A fé na Arte de Produzir Efeitos sem Causa

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 16/05/2022)

Está muito difundida a teoria que o escritor Lourenço Mutarelli ficcionou num romance a que deu o título: A arte de produzir efeito sem causa (2008). Uma reflexão acerca dos fenómenos da desrazão (da ilógica) e do nonsense. Uma tese sobre o absurdo, que renega o princípio lógico da causalidade, que determina que todo efeito deve ser consequência de alguma causa.

A afirmação muito explorada de que na Ucrânia ocorre uma invasão determinada por um imperador louco, assenta na crença de que os grandes fenómenos sociais, como uma grande guerra, uma grande revolução, um fenómeno de domínio como o colonialismo, ou a escravatura, por exemplo, podem não ter outra causa se não o impulso emocional e descontrolado de um homem.

Há até historiadores e cientistas ditos sociais que defendem com arreganho a tese de que há uma invasão sem causa, apenas determinada por um ser diabólico que habita um palácio assombrado, com enormes mesas e tetos altos!

As centrais de manipulação de massas, que existem com vários nomes, umas públicas, diretamente dependentes dos Estados e outras privadas: Agências de Comunicação, de Relações Publicas, de Publicidade, com assessores contratados entre antigos políticos ou jornalistas avençados, conseguiram fazer passar a mensagem de que a Rússia tinha invadido a Ucrânia sem razão, apenas por puro imperialismo ou paranoia de um antigo agente do KGB apoiado por um sinistro Rasputine, a que foi dado o nome de Lavrov!

A arte de produzir este efeito sem causa tem sido um sucesso de aceitação, do tipo das igrejas evangélicas (velhas utilizadoras da doutrina da criatura não gerada). O êxito é tanto mais de exaltar quanto a falácia vendida como efeito sem causa é desmentida pelos autores dos efeitos.

A narrativa do efeito — a invasão da Rússia à Ucrânia — sem causa racional é desmentida pelos autores em declarações públicas: O atual secretário geral da NATO, um economista norueguês que já está nomeado para o Banco Central do seu país e que, de facto, é um desastrado, tem-se encarregado de descobrir as reais causas para a invasão da Rússia, obrigando os profissionais da manipulação ao duplo trabalho de inventarem causas fantasiosas — tornar o nonsense comestível pelas opiniões públicas — e de apagarem as pistas deixadas pelo senhor Jens Stoltenberg.

Lembrava o Secretário-geral da NATO com a candura de um sacristão, à entrada para a reunião extraordinária dos ministros da Defesa, em Bruxelas, a 16 de Março de 2021, que durante muitos anos (desde quando?) a NATO, treinou “dezenas de milhares de tropas ucranianas e fornecemos grandes quantidades de equipamentos críticos para ajudar a Ucrânia a defender o seu direito à autodefesa” https://rr.sapo.pt/noticia/mundo/2022/03/16/nato-permanece-unida-no-apoio-a-ucrania/276558/

Além de explicar a antiguidade da manobra de provocar a Rússia e de preparar a Ucrânia para a chamar à guerra, o cândido Secretário-geral encarregou-se de explicar a causa do efeito que é a guerra que hoje se trava na Ucrânia, causando o sofrimento que é visível nos povos e explorado até à exaustão pelos meios de propaganda.

A causa para espoletar a intervenção da Rússia pretende obter o efeito de a enfraquecer e de permitir aos Estados Unidos enfrentarem a nova ordem mundial numa posição de domínio. Numa reunião a 6 de Abril, Jens Stoltenberg explicou: “(…) seja quando for que a guerra acabe, terá implicações a longo prazo para a nossa segurança, pois vimos a disponibilidade do presidente Vladimir Putin em usar força militar para atingir os seus objetivos” (a NATO, como se sabe, não dispõe de força militar, é uma igreja missionária!), mas o esclarecedor vem a seguir: Stoltenberg abordou também um dos tópicos da reunião da Aliança de quarta-feira, o da definição de um novo “conceito estratégico da NATO” (citado pelo The Guardian): “Neste conceito, precisamos de abordar as consequências securitárias das agressivas ações russas, o equilíbrio de poder mundial em mudança, as consequências securitárias de uma China muito mais forte, e os desafios que Rússia e China estão a impor juntos a uma ordem internacional de valores democráticos baseada em regras. Definiremos a estratégia sobre como lidar com terrorismo ciber e híbrido, bem como as consequências das alterações climáticas para a segurança”, acrescentou.

