A social-democracia europeia e a guerra

(José Luís Fiori, in Outras Palavras, 13/05/2022)

Joe Biden e o chanceler alemão Olaf Sholz, que cedeu a todas as demandas dos EUA na guerra da OTAN contra a Rússia

Há fortes evidências históricas de que foi no período
em que se consolidou a utopia europeia da “paz perpétua” e
se formulou pela primeira vez o projeto de uma ordem mundial
baseada em valores e instituições compartidas
que se travaram as guerras mais numerosas
e sanguinárias da história

Fiori, J. L. “Dialética da guerra e da paz”


Foi no dia 28 de setembro de 1864 que nasceu, na cidade de Londres, a Associação Internacional dos Trabalhadores – chamada de Primeira Internacional – com a proposta de abolir todos os exércitos nacionais e todas as guerras do mundo. A mesma tese pacifista e radical que foi depois referendada pelo congresso da Segunda Internacional, realizado em Paris em 1889, e que depois foi uma vez mais confirmada pelo Congresso Social-Democrata de Stuttgart, em 1907. Apesar disso, no dia 3 de agosto de 1914, a bancada parlamentar do Partido Social-Democrata alemão apoiou por unanimidade a entrada da Alemanha na Primeira Guerra Mundial e aprovou de imediato o orçamento militar apresentado por seu Imperador, Guilherme II.

Depois dos alemães, o mesmo aconteceu com os partidos social-democratas austríaco, húngaro, polonês, francês, belga, inglês, italiano, português e espanhol. E com exceção dos social-democratas russos, quase todos os socialistas europeus deixaram de lado o “pacifismo” e o “internacionalismo” de seus antepassados e adotaram a retórica patriótica de seus Estados e governos nacionais durante a Primeira Guerra Mundial. E já então a maioria dos social-democratas incorporou o tradicional medo dos conservadores europeus com relação ao que consideravam uma ameaça permanente à civilização ocidental, representada pelos “russos” e pelos “asiáticos”. Devem-se destacar, entretanto, algumas dissidências individuais notáveis que se opuseram à guerra ou defenderam a neutralidade dos socialistas, naquele momento, como foi o caso, entre outros, de Kautsky, MacDonald, Karl Liebknecht, Rosa de Luxemburgo, Lênin e Gramsci.

Depois da Revolução Russa de 1917, e da criação da Terceira Internacional, em 1919, os Partidos Comunistas da Europa e de todo o mundo adotaram uma posição internacional convergente com a política externa da União Soviética frente à Segunda Guerra Mundial (1938-1945), à Guerra da Coreia (1950-1953), à Guerra do Vietnã (1955-1975), frente às Guerras de Libertação Nacional da África e da Ásia, nas décadas de 1950 e 60, e frente a todos os demais conflitos do período da Guerra Fria, até o fim da própria União Soviética e a perda de importância generalizada dos partidos comunistas. Assim mesmo, os partidos comunistas europeus não chegaram a ser governo ou só tiveram um papel secundário de apoio a algum governo de coalizão, e não tiveram que formular uma política externa própria dentro da “Europa Ocidental”. Mas este não foi o caso dos partidos socialistas, social-democratas e trabalhistas, que seguiram um caminho completamente diferente, desde o primeiro momento em que foram governo, e muito mais ainda durante e depois da Guerra Fria.

Logo após a Primeira Guerra, os social-democratas participaram de vários governos de coalizão na Dinamarca, na Alemanha e na Suécia, entre outros, e os próprios partidos socialistas participaram de governos de Frente Popular Antifascista, na França e Espanha, durante a década de 30. Em todos os casos, foram governos que acabaram absorvidos pela administração da crise econômica europeia do pós-guerra e pelas consequências da crise financeira dos anos 30. E em nenhum desses casos, os social-democratas e mesmo os socialistas se destacaram por sua política externa, e quase nenhum desses partidos ou governos tomou uma posição clara de condenação da intervenção militar das grandes potências ocidentais na guerra civil russa, no início da década de 20, nem tampouco tiveram uma posição unânime contra a intervenção militar dos fascistas italianos e dos nazistas alemães na Guerra Civil Espanhola, na segunda metade da década de 30.

