Os bem informados

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 13/05/2022)

Miguel Sousa Tavares

Os bem informados tinham-nos avisado de que em 9 de Maio, no discurso do Dia da Vitória, Vladimir Putin iria anunciar, cumulativamente ou em alternativa, as seguintes coisas: a vitória militar na Ucrânia, a mobilização geral com vista à vitória, a declaração formal de guerra à Ucrânia ou — o mais assustador de tudo — a ameaça de utilização de armas nucleares para garantir a vitória. Verdade se diga que as suas previsões não se fundamentavam em nada que Putin ou os russos tenham deixado antever, mas sim nas suas particulares fontes e privilegiadas intuições.

E em 9 de Maio, na Praça Vermelha, com o habitual aparato mas menos soldados e sem força aérea, Putin fez tudo ao contrário das doutas previsões dos bem informados. Chamou à colação duas das batalhas históricas dos russos contra invasores externos, para lembrar que as batalhas determinantes da história da Rússia não foram para invadir território alheio mas sim para repelir invasões no “solo sagrado” da “Mãe Rússia”. E, deixando de fora qualquer referência aos 26 milhões de mortos russos na Grande Guerra Patriótica contra a Alemanha nazi, sustentou a invasão da Ucrânia como uma “acção preventiva e sem alternativa”, fundamentada num argumentário em parte já conhecido — o cerco da NATO nas fronteiras da Rússia e a ausência de resposta às propostas de Moscovo para uma solução mútua de segurança — e noutra parte desconhecido e por provar — que a Ucrânia estava a tentar dotar-se de armamento nuclear. Aliás, no capítulo do nuclear — onde tanta especulação e tantos temores tinham sido avançados, e com alguma razão —, Putin, dirigindo-se directamente aos soldados, teve uma frase que, não sendo hipócrita, é merecedora de reflexão: “É vosso dever evitar que o horror da guerra global aconteça novamente.”

ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Em suma, o tão temível discurso de guerra de Vladimir Putin desiludiu todos os bem informados e todos os que, a milhares de quilómetros de distância, sentados em frente ao conforto do seu computador e contemplando na televisão as imagens de destruição e morte na Ucrânia, escrevem como Pacheco Pereira: “Estou todos os dias mais belicista. Com isto não é possível nem entender, nem pactuar, a não ser por covardia, nem negociar. Isso mesmo, nem negociar.” E, por isso, no dia seguinte, de Nova Iorque a Londres, de Helsínquia a Lisboa, na ausência de um discurso de guerra de Putin, o “Clube NATO” já tinha uma resposta perfeitamente afinada e sincronizada: “Putin não teve um discurso de vitória para apresentar.” Seria uma oportunidade, então, para lhe propor a paz? Não, pelo contrário. Foi uma oportunidade para o que Lloyd Austin, o secretário da Defesa americano, anunciou serem os objectivos da NATO na guerra da Ucrânia: enfraquecer a Rússia até ao ponto de a deixar impotente. E se Putin, aparentemente, excluiu o recurso à arma nuclear, tanto melhor, a guerra é grátis para a NATO. Só a Ucrânia é que paga.

Aliás, a guerra não só é grátis como é um excelente negócio para a NATO: vende armas a todos os membros, que agora não podem negar-se ao esforço de rearmamento, acrescenta novos membros e nova geografia, ganha nova razão geoestratégica sobre um cadáver anunciado, testa em campo de batalha, e não apenas em manobras de rotina, as suas capacidades militares e de armamento e descobre, com volúpia, as fraquezas do inimigo russo. Tudo graças ao erro de avaliação e à soberba de Putin e ao sacrifício dos ucranianos.

