O que revelam os debates

(Pacheco Pereira, in Público, 08/01/2022)

Pacheco Pereira

A racionalidade não abunda, porque coreografias e encenações, com truques habituais para gerar atrapalhação no outro e sound bites na comunicação social, são a matéria-prima dos debates.


Numa campanha eleitoral que se passa quase exclusivamente na comunicação social, os debates televisivos, mais de 30, acabam por ter mais importância do que se fossem mitigados por eventos de campanha, que a pandemia hoje não permite. (*) Já escrevi e repito, apesar da fúria de alguns jornalistas e gente de agências de comunicação que precisa de os bajular: uma campanha eleitoral totalmente dependente da comunicação social abre caminho a perversidades. Não se trata de mediação, que é suposto ser uma função fundamental da comunicação social, trata-se de opinião, de manipulação, de parti-pris, simpatias e antipatias escondidos sob a intangibilidade da condição profissional. Não é preciso ir mais longe do que a recente campanha interna no PSD em que a maioria dos jornalistas e órgãos de comunicação social fez campanha por Paulo Rangel e contra Rio. A coisa foi tão evidente que não é preciso dar exemplos, mas, se for preciso, abundam.

Os debates, quando não têm um interlocutor suplementar que interfere de forma agressiva no debate, prejudicando-o (como se passou em debates da SIC em que parecia que havia um terceiro participante na campanha), na parte em que há um genuíno frente-a-frente são reveladores e podem ter um papel na opinião traduzida no voto. Eles revelam, em primeiro lugar, as qualidades e defeitos pessoais dos antagonistas, traços de carácter por detrás da encenação, o que sabem ou não sabem, a inteligência, a capacidade de clareza, a riqueza vocabular, a cultura política ou a sua ausência, a experiência e aquilo a que os sociólogos chamam background assumptions, as ideias, preconceitos, gostos, que estão por detrás do discurso público. Nisto os debates são razoavelmente eficazes, e a logomaquia dos comentários posteriores pode ser útil na sua revelação e escrutínio.

É, no entanto, verdade que essa torrente de comentários, mesmo os melhores – porque muitos não têm pés nem cabeça e resultam em “notas” absurdas para mostrar como são originais os “professores” ou são exercícios de La Palisse –, se tornam em grande parte desnecessários porque os espectadores apreendem com facilidade este aspecto da comunicação, que é empático e por isso imediatamente transmissível. Por exemplo, a frieza de Catarina Martins e Rui Tavares, o cansaço de Jerónimo, a habilidade de Costa, os labirintos em que se enreda Rio, a agressividade monocórdica de Ventura, tudo isto se percebe de imediato, seja quais forem as simpatias que se tenha por cada um deles.

Depois, há um outro nível, que é o da racionalidade, normalmente num exercício de “revelação” do outro, em que o grande e o único exemplo foi o de Rui Tavares face a Ventura. Mas a racionalidade não abunda, porque coreografias e encenações, com truques habituais para gerar atrapalhação no outro e sound bites na comunicação social, são a matéria-prima dos debates. Quando Cotrim de Figueiredo disse que o Bloco de Esquerda era o “Bloqueio de Esquerda”, designação trazida no bolso de casa, acabou por conseguir que ela fosse repetida nos títulos comunicacionais – porque era para isso que tinha sido preparada –, mas por outro lado mostrava que nada mais do que dissera valia a pena repetir.

Ventura, que foi a personagem-chave nos primeiros debates pelo estilo agressivo, pareceu dominar, mas esse aparente domínio revelou algo que lhe é prejudicial, a repetição de acusações, invectivas, afirmações de peito cheio, mas de cabeça vazia, vai perdendo eficácia à medida que os debates com ele são sempre a mesma coisa. O seu único sucesso foi com Rio, que ele enredou em directo, com todos os outros ficou a falar sozinho, sem ter nada para dizer. Também aqui o debate mais conseguido foi o de Rui Tavares.

Aquilo para que os debates pouco servem é para discutir propostas ou programas de governação, com o tempo curto de mais para pensar e discutir a sério. Numa atitude hipócrita, a comunicação social está sempre a queixar-se de que não se discutem os “problemas dos portugueses”, porém aceita um modelo que impede qualquer discussão, mas que é bastante para o espectáculo, para os truques e armadilhas preparados. A rigidez da legislação eleitoral tem também um papel, ao multiplicar de forma absurda o número de debates para assegurar artificialmente a igualdade das candidaturas.

