Uns têm a fama, mas outros têm o proveito!

(João Paulo Santos, in Facebook, 13/05/2022)

Até agora, os únicos que utilizaram armas atómicas, e sem quaisquer preocupações relativas aos seus efeitos nefastos, foram os EUA!

A Finlândia, até ao momento, tem-se mantido neutral e, que eu saiba, tem corrido tudo bem!

Recentemente e já depois da invasão da Ucrânia, a NATO foi fazer exercícios militares, com simulações com armas nucleares, para a Finlândia, ou seja, nas barbas da Rússia!

Mas, com certeza, muitos terão uma justificação para a NATO ter realizado esses exercícios num país que não integra essa organização!

E, claro está, que considerarão que isso não consistiu em qualquer provocação!

É como aqueles indivíduos que vão para a porta dos empregos das esposas dos árbitros ou para a porta das escolas dos filhos dos mesmos e não estão a provocar ninguém, nem a intimidar ninguém, porque apenas estão no seu legítimo e democrático direito de passearem onde muito bem entenderem!

E, cercarem a Rússia com uma série de bases da NATO, também não constitui qualquer provocação!

Aliás, se os vizinhos desses, que não veem qualquer acto provocatório, começassem a instalar armamento nas suas casas e a direcioná-lo para a casa deles, estes, estou convicto, que considerariam esse acto perfeitamente amistoso, porque apenas se queriam defender de uma eventual invasão de propriedade alheia da sua parte!

Quanto à Finlândia ter a liberdade de aderir à NATO, como se costuma dizer a nossa liberdade termina onde começa a dos outros e, por vezes, a liberdade tem limitações, em defesa de um interesse maior (vejam-se as limitações impostas à Alemanha, para defesa da Paz na Europa e no Mundo)!

Ora, o interesse da manutenção da Paz deve prevalecer sobre esse direito da Finlândia aderir à NATO, porque pode pôr em causa essa mesma Paz, visto que tal adesão pode ser considerada como um acto provocatório por parte da Rússia!

Claro está que muitos dirão que isso é uma desculpa, que a Rússia não tem o direito de exigir que a Finlândia se mantenha neutral e esta última tem todo o direito e liberdade de aderir à NATO!

Mas assim sendo, por que é que não se aplica esse direito e essa liberdade a todos os Estados soberanos?

Sim, por exemplo, por que é que Estados soberanos no continente americano não podem instalar bases militares da Rússia?

Por que é que os EUA não aceitam que a Rússia instale qualquer base militar num país do continente americano?

E atenção, nem estamos a falar nas barbas dos EUA, ou seja, num país vizinho como, por exemplo, o México!

Quantas bases da Rússia existem no continente americano?

E quantas bases chinesas existem nesse continente?

Então os países do continente americano não têm a liberdade de estabelecer relações de cooperação política, económica e militar com quem muito bem entenderem?

E quantas bases da NATO, subentenda-se dos EUA, existem na Europa?

Então o princípio de que os Estados soberanos têm todo o direito e a liberdade de decidirem o seu futuro só se aplica aos países que estão alinhados com os EUA?

Então a Rússia não pode ser contra a adesão da Finlândia à NATO, que levará à instalação de mais uma base militar num país que faz fronteira com ela, mas os EUA já têm voto na matéria e já têm o direito de exigir, não só aos países que fazem fronteira consigo, mas a todos os outros do continente americano, que não instalem qualquer base Russa?

E quem diz russa, diz chinesa, japonesa, paquistanesa, indiana, ou seja, de qualquer país não-alinhado com os EUA!

Sinceramente, este conceito de liberdade, está muito distorcido, porque não tem em conta outro princípio fundamental, o da igualdade!

Mas, pelos vistos, para alguns, quando o sol nasce, não é para todos!

Alguns, aquilo que permitem aos EUA, já não permitem à Rússia, em mais uma manifestação completamente distorcida do princípio da igualdade!

Quem é católico e cristão devia ser o primeiro a nunca se esquecer da ética da reciprocidade, também chamada regra de ouro ou regra áurea, que é uma máxima moral ou princípio moral que pode ser expressa como uma injunção positiva ou negativa:

“Cada um deve tratar os outros como gostaria que ele próprio fosse tratado” (forma positiva);

“Cada um não deve tratar os outros da forma que não gostaria que ele próprio fosse tratado” (forma negativa).