No mesmo dia 9 de Maio, Zelensky resolveu responder à parada da Praça Vermelha desfilando sozinho numa das principais avenidas de Kiev. A cena foi patética: vestido com o habitual uniforme militar, o herói de nenhuma batalha travada, o Churchill da Ucrânia, pop star de todos os Parlamentos e descrito como um génio da comunicação, dizia a Putin que em breve iria ter dois dias da vitória para celebrar contra nenhum do russo. Há um mês, Zelensky desdobrava-se em ofertas de negociações, dizia já ter abdicado da Crimeia e da NATO e acusava o Ocidente de estar a prolongar a guerra à custa da destruição da Ucrânia. Hoje mudou radicalmente: diz que não cederá nem um centímetro de território, que está a lutar contra nazis e que só a vitória lhe interessa. O que mudou, entretanto, foi que a NATO o convenceu de que, com o apoio que não lhe faltaria, ele iria derrotar os russos e entrar para a História como o homem que venceu o Exército Vermelho, mesmo que à custa da destruição da Ucrânia. Um grande líder patriótico dirige a resistência do seu povo a uma invasão externa — e isso Zelensky soube fazer. Mas também sabe negociar quando percebe que é melhor para o seu povo um acordo com o invasor do que a glória pessoal de uma hipotética vitória militar sobre ele. E isso Zelensky já deixou de estar interessado em fazer. Dir-me-ão que Putin também não, e eu estaria de acordo até segunda-feira passada. Mas, se é possível ler entre linhas, o discurso da “não-vitória” de Putin talvez tenha mostrado um líder cansado de uma guerra que o arrasta cada vez mais para um beco sem saída. Já sucedeu antes no Afeganistão, e a então URSS retirou-se.

O problema também é que, neste momento, Zelensky é prisioneiro da imagem que o Ocidente criou dele, a de um herói da liberdade, numa sociedade e em tempos sem heróis a sério e com heróis instantâneos, prontos a consumir. Políticos medíocres, sem nenhuns horizontes além das próximas eleições, como Boris Johnson, encostam-se a Zelensky vegetando na sua boleia, da mesma forma que a NATO enfrenta a Rússia à boleia da Ucrânia. E isso é facilitado por uma coisa que já antes aqui escrevi e que tem passado tranquilamente face à indiferença geral: estamos perante a mais unilateral cobertura mediática de um conflito a que alguma vez assisti. Não culpo por isso directamente a imprensa ou os jornalistas, que relatam o que vêm e o melhor que podem, cumprindo a sua missão de denunciar o horror de uma guerra e o estendal de morte e destruição que a Rússia levou à Ucrânia. A questão é que eles estão apenas junto de um dos lados e reportando apenas aquilo que esse lado deixa e só depois de as coisas acontecerem: não assistem aos combates nem aos invocados massacres, não falam com o outro lado nem têm acesso à sua versão do mesmo acontecimento. E é sobre isso que depois os “analistas” e os “especialistas” extraem as suas conclusões, sempre de sentido único.