E mesmo depois da Segunda Guerra Mundial, os socialistas, social-democratas e trabalhistas europeus não conseguiram formular uma política externa comum e consensual frente ao desafio das novas guerras que se sucederam a partir daí, por três razões fundamentais: em primeiro lugar, porque foram galvanizados pelo início da Guerra Fria, e pela política americana de contenção permanente da URSS que esteve na origem da criação da OTAN; em segundo, porque depois da formação da “Aliança Atlântica” e da criação da OTAN, a Europa foi transformada na prática num protetorado atômico dos Estados Unidos; e por fim, porque esse protetorado assumiu a forma de uma ocupação militar direta, no caso da Alemanha Federal, sede histórica do principal partido social-democrata europeu. Estes três fatores deixaram pouquíssimo espaço para o exercício de uma política externa autônoma por parte dos Estados europeus, em particular no caso dos governos social-democratas que se submeteram, na maior parte do tempo, aos desígnios da chamada “Aliança Atlântica” liderada pelos Estados Unidos, e apoiaram incondicionalmente a formação da OTAN, adotando muitas vezes uma posição cúmplice com seus Estados nacionais frente às guerras de independência de suas colônias na África e na Ásia.

Salvo engano, a única contribuição original da política externa social-democrata desse período foi a Östpolitik proposta pelo ministro das Relações Exteriores e depois chanceler social-democrata alemão, Willy Brandt, no início da década de 70, que promoveu uma relativa normalização das relações da República Federal da Alemanha com os países da Europa do Leste, incluindo a Alemanha Oriental e demais países comunistas do Pacto de Varsóvia. Mas fora da Östpolitik alemã, os socialistas, social-democratas e trabalhistas europeus não estiveram presentes nem apoiaram o projeto inicial de formação da Comunidade Econômica Europeia, que foi concebido e liderado pelos conservadores e democrata-cristãos na década de 50, e só contou com o apoio dos social-democratas e dos socialistas muito mais tarde, já na década de 70. Além disto, esta parte da esquerda europeia apoiou, com algumas exceções honrosas, quase todas as guerras americanas ao redor do mundo, começando pela Guerra da Coreia, submetendo-se ao argumento de George Kennan sobre a “natureza expansiva” e ameaçadora dos russos. Mesmo quando a guerra fosse muito longe da Europa, como no caso da Guerra do Vietnã, que também foi definida pelos norte-americanos como uma guerra de “contenção” do expansionismo comunista na Indochina. Neste caso, a única grande exceção foi a da social-democracia sueca, que se opôs sempre à guerra, ao lado de vários grupos de ativistas e militantes de esquerda em vários países da Europa cuja mobilização cresceu de importância com o passar do tempo e o avanço da resistência dentro dos próprios Estados Unidos.

Mas não há dúvida de que a grande surpresa nesta história um tanto repetitiva foi o comportamento dos social-democratas europeus depois do fim da União Soviética e da Guerra Fria, em 1991.

Apesar de não haver mais a necessidade de “conter” o expansionismo comunista, a maior parte do socialismo europeu seguiu apoiando os Estados Unidos e a OTAN nas suas “guerras humanitárias” da década de 90, incluindo o bombardeio aéreo da Iugoslávia, em 1999, durante 74 dias seguidos, responsável pela morte de centenas de civis e destruição quase completa da infraestrutura e da economia iugoslavas.

E depois, já no século XXI, com raras exceções, os socialistas e social-democratas europeus seguiram apoiando as guerras norte-americanas e da OTAN no Afeganistão, no Iraque, na Síria, na Líbia e no Iêmen. Mais do que isto, no caso do Iraque, em 2003, foi o governo trabalhista inglês de Tony Blair que liderou, junto com os Estados Unidos, o bombardeio aéreo, a invasão terrestre e a destruição daquele país, com mais de 150 mil mortos, sem que tenha sido apresentada nenhuma “causa justa” ou motivo legítimo para este ataque devastador feito à revelia do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

No entanto, deve-se destacar, neste caso, a oposição ao ataque anglo-americano por parte do governo social-democrata alemão de Gerhard Schröder. Quase todos os demais partidos socialistas e social-democratas – defensores entusiastas dos “direitos humanos” – mantiveram seu apoio a essas guerras sucessivas dos Estados Unidos e da OTAN, em nome do combate ao “terrorismo”, concentrado no mundo islâmico do Oriente Médio, do Norte da África e da Ásia Central, apesar de que estas guerras tenham deixado atrás de si um rastro de milhões de mortos, feridos e refugiados que depois foram barrados ou expelidos do próprio território europeu. Nesse tempo, alguns socialistas e social-democratas mais idealistas acreditaram que as “guerras humanitárias” dos anos 90 seriam o preço a pagar por um novo mundo pacífico e sem fronteiras, como nos sonhos dos primeiros socialistas europeus do século XIX. Mas no caso da chamada “guerra global ao terrorismo” declarada pelos Estados Unidos, o que se viu foi uma esquerda europeia socialista, social-democrata ou trabalhista inteiramente desfibrada e submetida aos interesses estratégicos dos Estados Unidos e da OTAN.