Isto é bem claro: a guerra na Ucrânia, a tal do efeito sem outra causa senão a maldade do chefe russo, conduzida pelos EUA através da NATO, o seu braço armado para a Europa, faz parte de uma manobra estratégica de domínio planetário dos EUA a longo prazo, que tem como inimigos a Rússia e a China e teve como primeiras vítimas os ucranianos e o projeto de uma União Europeia autónoma, regida pelos seus valores e interesses.

Com esta apresentação em claro dos inimigos e dos objetivos talvez se perceba a causa daquela que foi considerada uma vergonhosa retirada dos EUA do Afeganistão (Agosto de 2021) após 20 anos de ocupação: Interessava concentrar forças na Europa para “desgastar” a Rússia e a China. Os “afegões” (como designava aqueles povos o escritor Luiz Pacheco) que se danassem, as mulheres que voltem à burka, as raparigas que sejam analfabetas! O decisivo é a invasão russa! Afinal havia uma causa para a retirada americana de Cabul: a guerra na Ucrânia que iria ter lugar dentro de seis meses (Fev 2022)!

Reduzir a manobra de grande estratégia da criar um casus belli na Ucrânia que levasse a Rússia a intervir a um caso de efeito sem causa, de maus invasores e infelizes invadidos, parece-me muito próximo do absurdo, mas talvez seja reconfortante para almas sensíveis.


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Os EUA vangloriam-se da sua guerra de informação contra a Rússia

(In Resistir, 15/05/2022)

Esta semana pôde assistir-se a relatos na comunicação social dos EUA admitindo abertamente que os serviços de inteligência americanos estão a semear conscientemente desinformação na comunicação social.

Uma  vez, o ex-diretor da CIA William J. Casey disse abertamente ao presidente americano Ronald Reagan e a outros assessores durante uma reunião na Casa Branca: “Saberemos que o nosso programa de desinformação está completo quando tudo aquilo em que o público americano acreditar for falso”.

Alguns viram essa observação como um aparte irreverente que não era suposto ter uma consequência real. Outros, no entanto, afirmaram que tinha conotações sinistras muito mais deliberadas, cuja escala de controle público do pensamento é um objetivo consciente.

Quando se observa como o conflito na Ucrânia e as relações ocidentais com a Rússia estão  a desenrolar-se e a forma como a comunicação social ocidental  noticia isso, as palavras de Casey parecem ser um aviso sombrio.

Esta semana apareceram alegações chocantes amplificadas na comunicação social americana e ocidental de um massacre na cidade ucraniana de Bucha supostamente realizado por tropas russas. A fonte dessas alegações foi a milícia ucraniana associada ao Batalhão Azov, infestado de nazis. O Batalhão Azov, cujos membros exibem abertamente a insígnia das Waffen-SS, foi treinado e armado pelos Estados Unidos e outros militares da NATO na última década.

Não houve nenhuma tentativa da comunicação social ocidental de verificar as alegações sensacionais feitas contra a Rússia. Foram impressas e transmitidas com entusiasmo, levando a mais sanções ocidentais e fornecimento de armas à Ucrânia em apoio ao regime de Kiev. O que é ainda mais perturbador é que a informação que pretende incriminar as tropas russas é questionável. As supostas atrocidades parecem ter ocorrido vários dias depois de as forças russas se retirarem da área.

Moscovo alegou que os assassinatos foram realizados pelo batalhão Azov, apoiado pelo Ocidente, numa provocação de bandeira falsa para culpar a Rússia. No entanto, a comunicação social ocidental rotulou em reflexo as alegações russas como “propaganda do Kremlin”. Até mesmo analistas ocidentais e fontes de comunicação social alternativa foram difamados ou censurados por ousar desafiar a narrativa de supostas atrocidades russas. Uma dessas vozes independentes é a de Scott Ritter, ex-oficial do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, que foi temporariamente banido das redes sociais esta semana por fazê-lo.