Um bom exemplo disso é o que se passou com os civis encurralados com os militares na fábrica Azovstal, em Mariupol. Durante dois meses foi-nos contado que mais de 1200 civis, mulheres e crianças, estavam refugiados nos subterrâneos da Azovstal, impedidos de sair pelos russos, que violavam sistematicamente todos os acordos de evacuação estabelecidos, incluindo os propostos pelos próprios russos. Ninguém nunca contestou a versão ucraniana e ninguém no terreno a confirmou. Mas quando António Guterres conseguiu colocar pessoal da ONU em Azovstal, em dois ou três dias, como que por milagre, todos os civis que quiseram foram evacuados sem qualquer incidente. A pergunta é: por que razão nunca alguém levantou a hipótese de os civis estarem a ser retidos pelos próprios militares do Batalhão Azov, que os usou como escudo, tentando assim garantir uma coisa impossível na guerra — saírem em liberdade juntamente com os civis sem terem de se render? O mesmo aconteceu em relação às incansáveis imagens de destruição de edifícios civis bombardeados pelos russos e às infindáveis entrevistas aos sobreviventes civis desses bombardeamentos. As imagens são tão revoltantes como as de qualquer outro conflito, como no Iémen ou na Síria, só que aqui, em maior escala e diariamente filmadas por centenas de jornalistas, transmitem uma narrativa de absoluto caos e de destruição quase sem precedentes. Em contrapartida, são escamoteadas quaisquer imagens dos alvos militares onde se sabe que os russos têm concentrado o grosso dos seus bombardeamentos, de modo a passar a ideia de que o alvo é indiscriminado e atinge sobretudo civis. E, todavia, segundo os números divulgados pela ONU em 9 de Maio, morreram na Ucrânia, ao fim de 75 dias de guerra, 3381 civis, embora estes números possam vir a ser “consideravelmente maiores”. Mas sabem quantos civis morreram no bombardeamento aéreo de dois dias dos Aliados a Dresden, durante a II Guerra Mundial? 22 mil. E em Hamburgo 50 mil. E 100 mil em Hiroxima e 70 mil em Nagasáqui, só no primeiro dia após despejada a bomba atómica, sem que em nenhum caso se tenha falado em “crimes de guerra” ou em “genocídio”, como agora se fala a propósito dos mortos civis na Ucrânia. Sendo que em Dresden bombardeou-se deliberadamente o centro da cidade, com o objectivo declarado de atingir a “força de trabalho alemã” — ou seja, as mulheres, visto que os homens estavam na guerra. Aqui, na guerra da Ucrânia, confunde-se o horror que qualquer guerra é com o horror particular que se pretende atribuir a esta, como se houvesse guerras limpas em que só morrem combatentes.

Nada disso torna a invasão e a guerra que Putin levou à Ucrânia mais justificável ou menos condenável. Esta é, como disse Charles Michel, uma guerra do século passado, que julgávamos já não ser possível no século XXI. Porque acreditávamos que existiam suficientes mecanismos internacionais capazes de a evitar, assim houvesse vontade. Mas esses mecanismos falharam e continuam a falhar, como está à vista. E, se há um só culpado pela invasão, há mais culpados pela continuação da guerra, e a desinformação, a informação truncada, incompleta ou unilateral é a sua principal arma. Um dia saberemos a história toda.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Tempos e comportamentos degradantes. I – Bruxelas erra nas contas

(José Goulão, in AbrilAbril, 12/05/2022)

O desespero não costuma ser bom conselheiro. E quando se desenvolve num mar de mentiras, inversão de princípios, anacronismos e patéticas manias das grandezas o mais certo é resultar em naufrágio.

A União Europeia segue por essa rota e parece não ter a bordo alguém com o necessário rasgo de lucidez para evitar a catástrofe. Que atingirá não os responsáveis pelas decisões nefastas, porque os oligarcas patrões dos mandantes políticos raramente se afogam, mas sim os povos dos 27 Estados membros e de outros cujos governos lêem pela mesma cartilha. Dias negros estão no horizonte do chamado Velho Continente e, simbolicamente, Portugal ilustrou a degradação de valores que alimenta a catástrofe ao hipotecar o aniversário da Revolução de 25 de Abril a interesses não democráticos, prejudiciais para os portugueses, autoritários e, como se não fosse suficiente, amantes da guerra, da fabricação e manutenção de conflitos como instrumento para gerir a sociedade.

Os Estados Unidos, geridos por um bando de falcões neoconservadores irresponsáveis para tentar dar cobertura ao cada vez mais perceptível estado de demência do presidente, parecem seguir o mesmo caminho da União Europeia, mas a situação tem ainda o seu quê de ilusório enquanto Washington puder recorrer aos povos da Ucrânia e de toda a Europa como carne para canhão na atormentada defesa do império e do caminho para o totalitarismo globalista. A tal ordem internacional «baseada em regras» ditadas em Washington que faz gato sapato do direito internacional.