Resumindo o argumento, hoje se pode afirmar, depois de quase um século e meio de história, que de fato os socialistas e social-democratas europeus nunca tiveram uma posição comum sobre a política internacional, nem jamais praticaram uma política externa independente e diferenciada. Repetiram um discurso retórico de defesa da paz, do pacifismo e dos direitos humanos como valores abstratos e universais, inteiramente descolados dos contextos históricos particulares em que se originaram as guerras, e cada uma das guerras em particular. Desta perspectiva história de mais longo prazo, não surpreende inteiramente, mas choca negativamente o fato de que nesta nova conjuntura de guerra na Europa, tenha tocado a um governo social-democrata alemão tomar a decisão de rearmar a Alemanha, expandir a OTAN e participar ativamente, ao lado dos EUA e da própria OTAN, de uma nova guerra europeia, dentro do território da Ucrânia.

A poucos dias da comemoração da derrota nazista pelas tropas russas na Segunda Guerra Mundial, a Alemanha decidiu pagar o preço provável da destruição de sua economia industrial e da implosão da própria União Europeia, mostrando-se inteiramente incapaz e impotente de mediar um conflito que vinha se anunciando há muitos anos e que poderia ter encontrado uma solução diplomática e pacífica dentro da própria Europa.

Porque, na prática, os social-democratas, socialistas e os trabalhistas ingleses, de forma muito particular, se transformaram numa força-auxiliar da estratégia militar norte-americana dentro da Europa.


1 É quase impossível encontrar hoje alguma posição consensual de esquerda sobre qualquer assunto que seja da agenda política internacional. No passado talvez fosse mais simples, mas mesmo assim, nossa pesquisa histórica neste artigo analisa apenas a posição dos partidos social-democratas europeus mais tradicionais, no campo da política externa, e em particular frente ao desafio das guerras. Foram partidos que participaram regularmente de eleições, tiveram bancadas parlamentares e chegaram a ser governo, ou participaram de governos de coalizão, nos séculos XX e XXI. Falamos genericamente da “social-democracia europeia”, mas estamos sempre pensando nas suas três vertentes mais importantes: os partidos social-democratas propriamente ditos, com maior presença na Alemanha e nos países nórdicos; os partidos socialistas, com maior força na França, na Itália e nos países ibéricos; e os partidos trabalhistas, sobretudo o caso inglês, e só mencionamos de passagem os partidos comunistas pelo motivo exposto no próprio artigo. E mesmo no caso das três principais vertentes “social-democratas”, restringimos nossa análise às grandes linhas e diretrizes de suas bancadas parlamentares e de seus governos, reconhecendo que muitas vezes esses governos divergiram da posição de suas direções partidárias, e muito mais ainda, da posição de seus militantes dispersos por uma infinidade de tendências e correntes divergentes.


O Autor: JOSÉ LUÍS FIORI

Professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Economia política Internacional, PEPI. Coordenador do GP da UFRJ/CNPQ, “O poder global e a geopolítica do Capitalismo”. Coordenador adjunto
do Laboratório de “Ética e Poder Global”. Pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis, INEEP. Publicou, “O Poder global e a nova geopolítica das nações”, Editora
Boitempo, 2007 ; “História, estratégia e desenvolvimento”, Boitempo, em 2011 ; e, “Sobre a Guerra”,
Editora Vozes Petrópolis, 2018.


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Bifo: a guerra e a deriva psicótica do Ocidente

(Por Franco Berardi, in Outras Palavras, 06/05/2022)

Na semiótica da guerra, todas as histórias de horror, mesmo as falsas, são eficazes porque produzem ódio e medo.

Por que se surpreender se os EUA lançarem bombas de fósforo em Fallujah ou se os russos matarem prisioneiros indefesos em Bucha?

Estamos falando de crimes de guerra? Mas a guerra é um crime em si, uma cadeia automática de crimes.

A pergunta a responder: quem é o responsável por esta guerra?

Quem a queria, a provocava, a armava?

O nazi-stalinismo russo liderado por Putin, não há dúvida. Mas todos vemos que mais alguém a desejou e a está alimentando ativamente.