Quando esta velha máxima é colocada na gaveta, gera injustiças e indignação e, por regra, é o início de problemas ou de conflitos, porque, como já dizia o saudoso Mário Soares, todos têm direito à justa indignação!

Realmente, não há argumentos para que os EUA tenham um regime de excepção e de privilégio em relação aos outros países!

Mas é verdade, os EUA são os bons e os russos, os chineses e muitos outros são os maus, ou seja, os EUA são os polícias e os outros são os ladrões!

Portanto, como os EUA são os polícias do mundo, todas as suas actuações são positivas e benéficas e as actuações de todos os outros, como são ladrões, são negativas e maléficas!

E os EUA, como são os polícias do mundo, mesmo contra a vontade da maioria dos países, têm carta-branca para actuar quando quiserem e como quiserem, mesmo sem mandato da ONU, tal como sucedeu no Iraque!

Portanto, no Iraque, a ONU não mandatou os EUA para invadi-lo, mas mesmo assim estes fizeram-no, com o pretexto da existência de armas químicas, que se veio a comprovar que não existiam, como sempre afirmara Saddam Hussein e os inspectores da ONU que se deslocaram ao local!

Claro que todo o pretexto tem um objectivo subjacente e todos sabemos qual foi!

O da apropriação ilegítima dos recursos naturais do Iraque, por parte dos EUA, que passou a deter toda a produção petrolífera!

Na persecução desse seu objectivo encapotado, os EUA provocaram milhares e milhares de mortos, em número muito superior e incomparável com os mortos na Ucrânia!

Os EUA destruíram um país, cometeram imensos crimes de guerra e inúmeras atrocidades!

Nessa altura, ninguém ficou indignado com a invasão ilegítima dos EUA?

Ninguém ficou indignado com a morte de milhares de pessoas, nomeadamente, de civis, incluindo milhares de crianças?

Ninguém ficou indignado com a destruição de um país?

Ninguém ficou indignado com a apropriação ilegítima, por parte dos EUA, do recurso natural precioso do Iraque, o seu petróleo?

Ninguém ficou indignado com os crimes de guerra e as atrocidades cometidas pelos EUA?

Ninguém quis levar os responsáveis por esses crimes e essas atrocidades ao Tribunal Penal Internacional para serem julgados?

É verdade, os EUA não aceitam a jurisdição desse Tribunal, onde querem que todos sejam julgados e condenados, mas não admitem que os seus cidadãos sejam lá julgados!

Eis mais uma das violações grosseiras do princípio da igualdade e da ética da reciprocidade!

Ninguém defendeu a aplicação de sanções aos EUA?

Ninguém afirmou que o Presidente dos EUA era um assassino e que os EUA tinham ideias expansionistas e predadoras?

A imprensa ocidental não ficou indignada com os EUA?

Muitos, sendo incapazes, de reconhecer esta realidade e de a justificar, têm a distinta lata de afirmar o seguinte: “Mas a invasão passada do Iraque não pode justificar a invasão presente da Ucrânia”!

Que hipocrisia!

É verdade que uma invasão não pode justificar outras!

É verdade que um comportamento incorrecto não pode justificar outros.

Mas que legitimidade ou autoridade moral tem quem invadiu, e continua a invadir, ou quem teve, e continua a ter, comportamentos incorrectos para criticar quem invade ou quem tem comportamentos incorretos?

Lá voltamos à ética da reciprocidade, como se pode exigir dos outros aquilo que não se exige de si mesmo?

Acresce que, a seguir à invasão do Iraque, em todos os mandatos de Presidentes dos EUA, com a honrosa excepção do mandato de Donald Trump, verdade seja dita, os EUA invadiram/bombardearam vários Estados soberanos e continuam a fazê-lo actualmente e a apoiar outros que o fazem!

Os EUA intervieram na Sérvia, no Afeganistão, na Líbia, na Síria e apoiam a actuação de Israel na Palestina e da Arábia Saudita no Iémen!