Há também um outro aspecto que é negativo nos debates tal como estes se têm desenvolvido. A obsessão de os transformar em combates, que é comunicacionalmente mais atractivo, impede que se tracem as “linhas vermelhas” com propostas antidemocráticas que o crescendo populista está a colocar em cima da mesa. Ora o populismo é a grande novidade na vida política portuguesa.

Não adianta chamar fascista a Ventura, que não o é, mas sim um extremista de direita, que já basta como epíteto e é mais correcto, mas já se ganhava alguma coisa se ele fosse confrontado com as suas propostas antidemocráticas que ele debita como se fossem “normais”. Um exemplo é a de “cortar” os lugares de “políticos” pela metade, ou a de cortar os salários dos deputados para metade, que parecem populares, mas que são intrinsecamente antidemocráticas. Alguém lhe explica que nos milhares de lugares “políticos”, nas autarquias, por exemplo, a esmagadora maioria não são remunerados, mas o sinal de uma dedicação à causa pública, ou uma democratização da participação popular? Ou que a demagogia sobre os salários dos políticos, conduz a que haja apenas candidatos desqualificados para quem qualquer salário é bom, ou lobistas ricos com rendimentos que não precisam de ganhar um tostão para beneficiar do acesso ao poder? Ou pura e simplesmente dizer-lhe que numa democracia há o primado da lei, e que as garantias de defesa e do ónus da prova são para todos, assassinos e corruptos incluídos. E que penalizar os “crimes de colarinho branco” com o dobro das penas dos assassinos é uma perversão da justiça, por muito que os seus apoiantes salivem com os “casos” de corrupção e se revelem indiferentes aos crimes de ódio. Em tudo isto e muito mais, tem havido falta de coragem para confrontá-lo, porque estas posições só são populares quando não se combatem com a intransigência da democracia.

Vamos ver como os debates continuam e como condicionam a ecologia da campanha.

(*) Não vi, à data em que escrevo este artigo, os debates com participação do CDS e do PAN, pelo que os julgamentos feitos não se lhes aplicam.

O autor é colunista do PÚBLICO


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Já não canto ao frio

(Carlos Coutinho, 07/01/2022)

Faltei às Janeiras na noite e madrugada de ontem, por três razões: porque não estou na minha aldeia, porque nesta cidade nunca vi tal coisa acontecer e, sobretudo, porque não tenho pachorra para alinhar nesse género de rituais. Aliás, mesmo quando era garoto, só uma vez terei participado nessas idas de porta em porta, enfiado numa samarra, cantar “Quem diremos nós que viva? Viva…”

Em Fornelos não se dizia “cantar as Janeiras”, mas antes “cantar os Reis”, porque ontem é que foi o Dia de Reis, um quase feriado que poucos lá observavam, embora quase ninguém falte ainda hoje à antiquíssima Missa de Reis. Neste dia 7, é que, no entanto, vai haver ocorrências seguramente determinantes.

Por exemplo, em 1325, morreu D. Dinis, também rei, além de lavrador e poeta, seguido por Inês de Castro, a amada do seu neto Pedro que andava por Coimbra, onde a foram apunhalar num dia que passou a significar data para todas as lágrimas sem remédio.

Muito mais tarde, já em 1610, o herege Galileu observou as quatro maiores luas de Júpiter, pela primeira vez, ficando por isso conhecidas como luas galileanas – Calisto, Europa, Ganímedes e Io.

Mas os anos mais próximos de nós também disputam hoje as suas efemérides. Contudo, nenhuma delas feliz – no México, morreu, em 1986, um dos maiores escritores da modernidade ocidental que está, segundo García Marquez ‘et alii’ , na génese do realismo mágico. Ou fantástico, como se queira. De seu nome Juan Rulfo, nasceu em Sayula, Jalisco, no ano da Revolução de Outubro.

