Outra carta de um filho ao pai desavindo (fotocópia clandestina)

(Carlos Esperança, in Facebook, 17/01/2025)

(O texto que segue é a continuação de uma outra carta que há dias publicámos (ver aqui) e que, ao que parece, não teve resposta. O filho desavindo volta a insistir e pede uma resposta ao pai zangado. Já devem ter descoberto quem é o pai e quem é o filho. 🙂 Renovo os meus parabéns ao Carlos Esperança.

Estátua de Sal, 18/01/2025)


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Senhor meu pai, meu dileto:

Não calculas como sofro com o teu silêncio! Não me respondeste à última carta e não me atrevo a telefonar-te enquanto não me enviares a bênção. E desconfio do WhatsApp cujo encriptamento pode ser decifrado pelos nossos inimigos, que devassam a conversa, como fizeram com os emails da nossa perdição.

Não calculas, senhor meu pai, o que dizem nas redes sociais, mesmo alguns dos que te devem os cargos! Que és um construtor de cenários, escorpião, tartufo e catavento! Que és capaz de tudo por vingança, narcisismo ou ambição! É mentira. E os nomes que te chamam, que nunca se dizem em público, são linguagem de almocreve.

Até dizem que as fitas que dependuras ao pescoço das pessoas são para pagares favores e comprar fidelidades. São uns malvados!

Sabes que tens sempre a minha casa, agora que já não temos aqui a do sr. Ricardo, mais sumptuosa, e espero que não te ostracizem como a ele, que era tão bom para nós.

Senhor meu pai, quando te reformares do emprego que construíste com a paciência de um monge e a astúcia de um felino, abandona o Tejo e as pedras da calçada e vai para a Costa onde encontras quem te estima, pessoas da nossa condição, a passear no Paredão.

Troca o Beco do Chão Salgado, onde esbates a raiva contra quem te contraria, pelo mar, onde pedes perdão a rezar o terço enquanto nadas no Atlântico.

Deixa a ginjinha, os pastéis de nata, o moscatel e os gelados, que te arruínam o fígado e a compostura, e os ingratos e hipócritas que te abandonam como ao sr. Ricardo.

E não deixes de enviar-me a bênção, senhor meu pai.

Teu filho,

a) Assinatura ocultada (de acordo com a lei de proteção de dados).

Carta de um filho ao pai desavindo (fotocópia clandestina)

(Carlos Esperança, in Facebook, 12/01/2025)

(O texto que segue é uma alegoria elucidativa do pensamento de classe de uma certa gente “bem-nascida”. Muita simpatia e ginjinhas a acompanhar, mas nada de misturas com a plebe… Já agora, façam as vossas apostas e descubram quem é o pai e quem é o filho. 🙂 Os meus parabéns ao Carlos Esperança.

Estátua de Sal, 13/01/2025)


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Senhor meu pai, meu querido pai:

Sei que te desgostei e não merecias. Sei como sofreste com o teu pai e o teu sogro, meus queridos avós, quando viste ruir o mundo das nossas famílias no turbilhão que varreu o país e o amputou de Cabo Verde a Timor e difamou os portugueses de bem.

Sei do desprezo a que os meus avós foram votados e da felicidade com que me casaste com a Rita para não teres netos com sangue jacobino ou oriundos da plebe.

Sei que sofreste em silêncio o desejo de reconduzires o País aos santos e retos caminhos que a Providência lhe destinou com o pragmatismo de um líder e martírio de santo.

Sei que não me perdoas o divórcio da noiva que me escolheste e te deu quatro netos e o pecado de dissolver o casamento canónico e, ao contrário de ti, perigar a alma para não viver em mancebia, pecado mais venial do que a ofensa ao sacramento do matrimónio.

Sei que não fiz jus ao esmero de me afastares da escola pública e seus perigos, quando a plebe aí ascendeu, doze anos do secundário no Estoril, salesianos, e cinco do superior na Católica, para continuar a viver os valores cristãos da nossa casa. Só depois me graduei na laica INSEAD de Fontainebleau. Não esqueci os valores; e continuo a rezar o terço.

Fui sempre aluno distinto e com as tuas virtudes até ao divórcio, mas a carne é fraca. As hormonas fizeram-me a trocar a melancolia da aristocrata pela fogosidade da burguesa. Bem sei que podia continuar casado com a Rita e viver com esta. Errei.

Não fiz má figura quando o nosso amigo Ricardo me introduziu no mundo dos negócios aqui onde o padrinho se finou. Ainda rezo para que a Justiça seja branda com ele. Ganho muito dinheiro, mas tive de abandonar as cunhas. Sei o que nos custou a que te afastou.

Estou ansioso pelo teu perdão. Os teus netos querem visitar-te ainda no palácio onde se perfilam à tua passagem os criados fardados e dobram a coluna os que andam à paisana. A maioria continua a gostar de ti, cada vez mais, à medida que incomodas os que agora mandam, porque tu os ajudaste, e o país pensa que é teu dever puxar-lhes as orelhas.

Já não uso o aparelho ortodôntico e deixei as pulseiras budistas que odiavas. Diz que estou perdoado. Tenho saudades e não quero que te fines antes de te beijar de novo.

Envia-me a tua bênção, senhor meu pai.

Teu,

a) Assinatura ocultada (de acordo com a lei de proteção de dados).