Europa e EUA vítimas das sanções à Rússia

(Zé-António Pimenta da França, in Facebook, 16/06/2022)

Exponho a seguir uma série de factos diversos (porém intimamente ligados entre si) que revela como os diferentes governos ocidentais (EUA/UE/NATO) têm vindo a gerir de forma caótica, ignorante e inconsciente, desde há longos anos, o seu relacionamento com a Rússia, o que veio a culminar com a invasão à Ucrânia e a guerra terrível que se trava em plena Europa.

Apenas alguns exemplos de uma longa série de tiros nos pés, resultado de uma curteza de vistas absoluta, incompetência crassa e imprevidência criminosa e suicida…

1. Biden, campeão fura-sanções à Rússia

O governo americano é o primeiro a sabotar as sanções ocidentais que impôs à Rússia, que são um falhanço monumental. A braços com o aumento acelerado da taxa de inflação (alimentada sobretudo pela subida dos preços da energia e da alimentação), o presidente Biden culpa Putin por esta espiral inflacionista – a qual garante ao Partido Democrata uma estrondosa derrota nas eleições intercalares para o Congresso em Outubro.

E não só. Biden culpa também as empresas do sector da energia pelos aumentos dos combustíveis. Uma incongruência total, já que, antes da guerra, o governo americano consultou as administrações das grandes empresas de energia para saber como responderia o mercado caso a Rússia invadisse a Ucrânia e o Ocidente resolvesse impor sanções económicas ao petróleo e ao gás russo. De forma unânime, as administrações das energéticas desaconselharam vivamente a possibilidade, avisando que em caso de sanções, seria impossível impedir uma subida galopante dos preços da energia.

Biden marimbou-se, impôs as sanções e agora, ante a subida dos preços, atira as culpas para as empresas de energia. Ante a emergência da derrota eleitoral que se anuncia, tem que atirar as culpas para alguém e neste caso, Putin e as empresas de energia são os que estão mais à mão.

O que Biden esconde é que, apesar das sanções, a realidade nua e crua é que os EUA aumentaram as suas importações de petróleo russo (mas agora através de intermediários o que encarece substancialmente o produto). Ou seja, as sanções são um gerador brutal de inflação e crise económica futura nos países que as promovem.

Com o aumento galopante do preço do petróleo e do gás, Putin (tal como e os árabes, Maduro e todos os produtores de combustíveis fósseis) ganha agora muito mais dinheiro com as sanções do que antes das sanções. E os países consumidores precipitam-se numa crise sem fim à vista cujos dirigentes tinham a elementar obrigação de ter evitado.

Entretanto, pressionado pelos agricultores americanos que veem a sua produção ameaçada por falta de fertilizantes, o governo de Biden está a fazer o mesmo com os fertilizantes russos (a Rússia é o maior produtor de fertilizantes do mundo). Continuam a ser importados pelas grandes companhias agrícolas dos EUA, agora através de intermediários. Logicamente os fertilizantes agrícolas russos também subiram os preços. E os preços dos bens alimentares nos EUA sobem em espiral…

2. A novela do gás russo

Em resultado da invasão e das sanções que se seguiram, o fornecimento de gás russo à Europa diminuiu substancialmente através do Nord Stream 1. Em primeiro lugar porque vários governos europeus decidiram nesse sentido, em obediência às sanções de Washington/Bruxelas. Em segundo lugar porque, simultaneamente, os russos decidiram, em resposta, baixar o seu nível de fornecimento, alegando ‘dificuldades técnicas’.

Como reagiram os alemães? Indignados, acusam os russos de chantagem no negócio do gás. Ou seja por um lado, propõem-se confessadamente afundar na miséria a economia russa, deixando de lhes comprar o gás. Mas quando os russos lhes respondem que vão fornecer ainda menos gás à Europa e à Alemanha em especial, alemães e europeus acusam os russos de chantagem.