Uma ironia amarga é que esta semana também se assistiu a reportagens na comunicação social americana admitindo abertamente que os serviços de inteligência americanos estão a semear conscientemente desinformação na comunicação social. Longe de sentir vergonha ou arrependimento, as agências de inteligência e a comunicação social dos EUA estão exultantes com a prática de atribuir à Rússia a “guerra de informação”.

Algumas das histórias de desinformação admitidas incluem alegações de que a Rússia estava planear usar armas químicas na Ucrânia; que o presidente russo Vladimir Putin estava a ser enganado pelos seus generais sobre a falta de progressos na guerra; e que Moscovo estava a procurar obter suprimentos de armas da China para a guerra na Ucrânia. Todas estas histórias são agora reconhecidas como falsas. A comunicação social dos EUA está a mentir ao público e a admitir isso abertamente. Mas, supostamente, tudo bem porque é em nome da guerra de informação contra a Rússia.

Outra história de desinformação foi a alegação feita em fevereiro pelo Departamento de Estado de que a Rússia estava a preparar-se para encenar ataques de bandeira falsa para servir de pretexto para invadir a Ucrânia. Quando o porta-voz do Departamento de Estado Ned Price foi desafiado pelos repórteres na época a fornecer provas concretas, ele insinuou sarcasticamente que esses repórteres estavam a promover propaganda russa. Acontece agora que o Departamento de Estado estava a vender mentiras plantadas por seus serviços de inteligência.

Nada desse conluio chocante entre serviços de notícias supostamente independentes e o aparelho secreto de inteligência deveria ser surpreendente. Afinal, o ex-diretor da CIA Mike Pompeo estava a gabar-se em público sobre o modo como a agência “mentiu e trapaceou o tempo todo” como um distintivo de honra.

Sabemos, de há décadas atrás, como a Operação Mockingbird foi um programa ambicioso da CIA para se infiltrar em todos os meios de comunicação dos EUA com editores e repórteres obedientes como agentes.

Frank Wisner, um importante oficial de inteligência da CIA, uma vez maravilhou-se com o que ele chamou influência da agência sobre a comunicação social como o “Poderoso Wurlitzer”, uma imagem adequada de um tocador de realejo a chamar a atenção para o discurso e a perceção do público.

Num trabalho de investigação de 1977 feito por Carl Bernstein, do Washington Post, famoso pelo seu papel no Watergate, foi relatado que centenas de jornais e emissoras nos Estados Unidos foram recrutados para o serviço da CIA. Os meios de comunicação incluíam o supostamente venerando New York Times até aos jornais provinciais em estados rurais poeirentos. Curiosamente, considerando  a  visão anterior de Bernstein sobre o controle do pensamento público pelo aparelho de inteligência, ele mais tarde tornou-se  um defensor da farsa “Russiagate” inventada pela inteligência dos EUA, implicando o ex-presidente Donald Trump como um fantoche russo.

Outra formidável fonte de verdade é o ex-agente sénior da CIA John Stockwell, que deu testemunhos copiosos e escreveu livros sobre como a CIA executa campanhas de desinformação da comunicação social em escala massiva e mundial.

Na Europa, o ex-editor de jornal alemão Udo Ulfkotte escreveu uma reportagem sobre como a CIA e outras agências de inteligência ocidentais recrutam funcionários em todos os principais meios de comunicação europeus para atuar como os seus olhos, ouvidos e bocas. Sabe-se também que a emissora estatal britânica, a BBC, foi, e talvez ainda seja, censurada pelo seu serviço nacional de inteligência, o MI5.

Embora tais revelações fossem conhecidas e divulgadas, era sempre uma conversa mole para evitar amplificar o escândalo para uma profissão que se gaba de guardiã do interesse público independente, da liberdade de expressão e pensamento, crítica do poder político e todo tipo de outros nobres epítetos.

