Perdoa-me! 

(Daniel Oliveira, in Expresso, 18/11/2017) 

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A estrela televisiva norte-americana Greta Van Susteren anunciou que vai criar uma aplicação para as pessoas pedirem desculpas umas às outras e para que os utilizadores sejam severos ou magnânimos com figuras públicas caídas em desgraça. “Sorry” é a app de que António Costa precisa.

Talvez o país tenha sido tomado pela política dos afetos, que Marcelo transformou em paradigma da boa gestão da coisa pública, mas já perdi a conta às vezes que foram exigidos pedidos de desculpa ao primeiro-ministro e a ministros. Por qualquer coisa muito grave ou irrelevante que envolva direta ou indiretamente o Estado, com origem recente ou remota, lá se exige um pedido de perdão, a nova moda da política nacional. Ainda estou à espera que Tiago Brandão Rodrigues se penitencie pela minhoca na sopa da cantina da escola André Soares.

Num bom momento para a economia e perante o primeiro Orçamento de expansão em muitos anos, ficamos, ao ler a imprensa, com a estranha sensação de vivermos num país que se afunda no caos. Parte da sucessão diária de casos é sinal dos tempos: quando são as redes sociais e não a imprensa a definir a agenda ela deixa de estar sujeita a critérios de relevância. Faço o mea culpa: um jantar que nem sequer é novidade tornam-se viral e jornalistas, comentadores e políticos vão com a onda. Uma dinâmica fácil de manipular, como nos explicaria Brad Parscale, o mágico da campanha de Trump nas redes sociais. Outra parte tem explicação política: perante a atual situação económica e social, a oposição agarra-se a episódios para que pareça fantasia o que as pessoas sentem em casa. Os novos 200 mil empregos, a recuperação de rendimentos, o aumento do salário mínimo… Nada disso conta. Não viram o telejornal? A austeridade continua, é como se a troika ainda cá estivesse.

O Governo anda a pedir desculpas (ou a evitá-las) por pecados próprias, mas também por consequências de decisões que o antecederam. Partindo do princípio discutível que há uma relação entre o surto de legionela e a degradação do SNS, teríamos de recuar à brutal contração do Estado, que incluiu a perda de meios e de pessoal, para começar a pedir responsabilidades. Assim como teríamos de recuar ao regulamento assinado por Barreto Xavier, em que expressamente se estipula o preço de três mil euros para a realização de jantares no Panteão Nacional, para compreender até onde nos trouxe a rentabilização dos ‘ativos’ públicos. Estamos a levantar pedras e a encontrar os efeitos de quase uma década de estrangulamento e empresarialização do Estado. A maior crítica que tem sido feita a este Governo é a de não ter revertido, não ter corrigido, não ter alterado. Crítica justa mas reveladora. É natural que quem governou antes finja que não há passado e que quem governa agora se queixe da herança. O que é estranho é a quantidade de coisas de que a imprensa não falou antes e que subitamente se torna notícia. Os jantares no Panteão são só o último exemplo. Talvez precisássemos deste alívio, depois de quatro anos de modorra e medo, para sermos de novo exigentes. Talvez Costa esteja a pagar a fatura do tempo em que amochámos. Talvez por isso haja greves a exigir um descongelamento justo das carreiras que são mais participadas do que quando as careiras foram congeladas. Volta a respirar-se liberdade e isso é bom. Só me incomoda que entre os mais indignados estejam alguns dos responsáveis por esses anos de chumbo.

Chamem o Antifluffy

(José Pacheco Pereira, in Público, 04/11/2017)

JPP

Pacheco Pereira

Os meus amigos do Media Lab for Citizenship, que organizam um evento anual, o Future Places, criaram uma personagem de um jogo anti-Pokémon, chamada Antifluffy. Conforme o nome indica, a personagem que se desloca nos eventos, com um homem por baixo, é exactamente o contrário de fofinha (nem acredito que escrevi esta palavra…), e por isso ninguém quer acariciar um Antifluffy com o seu corpo coberto de fitas negras de celulóide. Pois eu lembrei-me do Antifluffy como uma necessidade pública urgente para soltar no meio da nossa política, na Presidência, no Conselho de Ministros, em Belém e S. Bento e nos candidatos do PSD, onde também estão precisados de um antiproximidade. E também nos jornais, nas rádios e na televisão, que transpiram “casos humanos” e a exploração comercial da tragédia dos fogos, facilitando o perigoso contínuo da má política para o populismo.

