único de quem gosta e que merece.

O Dr. Montenegro quer evitar os imigrantes, mas é frouxo, não é como o André. Já não falta muito para ir à vida como o Dr. Costa. Só era preciso voltar já a eleições, mas o Dr. Marcelo teme insistir na receita.

O meu pai regozijou-se com a visita do Dr. Mark Rutte, homem grande em tudo, que veio a Portugal falar com o Dr. Montenegro para satisfazer o Dr. Trump e obter 5% do PIB para lhe pagar a defesa da Europa contra a Rússia. O Dr. Rutte não gostava do Dr. Trump, mas agora diz que é melhor do que o Dr. Biden e quer trabalhar para ele.

É fácil poupar 5% para comprar armas ao Dr. Trump, basta não esbanjar dinheiro no Estado Social, Saúde e Educação, muito menos com imigrantes, e o Dr. Trump não quer europeus a aprender russo ou chinês, quer que aprendam americano como os ingleses.

Além disso, o Dr. Rutte, que podia falar com o Dr. Montenegro na Europa, veio cá para o Dr. Nuno Melo lhe dar os planos para recuperar Olivença, e levá-los para ensinar a Ucrânia a recuperar a Crimeia. Disse que o Dr. Melo é que sabia os planos do Atlântico Norte ou Atlético Norte, não percebi bem.

O meu pai adora o Dr. Trump e o Dr. Elon Musk. Este quer que os alemães voltem a ter orgulho no que fizeram no passado, tal como os portugueses quando defendiam o nosso Ultramar infelizmente perdido, antes de o entregarem a pretos e russos.

O Dr. Trump tem ideias excelentes para a paz, quer despachar as pessoas de Gaza para outros países, o que é uma boa ideia para evitar conflitos, como provou o Dr. Stalin com os tártaros da Crimeia para a Sibéria. Só há guerras de houver dois lados.

E foi para o café a esfregar as mãos, eu sempre tive razão… ainda hei de ver os largos, ruas e praças 25 de Abril a mudar de nome para: Dr. Trump – o Deportador.

Quis perguntar ao meu pai quem é o Dr. Miguel Arruda, que tem 1 curso, 2 mestradas e 17 malas, mas tive medo de levar uma sova. É o que sucede quando se arrelia comigo. E hoje não escrevo mais nada.

Musgueira, 28 de janeiro de 2025. Diana.

Do Dário da Diana – 12 anos – escola C+S da Musgueira

(Carlos Esperança, in Facebook, 23/01/2025)

(O texto que segue é uma deliciosa e pertinente alegoria. Provavelmente mais ancorada na realidade do que seria desejável. Os meus parabéns ao Carlos Esperança.

Estátua de Sal, 24/01/2025)


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O meu pai ficou eufórico com a posse do Dr. Trump. Nesse dia não trabalhou. Esteve a ver TV. E ainda não voltou a bater na minha mãe! Viu o Dr. Elon Musk, o Dr. Zuckerberg e o Dr. Bezos, e disse que não são como os políticos portugueses, que enriquecem à nossa custa, esses já são ricos e só querem fazer a América grande outra vez.

Gostou muito de ver o Dr. Musk a saltar e, quando o viu a levar a mão ao coração e a erguer o braço, o meu pai, eufórico, levantou-se da mesa, imitou-o, partiu um copo, e gritou «ail, André!!». Já fui ver o que quer dizer ail ou hail, e não vem no Google. Não perguntei à professora porque a minha mãe diz para não repetir o que oiço em casa.

O Dr. Trump perdoou a 1500 patriotas presos por quererem a América grande outra vez. Gostavam tanto do seu presidente que tiveram de matar polícias. Não é como o Dr. Biden que perdoou à família e aos amigos. Eu sou criança, e penso que os presidentes americanos são bondosos e só desejam perdoar.

O meu pai riu-se muito quando o Dr. Trump não beijou a mulher porque empancou no chapéu. Depois, quando foi comemorar a vitória do Dr. Trump, com amigos, a minha mãe disse que a mulher do Trump devia usar um chapéu com arame farpado à volta, mas não sei o que quis dizer com isso. Penso que a minha mãe odeia os amigos do meu pai.

Ele disse que se fosse americano ia ser dono do táxi e depois de uma frota. Em Portugal é uma porcaria por causa dos paquistaneses que lhe roubam os fregueses e que só serão expulsos quando o André limpar Portugal.

Os jornalistas são maçons e comunistas, só dizem mal dos deputados do Chega: do Dr. Pacheco Amorim porque o grupo dele matou um padre para nos salvar do comunismo; do que bate na mulher, se bate é porque merece, pois; do que tirou dinheiro da caixa de esmolas da igreja para não ir parar às mãos do padre; do Dr. Miguel Arruda, amigo do preso político Dr. Mário Machado, por levar uma mala do aeroporto, não compreendem que um brilhante académico açoriano pode ser distraído.

Bem, vou fazer os deveres. Amanhã volto a escrever o que o meu pai diz porque ele diz uma coisa hoje e outra amanhã, e eu não lhe posso dizer isso porque me bate.

Musgueira, 23 de janeiro. Diana.