Se em fevereiro a União Europeia tivesse convocado uma conferência internacional para discutir as demandas do chanceler russo Sergey Lavrov, a máquina da guerra poderia ter parado. Em vez disso, preferiram colocar lenha na fogueira.

Um delegado ucraniano que participava de conversas com os russos declarou de forma muito franca: “Estou surpreso. Por que a OTAN disse tão cedo que não interviria em caso de guerra? Foi assim que ela estimulou a Rússia a escalar o conflito” (citado em Limes 3/2022, El fin de la paz, La palabra a los pueblos mudos).

Os que participam de uma guerra são incapazes de pensar. Por razões neurocognitivas bastante fáceis de entender, os que fazem a guerra não têm tempo para pensar, eles têm é que salvar suas vidas, eles têm é que matar aqueles que podem atentar contra suas vidas.

E primeiro eles devem silenciar o inimigo interno.

Esse inimigo interno é a sensibilidade do ser humano, a consciência, se quiserem nomeá-la assim. Freud falava disso em um texto sobre a “neurose de guerra” escrito durante a I Guerra Mundial: o inimigo interno se manifesta como dúvida, hesitação, medo, deserção. O inimigo interno é a vontade de pensar.

Agora estão toda a mídia e todo o sistema político determinados a derrotar esse inimigo interno.

Já estamos muito longe no processo de militarização do discurso público e a classe política e jornalística italiana traz disciplinadamente o cérebro à massa nacionalista. Nessa massa é difícil distinguir as vozes de jornalistas de extrema direita e aquelas dos intelectuais de formação trotskista.

O sistema de mídia passou por uma mutação dramática nos últimos dois anos. Durante a pandemia ele foi constantemente mobilizado para fins sanitários. Vinte e quatro horas por dia nos mostravam ambulâncias, aventais verdes, aparelhos de ventilação e, depois de certo ponto, injeções, seringas e mais injeções e mais seringas, num fluxo ininterrupto de ansiedade e intimidação. Alguém previu que esse cerco da mídia médica era o preâmbulo de uma mutação definitiva na mídia. Agora, por vinte e quatro horas, vemos espetáculos aterrorizantes, corpos mutilados, a fuga desesperada e dolorosa de mães e filhos. Vinte e quatro horas por dia testemunhamos a multidão de comentaristas e generais clamando pela guerra e silenciando seu inimigo interno.

O que você faria se morasse em Kiev?

Eu também me perguntei: o que eu faria se morasse em Kiev? Durante dias essa pergunta me assombrou. Meu pai participou da resistência italiana contra o fascismo, disse a mim mesmo, então não seria meu dever apoiar a resistência do povo ucraniano? Não deveria lutar pelos valores que a agressão russa põe em perigo?

Então me lembrei que meu pai não era antifascista quando teve que fugir do quartel de Pádua onde era um simples soldado. O problema nunca havia sido levantado, o fascismo era uma condição natural óbvia para ele, como era para a grande maioria dos italianos. Quando o exército italiano se desfez depois de 8 de setembro, ele fugiu como tantos outros, foi visitar sua família em Bolonha, mas seus pais fugiram da cidade por medo de bombardeios. Então, com seu irmão, ele decidiu fugir para as montanhas próximas, quem sabe por quê. Eles encontraram um grupo de outros evacuados, encontraram alguns guerrilheiros e uniram forças. Para defender sua vida, ele se tornou um partigiano. Conversando com os colegas, parecia-lhe que os mais preparados e generosos eram os comunistas. Assim, ele entendeu que tinham uma explicação para o passado e um plano para o futuro, então se tornou comunista.

Se eu morasse em Kiev e alguém me explicasse que tenho que defender o Mundo Livre, a Democracia, os Valores Ocidentais, palavras com letra maiúscula, eu desertaria. Mas talvez eu decidisse me juntar à resistência para defender minha casa, meus irmãos, palavras com letras minúsculas.

Portanto, não posso responder quando me pergunto se eu participaria da resistência ucraniana, se atiraria em soldados russos ou não. O que eu sei com certeza é que as principais razões pelas quais o “Mundo Livre” chama os ucranianos à resistência são falsas. E igualmente falsa é a retórica dos europeus que nos encorajam a continuar com o show.

O nazismo é uma evolução da humilhação

Um show de horrores desencadeia-se na Europa, como ocorreu na Síria, Afeganistão, Iraque, Líbia, Iêmen por algumas décadas. Mas eram lugares distantes, habitados por pessoas diferentes de nós, na verdade. Para ser mais preciso, habitados por pessoas que odiamos e consideramos inferiores.