Os EUA, esses grandes defensores dos direitos humanos, têm as suas mãos manchadas de sangue, pelos milhões de mortes causadas, directa ou indirectamente, no Iraque, no Afeganistão, na Líbia, na Síria, na Sérvia, na Palestina e no Iémen, isto para não recuar no tempo antes da invasão do Iraque, basta lembrar toda a actuação dos EUA nos Países sul americanos, nomeadamente, no Chile, em que apoiaram a ditadura e os milhares de mortos causados pelo ditador Pinochet!

Mas em relação aos EUA, os paladinos da defesa dos direitos, liberdade e garantias e da defesa dos direitos humanos não se indignam, nem exigem a aplicação de sanções!

Não defendo a invasão da Rússia, embora não me fique pela constatação das consequências e procure analisar as suas causas, mas indigna-me e revolta-me esta dualidade de critérios e esta falta de ética da reciprocidade, de quem julga, subjectivamente, em função dos protagonistas e não, objectivamente, em função dos actos por eles praticados!

Para estes, os actos são bons ou maus, não em si mesmos, mas em função de quem os pratica!

Cristo expulsou os vendilhões do templo que, ao contrário do que se quer fazer crer, não eram simples vendedores!

Na verdade, os vendilhões eram pessoas respeitáveis e importantes da época, que ninguém ousava pôr em causa, mas que Cristo pôs, por serem uns verdadeiros hipócritas!

E, se Cristo cá voltasse, expulsaria, novamente, os vendilhões, os falsos profetas, os fariseus e os lobos vestidos com pele de cordeiro dos tempos modernos, que não obedecem à ética da reciprocidade, que não se regem por princípios, valores e causas, mas apenas pelos seus interesses pessoais, não olhando a meios para atingi-los, porque para eles os fins justificam os meios, estilo “América First” e os outros que se fod..!


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Israel tem o direito de existir?

(Alexandre Guerreiro, in Publico, 18/05/2021)

É tempo de a comunidade internacional decidir de uma vez por todas o futuro do conflito israelo-palestiniano e impedir que se arraste por mais gerações: a única solução exequível para a paz só pode passar pelo reconhecimento oficial da Palestina como Estado soberano e represálias sólidas contra Israel.


(Publico este texto, que já é de 2021 por duas razões: a) Pela sua atualidade tendo em conta o assassínio recente por Israel de uma jornalista e o ataque subsequente ao próprio funeral da vitima; b) o facto de, provavelmente, se fosse hoje, o Publico não o publicaria, devido à histeria reinante na comunicação social censurando tudo o que possa “beliscar” a imagem dos EUA e dos seus “protegidos”.

Estátua de Sal, 14/05/2022)


A recente sucessão de ataques de Israel contra a Faixa de Gaza voltou a concentrar as atenções da comunidade internacional para um problema discretamente alimentado pelas potências europeias desde a I Guerra Mundial e formalmente debatido pela ONU desde 1947, quando a Assembleia-Geral adoptou, por maioria simples e através da Resolução 181 (II), o relatório da Comissão Especial das Nações Unidas para a Palestina (UNSCOP). Saliento a importância deste documento pelo facto de ter sido através dele que foi proposta a partição da Palestina e a consequente criação de dois Estados (um árabe e um judaico), bem como a definição de um regime especial para a cidade de Jerusalém.

Quando o Conselho de Segurança adoptou posteriormente a Resolução 69 (1949) que reconheceu Israel como um “Estado amante da paz, que está capacitado para cumprir as obrigações consignadas na Carta”, a ONU deu o primeiro passo oficial no sentido de reconhecer Israel como Estado soberano, procurando, desta forma, impor a legalidade de um projecto jurídico-político num território que durante séculos havia estado sob o domínio muçulmano.

Na prática, a solução jurídica da então “nova ordem mundial” trazida pela recém-criada ONU constituiu uma forma alternativa de conquista territorial e reconhecimento de soberania através da legalização da colonização. Justifica-se, numa primeira nota, sublinhar que o Estado de Israel foi um projecto fiel à receita que inspirara ao longo dos anos anteriores novos Estados no Médio Oriente, como o Iraque, o Líbano e a Síria.