Sempre foi um conceito ocidental denegrir a propaganda estatal como algo que foi feito na União Soviética e na Rússia de hoje, na China e em outros supostos estados “autocráticos”.

Diz o roto ao nu! A comunicação social ocidental, há muito, é muito mais culpada de vender desinformação ultrajante ao serviço das suas insituições de segurança militar. A farsa das armas de destruição em massa que levou à guerra genocida no Iraque em 2003 foi talvez o ponto mais baixo entre inúmeros outros episódios desonrosos. Há mais tempo tinha havido o falso incidente do Golfo de Tonkin que levou à Guerra do Vietname. Mais recentemente, houve a suposta mas falsa campanha de violações por soldados sob o comando do líder líbio Muammar Gaddafi que levou ao bombardeio da NATO na Líbia e ao assassinato de Gaddafi em 2011. O bombardeamento da NATO à Síria foi precedido de falsas alegações generalizadas da comunicação social ocidental de atrocidades com armas químicas que foram realmente realizados por representantes da mudança de regime apoiados pela NATO.

Na Ucrânia, a guerra foi precipitada pela NATO armando um regime nazi que estava a atacar a etnia russa no Donbass. Desde que a guerra eclodiu em 24 de fevereiro, após oito anos de provocações, a comunicação social ocidental acusou os militares russos de bombardear hospitais e teatros e agora de executar civis a sangue frio.

Isto é da mesma comunicação social que agora admite abertamente ser agente da desinformação e que parece não ter vergonha disso. Na verdade, eles estão orgulhosamente a gabar-se do seu papel de mentirosos como algo nobre. Esses meios de comunicação são cúmplices em alimentar conflitos e guerras. A sua função é encher o público de ignorância e nacionalismo exacerbado contra a Rússia para fortalecer a causa das indústrias e economias belicistas. Neste clima orwelliano distorcido, falar a verdade é cometer crime de pensamento e ser vilipendiado por aqueles que se exaltam na mentira.


Ver também:
La intoxicación lingüística. El uso perverso de la lengua, de Vicente Romano

O original encontra-se em www.strategic-culture.org/news/2022/04/08/us-media-boast-of-waging-information-war-against-russia/ e a tradução em pelosocialismo.blogs.sapo.pt/os-estados-unidos-vangloriam-se-de-196725


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Tempos e comportamentos degradantes. III – Do gueto à provocação sem resposta

(José Goulão, in AbrilAbril, 15/05/2022)

O presidente ucraniano Volodymir Zelensky dirige-se à Assembleia da República, por videoconferência. Lisboa, 21 de Abril de 2022

Exigia-se um mínimo de dignidade das autoridades portuguesas para enfrentar e denunciar o enxovalho ao 25 de Abril, aos que o executaram e tornaram possível, aos que lutaram e abdicaram da vida para instaurar em Portugal uma sociedade livre das sombras do passado.


O gueto, a civilização, a desumanização

Lamentavelmente, quando se celebra mais um ano sobre a queda do nazi-fascismo na Europa (que não em Portugal e Espanha, regimes muito bem vistos pela NATO) verifica-se que a União Europeia, remetida ao gueto em que o compungido Azeredo a detectou, aposta as suas principais fichas em termos de futuro no apoio a um regime comprovadamente filonazi. Virou-se a História de pernas para o ar em termos de democracia. E, repete-se, por causa dos equívocos que são cultivados através de uma campanha vergonhosa e pidesca para controlo das opiniões, que a denúncia da implantação e do desenvolvimento do regime nazi na Ucrânia a partir de 2014 não significa um apoio à ilegal, criminosa e cruel invasão militar russa e ao regime oligárquico, reaccionário e neoczarista de Moscovo. Trata-se somente de sublinhar que a democracia não tem dois pesos e duas medidas e nela não cabe, por definição, qualquer comportamento nazi-fascista. Como a Constituição da República Portuguesa estabelece sabiamente, mas visivelmente sem êxito por causa daqueles que dominam hoje o país e vêem no 25 de Abril uma coisa incómoda que se faz o frete de evocar burocraticamente ano após ano.

