(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 13/05/2022)

Os bem informados tinham-nos avisado de que em 9 de Maio, no discurso do Dia da Vitória, Vladimir Putin iria anunciar, cumulativamente ou em alternativa, as seguintes coisas: a vitória militar na Ucrânia, a mobilização geral com vista à vitória, a declaração formal de guerra à Ucrânia ou — o mais assustador de tudo — a ameaça de utilização de armas nucleares para garantir a vitória. Verdade se diga que as suas previsões não se fundamentavam em nada que Putin ou os russos tenham deixado antever, mas sim nas suas particulares fontes e privilegiadas intuições.
E em 9 de Maio, na Praça Vermelha, com o habitual aparato mas menos soldados e sem força aérea, Putin fez tudo ao contrário das doutas previsões dos bem informados. Chamou à colação duas das batalhas históricas dos russos contra invasores externos, para lembrar que as batalhas determinantes da história da Rússia não foram para invadir território alheio mas sim para repelir invasões no “solo sagrado” da “Mãe Rússia”. E, deixando de fora qualquer referência aos 26 milhões de mortos russos na Grande Guerra Patriótica contra a Alemanha nazi, sustentou a invasão da Ucrânia como uma “acção preventiva e sem alternativa”, fundamentada num argumentário em parte já conhecido — o cerco da NATO nas fronteiras da Rússia e a ausência de resposta às propostas de Moscovo para uma solução mútua de segurança — e noutra parte desconhecido e por provar — que a Ucrânia estava a tentar dotar-se de armamento nuclear. Aliás, no capítulo do nuclear — onde tanta especulação e tantos temores tinham sido avançados, e com alguma razão —, Putin, dirigindo-se directamente aos soldados, teve uma frase que, não sendo hipócrita, é merecedora de reflexão: “É vosso dever evitar que o horror da guerra global aconteça novamente.”

Em suma, o tão temível discurso de guerra de Vladimir Putin desiludiu todos os bem informados e todos os que, a milhares de quilómetros de distância, sentados em frente ao conforto do seu computador e contemplando na televisão as imagens de destruição e morte na Ucrânia, escrevem como Pacheco Pereira: “Estou todos os dias mais belicista. Com isto não é possível nem entender, nem pactuar, a não ser por covardia, nem negociar. Isso mesmo, nem negociar.” E, por isso, no dia seguinte, de Nova Iorque a Londres, de Helsínquia a Lisboa, na ausência de um discurso de guerra de Putin, o “Clube NATO” já tinha uma resposta perfeitamente afinada e sincronizada: “Putin não teve um discurso de vitória para apresentar.” Seria uma oportunidade, então, para lhe propor a paz? Não, pelo contrário. Foi uma oportunidade para o que Lloyd Austin, o secretário da Defesa americano, anunciou serem os objectivos da NATO na guerra da Ucrânia: enfraquecer a Rússia até ao ponto de a deixar impotente. E se Putin, aparentemente, excluiu o recurso à arma nuclear, tanto melhor, a guerra é grátis para a NATO. Só a Ucrânia é que paga.
Aliás, a guerra não só é grátis como é um excelente negócio para a NATO: vende armas a todos os membros, que agora não podem negar-se ao esforço de rearmamento, acrescenta novos membros e nova geografia, ganha nova razão geoestratégica sobre um cadáver anunciado, testa em campo de batalha, e não apenas em manobras de rotina, as suas capacidades militares e de armamento e descobre, com volúpia, as fraquezas do inimigo russo. Tudo graças ao erro de avaliação e à soberba de Putin e ao sacrifício dos ucranianos.
No mesmo dia 9 de Maio, Zelensky resolveu responder à parada da Praça Vermelha desfilando sozinho numa das principais avenidas de Kiev. A cena foi patética: vestido com o habitual uniforme militar, o herói de nenhuma batalha travada, o Churchill da Ucrânia, pop star de todos os Parlamentos e descrito como um génio da comunicação, dizia a Putin que em breve iria ter dois dias da vitória para celebrar contra nenhum do russo. Há um mês, Zelensky desdobrava-se em ofertas de negociações, dizia já ter abdicado da Crimeia e da NATO e acusava o Ocidente de estar a prolongar a guerra à custa da destruição da Ucrânia. Hoje mudou radicalmente: diz que não cederá nem um centímetro de território, que está a lutar contra nazis e que só a vitória lhe interessa. O que mudou, entretanto, foi que a NATO o convenceu de que, com o apoio que não lhe faltaria, ele iria derrotar os russos e entrar para a História como o homem que venceu o Exército Vermelho, mesmo que à custa da destruição da Ucrânia. Um grande líder patriótico dirige a resistência do seu povo a uma invasão externa — e isso Zelensky soube fazer. Mas também sabe negociar quando percebe que é melhor para o seu povo um acordo com o invasor do que a glória pessoal de uma hipotética vitória militar sobre ele. E isso Zelensky já deixou de estar interessado em fazer. Dir-me-ão que Putin também não, e eu estaria de acordo até segunda-feira passada. Mas, se é possível ler entre linhas, o discurso da “não-vitória” de Putin talvez tenha mostrado um líder cansado de uma guerra que o arrasta cada vez mais para um beco sem saída. Já sucedeu antes no Afeganistão, e a então URSS retirou-se.