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Todavia, ao contrário destes – cuja criação assentou em motivações estritamente geopolíticas das potências ocidentais e ignorou as características socioculturais e religiosas das comunidades que povoavam os respectivos territórios –, Israel funcionou como tubo de ensaio de formação de um Estado a partir de um conceito de nação discutível e com base na crença de que os judeus têm o direito histórico ao território palestiniano. Na prática, a génese do argumento em favor da criação do Estado de Israel não difere da natureza que inspirou organizações como o Estado Islâmico a alimentar uma agenda expansionista de conquista territorial: a recuperação das antigas possessões muçulmanas e que consideram ser historicamente islâmicas.

Assim, as acções desenvolvidas durante décadas por personalidades pró-sionistas junto de representantes políticos ocidentais tiveram como consequência o recurso ao Direito Internacional como forma de provocar alterações ao curso das dinâmicas naturalmente desenvolvidas ao longo de séculos e que justificaram a transferência do exercício da soberania sobre um dado território entre judeus, cristãos e muçulmanos.

Volvidos 72 anos desde a adopção da Resolução 69, parece evidente que, apesar do não-reconhecimento oficial por parte de um grupo significativo de Estados, Israel consolidou a sua existência como Estado soberano e não pode ser questionada a sua existência. Será mesmo inconcebível e inexequível uma qualquer solução para o conflito que não reconheça Israel como Estado. Porém, é importante não esquecer que, em Direito Internacional, nenhum Estado, enquanto entidade jurídico-política, tem um “direito de existir” por si só: os povos é que têm o direito à autodeterminação e o chamado “direito sagrado à paz” (como proclama a Declaração dos Direitos dos Povos à Paz).

É aqui que entram os direitos do povo palestiniano. Primeiramente, porque o direito natural em que os sionistas se apoiam para justificar a formação e o reconhecimento do Estado de Israel há muito deixou de ter uma natureza reconhecida como suficiente para merecer uma tutela jurídica superior face ao direito à autodeterminação e à paz de terceiros. Depois, porque é impossível conceber um sistema em que quem povoa e domina um dado território durante séculos possa ser condicionado ou despojado do seu direito a existir enquanto Estado para se favorecer a concretização de uma autodeterminação que se formou apressada e artificialmente através de elevados fluxos migratórios organizados e inspirados por uma missão de recuperação do território palestiniano.

Falamos, portanto, de colonização, em concreto de uma colonização judaica cuja violência está sobejamente documentada pela forma como se impôs no terreno para acelerar o crescimento e a afirmação global do Estado de Israel, o que incluiu atentados terroristas, a obtenção de influência em Estados com poder de decisão e a emergência da Doutrina Sharon com o consequente Plano Yinon. Por tudo o que tem sucedido desde 1948, as notícias que nos chegam sucessivamente sobre as relações entre Israel e Palestina não permitem olhar para Israel como “Estado amante da paz, que está capacitado para cumprir as obrigações consignadas na Carta”. Israel não cumpre as obrigações consignadas na Carta nem as decorrentes de costume ou tratados internacionais, uma vez que insiste em cometer crimes no seu território, na Cisjordânia e noutros Estados da região.

Neste quadro, além do processo que enfrenta no Tribunal Penal Internacional e das execuções selectivas conduzidas através de acções encobertas contra quadros políticos, militares e académicos de Estados que Israel entenda constituírem uma ameaça à sua existência, é inegável o apartheid instituído contra a população árabe, o que constitui um crime contra a humanidade à luz do Direito Internacional. É também de assumir que o facto de a Palestina já ter alcançado a qualidade de Estado Não-Membro Observador da ONU e Estado Parte no Estatuto de Roma permite qualificar a ocupação e os ataques militares israelitas como acto de agressão e ainda a política de colonatos, no 6.º parágrafo do artigo 49.º da IV Convenção de Genebra (1949), como crime de guerra. Finalmente, os ataques deliberados contra infra-estruturas e meios de órgãos de comunicação e contra áreas onde se encontram refugiados e deslocados internos não oferecem dúvidas quanto ao facto de constituírem crimes de guerra por serem intencionalmente dirigidos contra alvos não militares.

