Ir ao banco não é um passeio no parque

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 03/08/2021)

Não era precisa esta confirmação de uma obviedade, mas o curioso registo em que a direita tem anunciado o seu temor acerca do impacto da maré de fundos europeus confirma plenamente a estratégia do governo. Mete dó o modo como o protesto fica envergonhado dado que, de facto, não protesta contra nada e, sendo tão evidente que qualquer governo anterior faria o mesmo a papel químico, fica curta a indignação quanto ao algo simplório (ou matreiro?) “então já posso ir ao banco” de Costa para Von der Leyen. Há deslumbramento do governo, pois claro que há; há satisfação pelo momento e pela oportunidade, nem era de esperar outra coisa; há uma proclamadíssima vinculação da promessa de cheques aos resultados das eleições autárquicas, que se levante o primeiro desses partidos que não o tenha feito, por mais tenebrosa que seja a ligação. Tudo banal, tudo previsível, tudo copiado de distintos mestres anteriores.

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Para o governo, os dinheiros pandémicos, que não são pouca coisa, 13,9 mil milhões em subvenções, tornaram-se a missão deste mandato. Tinha sido prometido um programa para habitação, que era um pregão sem cheta, e agora apareceu uma gaveta de onde financiar as casas; tem-se discutido o reforço da saúde ou da educação, e agora anuncia-se uma solução com as subvenções, só não se sabe quando; falava-se de agenda climática para entreter as eleições, agora terão que surgir resultados de programas concretos que hão-de aparecer. Sem estes dinheiros europeus, não haveria programa do governo ou, do que havia, sobravam as promessas e ficava o aperto; com a chuva de milhões, o palácio de S. Bento regurgita de ideias e de diligências. Surfar a onda dos fundos, na certeza de que os empresários se manterão caladinhos e ansiosos pelos convites até para o mais discreto dos cocktails em que o ministro apresente um powerpoint sobre os canais financeiros, borrifa o governo com um perfume de atração que o encanta. E é mesmo de encantar.

Como ficou gravado em frases gloriosas na recente história política portuguesa, “quem não está não come” e “quem paga, manda”, pelo que é preciso reconhecer o “momento de ir ao pote”. Se tudo se resume a comer do tal pote, então quem está em cima manda mesmo.

Este perfume de poder tem consequências, pois contribui para mudar o tipo de discurso que a direita vai experimentando, consciente de estar presa na armadilha de resumir a sua alternativa ao ciúme acerca da oportunidade dourada que bateu à porta de Costa e sentindo-se forçada a buscar novas formas de agressividade e protagonistas que desloquem a atenção pública. Assim, quanto mais dinheiro há, mais a direita se trumpizará, do que a candidatura de Moedas parece ser para já o principal ensaio. Mas esta condição também acentua a tentação do PS de dar por garantido o seu maiorismo absoluto, tanto mais que estes recursos são extra-orçamentais, não passam pela maçada das votações parlamentares, e dá por certa uma maioria suficiente e até confortável. Profundo conhecedor dos circuitos intestinos da política nacional, Costa aposta na vontade dos dinheiros e dos favores políticos contra os tiroteios de temas vários ou de discursos tremendistas. Por isso, ao criticar os “casos e casinhos”, não está só a defender o seu combalido ministro da administração interna, está mesmo a dizer o que parece: que está convencido de que a couraça da indiferença quanto aos assuntos que não forem os dinheiros inclinará sempre a opinião eleitoral para o seu lado. Nisso tem razão.

O problema é que os dinheiros são um problema. Ao terminar 2020, havia 43% do programa Portugal 2020 por executar, sobram três anos de folga para correr atrás dos atrasos. Outro exemplo desta dificuldade é o programa Ferrovia 2020, a aplicar entre 2015 e 2024, que só tem 12,2% executados. Tudo tem alguma justificação, há processos pesados e de concretização burocratizada, que se tendem a desenvolver só no final dos períodos. O facto, em qualquer caso, é que nada tem sido cumprido nos prazos, que falta capacidade empresarial, que a administração pública perdeu vigor e estrutura técnica de direção, que não há plano e que as ideias também não abundam. Os fatores políticos podem ainda agravar esta doença, como no ano passado, o de pior execução orçamental numa década. Portanto, com um programa que tem prazos curtos e imperativos, com verbas atrasadas de outros fundos estruturais e com dinheiro a rodos, a tentação pode vir a ser inflacionar despesas, dourar programas medíocres, fazer compras de equipamentos sem nexo, mostrar serviço, satisfazer clientelas, correndo contra o calendário. Ir ao banco nunca é tão simples como parece, em todo o caso era conveniente que não se tornasse no nosso pesadelo dos próximos anos.