Está tudo de cabeça perdida? Só pode…

3. As estranhas (in) decisões do BCE

Os governos da UE puseram-se de acordo no sentido de lançarem uma guerra económica contra a Rússia e impuseram com entusiasmo as famosas sanções. O resultado inevitável foi a subida imediata dos preços de produtos essenciais tais como a alimentação e a energia em cima de uma taxa de inflação pré-existente, desencadeada pelo despesismo da Administração Biden que logo no início do seu mandato sobreaqueceu a economia americana. Conclusão: a actual espiral de inflação, inicialmente apenas circunscrita aos EUA, tornou-se agora global, dada a importância central da economia americana no mundo.

O método clássico que os bancos centrais usam para combater a inflação é o aumento das taxas de juro, visando assim diminuir a procura, com a consequente baixa de preços. A governadora do BCE, Christine Lagarde, convocou esta semana uma reunião de emergência para tratar dessa questão.

O problema é que aumentar as taxas de juro na Europa é um pau de dois bicos: poderá suster o aumento dos preços, mas ao mesmo tempo pode desencadear nova crise da dívida soberana nos vários países europeus altamente endividados, em especial os do Sul, nomeadamente a Itália, a Espanha, Grécia e Portugal. Estes países têm melhorado as respetivas situações porque o BCE, (através de um processo denominado quantitative easing) lhes garante a compra (a juros baixos e até mesmo negativos) dos títulos de dívida que vão lançando, o que lhes permite substituir dívida antiga com juros altos por nova dívida com juros irrisórios, como tem acontecido. Se este processo – quantitative easing – for abandonado, os países do sul da Europa verão os juros dos seus novos empréstimos subir, precipitando fatalmente uma nova crise das dívidas soberanas semelhante (ou pior, há dez anos não havia guerra) à que atravessámos há dez anos.

A reunião de Christine Lagarde realizou-se e nada se resolveu. Resultou num comunicado em que diz que os juros subirão, mas que para contrabalançar será criado um novo mecanismo alternativo destinado a continuar a comprar títulos de dívida soberana, que não o quantitative easing. Ninguém sabe o que será, mas é o que temos por agora.

Os mesmos governos europeus que embarcaram entusiasticamente na guerra económica à Rússia não sabem agora como hão-de sair do problema em que esta decisão impensada os meteu, com a Zona Euro agora francamente em crise, com a sombra sinistra de uma nova crise das dívidas soberanas no horizonte, sem aparente solução…

Insisto: tudo como baratas tontas, não sabem como se meteram, nem fazem ideia de como sair deste buraco em que meteram a Europa…

4. Todos de cabeça perdida

O respeitado economista alemão Wolfgang Munchau dizia há três dias, no Financial Times, que ‘é uma evidência que as sanções económicas à Rússia não foram refletidas e por isso estão a falhar’.

Nunca a Europa esteve ante uma situação como esta exclusivamente provocada pela imprevidência e incompetência dos seus governos.

Por um lado, os alemães indignados porque a Rússia respondeu da mesma moeda ao boicote ao petróleo e ao gás russo; o BCE sem resposta para o dilema inflação versus taxas de juro e quantitative easing; Biden culpa as companhias energéticas pelo aumento dos preços da energia que o aconselharam a não fazer guerra económica à Rússia porque isso levaria a um aumento brutal de preços.

Finalmente, a UE, os EUA e a NATO falharam catastroficamente ao analisar a situação militar na Ucrânia. Deixaram-se levar pela ideia de que se os russos não tomaram Kiev em três dias, então a Ucrânia ia ganhar a guerra, quando na realidade está a perder. E que fazer agora? Escalar a guerra ou recuar? Estará a Europa sequer na situação de escalar a guerra? Ninguém sabe o que fazer. Todos de cabeça perdida…

5. Resumindo e concluindo

Nada disto teria acontecido se os ucranianos tivessem cumprido os acordos de Minsk 2, de 2015, amparados numa resolução do Conselho de Segurança da ONU, votada pelos EUA, França e Reino Unido e apoiada pela Alemanha (que foi fundamental na sua negociação, mas era a Alemanha de Merkel, não a de Scholz).