Eu explico-me: já não posso com tantos afectos, tanto desejo de estar em cima das pessoas, tanta vontade de envolver tudo e todos numa sopa de pathos, como se fosse o pathos o que mais falta à vida pública portuguesa. Bem pelo contrário, o que falta é um quantum de racionalidade, nem sequer um quantum, que já por si só seria revolucionário, mas uma gigantesca dose de razão, de argumentos, de raciocínios, em vez de tornar a vida pública num festival de beijos e abraços, e de muita lamechice em relação à dor alheia. O problema é que quase se pode fazer uma correlação: quanto mais lamechice, menos reformas e menos mudanças. E de mudanças e reformas é que a nossa vida pública mais precisa.

Como muitas vezes escrevi e repito, a democracia precisa de doses equilibradas de logos (razão), pathos (emoção) e ethos (moral, virtude) e infelizmente está longe de as ter. Bem sei que atravessamos uma tragédia e as memórias vivas dessa tragédia estão por todo o lado. Compreende-se a emoção e seria mau que não existisse, e isso fez a diferença que tramou o primeiro-ministro e bem. Mas, passada a primeira e genuína impressão, naturalmente emotiva, há toda uma sobriedade que falta, há todo um momento em que há que dizer chega e passar para aquilo que é mais útil para todos, a começar por aqueles que perderam tudo nos fogos. Essa altura já passou há muito, e continuar no terreno do pathos, entre o genuíno e a exploração sentimental, não ajuda a resolver problema nenhum. Bem pelo contrário, é a melhor receita para uma política de má qualidade. O pathos é inimigo do tempo que é necessário para pensar, vive da imediaticidade.

Sabemos que o Presidente da República é aquilo a que já chamei, muito antes dos fogos, o Príncipe dos Afectos. Ninguém põe em causa que teve um papel na descompressão da depressão que vinha dos anos do “ajustamento” e da crise gerada nas últimas eleições. Nem sequer se pode pôr em causa que, em determinados momentos, os seus gestos são apaziguadores e necessários. Mas, se há coisa em que ter conta, peso e medida é vital para fazer a diferença, é na afectividade pública. Aliás, já havia excessos anteriores, em que desde a queda de uma avioneta até um acidente numa fábrica pirotécnica motivavam uma visita do Presidente, cuja popularidade é incontestável, mas cuja quase obsessão pela proximidade tem efeitos políticos perversos. Não é que pense que o Presidente queira ser protagonista de uma política populista que coloque em risco a separação de poderes e pretenda um poder pessoal, mas os efeitos sociais de um estilo populista de fazer política são perigosos, para além do protagonismo pessoal do actual Presidente. Uma das razões desse risco é ajudar a criar um padrão de comportamento dominante que pressione tudo e todos a segui-lo num mesmo “estilo”. A pressão sobre António Costa para um pedido de desculpas começou por ser uma constatação de que Costa procedera mal no momento mais agudo dos fogos, para se tornar uma exigência para que ele se comportasse “como o Presidente”. É o mesmo tipo de padrão que leva Pedro Santana Lopes a fazer a diferença do seu adversário centrada na “proximidade com as pessoas” e não na qualidade das políticas e propostas. E é, muito mais grave pelo seu poder multiplicador, o discurso da comunicação social, em particular as televisões “estetizando” os incêndios e valorizando o poder comunicativo da dor.

A política que se move preferencialmente no terreno das emoções, seja com pretexto na corrupção, seja na reacção à criminalidade, seja nas causas de indignação anti-“sistema”, seja também na sequência de tragédias quer individuais, quer colectivas, tem efeitos devastadores na racionalidade, nas pressões sobre os tribunais e nas “sentenças exemplares”, no justicialismo face ao crime, na falta de uma solução equilibrada para o pagamento que a democracia deve fazer aos seus eleitos ou aos seus custos de financiamento, resultando sempre no alimento que dá ao populismo. O populismo moderno, cujo reservatório são as “redes sociais”, tem hoje uma capacidade de potenciação enorme à medida que as mediações fundamentais para a democracia entram em crise, a começar pelo jornalismo profissional, ou a hierarquia dos saberes, ou as instituições representativas.