Do lado de cá do oceano, em Lisboa e em 2017, faleceu Mário Soares, no Hospital da Cruz Vermelha, tal como, anos depois, a sua viúva, Maria Barroso que, não obstante a muito provecta idade, viria a presidir à Cruz Vermelha Portuguesa.

Seria sucedida no cargo por Francisco George, um conspirador irrequieto que eu conheci em Beja, quando ele ainda era um jovem delegado de Saúde e já aspirava a comandar a Federação do Baixo Alentejo do PS. Perdeu a batalha com António Saleiro, o barão de Almodôvar, que era ainda mais ardiloso e até conseguiu ser nomeado governador civil por António Guterres, o famoso conspirador de sótão que ainda manda na ONU onde, finalmente, não se estará a portar nada mal.

O barão, que era homem de negócios, arranjou também na zona um terreno de prenda para António Vitorino (um careca baixote que passou por Macau e foi comissário europeu para a Justiça e Assuntos Internos) e ofereceu outro a Ronald Reagan, para o bluff bem sucedido da Guerra das Estrelas.

Enfim, tudo gente de bem e de boas famílias.

A verdade é que, enquanto a Maria foi extraordinária no teatro, o seu Mário, para nossa desgraça, notabilizou-se especialmente como chefe da contrarrevolução no Portugal de Abril e como coveiro da independência nacional, assinando a seu pedido, com grande pompa e inconfessável circunstância, mas, aparentemente, sem o menor rebate de consciência, o manhoso tratado de adesão que nos encafuou na União Europeia.

É, todavia, amanhã que algo pode talvez ferir mais a sensibilidade dos portugueses, a leitura do acórdão do processo do assalto aos paióis de Tancos, com início marcado para as 10 horas, no tribunal de Santarém. O julgamento abrange 23 arguidos e, como se sabe, entre eles está um tal Azeredo Lopes, que foi chefe de gabinete do presidente da Câmara do Porto, o do caso Selminho, e era ministro da Defesa na altura do furto. Está em causa um conjunto de crimes tão variados como terrorismo, associação criminosa, denegação de justiça, prevaricação, falsificação de documentos, tráfico de influência, abuso de poder, recetação e detenção de arma proibida.

Entre os réus encontram-se igualmente, o antigo diretor da Polícia Judiciária Militar (PJM), coronel Luís Vieira, e o ex-porta-voz desta instituição, major Vasco Brazão, além de elementos da GNR de Loulé.

Em alegações finais, o Ministério Público pediu a absolvição de 11 dos 23 arguidos, incluindo de Azeredo Lopes, por considerar, calcule-se, que a conduta do ex-governante se pautou apenas por uma “omissão do ponto de vista ético”, ao não diligenciar no sentido de ser levantado um processo disciplinar aos elementos da PJM.

A pena mais pesada – entre os 9 e os 10 anos de prisão – foi pedida, como de costume, para o mexilhão, que é quem sempre se lixa nestes imbróglios. Chama-se ele João Paulino, também já foi militar e é autor confesso do furto.

Aguardemos calmamente a sentença, que deve ser, sem dúvida, um ofuscante farol para a jurisprudência.

(A sentença de Tancos já saiu hoje. Ver notícia aqui).


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Catarina ganhou o debate, mas quem pode ganhar as eleições é Rio

(Ana Sá Lopes, in Público, 05/01/2022)

Rui Rio continua a perder tempo nos debates pré-eleitorais. Depois de ter passado 25 minutos com André Ventura enrolado na agenda do “Chega”, apareceu muito pouco preparado no debate desta quarta-feira, na SIC, com a líder do Bloco de Esquerda. Catarina Martins dominou completamente o frente-a-frente e teve a sua melhor performance até agora.

O debate começou de forma inusitada. Rio foi questionado sobre a sua posição sobre a prisão perpétua – que tinha ficado em dúvida no debate com André Ventura – e por motivos misteriosos, enquanto se afirmava contra qualquer alteração às leis penais, Rui Rio insistiu que Ventura não era assim tão defensor da prisão perpétua como anda por aí a vender: “Ficou provado que o Chega não quer exactamente a prisão perpétua mas uma solução mitigada”. Catarina Martins afirma-se “preocupada” por o “dr. Rui Rio estar a normalizar a extrema-direita”, mas Rio insiste.