Vladimir Putin, que nunca escondeu sua vocação imperial e seus métodos stalinistas quando foi cortejado por nossos presidentes, empresários e jornalistas, desencadeou esta guerra porque a maioria do povo russo reagiu à humilhação dos últimos trinta anos da mesma forma que o os alemães reagiram à humilhação de Versalhes na década de 1930.

O nazismo é uma evolução da humilhação, é uma promessa de redenção agressiva contra a humilhação. E quem quiser conhecer a profundidade da humilhação sofrida pelos russos desde os anos 1990 deveria ler Second Hand Time (O Fim do Homem Soviético, na tradução Brasileira), de Svetlana Aleksievich.

Mas, como diz Xi, “uma única mão não faz barulho”. A mão de Putin não é suficiente. A outra mão é a de Joe Biden, que empurrou os russos e ucranianos para a guerra a fim de alcançar quatro resultados: destruir politicamente a União Europeia, impedir a criação do gasoduto Nord Stream 2, triunfar nas urnas em seu país e derrotar os russos.

Os dois primeiros objetivos foram perfeitamente alcançados.

O projeto Nord Stream 2 foi cancelado pelo governo alemão, por isso agora a Europa terá que se abastecer no mercado norte-americano, onde o combustível custa um pouco mais. De qualquer forma, isso não será suficiente para substituir o gás russo.

Politicamente, a União Europeia esteve sob o comando da OTAN e foi forçada a se identificar como nação, o que é exatamente o oposto do que pensavam os fundadores da UE.

A União Europeia nasceu para sair da obsessão nacionalista do século XX, mas nos primeiros meses de 2022 a OTAN a transformou em nação. E agora a “Nação Europa” está indo para o batismo de fogo da guerra como qualquer outra nação na história passada.

Sobre os outros resultados, a questão se complica, porque a maioria dos americanos desaprova a política externa de Biden (o que nunca havia acontecia antes, nem nos tempos da Guerra do Vietnã, nem da Guerra do Iraque). As preferências eleitorais, de acordo com as últimas pesquisas, não são favoráveis para Biden. É provável que os democratas percam as eleições legislativas de novembro e no futuro próximo um republicano (não sei qual mas não descarto Trump) ganhe as eleições presidenciais.

Quanto ao último resultado que Biden queria alcançar, a derrota da Rússia, as coisas são ainda mais complicadas. Apesar da feroz resistência do povo ucraniano, a Rússia está conseguindo o que pretendia, ou seja, a destruição do exército ucraniano e o controle dos territórios do sudeste e da Crimeia. Que os soldados russos morram aos milhares, e mesmo que os generais russos caiam nos combates, Putin se importa muito pouco. O sacrifício é a alma do místico nacionalista russo, como sabe quem leu Tolstói ou Isaac Babel e Alexander Blok.

Mais tarde, é previsível que o conflito se torne endêmico em território ucraniano e que a Rússia entre numa fase de catástrofe econômica e social.

Mas será que os estrategistas da intransigência anti-Putin refletiram sobre o que significa uma guerra de sucessão na hierarquia militar daquele país que tem seis mil ogivas nucleares?

A vida é um paraíso

De acordo com algumas pesquisas, 83% dos russos apoiam a guerra.

Não acredito, acho que as pesquisas que vêm de Moscou não são confiáveis. Mas é provável que a agressão desfrute de um consenso majoritário.

Uma minoria crescente de jovens russos também está se voltando para as ideias de ultranacionalistas, para quem a guerra na Ucrânia é uma autopurificação da alma russa e o prelúdio de aventuras mais amplas.

“Obrigado, Ucrânia, por nos ensinar a ser russos novamente”, declarou liricamente um idiota chamado Ivan Okhlobystin.