Mas mal assinou os Acordos de Minsk 2, o governo radical de Kiev passou imediatamente a incumpri-los, com a cumplicidade e alento dos governos ocidentais. Note-se que os Acordos de Minsk 2 nem sequer obrigavam a Ucrânia a desistir de entrar para a NATO. Obrigavam-na apenas a respeitar a identidade cultural e cívica das minorias russófonas ucranianas e a terminar as operações militares nas regiões sublevadas no Leste (Donetsk e Luhansk).

Os russos afirmam que continuarão a sua invasão (“operação militar”) até quando entenderem, mantendo, porém, aberta a porta das negociações.

O tempo para as negociações está a fechar-se todos os dias, à medida que as tropas russas avançam. Um dia destes não haverá nada para negociar porque o governo de Kiev levou o seu país ao suicídio…

Quando chegamos a uma situação de guerra é porque todos os políticos falharam totalmente aos seus povos, uma vez que a sua primeira obrigação é assegurar a segurança dos seus cidadãos. Se esta guerra existe é porque todos falharam, de Putin, a Biden a Zelenski e aos dirigentes todos da UE e da NATO.

Como costumo dizer, a única posição decente que podemos ter ante esta guerra é ser radicalmente contra ela.

Mas para isso há que sentar as partes e obrigá-las a negociar. Não é certamente fornecendo armas nem falando grosso, como se tem feito desde Fevereiro…

Em todo o mundo só duas pessoas é que se pronunciaram contra esta guerra: o Papa Francisco e António Guterres. Todos os outros se têm portado da pior forma possível, a começar pelo miserável Jens Stoltenberg (o norueguês secretário-geral da NATO), campeão do belicismo em eternos bicos de pés, que ainda hoje teve a distinta falta de vergonha de querer responder ao Papa…


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As mentiras da NATO implodiram… Já foi dito a Kiev ‘paguem o preço da paz’

(Karl Haki, in Strategic-Culture.org, 18/06/2022)

British Prime Minister Boris Johnson and NATO Secretary General Jens Stoltenberg hold a joint news conference at NATO headquarters, in Brussels, Belgium February 10, 2022.

O dano duradouro, resultante das mentiras que se desmoronaram, é a erosão da presumível liderança por parte dos Estados Unidos e dos seus cúmplices da NATO.

A administração Biden, os meios de comunicação ocidentais (também conhecidos por sistema de propaganda) e o eixo militar da NATO estão em colisão frontal com a realidade. Um dos primeiros sinais disso é a diminuição do entusiasmo com o seu regime de estimação de Kiev, sendo este instado a reduzir suas perdas e a fazer um acordo com a Rússia.

Nos últimos quatro meses, desde que a Rússia lançou a sua operação militar especial na Ucrânia, o público ocidental tem sido inundado com chorrilhos de mentiras sobre a “agressão ilegal” de Moscovo, sobre como a Rússia estava a perder a guerra para os “defensores heroicos”, e como a NATO estava a defender princípios invioláveis da soberania da Ucrânia que, de alguma forma, “justificavam” a inundação do país com armas.

Agora Jens Stoltenberg, o chefe civil da aliança transatlântica liderada pelos EUA, acena provisoriamente com uma bandeira branca de rendição por força da realidade. Falando numa conferência na Finlândia no fim-de-semana passado, Stoltenberg instou o regime de Kiev a “pagar o preço da paz”, cedendo às reivindicações territoriais à Rússia. O antigo primeiro-ministro norueguês, cómica figura de madeira, está sem dúvida a ser utilizado como porta-voz dos planeadores estratégicos transatlânticos.

O “preço da paz” implicaria que as autoridades ucranianas reconhecessem a Península da Crimeia como parte da Federação Russa e a independência das repúblicas de Donbass. A invasão russa da Ucrânia, iniciada a 24 de Fevereiro, foi lançada para defender esses territórios de língua russa das ofensivas do regime de Kiev, apoiado pela NATO, e pelos seus batalhões nazis.

Isto marca uma reviravolta impressionante por parte do bloco da NATO. Desde o golpe de Estado patrocinado pela CIA em Kiev, em 2014, e a secessão da Crimeia para se juntar à Federação Russa, Moscovo tem sido continuamente vilipendiada por ter alegadamente anexado a península, enquanto os Estados Unidos e os seus aliados da União Europeia se têm amontoado em ronda após ronda de sanções económicas.