No final, num contexto evidente de ocupação e colonização de um Estado soberano de facto como é a Palestina, mesmo os mais conservadores que se recusem a reconhecê-lo não podem ignorar o conjunto de resoluções adoptadas pela Assembleia-Geral da ONU nas décadas de 1960 e 1970 e que expressamente excluem a ilicitude no recurso a “todos os meios necessários” à disposição dos povos “contra as potências coloniais”. Na prática, mesmo que a Palestina não fosse um Estado soberano, seria sempre reconhecido ao seu povo o direito inerente à legítima defesa como se de um Estado se tratasse, pelo que o recurso às armas contra Israel seria sempre legítimo e lícito.

Por tudo isto, é tempo de a comunidade internacional decidir de uma vez por todas o futuro do conflito israelo-palestiniano e impedir que se arraste por mais gerações: a única solução exequível para a paz só pode passar pelo reconhecimento oficial da Palestina como Estado soberano e represálias sólidas contra Israel, o que teria sempre de incluir a responsabilidade criminal dos altos responsáveis por crimes internacionais cometidos contra a população árabe da região.


O autor é Doutorado de Direito Internacional Público e Analista de Justiça e Segurança da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Autor dos livros “A Resistência dos Estados Africanos à Jurisdição do Tribunal Penal Internacional” e “O Islão, o Estado Islâmico e os Refugiados: quebrar mitos e desvendar mistérios”


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Tempos e comportamentos degradantes. II – E, no entanto, ele existe

(José Goulão, in AbrilAbril, 14/05/2022)

 O batalhão Azov, apoiado pela NATO e pelas lideranças da UE e dos EUA, e tratado pelos “mainstream media” ocidentais como «nacionalistas ucranianos» ou «admiradores de Stepan Bandera», usa o símbolo nazi “Wolfsangel” na sua bandeira e uma das tropas de choque preferidas do governo de Kiev, no Leste como no resto do país.

As posições das autoridades portuguesas e da casta política dominante perante a guerra na Ucrânia, fundidas na matriz estrangeirada e inquisitorial, acéfalas, hipotecando até a segurança, a qualidade de vida e o direito dos portugueses a uma vida decente marcam uma viragem histórica e revoltante ao nível nacional.

Esta ruptura vinha-se adivinhando a partir do momento em que a fiscalização constitucional passou a ignorar a Constituição da República e o carácter fundamental antifascista das suas origens ao permitir a legalização de organizações aferradas ao passado salazarista.

A situação actual representa, contudo, uma alteração qualitativa na sociedade, aquela em que, sempre com base em «compromissos internacionais» nos quais os portugueses não foram tidos e achados, a clique oligárquica dominante tenta ostensivamente soterrar o 25 de Abril; não hesitando, para isso, em dar todo o espaço do mundo aos revanchistas que nunca desistiram de humilhar e aviltar a Revolução enxovalhando os seus valores fundadores e também os patriotas que arriscaram e deram a vida por eles. Com a agravante de esses mesmos revanchistas e os que se foram tornando seus cúmplices ao longo de quase cinco décadas não hesitarem em admitir a interferência nazi internacional na tentativa de esmagamento dos valores que formataram a democracia portuguesa com características únicas. Essas particularidades distinguiam-na ainda dos modelos corrompidos das democracias (neo) liberais funcionando dentro de um espaço político único que determina a exclusão de projectos diferentes, oprime a diversidade, apaga a História, trucida o patriotismo e assume cada vez mais tendências autoritárias com espírito totalitário. Agora, em Portugal, as diferenças esbateram-se mais um pouco e sobrevivem sobretudo nas memórias e na coragem de acreditar dos que ainda não têm a cabeça em formato de ecrã de televisão.

O golpe profundo no 25 de Abril foi dado durante as comemorações deste ano e os desenvolvimentos degradantes prosseguem com as atitudes que estão a ser tomadas pelos órgãos de poder, principalmente desde que entregaram o epicentro das comemorações – foi assim que a manobra funcionou – a um indivíduo comprometido com um aparelho nazi que domina a Ucrânia Ocidental e funciona como centro de expansão de correntes e organizações nazifascistas através da Europa, como vamos percebendo entre nós. E que serve o enraizamento ainda mais profundo do neoliberalismo globalista na desesperada tentativa de sobrevivência através de uma espécie de último recurso: o regresso às origens através do suporte da economia totalitária por poderes políticos ditatoriais. Exemplos também circulam entre nós.