Há uma longa tradição martirológica que descende do espiritualismo ortodoxo, passando por Dostoiévski e se estendendo pelo século XX, reaparecendo em Vassili Grossman e no próprio Alexander Soljenitsyn. Essa vitimização mística é resumida nas palavras do irmão moribundo do monge Zósima em Os Irmãos Karamazov:

“Mãe, não chore, a vida é um paraíso e estamos todos no paraíso, mas não queremos admitir, porque se tivéssemos a vontade de admiti-lo amanhã, o paraíso se estabeleceria em todo o mundo. “

O paraíso de que fala Dostoiévski é a dor, o frio, a miséria, a tortura, enfim, a cruz. O nacionalismo ortodoxo russo ama a dor como prova de proximidade com Cristo na cruz e ama o povo tanto quanto odeia mulheres e homens concretos: “Como os homens são repugnantes”, diz Raskolnikov antes de cometer o crime sem sentido que deve ser cometido precisamente por causa de sua loucura. A ignorância americana encontra a ilusão russa e esse não é um encontro fácil. Os americanos (falo, é claro, da classe que tem poder político e midiático naquele país) nunca foram capazes de entender a diferença cultural, exceto como atraso e inferioridade a ser explorada, submetida ou corrigida com bofetadas.

Mas a diferença cultural russa permanece irredutível em sua mistura de universalismo salvífico e culto do sofrimento sofrido e infligido.

A loucura russa e a ignorância americana arrastaram a Europa para um precipício no qual agora parece difícil se segurar.

O país líder do Mundo Livre

No país que lidera o Mundo Livre (com letras maiúsculas, por favor) a polícia mata regularmente três pessoas por dia, geralmente negros.

Em 2020, após a revolta do Black Lives Matter, quando se tratava de conquistar o voto dos negros e da esquerda, o Partido Democrata prometeu reduzir o financiamento da polícia e investir pesadamente para melhorar as condições de vida. Claro que essas promessas não foram cumpridas: nenhum cancelamento de dívida estudantil, etc. Mas acima de tudo, nenhuma redução no orçamento policial. Pelo contrário, o financiamento aumentou.

Na fronteira mexicana, o retrocesso em relação aos imigrantes atingiu níveis que nos fazem lamentar os dias de Donald Trump.

Por uma razão ou outra, o apoio a Biden caiu para os níveis mais baixos. Após a derrota em Cabul, Biden teve que mostrar que, apesar de ter perdido a guerra contra o país mais pobre do mundo, os Estados Unidos poderiam vencê-la contra a Rússia. Por isso, ele não concordou em levar em consideração os seguidos pedidos de Sergei Lavrov, que repetiu muitas vezes que a Rússia queria discutir sua segurança, suas fronteiras e, portanto, a expansão que a OTAN vem buscando nos últimos 25 anos.

Como os velhos costumam fazer quando se rebelam contra sua dolorosa impotência, Biden decidiu enfrentar os russos linha-dura e preparar o confronto com Putin. Mas no final os ucranianos ficaram sozinhos contra o criminoso stalinista-czarista do Kremlin. Os apoiadores euro-americanos da resistência ucraniana fornecem as armas e o apoio da mídia. Mas são os ucranianos que estão morrendo, são eles que compreensivelmente foram empurrados para posições ultranacionalistas por uma longa história de opressão.

Uma guerra entre brancos precipita uma nova geopolítica do caos

Além da psicopatologia da demência senil, que desempenha um papel essencial no colapso psicótico da raça branca (russo-europeu-americana), qual é a motivação estratégica para esta guerra? Biden é categórico: o mundo livre deve ser defendido, ou seja, o Ocidente do qual ele decidiu ser o líder novamente. Defender o Ocidente após cinco séculos de colonização, violência, roubo sistemático e racismo não é uma tarefa fácil, e a guerra entre brancos precipitou o declínio, devolvendo o Ocidente ao colapso.

O que começou em 24 de fevereiro é uma “guerra interbranca”, na qual a raça branca está lutando contra a raça branca, e dessa guerra surgirá uma nova geopolítica pós-global.

Quando em 1989 o mundo livre derrotou o campo socialista que abriu caminho para a privatização do mundo e a imposição financeira do neoliberalismo, os ideólogos se perguntaram se essa nova ordem seria irrevogável e eterna e, portanto, se a história havia acabado, com todas as suas consequências, suas revoltas e suas guerras.

Francis Fukuyama falou um tanto precipitadamente a esse respeito, e os liberais democratas repetiam: democracia e mercado eram um par imbatível. Juntamente com a lei de ferro do mercado, a palavra democracia logo se tornou nonsense: a cada quatro ou cinco anos os cidadãos do mundo livre podiam eleger seus representantes, mas seus representantes não podiam fazer nada além de aplicar as leis do mercado, cuja lógica automática não podia ser solapada pela vontade política.

Esse teatro não poderia durar muito e a partir de 2016 a democracia foi reduzida a uma piada.