A suposta restauração da “integridade territorial” da Ucrânia tem sido uma razão recorrente para a crescente hostilidade do eixo da NATO liderado pelos EUA em relação à Rússia. Agora, porém, o chefe do bloco da NATO diz ao regime de Kiev que é melhor preparar-se para ceder território em nome da paz. Lá se vai o princípio! Então qual foi o objetivo de todos estes anos de sanções económicas crescentes contra a Rússia por causa da Crimeia?

A mudança de mentalidade é um reflexo da realidade emergente: a intervenção militar da Rússia na Ucrânia está, de facto, a revelar-se um sucesso. Moscovo assegurou as regiões de língua russa e danificou gravemente as forças armadas ucranianas infestadas de nazis. A pretensão de que a Ucrânia alguma vez aderirá à NATO está também fora de questão.

Há apenas algumas semanas atrás, os governos ocidentais e os seus meios de comunicação social alegavam em fanfarra que a Rússia estava a enfrentar uma derrota estratégica, imposta pelas as forças ucranianas armadas pela NATO. O Presidente dos EUA Joe Biden e o seu Secretário de Estado Antony Blinken estavam ufanos. Assim como o primeiro-ministro britânico Boris Johnson e a sua principal diplomata estrangeira, Liz Truss. O que dirão eles agora?

A natureza nazi das forças da Ucrânia foi encoberta com histórias de “defensores heroicos”. Quando a Rússia consolidou o seu poder de combate no leste da Ucrânia para tomar o Donbass, os meios de comunicação ocidentais alegremente relataram tal como um recuo. Em contraste, vários analistas e fontes militares independentes no terreno deram uma visão oposta e mais precisa, alegando que as forças russas e os seus aliados no Donbass estavam a fazer exatamente o que se propunham fazer: libertar o território de língua russa.

Agora, que a Rússia está no bom caminho para atingir os seus objetivos, a narrativa de propaganda ocidental está a desmoronar-se a partir das mentiras sobre as quais sempre foi construída.

Vai haver muito ranger de dentes devido ao derradeiro fracasso da propaganda. O desastre do Afeganistão vai parecer uma brincadeira em comparação com este fracasso épico. Centenas de biliões de dólares e euros de armamento dos EUA e da NATO enviados para a Ucrânia não fizeram nada para “defender” o país. Tem sido apenas uma bênção para o complexo militar-industrial e para os seus mercenários políticos. Mas a inundação de armamento não dissuadiu a Rússia de atingir os seus objetivos.

As repercussões económicas globais do conflito – totalmente inevitáveis se os EUA e os seus parceiros da NATO se tivessem empenhado com a Rússia na diplomacia para resolver as preocupações de segurança de Moscovo, há muito tempo exigidas por Moscovo – atingiram os Estados ocidentais como uma vingança. A subida dos preços e das contas de energia estão a prejudicar gravemente milhões de trabalhadores que veem a calamidade económica, não como culpa da Rússia (a chamada “subida dos preços de Putin”), mas como resultado dos jogos geopolíticos de Washington e Bruxelas e da indiferença das elites ocidentais. Este é apenas outro aspeto da realidade – uma das imensas implicações de uma convulsão social sem precedentes – que está a obrigar a classe dominante ocidental a salvar-se do seu desastre na Ucrânia.

A colisão frontal com a realidade vai criar reações explosivas. As potências ocidentais já estão a levar Kiev a aceitar o seu destino como um peão redundante. O conselho de Stoltenberg de “pagar um preço pela paz” é a ordem para Kiev cair na realidade e reduzir as suas perdas. O público ocidental vai ver, com razão, a total falta de escrúpulos que este expediente manifesta e perguntar para que foi todo o falso drama e as despesas absurdas financiadas pelos contribuintes. Uma revoltante reação negativa virá, pois, a chegar para os charlatães em funções.