Uma provocação sem resposta mas com aplausos

Só por insensibilidade e desprezo pela data o governo, os deputados e o chefe de Estado puderam deixar passar em claro, sem qualquer obrigatório reparo institucional e diplomático, a provocação que o sr. Zelensky fez a Portugal e ao povo português ao comparar a revolução de 25 de Abril ao golpe nazi da Praça Maidan em Kiev.

O 25 de Abril provocou a queda de um regime terrorista, implantou a liberdade política, estabeleceu a paz no país e tornou possível a independência das ex-colónias, liberalizou o exercício dos direitos fundamentais dos cidadãos, permitiu a libertação dos presos políticos, liquidou a censura, proporcionou a criação dos partidos políticos, desmontou a polícia política, garantiu a realização de eleições livres, do exercício da liberdade de consciência e de opinião.

No polo oposto, o golpe com epicentro na Praça Maidan em Kiev, organizado com a participação do actual presidente dos Estados Unidos, foi culminado por atiradores furtivos fascistas matando tanto polícias como manifestantes numa operação de bandeira falsa e celebrou-se com a exibição em fachadas de edifícios públicos de grandes retratos de carniceiros nazis, como o agora herói nacional Stepan Bandera; derrubou um governo eleito democraticamente; substituiu-o por uma junta incluindo dez dirigentes fascistas; prende, assassina e persegue opositores políticos; reforçou uma polícia política terrorista; proibiu todos os partidos da oposição; montou a caça aos «inimigos do Estado»; lançou uma guerra e uma limpeza étnica em grande parte do país; instaurou uma mentalidade racista e xenófoba tanto no seu próprio funcionamento como na educação da sociedade, cultivando o apartheid, além de promover a militarização das gerações mais jovens incentivando o ódio contra o «inimigo russo». Repare-se que os inimigos não são apenas Putin e os dirigentes de Moscovo mas sim todas e cada uma das pessoas que tenham nacionalidade ou origem étnica russa, tratadas em linguagem quotidiana como «os pretos da neve».

Perante isto exigia-se um mínimo de dignidade das autoridades portuguesas para enfrentar e denunciar o enxovalho ao 25 de Abril, aos que o executaram e tornaram possível, aos que lutaram e abdicaram da vida para instaurar em Portugal uma sociedade livre das sombras do passado, diametralmente oposta da situação imposta aos ucranianos pelo regime de Kiev e os seus financiadores, municiadores, conselheiros e companheiros de armas – os Estados Unidos, a NATO e a União Europeia, as «democracias liberais».

Não, não houve qualquer reacção institucional à provocação, mas sim aplausos. Portugal negou-se a si próprio através da sua casta política venal e estrangeirada: foi um golpe violento contra o 25 de Abril.

Em vez disso, e enquanto circula a lista ucraniana de delação em Portugal, o primeiro-ministro decide ir a Kiev encontrar-se com o governo e o próprio Zelensky, além de lhes levar dinheiro que tanta falta faz à sociedade portuguesa, por exemplo para contratar médicos, dignificar enfermeiros, criar melhores condições para o ensino público, estabelecer salários, reformas e subsídios de apoio que não sejam esmolas. Principalmente no momento em que o país começa a sofrer os efeitos das sanções suicidas que a União Europeia impõe à Rússia.

O primeiro-ministro em exercício fez cair um governo em nome do «rigor» orçamental e agora retirou dinheiro dos bolsos dos portugueses para subsidiar um regime autocrático. Atropelou a coerência democrática talvez em troca de mais alguns créditos para a ambicionada carreira na burocracia europeia.

E a Assembleia da República, em vez de se sentir insultada, reagiu à provocação do presidente da Ucrânia Ocidental programando um tele-encontro de confraternização com o Parlamento de Kiev, precisamente aquele que foi nomeado através de eleições fraudulentas e que ilegalizou todos os partidos da oposição, uma espécie de «União Nacional». Nada pode ser mais coerente com os valores democráticos e a Constituição da República.