Vamos a factos, e apenas a factos, sobre o indivíduo em causa, Volodymir Zelensky, e o seu regime de base nazi em vigor na Ucrânia desde 2014, muitos anos antes da invasão militar russa do país.

O poder político de Kiev é sustentado por uma nuvem de organizações e indivíduos nazis e assenta na identificação plena de um nacionalismo xenófobo com a herança nazi que remonta ao período da própria ascensão do nacional-socialismo na Alemanha. O seu desenvolvimento centrou-se originalmente na ideia de independência assumida contra o poder soviético em finais dos anos trinta e na primeira metade dos anos quarenta do século passado e teve então como alvos principais os polacos, judeus e resistentes soviéticos, vítimas de carnificinas em massa cometidas por várias organizações nacionalistas ucranianas em parceria com as tropas invasoras hitlerianas.

Os nazis ucranianos de hoje – nazis mesmo, não neonazis nem neofascistas porque as suas referências em termos de figuras veneradas e acções concretizadas remontam aos tempos da colaboração com Hitler – viraram as miras contra tudo o que seja «russo» ou «pró-russo» em nome da defesa de alegada pureza de sangue e da superioridade branca. Andriy Biletsky, fundador de várias das actuais organizações nazis, entre elas o partido Svoboda e o Movimento/Batalhão Azov, incorporado na Guarda Nacional, teorizou sobre essas matérias e também sobre a necessidade de promover uma «cruzada branca»; as ideias do «führer branco», como Biletsky é conhecido, servem de cartilha nos campos de juventude organizados por entidades estatais, geridos pelo Movimento Azov e nos quais é ministrado treino militar a adolescentes e pré-adolescentes. Os conteúdos xenófobos defendendo a suposta superioridade genética sobre os russos, considerados «sub-humanos», fazem parte dos livros escolares oficiais, transformados em instrumentos doutrinários do regime de apartheid.

Estas ideias, tornadas dominantes nos círculos do poder de Kiev através de mecanismos bem pouco democráticos, estiveram na origem da guerra lançada pelo poder resultante do golpe da Praça Maidan, em 2014, contra as regiões do Centro e Leste do país habitadas maioritariamente por ucranianos de origem russa. No espírito e na prática trata-se de uma tentativa de limpeza étnica que se prolonga há oito anos, por muito que a evocação desta realidade contrarie dirigentes políticos e diplomatas a quem compete «vender» uma imagem democrática ao Ocidente, uma preocupação que, afinal, nem tem razão de ser tal a compreensão perante tudo o que se passa a partir da capital ucraniana.

Na campanha eleitoral de 2019, em que Zelensky defrontou na segunda volta Poroshenko – presidente saído do golpe de Maidan, responsável pelo desencadear da guerra contra as populações a Leste – ousou dizer que trabalharia pela paz no Donbass através da aplicação dos Acordos de Minsk e recebeu um esmagador apoio no Centro, Sul e Leste do país, com 80-90% dos votos em Lugansk, Donetsk, Kharkiv ou Odessa. Depois de eleito, rapidamente mudou de ideias: numerosas reportagens independentes explicam que os círculos de poder nazis ameaçaram o presidente de lhe retirar o mandato e talvez algo mais. Remédio santo.

De então para cá não só as amarras nazis condicionam o comportamento do ex-comediante protegido do oligarca nazi Ihor Kolomoisky como também os tutores ocidentais o impedem de acabar com a guerra através de negociações. Trata-se de fazer cumprir a estratégia de Washington e Bruxelas de forçarem Moscovo a um conflito prolongado como forma de «enfraquecer a Rússia», afinal o grande objectivo imperial em nome da sobrevivência da unipolaridade. Os ucranianos, de Oeste ou Leste, são o que menos importa no seu papel de carne para canhão.

Não existe nazismo na Ucrânia ou a sua presença é insignificante, garantem os dirigentes ocidentais tentando disfarçar as mãos sujas da cumplicidade com uma realidade que compromete o seu discurso oficial. Além do cenário político já enunciado, a insuspeita agência Reuters testemunha que os corpos militares nazis e os mercenários estrangeiros que eles enquadram dentro das forças armadas ucranianas totalizam pelo menos cem mil efectivos.