Podemos esperar que os meios de comunicação ocidentais comecem a procurar bodes expiatórios para “explicar” o sucesso da Rússia. Dar, por exemplo, a conhecer relatórios como este recente do New York Times culpando o Presidente da Ucrânia, Vladimir Zelensky, por erros táticos. Mas a vitimização insuportável do regime de Kiev e do seu presidente-comediante, demasiado atrofiado, irá, sem dúvida, ficar em alta e duplicar, devido às exigências impossíveis de satisfazer pela a “defesa” americana e da NATO. Zelensky tem talento para nomear e envergonhar a perceção de falta de indulgência. Ele tem sido preparado para funcionar assim e o seu estatuto de celebridade ocidental dá-lhe um falso sentido de importância.

A história está repleta de bonecos patrocinados pela CIA que sobrevivem à sua utilidade e são assim descartados como lixo. Se Zelensky e a sua turma se enervarem por terem de deixar de jogar à bola com os EUA e os seus parceiros da NATO, tentando encobrir a sua pilha de mentiras, ou seja, não aceitando o seu papel de bode expiatório, então Zelensky enfrentará um “plano de reforma” mais enérgico.

Mas, em última análise, o dano duradouro das mentiras desmoronadas é a erosão da presumível liderança dos Estados Unidos e dos seus cúmplices da NATO. O Presidente russo Vladimir Putin ridicularizou as pretensões dos EUA como o “império das mentiras”. Isso está a revelar-se um destino factual.


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Boris Johnson, Brexit, Mentiras e Gravações

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 20/06/2022)

(Com um apontamento ao filme Doctor Strangelove, a Peter Sellers e a Kubrick)

A internet tem também as suas vantagens — desvantagens para os aldrabões. Boris Johnson é hoje um afadigado caixeiro viajante a promover os interesses dos Estados Unidos na Ucrânia, como Blair o foi na invasão americana do Iraque.

(Ver discursos e intervenções de Boris J. aqui)

O produto que Johnson se esfalfa por vender é a entrada da Ucrânia na União Europeia, isto tendo ele sido um dos mais entusiastas ativistas da saída do Reino Unido da UE. O que não servia para o Reino Unido serve e bem para a Ucrânia!

É evidente que a saída do Reino Unido da EU fazia parte da estratégia dos Estados Unidos de barragem de criação de um novo espaço político, económico e militar, de enfraquecimento da EU e da sabotagem de qualquer reforço da ligação da União à Rússia. É evidente que a entrada da Ucrânia na UE serve os propósitos dos Estados Unidos, que à custa dos ucranianos, enfraquecem a UE e dinamitam o estreitamento de relações desta com a Rússia.

Para cumprir a sua missão de sapador, Boris Johnson, como Blair, presta-se a todos os trabalhos sujos. Mente, desdiz-se e, tanto quanto se sabe, ainda se diverte em parties no gabinete.

Voltando à internet, uma busca sobre as afirmações de Boris Johnson sobre a UE no tempo em que ele era contra (2016) deu o resultado que aqui deixo resumido:

6 de Junho de 2016

Votar para ficar na UE é uma opção arriscada

Os perigos da continuação da adesão à UE para a economia, segurança, democracia e fronteiras do Reino Unido — posição dos deputados Michael Gove, Boris Johnson, Gisela Stuart e John Longworth.

A permanência do Reino Unido na UE “ Fecha a Grã-Bretanha num sistema que tem uma maioria permanente de votação para a zona do euro.”

Esta, a zona do euro, na opinião destes deputados, incluindo Boris Johnson, tem graves problemas económicos e está a ficar para trás na Ásia e na América. Tem alto desemprego, altas dívidas e baixo crescimento. Tem uma população que envelhece rapidamente e grandes responsabilidades com pensões não financiadas do setor público. Não conseguiu desenvolver as redes vitais entre universidades de classe mundial (das quais não tem nenhuma entre as 20 melhores), empreendedores e capital de risco, por isso não está liderando em novos campos, como inteligência de máquina, engenharia biológica e manufatura avançada.

Afirmaram os deputados:

O plano oficial da UE não é mudar de direção, é tirar ainda mais poderes da Grã-Bretanha;

A UE e o desonesto Tribunal Europeu são perigosos para a nossa segurança.