Uma democracia não pode viver sob uma espécie de ditadura dos afectos, o que não quer dizer que possa viver sem emoções. Mas trata-se de coisas distintas, sendo que, se se abafa o papel da racionalidade, o que acontece depois destes banhos afectivos, são muito más decisões, tomadas à pressa para dar um escape à pressão, mas que ou não mudam nada, ou, pior ainda, inquinam por muito tempo condições que a tragédia proporciona para realizar melhorias.

Não é crueldade nenhuma perceber que a dimensão da tragédia facilita reformas reais, porque criou uma tábua rasa a partir da qual muitas medidas de raiz podem ser tomadas, porque o “mundo velho” ardeu e já não existe. Por exemplo, no caso dos incêndios, há medidas imediatas que não podem ser adiadas, e há medidas que devem ser adiadas para serem bem pensadas e decididas com discernimento. É este segundo caso que o populismo afectuoso atinge com a sua pressão do imediato.

Aquilo de que a democracia mais precisa são coisas que cada vez mais escasseiam: tempo, espaço, solidão produtiva, estudo, saber, silêncio, esforço, noção da privacidade e coragem. Não precisa de grandes inteligências, nem de grandes moralidades públicas, mas sim de bom senso e de honestidade básica. Exige uma enorme parcimónia na exibição pública e, sem dúvida, uma certa capacidade de comunicação aliada a uma severidade na fala pública. E precisa, como pão para a boca, de mais razão, menos soundbites, mais argumentos e menos espelhos em que se ouve, ou lê ou vê apenas aquilo de que se gosta, ou de imagens que nos manipulam o corpo pelos afectos e nos encolhem a cabeça.

 

De Volta à ” VICHYSSOISE”?

(Joaquim Vassalo Abreu, 27/10/2017)

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Que é uma sopa que se serve fria, assim como a vingança, segundo dizem…E o Dr. Marcelo é já recorrente no seu uso!

Não vou chamar agora à colação todos os textos que acerca dele durante estes últimos anos aqui escrevi, porque são datados, mas há algo que, relendo-os, por eles todos perpassa e que, para mim, resulta num traço ou marca indelével da sua complexa personalidade, que eu não posso subestimar, e que a ele fica colado e resistente a qualquer tentativa de extirpação.

Foi publicado no ESTÁTUA de SAL, que também muitas vezes partilha os meus textos, um excelente texto de um conhecido Blog, ” O Jumento”, que eu integralmente subscrevo, mas que se dirige ao Marcelo político vestido de presidente e das suas contradições. Não querendo, de modo algum, chover no molhado, vou dirigir este meu raciocínio levado a escrito para um outro patamar que, sendo diferente, acaba por se confundir. Mas não se confundam, por favor!

É que, pesem todos os seus esforços em demonstrar o contrário, é minha  convicção de que essa marca, às vezes escondida ou mitigada, insiste em recorrentemente vir ao de cima, pela sua visível nitidez e, mesmo perante a sua indisfarçavel bonomia, ela não deixa que a subestimemos e muito menos desprezemos. Desvalorizar esse pormenor (ou pormaior), dando-lhe o benefício da dúvida, é não cuidar de saber que, como diz o velho aforismo popular ” Cavalo velho não toma andadura e, se toma, pouco dura”.

Falo, é claro, em termos estritamente pessoais, mas a mim, que já o sigo há dezenas de anos, a imagem que do seu percurso ao fim de todos estes anos emerge é a de um personagem brutalmente inteligente que aponta para uma certa bipolaridade, pois demonstra tendências para dizer o sim e o seu contrário, passando num ápice do austero para o traquina, dando uma clara ideia de uma certa volatilidade nas suas ideias e acções. É essa a imagem que eu não consigo que em mim se desvaneça…

Pois, na verdade, não é impunemente que se passa uma vida nisso ( excluindo a sua faceta de Professor e onde, (verdade seja dita, ainda não ouvi algo que se lhe diga) macaqueando cenários, tramando conspirações, elaborando mirabolantes análises ou tecendo constantes baralhações, fez juz ao epíteto que lhe foi aposto no seu partido, o de ”enfant terrible”, por da sua constância duvidarem. E, talvez por isso, dele não restava algo de relevante a nível político, até agora.