Primeiro, comete a gaffe de dizer “sou católico, mas não sou crente” (que ficará certamente como uma das frases da campanha) e depois voltou a insistir na alegada moderação de Ventura sobre prisão perpétua: “O que ficou provado é que depois de tanto barulho o dr. André Ventura não defende aquilo que dizia mas uma versão mitigada”. Não se percebe a intenção de Rui Rio, a menos que esteja a tentar convencer a passar para o seu campo o eleitorado do Chega que quer mesmo a prisão perpétua e não versões mitigadas. É uma hipótese de trabalho.

Rui Rio tentou mostrar que, se for governo, fará diferente do executivo PS apoiado durante uns anos pelo Bloco de Esquerda. “Aquilo que o PS fez – e o Bloco de Esquerda apoiou – foi tentar o crescimento da economia pelo consumo. Isso gera inflação.” Catarina Martins quase respondeu com “contas certas” (mas não usou a expressão) e lembrou que o maior crescimento do país foi entre 2015 e 2019, período em que o país “mais reduziu a dívida”. E lembrou o que Rui Rio disse na altura do aumento do salário mínimo, “que ia aumentar o desemprego, aumentar falências”. Rui Rio respondeu que o país tem um problema de salários médios e que “a política de nivelar por baixo aproxima o salário mínimo do salário médio”.

Catarina Martins insistiu em que parte do problema está na manutenção da legislação laboral da troika – “as leis do seu partido” – que fizeram com que “despedir fosse fácil e barato”. Rui Rio respondeu à acusação de que não tinha “qualquer proposta para salários dignos” defendendo que a “maior flexibilidade facilita o investimento” e dinamiza a economia e sem isso não se consegue “melhorar salários em Portugal”.

Em duas questões essenciais, Rui Rio não tinha a lição bem estudada e bastava, pelo menos no SNS, aconselhar-se com os médicos do seu partido. Insistiu no recurso aos privados de uma forma que ficou pouco clara e deixou todo o espaço a Catarina Martins para defender o SNS, acabando até a dizer que concordava com ela. “Atirar mais dinheiro para o SNS não é a prioridade”, disse Rio, para quem a solução passa por “gerir bem o que está mal gerido”.

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Catarina Martins não tem dúvidas de que “vai ser preciso mais dinheiros públicos na saúde e é natural que assim seja” e como Rio não se explica bem sobre a sua defesa dos privados, a líder do BE aproveita para desafiar o presidente do PSD: “Quer entregar o São José ao grupo Mello? Quer entregar o São João aos chineses da Fosun? Depois de sabermos que foi o SNS que nos salvou [da pandemia] este é o momento de o reforçar”. Rui Rio apenas quer “gerir bem o SNS”: “Se o privado ganha e o Estado ganha ficamos todos a ganhar”. Mas Rio não quer acabar com o SNS, nem “pôr os ossos no SNS e a carne no privado. Não é por aí”.

Outro dos momentos complexos de Rui Rio foi, num assunto tão delicado como a sustentabilidade da Segurança Social, dizer que ainda “anda a estudar” a possibilidade de um sistema misto. Grande parte tem que ser público: “Se nós privatizássemos a Segurança Social, colocávamos o futuro das pessoas na Bolsa. Imaginem o perigo que isso era”. Mas admite que “outra coisa diferente”, a tal que está a ser estudada ou vai ser estudada, “é ter um sistema misto em que há uma base pública que pode ser complementada com uma base de capitalização”.

Abriu, evidentemente, espaço à resposta directa de Catarina Martins: “É incompreensível que reconheça que colocar as pessoas na bolsa é um perigo e defenda o sistema misto. Por que hão-de perder alguma coisa?”. E lembrou que o tão mal-amado (pela direita) imposto Mortágua financia a Segurança Social – 477 milhões.

Rui Rio perdeu mais uma oportunidade de mostrar propostas consistentes e atacar o Governo PS (o que teria sido fácil na questão do SNS, a avaliar pelas opiniões dos médicos sociais-democratas). Mas é Rui Rio, e não Catarina Martins, que pode ganhar as eleições de 30 de Janeiro.


Artigo alterado às 10h25 de 6 de Janeiro de 2022, para corrigir a referência de Catarina Martins ao hospital de São João.


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