Alguém um pouco menos estúpido que Fukuyama escreveu um livro para explicar que uma era de conflito entre civilizações havia começado. Em O Choque de Civilizações e a Recomposição Mundial, Samuel Huntington delineou a geopolítica desse choque, que em sua opinião deveria ter colocado um certo número de blocos de civilização (talvez sete ou mais) uns contra os outros.

De certa forma, a teoria de Huntington viu na identidade (étnica, religiosa, cultural) a linha divisória entre as forças em conflito, e antecipou as guerras norte-americanas contra os países islâmicos, e o embate vindouro entre o Ocidente e o mundo chinês. Huntington não estava tão errado quanto Fukuyama, mas sua teoria banaliza um processo muito mais complexo.

O triunfo da democracia liberal coincidiu com a privatização geral da esfera social e a precarização geral do trabalho. Seu efeito foi o desmantelamento da “civilização social”, uma forma de sociedade em que os interesses da maioria são protegidos por normas políticas e, sobretudo, por uma educação que permite suspender a lei natural da selva.

Junto com muitas outras coisas, o totalitarismo capitalista destruiu a escola pública. Os processos educativos que na segunda metade do século XX motivaram a vida humana num sentido ético e solidário, promovendo o humanismo e o igualitarismo, foram substituídos por processos formativos desumanizantes: publicidade onipresente, palpitante, incontornável; digitalização dominada por grandes empresas globais que controlam a atividade cognitiva de humanos associados.

Assim, produziu-se o mais fantástico efeito de conformismo já conhecido: a ignorância e a superstição publicitária eliminaram todas as regras políticas e todas as formas culturais que não coincidiam com a imposição do lucro.

A financeirização abrangente da economia, possibilitada pelas tecnologias digitais, possibilitou o domínio definitivo do abstrato sobre o concreto.

O capitalismo financeiro apareceu como um sistema automático sem alternativas, o trabalho precário mostrou-se incapaz de gerar solidariedade e o futuro parecia definitivamente encapsulado no presente automatizado.

Nesse sentido, Fukuyama estava certo: a história havia acabado, a miséria psíquica se espalhava como um violento incêndio florestal e a subjetividade estava sujeita a uma ditadura psicofarmacológica maciça e a uma datificação digital generalizada.

Então veio a Catástrofe. Após as convulsões globais do outono de 2019 (as revoltas globais de Hong Kong, Santiago, Quito, Teerã) o vírus chegou.

E o vírus criou as condições para o colapso psíquico que agora perturba o cenário mundial.

O caos viral bloqueou a circulação de mercadorias e a continuidade do trabalho em grande parte do mundo, mas agora a ameaça de guerra perturba a cadeia concreta de produção-distribuição-consumo e a ameaça atômica perturba a imaginação deprimida, como um pesadelo sobre o qual acordamos apenas para descobrir que o sonho ruim é realidade.

Vingança

A guerra entre brancos, paradoxalmente, faz com que o mundo se divida em linhas inéditas, que não têm muito a ver com ideologia ou geopolítica, e têm mais relação com a história da colonização e da exploração racial.

Quando a proposta de condenação da invasão russa foi apresentada à ONU, os países mais populosos – Índia, Paquistão, Indonésia, África do Sul – juntamente com a China se abstiveram. Pela primeira vez, delineia-se um cenário geopolítico que percorre a linha de fratura colonial. Impérios brancos do passado colidem ou se unem, enquanto o mundo não-branco aparece no horizonte.

A Rússia é o coringa, o louco, o elemento interno que funciona como gazua para perturbar o mundo branco.

Outros elementos malucos são vistos por aí, você nem precisa nomeá-los. Outros ainda vão ficar loucos.

guerra interbranca na Ucrânia é o catalisador de um processo de fratura entre o sul e o norte do mundo, do qual estamos vendo apenas os primeiros movimentos.

Às vezes me lembro do presidente Mao, de quem nunca fui seguidor, mas que disse coisas interessantes. Lembro que nos anos 1960 Mao teorizou que os subúrbios logo estrangulariam as metrópoles.

A teoria foi particularmente apoiada por seu leal escudeiro Lin Piao (que mais tarde foi eliminado enquanto pilotava um avião, em 1971),

Mas a visão do Grande Timoneiro deve ser entendida como uma aliança estratégica entre os trabalhadores do mundo industrializado e a população proletária ou camponesa dos países periféricos. O lema da Internacional Comunista “Trabalhadores do mundo, uni-vos!” foi reformado pelos maoístas: “Proletários e povos oprimidos, uni-vos!”