Se permanecermos, a UE planeia constituir um exército europeu.

Boris Johnson criticou as ligações entre os argumentos sobre democracia e economia:

Podemos ver em cada estágio de atuação da UE como a perda do controlo democrático se transforma num desastre económico. O projeto europeu vai contra a corrente da História!”

8 de Junho de 2016

Michael Gove e Domique Raab, um deputado e o outro ministro da Justiça, conservadores do grupo de Johnson, ativistas do Vote Leave, o movimento que conduziu ao Brexit, afirmaram no Parlamento que a pertença à União Europeia diminui a segurança do Reino Unido e atacaram o Tribunal de Justiça Europeu. Dominic Raab, argumentou que “deixar a UE permitir-nos-ia retomar o controlo das nossas fronteiras e nossa capacidade de deportar criminosos.” (É com base nesta liberdade que o governo do Reino Unido presidido por Johnson se prepara para deportar Julius Assange.)

Raab salientou que já existem problemas com os estados da UE que dificultam os controlos de fronteira e verificações de passaportes no Reino Unido, com a própria agência de fronteiras da UE, Frontex, admitindo que os documentos são falsificados de forma sistemática. Raab deu um exemplo de um jornal de agente imobiliário de Chipre que anuncia passaportes da UE: “Dado que isso já está a acontecer em grande escala, imagine o quanto esse problema será pior após a próxima onda de adesões à UE.” (Parece que esse problema terá sido resolvido, pois Boris Johnson, depois de ter conduzido à saída do Reino Unido da UE, é agora a favor da entrada nela da Ucrânia, com a correspondente livre circulação de ucranianos (exceto no Reino Unido, presume-se. Johnson abre as portas da casa dos outros. E os outros, coma senhora Ursula Von Der Leyen à cabeça, aplaudem e incentivam a medida!)

Por sua vez, Michael Gove, então secretário da Justiça, afirmava que a adesão da Turquia é um perigo para a segurança. Sobre a Turquia, na altura, disse Gove: “O desenvolvimento democrático daquele país foi revertido sob o presidente Erdogan. Nós e a União Europeia deveríamos protestar da forma mais clara e ruidosa possível contra esta erosão das liberdades democráticas fundamentais. Mas, em vez disso, nós e a União Europeia estamos a fazer concessões atrás de concessões a Erdogan.” (atualmente a Turquia é um aliado com quem o Reino Unido negoceia concessões para a entrada da Suécia e da Finlândia na NATO).

15 de junho de 2016

Os deputados do grupo Vote Leave apresentaram no Parlamento Um novo quadro para retomar o controlo do UK e estabelecer um novo acordo Reino Unido-UE após 23 de junho, que propunha entre outras medidas:

– Projeto de lei financeiro especial: Abolir a taxa de 5% do IVA nas contas de energia doméstica. Isso será pago pelas economias das contribuições do Reino Unido para o orçamento da UE.

– Projeto de Lei do Serviço Nacional de Saúde. Transferência de 100 milhões de Libras por semana para o NHS, além dos planos atuais, a serem pagos pela poupança com as contribuições do Reino Unido para o orçamento da UE, por exemplo, não pagar os biliões que o TJE deu ordem ao Reino Unido para pagar em compensação dos benefícios fiscais concedidos às multinacionais que evitam impostos instalando-se Reino Unido. (um reconhecimento implicito de que o Reino Unido era e é um gigantesco paraíso fiscal!).

– Projeto de Controle de Asilo e Imigração. Fim do direito automático de entrada no Reino Unido de todos os cidadãos da UE. Os cidadãos da UE estarão sujeitos à lei do Reino Unido e não à legislação de imigração da UE. O projeto de lei também abolirá o controle do Tribunal Europeu sobre a política de asilo –

  • Comércio Livre. O Reino Unido abandonará a “política comercial comum” da UE.

– Lei das Comunidades Europeias. Os Tratados da UE deixarão de fazer parte da lei do Reino Unido e a jurisdição do Tribunal Europeu sobre o Reino Unido será banida. O Reino Unido deixaria de fazer contribuições para o orçamento da UE.