Afinal é disto que se trata, em última análise, ao assistirmos à guerra na Ucrânia: assegurar que o império sobreviva como senhor do planeta em regime unipolar perante o assédio natural, e com o tempo a seu favor, de grandes e médias potências emergentes que deixaram de estar dispostas a submeter-se a uma velha ordem imposta por aristocratas da «civilização» que há muitos séculos receberam o «sopro divino» como donos absolutos das coisas terrenas. Nada mais do que Deus no Céu e os oligarcas na Terra.

O mundo, porém, está a deixar de funcionar assim. E, através de um efeito perverso que não é mais do que fruto do desespero pelo qual o chamado Ocidente está tomado, as transformações aceleraram-se devido ao modo errático e autoflagelador como os Estados Unidos e, sobretudo, os seus satélites da NATO e da União Europeia, responderam à invasão russa da Ucrânia. As sanções estão a virar o feitiço contra o feiticeiro, isolam os que as impõem e dinamizam o alargamento de horizontes e a confirmação de novos caminhos e experiências dos que as sofrem. O povo da Rússia – e não a oligarquia que gere o país – é a verdadeira vítima das sanções mas também o são os povos europeus, arrastados para uma guerra que não é sua porque só em termos de propaganda terrorista pode considerar-se que se trava em defesa de valores democráticos e humanistas. A estes, para os fazer vingar não são necessárias guerras, muito pelo contrário.

Porém, o cenário dos sofrimentos impostos aos povos que vivem dos dois lados das barricadas não é estático; está a suscitar mudanças e não na direcção dos maníacos das sanções agarrados como causa de vida ou morte à ordem imperial unipolar.

Reforçando nas últimas semanas as tendências transformadoras, a Rússia e China – este país sem deixar a sua proverbial discrição e o respeito pelo princípio da não ingerência – incrementaram estratégias regionais e transnacionais envolvendo os países que não seguiram o diktat norte-americano de sanções à Rússia e começaram a aplicar medidas concretas com repercussões em áreas económicas, financeiras e comerciais. Estas acções reforçam os processos de integração regional e de cooperação transnacional estabelecendo relações muito mais sustentáveis e igualitárias, independentemente das políticas governamentais. O que está a passar-se, como se percebe ignorando a propaganda, nada tem a ver com a prática e a defesa da democracia.

Bruxelas erra nas contas: os povos é que pagam

Biden, Von der Layen e os seus agentes amestrados, sem esquecer Olaf Scholz e Emmanuel Macron, prometeram que as sanções iriam enfraquecer a Rússia e deixar o rublo de rastos. Mês e meio depois da entrada das tropas russas na Ucrânia, e apesar do roubo das reservas cambiais de Moscovo na Europa, o rublo está mais forte do que antes da guerra, o dólar continua a perder terreno como divisa internacional, substituído por combinações de moedas nacionais em negócios envolvendo as matérias-primas mais estratégicas, principalmente os combustíveis fósseis; e estão a ser dados os últimos passos para o lançamento de uma divisa comercial garantida por uma cesta de moedas e um conjunto das principais matérias-primas capaz de alimentar o comércio na maior parte do mundo, certamente entre a grande maioria da população mundial.

Perante estas tendências de imensa abrangência quais são os horizontes da União Europeia? As suas antigas colónias, muitas delas tentadas pelos novos ventos, recusando-se até a impor sanções à Rússia? A América Latina, onde não se registou um único caso significativo de ruptura com a Rússia, sem esquecer a disponibilidade para manter e desenvolver a cooperação com Moscovo e Pequim? É um facto que nas últimas semanas, coincidindo com os sucessivos pacotes de sanções contra a Rússia, se registaram sinais de maior consistência do grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) – representando cerca de metade da população mundial. Certamente não é coincidência.

Deverá então a União Europeia virar-se ainda mais para os Estados Unidos? Um país que manda impor sanções contra a Rússia e que no último mês de Março aumentou em 21% as importações de petróleo russo enquanto obrigava a Europa a cortar totalmente o fluxo dessa matéria-prima?

