(O texto que segue é mais uma deliciosa e pertinente alegoria. Infeliz e provavelmente mais ancorada na realidade do que seria desejável. Os meus parabéns ao Carlos Esperança.
A minha mãe adora o 25 de Abril e eu também. O meu pai detesta-o. Se a democracia fosse futebol, cá em casa a democracia ganhava 2-1.
Ontem a minha mãe estava possessa. Ouviu o Ventura a fazer promessas, como se as pudesse cumprir, e disse que há mais gente estúpida do que ela pensava e que esse aldrabão de feira parece um encantador de burros.
Como o meu pai andava com o táxi a dizer mal dos taxistas do Bangladesh e de todos os imigrantes, ficámos à conversa depois de jantar. A minha mãe não detesta só o Ventura, está desiludida com o Costa, irritada com o Montenegro e furiosa com o Marcelo.
Ó Diana – dizia –, vê a falta que o Costa faz cá e a inutilidade que é ele na União Europeia, onde bastavam a Von der Leyen e a Kaja Kallas para fazerem asneiras e serem humilhadas pelo desmiolado Trump!
Em Portugal a vergonha desceu à rua e o 25 de Abril está de regresso ao 28 de maio. O país está entregue ao Bando dos Quatro que emigram para Roma em gozo de férias de nojo pela morte do Papa, um homem decente que junta no funeral a escória da política e o refugo dos católicos, os que diziam cobras e lagartos do pontificado e fingem agora ser fervorosos admiradores de quem defendeu a paz e os pobres.
Em Portugal, durante o funeral do Papa, o país fica entregue aos bichos. A substituir o PR fica o Pacheco de Amorim, ex-terrorista do MDLP ou outro vice-presidente da AR; em vez do PM o Miranda Sarmento – porque até o MNE, o indizível Rangel, foi como acólito do PR, PAR e PM para perfazer o Bando dos Quatro, saborosa expressão de humor e raiva da minha mãe numa alusão a um grupo de radicais da China de Mao.
De facto, quando um ministro, em nome do governo que se ausenta para o estrangeiro no dia 25 de Abril, diz que «(…) o Governo cancelou toda a agenda festiva e adiou as celebrações relativas ao 25 de Abril», até eu percebo que não estamos num país de gente séria, estamos nas mãos de traidores, que trocam a Pátria por uma missa em Roma.
E, como se não bastasse, o ministro das Finanças de um governo em gestão, que já gastou a folga orçamental herdada, prepara-se agora para, segundo alega, em conluio com o PS, endividar o País em mais 1,5% do PIB para a Defesa, isto é, para armas.
Disse que pediu a Bruxelas para contrair mais 1,5% do PIB numa dívida que não conta para o Orçamento do Estado. Perguntei à minha mãe como era isso. Irritada, não comigo, nunca se zanga comigo, ela disse que era um expediente para esconder a dívida, até termos de pagar o capital e os juros. Nem sequer é uma dívida da UE, é só nossa.
E à custa de quem – perguntei eu? – De todos nós, respondeu ela. Vão às pensões e aos benefícios sociais. Mas o Nuno Melo disse que uma coisa não tinha a ver com a outra… – retorqui eu. E li, no sorriso triste da minha mãe, o desprezo por tal energúmeno e a dimensão da mentira.
E acrescentou ela: – Se tivéssemos um PR com um módico de dignidade, alertaria o Governo que nos impôs para o descaramento de tomar decisões com o PS sem saber se os dois têm a maioria em relação aos restantes. E acrescentou: – Ó Diana, que legitimidade têm de decidir despesas que oneram as gerações futuras sem as discutirem antes das eleições?
Que a Alemanha, queira gastar 500 mil milhões de euros, é lá com ela, embora esteja na origem das duas grandes guerras mundiais e esquecida da proibição de se rearmar, mas que a UE queira gastar 800 mil milhões também é connosco. Não digo que sou contra o armamento da UE, mas é preciso que se saiba para quê, para nos defendermos de quem e que sacrifícios estamos dispostos a fazer, incluindo o de morrer na Gronelândia ou em qualquer área da UE que vier a ser invadida.
A minha mãe diz que somos vítimas de bullying e que há uma campanha de intoxicação em curso para evitar que discutamos o que interessa aos portugueses para que interesses alheios possam prosperar.
Estou a pensar que amanhã não poremos cravos vermelhos na jarra da sala, por causa do meu pai e, antes que na rua comece a ser tão perigoso como dar vivas à República ou dizer mal do Salazar no tempo dos meus falecidos avós, eu e a minha mãe, só as duas, vamos da Musgueira ao desfile da Av. da Liberdade para gritarmos a plenos pulmões…
Ministério Público – Na terceira vez que entrou em período eleitoral, prejudicando o PS, criou uma investigação preventiva para arquivar suspeitas graves sobre o líder do PSD; depois, inventou outra para, através da imprensa, criar suspeitas sobre o líder do PS.
Primeiro-ministro – Montenegro foi à Madeira inspirar-se em Miguel Albuquerque para aprender com o exemplo a ganhar as eleições. Não foi por acaso que prometeu continuar a governar(-se), mesmo que fosse constituído arguido. É a ética a render votos.
Funeral do Papa – Marcelo, Montenegro, Aguiar Branco e Paulo Rangel vão ao funeral do Papa, e deixam o Moedas. Acompanham o Papa à última morada, mas regressam. É, aliás, o regresso que preocupa, depois de gozarem a época baixa da hotelaria romana!
André Ventura – O homem é tão pequenino que cabe numa casa de 30m2 onde cabem ainda o Moedas e as malas do Miguel Arruda. Trump há de orgulhar-se dele por ver no discípulo um modelo tão inspirador.
Ministério da Administração Interna – Em 14 de abril disse ignorar em absoluto o apagão do capítulo sobre a extrema-direita do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) e como o Governo não mente só pode presumir-se uma relação difícil com a verdade e fácil com o álcool. (Ver na imagem ao lado).
Presidente da República – O homem gosta de funerais, mas podia ter-nos poupado às suas divagações sobre a vida eterna e à convocação dos telespetadores para comunicar estados de alma às 20h quando podia não o fazer ou tê-lo feito a qualquer hora.
25 de Abril (1) – Depois de ter substituído o Primeiro-ministro, o Presidente da Assembleia da República e a maioria, e alterado a correlação de forças na Assembleia da República, o Presidente da República não podia desejar melhor, para preitear o pai, do que deixar o país de luto no 25 de Abril e com as forças antidemocráticas à solta. Isto não se inventa.
25 de Abril (2) – A emigração do Estado e o luto papal no dia da Liberdade é a maior canalhice dos últimos 51 anos pós Abril. Isto é o recreio do Presidente da República, Primeiro-ministro e Presidente da Assembleia da República que exoneram o patriotismo, a democracia e a decência e transformam o Estado em offshore da democracia.
Os fantasmas de todas as revoluções derrotadas, ou desvirtuadas, ao longo da história, renascem sempre em novas experiências, assim como os tempos presentes foram engendrados pelas contradições do passado. Parafraseando Eduardo Galeano: “a História é um profeta com o olhar voltado para trás: pelo que foi, e contra o que foi anuncia o que será. A memória é subversiva por ser diferente, e também projecto de futuro”.