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Os Espirito Santo, Otelo e os 4 pilares do regime

(Carlos Matos Gomes, 31/07/2021)

O regime em que ainda vivemos assenta em quatro pilares fundadores: os Espirito Santo (representados pelo atual patriarca Ricardo Salgado), Otelo, Mário Soares e Eanes. Os Espirito Santo eram os banqueiros do regime de Salazar (não os únicos, mas os principais); Otelo foi o comandante da operação que derrubou o regime de Salazar (Marcelo Caetano não passou de um cuidador de tratamentos paliativos) e deixou o povo entrar na história; Eanes comandou o 25 de Novembro de 75, que abriu as portas ao regresso dos banqueiros e do seu sistema de criação de moeda, tarefa fundamental para a existência do atual regime de democracia liberal, um retorno de que Mário Soares politicamente se encarregou e apadrinhou.

O novo regime pós 25 de Novembro reestruturou o sistema financeiro português, aproveitando a reversão das nacionalizações de Março de 1975, varrendo os banqueiros da “velha guarda”, para integrar o capital nacional no sistema financeiro internacional e na dependência do espanhol, criando um mercado ibérico. Levou na enxurrada desde Champalimaud (Banco Sottomayor) a Cupertino de Miranda (BPA), os mais representativos desta classe. Foram substituídos por um banco da Opus Dei (Jardim Gonçalves — Milleninum/BCP, vindo de Espanha) e Maçonaria (BPI/Santos Silva). Do antigo regime, restou a família Espirito Santo, respaldada pelas ligações aos Rothschild e Rockfeller, à banca francesa e americana e aos interesses em Angola. (Era importante fazer a história do desaparecimento dos Banco Português do Atlântico e do Sottomayor.)

Na banca, o Grupo Espirito Santo era e foi o elemento perturbador desta redistribuição de cartas. Sobreviveu devido à sua dimensão, à articulação entre finança e os setores produtivos (indústria, imobiliário, agricultura) e aos investimentos em Angola, um conjugação considerada pecaminosa pelos mestres da banca internacional, mas que se manteve durante 40 anos, ao fim dos quais, finalmente, foi derrubado, ou “resolvido”, curiosamente pelo governo amigo de banqueiros, o de Passos Coelho e por um governador afeto, Carlos Costa.

É a esta luz — da existência de um acerto de contas — que julgo deve dever ser interpretado o coro que desde há dias se levantou contra Ricardo (Espirito Santo) Salgado, a propósito das férias na Sardenha, tal como o que regougou contra Otelo, aproveitando a sua morte. Não há nesta aparente indignação qualquer réstia de elementos de ordem moral, nem ética, nem humanitária. Os coristas conviveram sempre muito bem com ditadura e a violência de que acusam Otelo e com a corrupção e a ostentação de que acusam Ricardo Salgado. Alguns foram mesmo e simultaneamente confessos integralistas (Deus, Pátria e Autoridade), terroristas praticantes, cúmplices e beneficiários do sistema de negócios, de lavagens de dinheiro, de offshores, de festas e férias de Ricardo Salgado, seus devedores, seus pedintes, ou seus moços de recados.

Não existe um vestígio de boas intenções neste clamor de carpideiras dos jornais e televisões contratadas para empolarem os eventuais crimes de Otelo (julgados e absolvidos) e os de Ricardo Salgado (a julgar numa eternidade). Estão a cumprir um papel num guião que não pode ser outro que não seja o de destruir este regime, imperfeito, é certo, mas que ainda assim funciona com pesos e contrapesos.

A verdade é que, com ou sem teoria da conspiração, está em marcha um plano para impor uma nova distribuição de poderes no que se designou como o Ocidente, filho da Revolução Francesa, que garanta a sobrevivência das minorias privilegiadas nos tempos difíceis que é fácil adivinhar que se aproximam, com escassez de recursos e alterações dramáticas nos ecossistemas. Uma campanha de grande envergadura e que tem como estrela mais visível o americano Steve Bannon. Pode parecer ficção científica, é claro.

Entretanto Otelo deixou a sua subversiva memória de liberdade e de participação popular, que é necessário apagar, e Ricardo Salgado mantem os seus segredos, que lhe garantem férias na Sardenha, mas há muita gente que gostaria de o ver também em cinzas e não de calças de linho e polo de marca exclusiva. Ele afirma que tem esquecimentos. É um seguro de vida, um aviso de que podem existir lembranças seletivas.

A moral desta história pode ser irónica: devermos a defesa do regime de democracia liberal que teve por empreiteiros duas personalidades tão distintas como Eanes e Mário Soares à família Espirito Santo, os grandes banqueiros do Estado Novo e à semente libertária deixada por Otelo Saraiva de Carvalho, o revolucionário adepto do poder popular e da democracia direta!

Fonte aqui


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Mas

(Carlos Matos Gomes, 01/08/2021)

Carlos Matos Gomes

Dos que atiram a pedra e escondem a mão


Além dos putativos herdeiros dos movimentos mais violentos e totalitários da história moderna e contemporânea de Portugal, desde a Vilafrancada miguelista de 1823, até aos bombistas e saqueadores reunidos na sé de Braga e nas escritórios do franquismo em Madrid, do cónego Melo ao comandante Alpoim Calvão que colocaram “Portugal a arder” com o ELP e o movimento Maria da Fonte, dos que ainda choram o fim da ditadura e da guerra colonial, a morte de Otelo Saraiva de Carvalho proporcionou o ressurgimento de um outro grupo, o do “mas”. O grupo dos falsos “cândidos”, dos que argumentam candidamente que a operação militar foi boa, “mas” a revolução não foi democrática e o seu desenrolar até foi atribulado.