É uma estratégia que, lamentavelmente, também parece ser a única que resta aos 27. Dos Estados Unidos a Europa receberá comida transgénica; filmes idiotas ou de discurso de ódio; exemplos de xenofobia e racismo, com muito boa aceitação do lado de cá; gás natural que arruína vastas zonas continentais a um preço que poderá triplicar o que era pago pelo gás russo, mesmo que fosse em contas abertas em bancos moscovitas; receberá também petróleo, certamente parte daquele que Washington compra a Moscovo em tempo de sanções – com uma inapelável margem de lucro para o intermediário. E receberá armas, muitas armas, para substituir as armas, muitas armas que estão a ser enviadas para a Ucrânia, destinadas a ser transformadas sumariamente em sucata numa guerra que os «aliados» pretendem alimentar pelo menos até ao último dos ucranianos.

A hipocrisia do Ocidente fingindo condoer-se com a sorte dos ucranianos parece muito pouco «civilizada» e ainda menos «cristã», para já não invocar em vão o santo nome da «democracia liberal» – que vai morrendo de excelente saúde.

Que venham então armas da generosa e protectora América para os portugueses pagarem com dinheiro que não há para a saúde, as escolas, os salários e os reformados; não foi o venerando chefe de Estado português quem sentenciou, por sinal durante a evocação do movimento pacificador de 25 de Abril, que ser «patriota» é contribuir com mais armamento para as Forças Armadas? Parafraseando o saudoso José Mário Branco, «houve aqui alguém que se enganou».

Uma descoberta fantástica

No meio da lixeira mediática cacofónica acumulada por analistas, especialistas, comentadores, directores, professores, académicos e ofícios correlativos às vezes escapa-se uma surpresa. Não pelo conteúdo, é claro, porque esse não afronta nem pode afrontar a opinião totalitária sobre a guerra na Ucrânia, mas pela conclusão extraída, uma descoberta assombrosa que nos chegou pela pena de Azeredo – felizmente não desaparecida em Tancos – e que foi, imagine-se, ministro da Defesa.

A conclusão reflecte uma certa síndrome de Calimero, mas nem por isso deve ser desvalorizada. Queixa-se Azeredo: «Não nos ligam nada!».

O «nos» são os cerca de 40 países que impõem sanções à Rússia – os da NATO (menos a Turquia), da União Europeia (excepto a Hungria) mais o Reino Unido e seus vassalos da Oceania e ainda uns apêndices orbitando o sol imperial.

Nas suas trabalhosas e desconsoladoras diligências Azeredo descobriu que há mundo para lá da cortina de ferro de propaganda totalitária defendida pelos impiedosos guardiões da verdade instalados em cada recanto da sociedade de cá, até nas outrora pacatas tertúlias familiares ou de café. Um mundo, admira-se ele depois de ter consultado dezenas de jornais de todo o planeta, onde se concentra a esmagadora maioria da população, habitando as mais vastas áreas territoriais. Um mundo onde não há espaço para sanções à Rússia e onde até, vejam lá, os meios de comunicação reservam esconsos lugares de primeira página ou mesmo o anonimato das páginas interiores para as notícias da guerra na Ucrânia.

Um mundo – isso não o disse Azeredo – que representa cerca de 85% do planeta e que agora, para desconsolo do analista-ex-ministro, «não nos liga nada». Afinal, submetidos a um recanto de 15%, andaremos a pregar no deserto esta tão requintada obra de mentira e de indução esquizofrénica baseada no culto da guerra ou então, sordidamente, a envenenar-nos a nós próprios?

«Não nos ligam nada», queixa-se Azeredo. Certamente tais multidões agora insensíveis perante o esforço civilizatório ocidental são todas adeptas ou até compinchas de Putin, esse maléfico que ousa combater o cancro criado pela verdade oficial do lado de cá com banhos de sangue fresco jorrando de cornos de veado serrados, como nos explica o omnisciente New York Times.