Passou brevemente pela chefia do partido mas, era inevitável, foi traído pela traquinice, pela volatilidade e pela inconstância e o episódio da ” VICHYSSOISE” foi-lhe fatal.

A travessia do deserto fê-la como comentador, apreciando e a tudo e todos dando notas, mas sendo sempre dúplice na apreciação dos outros e daí o seu constante pregão: “De manhã esteve bem, à tarde esteve mal…”, que lhe assenta como uma luva! Mas essa mesma duplicidade criou a empatia e a afeição de todos aqueles que, sendo menos exigentes, perante a sua bonomia, não apreciando a dialética confrontacional, dele passaram a gostar. Pois da TV durante muitos anos nunca saiu…

Tal como há uns quatro nos escrevi: “O Dr. Marcelo desfaz-se em muitos e cai no goto do povão! Ele é como o ” Preço Certo”: Não tem ponta por onde se lhe pegue, mas o povão gosta…Que fazer?!”. Isso mesmo.

Mas este tipo de pessoas, as que usam a sua superior inteligência para insondáveis desideratos, acabam por se tornar reticentes por necessáriamente não fiáveis ou confiáveis. E diletantes. E, no seu diletantismo, o Dr. Marcelo acaba por se encaixar bem neste estereótipo! É assim como disse o Poeta: “Pode alguém ser quem não é?”. Pode alguém, a não ser que seja um grande actor, assim de repente, mudar de personalidade como quem muda de camisa, pretendendo ser o que o contrário do que toda uma vida foi? Para mim não!

Não mesmo e este episódio do aproveitamento de uma evidente momentãnea fragilidade do governo para, ultrapassando a ética da convivência dos poderes pois lhe foram dadas a conhecer antecipadamente as proposições governarivas, fazer sobressair, e mesmo regurgitar, aquilo que se lhe manifestava como um nó na garganta: a sua aversão a esta solução governativa!

É também claro para mim que, ao contrário do que por aí se diz e escreve, nomeadamente todos os comentadores de alcova que por aí pululam, não foi a mera exigência de medidas que denunciavam a sua lógica posição a favor da culpabilidade do governo, o que o fez verdadeiramente ” regurgitar”:  foi o aviso! Sim, o aviso que fez depois da derrota da Moção de Censura apresentado pela direita, aviso esse carregado de cinismo e que foi: ” O Governo , agora redorçado ( na sua legitimidade parlamentar, é claro) , tem que ser digno das suas responsabilidades”. O sentido é este embora as palavras possam ter sido diferentes..

Mas que quer isto dizer? Que, a partir de agora,  a responsabilidade de tudo o que vier a suceder vai ser da sua maioria, que não contem mais com ele e que, à mais pequena brecha ou dúvida do seu apoio parlamentar, ele aí estará para o dissolver, tanto mais que os seus vão ter em breve um novo líder. Terá sido por isso que o Huguinho declarou, alto e bom som, que o governo já não tinha o apoio do PR?

O outro não servia, era evidente, mas ele recuperou a esperança de ter um dos seus sob o seu “mando”. Os tempos mudaram e o sucedido, a utilização desses crimes florestais todos, que redundaram numa terrível tragédia, serviu, qual “VICHYSSOISE” , para a administração dos seus profundos e inconfessáveis desejos.

Ele diz pairar por aí como o garante  de tudo: do desempenho do governo que, apesar as suas brilhantes performances, não deixa de ser uma espinha atravessada na sua garganta; também da antecipação da culpa por qualquer calamidade, porque ele antecipadamente visou e pelas políticas de consensos, que ele exige, mesmo que os seus não queiram…

Ele, agora despido da capa da bonomia e do sorriso aberto, isso é só para as pessoas mais carentes ( e não digo que mal), é o dedo apontador, o dedo acusador, o culpabilizador. Ele avisou…o resto não é com ele. Para ele resta apenas o conforto, os beijos e as Selfies. Ele restará o refúgio dos velhos e dos desprotegidos e é só ele quem lhes dará abraços e lhes transmitirá palavras  de paciência e conformismo. Sim, porque ele ” exigiu” do governo medidas imediatas, custem o que custarem, mas cuidando ao mesmo tempo do défice. Para que ninguém o esqueça!

Pode mesmo ” alguém ser quem não é”?

PS: Está um pouco longo, eu sei, mas o personagem é complexo, compreendam…


Fonte aqui