Além disso, qualquer unidade do exército integra elementos de controlo político pertencentes aos batalhões nazis, que se têm distinguido, por exemplo, na oposição a rendições baleando pelas costas os militares prontos a depor as armas; e também pela utilização de zonas residenciais e do sequestro de civis como escudos humanos (à maneira do Isis) para tentar evitar ataques inimigos, práticas que são proibidas pelas convenções internacionais.

A verdade é que o idolatrado Zelensky – imagem fabricada por 150 agências de comunicação internacionais pagas a preço de ouro – não se fez rogado na caminhada nazi: proibiu a língua russa, fechou os meios de comunicação em russo, ilegalizou todos os partidos da oposição, confirmando assim que as organizações nazis fazem parte da estrutura de poder ao deixá-las incólumes; montou uma operação militar de blitzkrieg para «retomar» as regiões Leste, frustrada pela antecipação da invasão russa; elimina regularmente adversários políticos; encerrou estações de televisão e obrigou as remanescentes a terem o mesmo padrão de informação, determinado pelo governo – uma coisa que, quando praticada noutras paragens, costuma chamar-se censura; faz circular uma lista de nomes (PeacemakerMyrotvorets) incitando à perseguição de cidadãos considerados «inimigos do Estado» e expondo os seus principais dados de identificação. Para alguém passar a fazer parte dessa fonte para execuções extrajudiciais basta que critique a «revolução de Maidan» ou contrarie a agenda nazi.

Esta lista é administrada pelos serviços secretos ucranianos, SBU, também conhecidos pela «Gestapo de Kiev» e dirigidos pelo «Estrangulador», nomeado recentemente por Zelensky. Vários membros da lista vão desaparecendo paulatinamente, entre eles dirigentes políticos que não estão de acordo com o regime, jornalistas, blogueiros, até um membro da delegação da Ucrânia às negociações com a Rússia, considerado «traidor». É pena que o Ocidente, autoproclamado juiz em matéria de direitos humanos e valores democráticos, não tenha ou não queira tomar conhecimento destes casos extremos da perseguição política tão próprios de regimes nazi-fascistas.

O método da «lista de paz» parece, contudo, não se circunscrever à Ucrânia e existem indícios de que já foi exportado. Também a chamada «Associação de Imigrantes Ucranianos» em Portugal, em cujas manifestações, em locais públicos, se reclama a ilegalização do Partido Comunista Português, tem a sua lista de delação, melhor dizendo de bufaria fascista, adoptando a linguagem comum dos tempos negros em Portugal, que administra em conjunto com as secretas portuguesas na caça aos «amigos de Putin». O que nos leva a pôr a legítima hipótese de a dita associação funcionar como ramo do famigerado SBU, situação que diz muito sobre a permeabilidade das autoridades portuguesas, a começar pelo governo, às infiltrações nazis externas de que o regime de Kiev é um dos centros emissores.

Se em tempos se argumentou que não deveriam entrar refugiados sírios e de outras áreas do Médio Oriente na União Europeia para evitar a infiltração de membros terroristas do Isis, estranha-se que não se revele a mesma preocupação perante o ingresso de «refugiados de guerra» ucranianos com idades para estarem mobilizados nas fileiras do seu exército nacional. Há os que exibem automóveis de topo de gama com matrícula ucraniana por essa Europa fora, pelo que também podem existir os que trazem habilitações e missões conspirativas. É só uma hipótese, seguindo a lógica de comportamento do regime de Kiev. Pelo que já se percebeu, os métodos de infiltração e ingerência são bastante expeditos. No entanto, o venerando chefe do Estado acha que devem ser investigados os conteúdos da lista de delação da associação ucraniana em Portugal, o que parece efectivamente curto – restritivo, parcial e preconceituoso – em relação ao que está em causa numa situação de guerra para a qual as autoridades nacionais e os seus megafones arrastaram irresponsavelmente o país. No mínimo seria razoável que o presidente-militante mandasse averiguar também os comportamentos e ligações da citada associação de ucranianos. Em nome do respeito pela dignidade, a independência, o patriotismo e o papel democrático dos portugueses e de instituições que os representam e cuja história, mesmo que dizendo pouco ao venerando chefe de Estado, é impossível de apagar.

(continua e conclui amanhã)


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