«Não nos ligam nada». A nós, a fina flor da civilização, os donos da democracia, os senhores dos exércitos, os benfeitores que sempre usaram guerra para espalhar o bem, a fé e a civilização pelo mundo, os justiceiros, os proprietários naturais dos bens e das riquezas do planeta, aqueles que tanto nos incomodamos com os ucranianos da parte ocidental do país mas nunca tínhamos ouvido falar do terrorismo que martiriza os ucranianos do Centro e Leste do país. Em suma, a ingratidão sem fim.

(continua amanhã)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

A segunda batalha de Stamford Bridge

(Declan Hayes, in Strategic-Culture.org, trad. Estátua de Sal, 09/05/2022)

O choque do ataque da City de Londres contra o Chelsea FC, que é actualmente o campeão europeu e mundial em título, irá transformar totalmente o futebol inglês numa sombra da sua antiga primazia.

O proprietário do Chelsea, o cidadão israelita/português Roman Abramovich, devido às suas alegadas ligações russas, destruiu o actual modelo de negócio da Associação de Futebol. Se os anti-semitas podem confiscar os bens de um cidadão israelita porque as forças de manutenção da paz russas entraram na Ucrânia, que dizer de clubes como o Newcastle Utd e Manchester City, que são propriedade de déspotas do Médio Oriente? E o Liverpool FC e o Manchester Utd, que são propriedade de clubes americanos? Deverão eles também ser sancionados pela ladainha interminável de crimes de guerra dos EUA, as suas invasões ilegais da Síria e do Iraque em particular?

E os salários gigantescos que são pagos aos jogadores ingleses, um processo que Abramovich iniciou mas em que o Chelsea FC já não pode participar? E o miniexército de jogadores jovens que o Chelsea tem emprestado? Serão eles também vendidos a preços de saldo? O castelo de cartas do futebol tem de cair por completo? É isso que a NATO quer ou será que a NATO não se importa com isso?

A viabilidade do Chelsea não poderia ser mais precária. O regime britânico reduziu de tal forma as suas finanças que o clube mal consegue manter-se à tona e planear, comprar ou vender jogadores, é uma quase impossibilidade até ser encontrado um novo proprietário, presumivelmente não judeu. Para solução da situação do City, parece que os judeus e os muçulmanos egípcios ainda não serão bem-vindos.

Apesar de Abramovich ter dito pela primeira vez que iria anular os milhares de milhões de libras que o Chelsea lhe devia, uma vez que agora parece ter mudado de ideias antes do prazo de Maio para a venda do clube, existem novas dúvidas sobre se Jim Ratcliffe, Todd Boehly ou algum outro oligarca aceitável irá salvar o clube a tempo.

Ao pagar pelo Chelsea com o seu próprio dinheiro ou, se preferir, com as vastas riquezas que pilhou da Rússia, a abordagem de Abramovich está nos antípodas da dos proprietários do Manchester United, que pilharam o clube para se pagarem a si próprios milhares de milhões. Então porque é que a abordagem dos Glazers é “limpa”, enquanto a de Abramovich não é?

A resposta está na City de Londres, aquela entidade peculiar que tem saqueado os recursos do mundo desde os tempos pós-romanos, tal como o clã Glazer saqueou o Manchester Utd. Os bandidos, que controlam a Square Mile de Londres, importam-se tanto com o belo jogo da Inglaterra como com os gatos russos que estão agora sob sanções. O seu jogo tem sido sempre a violação, a pilhagem e especialmente a pilhagem.

Actualmente, os seus últimos dignatários estão na luta das suas vidas contra a Rússia na Ucrânia. Em jogo está o futuro da Europa Ocidental, a Alemanha em particular, cuja escolha é entre o comércio construtivo com a Rússia e o envolvimento com a Iniciativa de Cinturão e Rota da Seda ou o domínio e exploração permanentes por Wall Street, a City e os seus companheiros de cativeiro.

A City espera voltar a levar a Rússia à bancarrota e instalar outro fantoche da NATO para lhes permitir renovar a sua violação dos recursos da Rússia. Caso recolonizassem a Rússia, o passo seguinte seria outra guerra movida com opiáceos para sedar e subjugar a China. Como os russos e os chineses não estão a ceder, a guerra, a uma escala que o mundo nunca viu, está a caminho.