Os do “mas” não perdoam a Otelo a responsabilidade de ter transformado um putsh militar numa revolução, incentivado os portugueses a agir e a organizar-se espontaneamente para decidir o que fazer após o derrube da ditadura, o fim da polícia política, dos tribunais plenários, da censura, do poder patronal absoluto! Ora, esta liberdade tomada por necessidade e impulsionada por Otelo, constituiu e constitui uma ofensa imperdoável aos “mas” sobre o que “devia ser uma democracia”, trazida já talhada, pronta-a-vestir do Posto de Comando da Pontinha, ou, ainda melhor, de casa do general Spínola.

O grupo do “mas” acusa Otelo de ter aberto as portas a uma democracia para a qual não se tinham preparado, que não lhe reservara lugares, que não respeitava os seus chefes de clãs, que não resultava de confrarias e ordens com santos hierarquizados, doutrinas e credos estabelecidos, com programa, estatutos, cartões, controleiros e chefes de secção! Otelo abriu as portas a uma democracia sem ungidos, sem secretários-gerais e adjuntos, herética aos olhos dos defensores do condicionamento político da sociedade, para quem a democracia é um exclusivo dos partidos e, destes, apenas os das famílias com denominação de origem controlada — DOC — pela elite europeia e americana.

Otelo não foi nem quis ser o fila guia, o turibulário, o incensador de um golpe que se limitaria a legalizar o Partido Comunista e a distribuir os lugares e prebendas no aparelho do Estado até aí exclusivas da União Nacional/ANP por pessoal de confiança das famílias políticas europeias do pós II Guerra. Uma nova elite que, quanto ao problema colonial, se libertasse da guerra na Guiné, dividisse Moçambique e se concentrasse em preservar o domínio de Angola pelos grandes grupos europeus e americanos e que, quanto a Portugal, abrisse o mercado e não assustasse os falangistas espanhóis. Este era o papel reservado a Spínola e aos partidos que iriam ser fundados, ou desenvolvidos a partir de embriões de recente fecundação.

O reconhecimento imediato da independência da Guiné declarada pelo PAIGC por parte dos militares do Movimento dos Capitães local e das negociações desde logo iniciadas com a FRELIMO, em Moçambique, pelos oficiais do Movimento daquela colónia não permitiu a Spínola desempenhar o papel de “descolonizador conveniente”; e o aparecimento do COPCON, comandado por Otelo, como um contrapoder e não como um aparelho repressivo, impediu a rápida partidarização do novo regime, a sua “normalização, ou domesticação. É esta conjugação de fatores que os adeptos do “mas”, os falsos cândidos, apelidaram de PREC, que levou Spínola à demissão em Setembro de 1974, ao 11 de Março de 1975 e ao “Verão Quente”.

A descolonização imposta pela recusa das tropas de continuarem a combater em África e o subdesenvolvimento de Portugal não permitiram a “transição pacífica” do regime, a maquilhagem do Estado Novo colonial numa “democracia” sem alterar as relações de poder das castas superiores e mantendo os cidadãos à distância, como viria a acontecer em Espanha.

Na morte de Otelo, os “ressabiados”, herdeiros do absolutismo, do Portugal grotesco e caceteiro, arrogante e pesporrente, saíram à luz do dia a verter lágrimas de crocodilo pelas vítimas da violência, sendo que esta sempre constituiu a sua principal ferramenta de domínio, os “ mas” vieram apoucar o papel de Otelo, reduzi-lo a um major de artilharia que rabiscou um plano de operações numa folha de A4 e num mapa do Automóvel Clube, que não sabia o que era “uma democracia como devia ser”. Classificam-no como uma personalidade controversa e contraditória, sem perceberem que o estão a distinguir e a elevar entre os comuns. Os primeiros, os ressabiados, são os “tios” e “tias” que continuam a lamentar o fim das criadas de servir, os agrários que se queixam do fim dos trabalhadores pagos à jorna e dos ranchos de “ratinhos” idos das Beiras para o Alentejo, os patrões que viviam à custa de operários sem direito a sindicato ou a até a horário. Os segundos, os “mas”, são os que temeram e temem uma democracia da qual não fossem e não sejam os mestres!

Otelo não levantou nem guarneceu as barreiras de proteção que, segundo os ressabiados e os “mas”, deviam separar o povo instalado na geral do teatro do poder dos senhores doutores acomodados nos camarotes! A sua morte trouxe para os jornais e televisões os herdeiros dos integralistas e relembrou a persistência de um Portugal de seres mesquinhos, interesseiros, de um lupmen de bem-apessoados e bem instalados que, para defender os seus interesses, não hesitará em colocar um “mas” na fórmula atual de democracia e de Estado de Direito, de se unir aos ressabiados, não certamente para melhorar a vida dos portugueses, nem lhes acrescentar liberdade, mas para impor um regime que lhes seja mais rentável, porque sempre viveram de rendas e de ausência de princípios.

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