16 Junho 2016

Carta de deputados do Vote Leave (Boris Johnson) ao Primeiro-ministro e Ministro dos Negócios Estrangeiros contra a adesão da Turquia à UE:

(…)os eleitores vão querer saber a resposta a duas perguntas:

É política do Governo 1) vetar a adesão da Turquia à União Europeia e a continuação das negociações de adesão, e 2) impedir a extensão da isenção de visto para a Turquia, prevista para este ano?

Se o governo não puder dar essa garantia, o público chegará à conclusão razoável de que a única maneira de evitar ter fronteiras comuns com a Turquia é votar pela saída da UE e retomar o controlo do país em 23 de junho.

Finalmente, pode confirmar se é política do governo não aceitar mais reformas das leis e regulamentos de ‘livre circulação’ da UE?

Com os melhores cumprimentos, Deputado Michael Gove; Deputado Boris Johnson; Deputada Gisela Stuart.

23 de Julho de 2019

Boris Johnson: What is his Brexit plan? By Reality Check team BBC News

O ex-ministro das Relações Exteriores (B. Johnson) prometeu que o Reino Unido deixará a UE em 31 de outubro, “ou o faz, ou morra”, aceitando que um Brexit sem acordo acontecerá se um acordo não puder ser alcançado até lá. Ele considerou morto o acordo de saída negociado pela primeira-ministra Therese May, mas diz que vai “pegar os pedaços” que mereçam ser considerados de interesse — como garantir os direitos de 3,2 milhões de cidadãos da UE no Reino Unido — (que asseguram serviços essenciais)

Termino com o final do discurso de Chris Grayling, deputado conservador do Movimento Vote Leave, a que pertencia Boris Johnson, proferido a 31 de Maio de 2016: “Devemos votar a saída do Reino Unido da União Europeia para proteger nossa soberania e democracia. (agora Johnson propõe a entrada da Ucrânia para esta defender a sua soberania e a sua democracia!)

O deputado Chris Grayling, líder da Câmara dos Comuns, terminou o discurso resumindo-o com a resposta à sua pergunta: Então qual é o problema?

O problema é este: Já estamos fora do Euro e do Espaço Schengen, mas em todo o resto estamos sujeitos a todas as leis introduzidas pela UE e na Zona Euro: Sobre serviços bancários e financeiros; sobre a regulamentação empresarial; sobre política social da UE, na chamada Europa Social. Assim, quando houver novas regras da UE sobre pensões, competências e saúde, elas também se aplicarão a nós. Sem Brexit (opt-out) mais milhões de pessoas podem aceder aos nossos serviços gratuitos à medida que países como Albânia, Sérvia e Turquia se juntam à UE.

O que acontecerá connosco se permanecermos na UE?

A nossa influência diminuirá. A nossa soberania diminuirá. A nossa capacidade de definir o nosso próprio interesse nacional diminuirá. (…)

O deputado do Vote Leave, correligionário de Boris Johnson terminou o seu patriótico discurso afirmando:

Senhoras e senhores, isso (a UE) não é para nós! Quero que vivamos num país independente e soberano!

Para os militantes do Brexit, à cabeça dos quais estava Boris Johnson em 2016 a U E não era para os ingleses, mas para o mesmo Johnson, depois de ter saído da UE, que não servia a independência e a soberania do Reino Unido, já é uma excelente e indispensável organização para a Ucrânia defender a sua independência e soberania!

Em resumo, o racismo inglês no seu melhor. Para quem é (a Ucrânia), bacalhau (a UE) basta!

Uma nave de loucos? O doutor Strangelove está na ponte de comando?

Os líderes da UE, presidentes de Comissão, do Conselho, o Borrell, os chefes de governo ficam muito contentes e honrados com este tratamento de democratas de segunda com que Boris Jonhson os trata. Ele é visita frequente de Zelenski.

É a personalidades como esta, como Boris Johnson, que está entregue a condução da política europeia, do destino de milhões de cidadãos. O Stanley Kubrick bem nos avisou que eles existiam!


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