Mas os caçadores de cabeças do Chelsea podem relaxar, uma vez que os seus serviços não são necessários, excepto para incendiar a estranha igreja ortodoxa ou duas igrejas ortodoxas. A City tem um novo exército demasiado pesado: legiões de drones humanos para manipular os preços do mercado, génios como o Príncipe Harry para pilotar os seus drones e simplórios ucranianos para encher os seus sacos de cadáveres.

Se a guerra ucraniana da Cidade correr como planeado, a Alemanha, afastada da Rússia, será um estado vassalo americano durante décadas. Wall Street e a City controlarão os mercados financeiros e de mercadorias da NATO e a Alemanha ficará desprovida de Lebensraum económico, uma vez que a City, ao ditar as taxas das obrigações do governo e da LIBOR, também armará a inflação, o flagelo económico de todas as grandes guerras e o pior pesadelo da Alemanha. A Alemanha, os seus mercados russo e chinês em farrapos, terá de marchar ao toque do tambor da City, acumulando mais dólares americanos depreciados, antes que os americanos voltem a fazer um Continente sobre eles.

E tal só não sucederá se a Alemanha encontrar o seu próprio Charles De Gaulle, o carismático líder francês, que desmascarou o bluff dos americanos e retirou as suas fichas de Fort Knox, causando a desordem nos mercados. A Alemanha e a Suíça deveriam, isso sim, virar-se para Leste, uma vez que só lá é possível encontrar os lucros, que tradicionalmente tem beneficiado os bancos alemães. A Leste estão os mercados, petróleo, gás e outras matérias-primas. Para o Ocidente restará o Chelsea Football Club, a diminuição dos fornecimentos de trigo ucraniano e infindáveis circos diversos sem valor intrínseco.

A Alemanha está agora a dançar a sua última dança, perante a sua última oportunidade. Pode estabelecer no futuro uma ligação com a China e com a Rússia ou pode deitar-se de costas a pensar em Wall Street e na City enquanto a violam e lhe pilham os recursos que ainda lhe restam.

Não poupe lágrimas pelos caçadores de cabeças do Chelsea. Por muito triste que seja a sua morte, eles podem ficar na ilusão, como sempre fazem, de que o seu clube morreu, como Nelson, pela Inglaterra e não, como realmente aconteceu, pela ganância desenfreada de uns fedelhos da City educados em Eton.

Ainda que os historiadores do futuro achem a batalha de hoje sobre a Ponte de Stamford como sendo a de Trafalgar da nossa época, eles olharão mais para trás, para a batalha original da ponte de Stamford de 1066, onde as forças inglesas derrotaram os Vikings no Norte, apenas para encontrar as suas forças exaustas a serem encaminhadas para o Sul pouco depois na Batalha de Hastings.

E assim será com a Ucrânia, onde os meios de comunicação da City ganharão a guerra de propaganda irrelevante mas, tal como com a Guerra e Paz do grande Tolstoi, perderão a verdadeira guerra para os cassetetes das tropas do czar Alexandre e do príncipe Kutuzov, que caíram impiedosamente sobre as cabeças do Grande Exército de Napoleão até nem sequer serem senão uma sombra de si próprias.

De facto, quando Zhukov disse a Estaline que as suas forças tinham conquistado Berlim, Estaline respondeu irritado que o czar Alexandre tinha chegado a Paris. A esperança desta vez tem de ser que a onda russa vá ainda mais longe e que não se limite a Stamford Bridge, mas a toda a Londres e até aos abutres da City.

Fonte aqui

N.B. Não estranhem se não conseguirem aceder à fonte original do artigo. O site é mais um que a “liberal” União Europeia censura sem qualquer pejo ou vergonha. Só com VPN ou recorrendo ao browser TOR se pode driblar a censura.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.