Naqueles anos, o colonialismo parecia retroceder e, em 1975, a derrota dos americanos no Vietnã parecia o momento culminante de um processo de emancipação.

Mas as coisas não saíram exatamente como esperávamos: o colonialismo derrotado ressuscitou em novas formas como dominação econômica, como o extrativismo, como a colonização cultural.

A fórmula “o campo estrangulará as cidades” pode ser considerada, em retrospectiva, como uma alternativa estratégica à aliança entre trabalhadores industriais e povos empobrecidos pelo colonialismo.

Se tudo correr bem, disse Mao, haverá uma aliança entre os trabalhadores do norte e os camponeses do sul. Se algo der errado e os trabalhadores do norte forem derrotados, serão os povos oprimidos que estrangularão o capitalismo imperialista.

Espero que você me perdoe pela simplificação caricatural, mas Mao não estava brincando. A Longa Marcha foi isso: o campo cercou as cidades até que ele tomou o poder em um país predominantemente camponês.

Os chineses guardam a memória da humilhação que as potências ocidentais em ascensão infligiram ao Império Celestial em meados do século XIX. Neste momento, os chineses voltam a se propor como ponto de referência para os povos empobrecidos pelo colonialismo, submetidos à exploração e humilhação por dois séculos, mas que hoje ameaçam a metrópole branca de várias maneiras: migrações, tribalismos nacionalistas, tendências de ruptura do papel do dólar como moeda global.

A “boa” perspectiva estratégica falhou porque o comunismo operário foi derrotado pelo capitalismo global neoliberal. Assim, apenas o segundo, o pior, permanece: nacionalismos ressurgidos, vingança.

Por enquanto, a vingança está ocorrendo dentro do mundo branco, com o conflito entre a Rússia e o Mundo Livre. Mas o próximo capítulo é o ressurgimento agressivo dos poderes que foram subjugados nos séculos passados.

O Ocidente será capaz de sobreviver a este duplo ataque que aumenta a persistência da hostilidade islâmica, pronta para ressurgir no Oriente Médio, mas também nos subúrbios da Europa?

Somente o internacionalismo da classe trabalhadora poderia ter evitado que o confronto com o colonialismo passado e presente terminasse em um banho de sangue global: nas décadas de 1960 e 1970, uma parte decisiva dos trabalhadores do Ocidente industrial e dos proletários dos povos oprimidos pelo colonialismo se reconheceram no mesmo programa comunista. Mas o comunismo foi derrotado, e agora temos que enfrentar a guerra de todos contra todos em nome do nada.

Precipício europeu

Neste precipício geral, deve-se tentar imaginar a evolução do precipício europeu. Como se dará o processo de desintegração social quando a economia for paralisada e a sociedade empobrecer de uma forma impensável até então? Quem vai liderar as prováveis ​​revoltas europeias?

No momento parece certo que as forças predominantes serão nacionalistas e psicóticas, e vem à mente a profecia de Sandor Ferenczi, que em um artigo de 1918 descartou que uma psicose de massa fosse curável.

Este é o desafio de hoje: como tratar uma psicose que ultrapassou seus limites individuais e invadiu a esfera da mente coletiva?

Não podemos responder a essas perguntas hoje de forma coerente, mas devemos nos fazer essas perguntas com urgência, pois a subjetividade social oscila entre uma epidemia depressiva e uma psicose de massa agressiva, e somente uma cura efetiva para essa condição patológica pode impedir o holocausto terminal.

Encontrar essa cura eficaz é uma tarefa a altura do desafio presente.


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Nas entranhas do monstro

(Estátua de Sal, 16/05/2022)

Este é um documentário que mostra o interior de um das agrupamentos mais racistas e sanguinários surgidos a partir do golpe de 2014 desferido contra o governo eleito da Ucrânia. O vídeo tem legendas em português. Para ativá-las, é preciso ir ao botão de configurações, no lado inferior direito (na forma de um grande asterisco) e clicar em legendas em português.

Depois, os fanáticos da bandeirinha azul e amarela, não digam que não sabiam que mandar armas para a Ucrânia é colocar armas nas mãos de nazis e perigosos xenófobos, que é o que o Ocidente está a fazer. Como não sou ingénuo e não acredito em acasos nem em bruxas, se calhar o plano dos EUA é mesmo esse: armar os nazis ucranianos para eles se disseminarem pela Europa, disfarçados de refugiados ou não, e assim tomarem conta do que resta ainda dos decadentes e vassalos governos europeus.

Estátua de Sal, 16/05/2022