O problema também é que, neste momento, Zelensky é prisioneiro da imagem que o Ocidente criou dele, a de um herói da liberdade, numa sociedade e em tempos sem heróis a sério e com heróis instantâneos, prontos a consumir. Políticos medíocres, sem nenhuns horizontes além das próximas eleições, como Boris Johnson, encostam-se a Zelensky vegetando na sua boleia, da mesma forma que a NATO enfrenta a Rússia à boleia da Ucrânia. E isso é facilitado por uma coisa que já antes aqui escrevi e que tem passado tranquilamente face à indiferença geral: estamos perante a mais unilateral cobertura mediática de um conflito a que alguma vez assisti. Não culpo por isso directamente a imprensa ou os jornalistas, que relatam o que vêm e o melhor que podem, cumprindo a sua missão de denunciar o horror de uma guerra e o estendal de morte e destruição que a Rússia levou à Ucrânia. A questão é que eles estão apenas junto de um dos lados e reportando apenas aquilo que esse lado deixa e só depois de as coisas acontecerem: não assistem aos combates nem aos invocados massacres, não falam com o outro lado nem têm acesso à sua versão do mesmo acontecimento. E é sobre isso que depois os “analistas” e os “especialistas” extraem as suas conclusões, sempre de sentido único.
Um bom exemplo disso é o que se passou com os civis encurralados com os militares na fábrica Azovstal, em Mariupol. Durante dois meses foi-nos contado que mais de 1200 civis, mulheres e crianças, estavam refugiados nos subterrâneos da Azovstal, impedidos de sair pelos russos, que violavam sistematicamente todos os acordos de evacuação estabelecidos, incluindo os propostos pelos próprios russos. Ninguém nunca contestou a versão ucraniana e ninguém no terreno a confirmou. Mas quando António Guterres conseguiu colocar pessoal da ONU em Azovstal, em dois ou três dias, como que por milagre, todos os civis que quiseram foram evacuados sem qualquer incidente. A pergunta é: por que razão nunca alguém levantou a hipótese de os civis estarem a ser retidos pelos próprios militares do Batalhão Azov, que os usou como escudo, tentando assim garantir uma coisa impossível na guerra — saírem em liberdade juntamente com os civis sem terem de se render? O mesmo aconteceu em relação às incansáveis imagens de destruição de edifícios civis bombardeados pelos russos e às infindáveis entrevistas aos sobreviventes civis desses bombardeamentos. As imagens são tão revoltantes como as de qualquer outro conflito, como no Iémen ou na Síria, só que aqui, em maior escala e diariamente filmadas por centenas de jornalistas, transmitem uma narrativa de absoluto caos e de destruição quase sem precedentes. Em contrapartida, são escamoteadas quaisquer imagens dos alvos militares onde se sabe que os russos têm concentrado o grosso dos seus bombardeamentos, de modo a passar a ideia de que o alvo é indiscriminado e atinge sobretudo civis. E, todavia, segundo os números divulgados pela ONU em 9 de Maio, morreram na Ucrânia, ao fim de 75 dias de guerra, 3381 civis, embora estes números possam vir a ser “consideravelmente maiores”. Mas sabem quantos civis morreram no bombardeamento aéreo de dois dias dos Aliados a Dresden, durante a II Guerra Mundial? 22 mil. E em Hamburgo 50 mil. E 100 mil em Hiroxima e 70 mil em Nagasáqui, só no primeiro dia após despejada a bomba atómica, sem que em nenhum caso se tenha falado em “crimes de guerra” ou em “genocídio”, como agora se fala a propósito dos mortos civis na Ucrânia. Sendo que em Dresden bombardeou-se deliberadamente o centro da cidade, com o objectivo declarado de atingir a “força de trabalho alemã” — ou seja, as mulheres, visto que os homens estavam na guerra. Aqui, na guerra da Ucrânia, confunde-se o horror que qualquer guerra é com o horror particular que se pretende atribuir a esta, como se houvesse guerras limpas em que só morrem combatentes.
Nada disso torna a invasão e a guerra que Putin levou à Ucrânia mais justificável ou menos condenável. Esta é, como disse Charles Michel, uma guerra do século passado, que julgávamos já não ser possível no século XXI. Porque acreditávamos que existiam suficientes mecanismos internacionais capazes de a evitar, assim houvesse vontade. Mas esses mecanismos falharam e continuam a falhar, como está à vista. E, se há um só culpado pela invasão, há mais culpados pela continuação da guerra, e a desinformação, a informação truncada, incompleta ou unilateral é a sua principal arma. Um dia saberemos a história toda.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
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