Assim sendo, não surpreende que a embaixadora da Ucrânia Ocidental em Lisboa sinta condições para solicitar a ilegalização do Partido Comunista Português. É natural: foi o que mais lutou no país para liquidar um regime semelhante ao que existe em Kiev. Não há dúvida de que o incondicional encorajamento ocidental à autocracia banderista criou uma vocação apostólica e proselitista nazi entre os senhores do regime, inspirada numa miragem da «ucrainização» do mundo, afinal um sonho alimentado pelo capitalismo global. O problema mais grave é que o sonho continua a ter rectaguarda nuclear porque em nada diz respeito à Ucrânia mas sim à unipolaridade planetária como caminho para o totalitarismo globalista engendrado no «grande reinício» do neoliberalismo a cargo do Fórum Económico Mundial (Davos), a grande cimeira planetária das oligarquias. Os ucranianos não sabem, mas estão a morrer por isso. E também por isso os Estados Unidos e a União Europeia não falam e não querem ouvir falar em negociar a sério uma solução de paz para a Ucrânia. Só a continuação da guerra lhes interessa, como confessou o perigoso lunático Borrell, «ministro europeu» dos Negócios Estrangeiros.

Contrariando o seu presidente mas repondo a ordem natural das coisas, a mesma embaixadora de Kiev desfilou em Lisboa integrada na contramanifestação de repúdio do 25 de Abril organizada pelos herdeiros de Pinochet/Chicago Boys e se designam Iniciativa Liberal. A diligente senhora esteve no lugar certo e entre a sua gente, aqueles que, no meio de falinhas mansas e polidas encenações escondem as garras do fascismo como regime de berço do neoliberalismo.

Foi assim no Chile de Pinochet; é assim na Ucrânia de Zelensky, onde o turbo neoliberalismo criou o país mais pobre da Europa, incentivado pelo presidente e embalado pela coligação entre os partidos nazis e os irmãos da Iniciativa Liberal lá do sítio, entre os quais florescem confessadamente os admiradores de Pinochet. Como se regozijou uma das dirigentes dessa «direita liberal» em Kiev quando foram proibidos os partidos da oposição: «agora podemos governar à vontade, livres desses russos e pró-russos». Uma lição para os mais distraídos ou influenciáveis pelos espectáculos do circo político.

Os dirigentes norte-americanos e europeus, porém, não se atrevem a ser tão claros. Insistem na mentira e na robotização dos cidadãos, conseguindo até que muitos deles soltem os até agora recalcados impulsos inquisitoriais. É mais um dos efeitos nefastos da guerra e da sua propaganda.

Como é próprio do Ministério da Verdade orwelliano agora tornado instituição de utilidade pública, a verdade não é para aqui chamada. Para todos os servidores das oligarquias dominantes, sejam dirigentes políticos ou avençados da comunicação-propaganda, continuam a prevalecer as palavras proféticas pronunciadas há exactamente 50 anos pelo lendário estratego geopolítico norte-americano Zbigniew Brzezinski: «Em breve as pessoas serão incapazes de raciocinar por elas próprias. Apenas repetirão as informações que receberam nos noticiários da noite anterior».

Um conceito que foi actualizado e completado em 2017 pelo filho, Mika Brzezinski, agora embaixador norte-americano na terra natal do pai, a Polónia: «As mensagens podem ser minadas de tal maneira que são realmente capazes de controlar o que as pessoas pensam. É esse o nosso trabalho».

Goebbels teria inveja, mas esta é a realidade de hoje apurada através da maneira como o Ocidente aposta tudo, e em desespero, na guerra na Ucrânia e na manutenção do regime nazi de Kiev como garantia para a sua própria sobrevivência como dono unipolar do mundo.

Só a busca incessante de uma solução de paz e a retoma decidida da iniciativa pelos antifascistas, envolvidos de forma unida, afirmativa, activa, determinada e sem concessões no combate às provocações desenvolvidas à sombra da «ucranização» inquisitorial dos espíritos, poderá reverter o caminho da desumanização e do autoritarismo de que o 25 de Abril, no caso português, foi a vítima mais recente.


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