A fatwa de Zelensky contra Roger Waters – Pink Floyd

(Joaquim de Freitas, in Facebook, 29/08/2022)

Não! Não é só Ttchaikovsky ou Borodine , ou Tolstoi, que estão em perigo de morte na Ucrânia (ou algures fora da Ucrânia, porque depois do assassinato de Darya Dugina, filha do filosofo russo Dugin, Zelensky lança “fatwas” como um ayatollah qualquer).

O site Myrotvorets acusa o músico Roger Waters, membro fundador do grupo de rock PinkFloyd, de crimes “anti-ucranianos”. O site exibe capturas de tela de uma entrevista que Waters deu à média russa em 2018, bem como informações básicas sobre Waters e comentários sobre a guerra na Ucrânia que o músico fez em entrevistas recentes.

Por exemplo, ele cita seus comentários sobre a Crimeia, o apoio do Departamento de Estado dos EUA ao golpe de Maidan, em2014 na Ucrânia e a campanha de russo fobia. O site também menciona sua caracterização dos russos como “corajosos, firmes e inflexíveis”. E isto, claro, é demais para Zelensky, para quem só os nazis de Azov são corajosos quando assassinam no Donbass.

Na parte inferior da “fatwa”, Myrotvorets pede que “agências de aplicação da lei” intervenham contra Waters por seus “actos deliberados contra a segurança nacional da Ucrânia, contra a paz, a segurança humana e a lei e a ordem”.

Myrotvorets teria sido criado em 2014 por Anton Gerashchenko, ex-assistente do ministro do Interior ucraniano. Ele lista informações pessoais, como endereços e números de telefone de alguns dos chamados “inimigos da Ucrânia”. O site tornou-se infame quando várias pessoas que ele tinha como alvo foram assassinadas. Esses números incluem o escritor ucraniano Oles Buzina, o ex-legislador ucraniano Oleg Kalashnikov e o fotojornalista freelance italiano Andrea Rocchelli.

Entre os milhares de nomes listados por Myrotvorets estão os de jornalistas, empresários e políticos, ucranianos e estrangeiros. Além de Waters, nomes notáveis incluem Viktor Orban, primeiro-ministro da Hungria; Gerhard Schroeder, ex-chanceler alemão; Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos EUA; e Bashar Assad, presidente da Síria.

A extensão do carácter totalmente infame e reaccionário de Myrotvorets é evidenciada por sua enumeração também dos nomes de mais de 300 crianças.

Waters há muito se manifesta contra o nacionalismo e a guerra na sua música e em entrevistas. Seu próprio pai foi morto na Segunda Guerra Mundial e seu avô na Primeira Guerra Mundial.

Entre os temas do lendário álbum do Pink Floyd The Wall (1979), do qual Waters foi o autor principal, está a ameaça do fascismo. The Final Cut (1983) contrasta o patriotismo que o estado britânico promoveu durante a Segunda Guerra Mundial com o que Waters viu como a traição do país a seus soldados mortos. Também inclui declarações ferozes contra a Guerra das Malvinas.

Em seus comentários sobre a guerra na Ucrânia, Waters demonstrou uma compreensão da história e uma oposição saudável à autoridade do Estado. Ele sempre distinguiu entre pessoas comuns e os estados em que vivem. Sobre o status da Crimeia, Myrotvorets cita Waters da seguinte forma: “Sei que Sebastopol é muito importante para a Rússia e os russos. Existem muitos contratos e documentos segundo os quais a Rússia tem todos os direitos sobre esta cidade. »

Waters está certo ao dizer que a guerra não começou com a invasão russa da Ucrânia em Fevereiro. “A mudança de poder na Ucrânia [golpe de estado em 2014], planejada por Washington, simplesmente fez com que Moscovo interviesse”, disse ele.

Em uma entrevista recente à CNN que atraiu considerável atenção, Waters refutou categoricamente os pontos de discussão do Departamento de Estado dos EUA repetidos pelo entrevistador Michael Smerconish. Ele apontou a expansão da NATO para o leste, que foi realizada em violação das garantias diplomáticas que haviam sido dadas à Rússia, como um factor importante que contribuiu para a guerra.

Waters também provocou raiva ao apontar a hipocrisia da insistência do presidente Joe Biden em respeitar a lei internacional. Myrotvorets cita Waters que observou que os próprios Estados Unidos quebram livremente os acordos internacionais quando entram em conflito com seus interesses imperialistas.

“Eles violam-nos constantemente e fingindo que podem fazer o que quiserem”, disse Waters. “Esta posição só me assusta, porque um dia vai-nos matar todos.

Waters também disse que os políticos ocidentais estão usando a campanha da russofobia e a demonização do presidente russo, Vladimir Putin, para reprimir a oposição doméstica.

Waters acrescentou que “os governos ocidentais estão atiçando o fogo que destruirá a Ucrânia, ao despejar armas, em vez de se envolver na diplomacia que será necessária para impedir o massacre”.

Ele também contradisse educadamente uma declaração que Mitrofanova havia feito sobre a atmosfera política na Ucrânia. “Sua crença ‘200 por cento’ de que não há neonazistas em seu país está quase certamente errada”, escreveu ele, citando os Batalhões Azov, Milícia Nacional e C14 como “grupos bem conhecidos e autoproclamados neonazistas”. Tais declarações irritaram a extrema-direita ucraniana e aqueles que a financiam: o imperialismo dos EUA e a NATO.

Waters está atualmente apresentando “This Is Not a Drill”, que “usa o vasto catálogo artístico de Waters para condenar a crueldade da elite dominante nos Estados Unidos e em todo o mundo”. Praticamente todas as músicas abordam questões urgentes do nosso tempo: guerra imperialista, fascismo, o veneno do nacionalismo, a situação dos refugiados, vítimas da opressão estatal, pobreza global, desigualdade social, ataque contra os direitos democráticos e o perigo de aniquilação nuclear.

Não estou dizendo que lidero um movimento, mas o que estou dizendo é que faço parte do movimento e tantas pessoas no planeta fazem parte dele ou são capazes de fazer parte dele, que parece que estamos realmente unidos e que realmente falamos uns com os outros.

De facto, é precisamente um movimento de massas, baseado na classe trabalhadora internacional, que deve acabar com a guerra e derrotar o fascismo e o imperialismo.


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Fahrenheit 451 na Feira do Livro de Lisboa

(Manuel Augusto Araújo, in AbrilAbril, 29/08/2022)

Lucio Massari (Bolonha, 1569-1633), «São Paulo, em Éfeso, exorta a queimar os livros heréticos», c. 1612. Óleo sobre tela, 193 x 277,5 cm. A obra integrou a colecção da Casa dos Príncipes de Liechtenstein de 1811 a 2008, quando foi leiloada pela Christie’s. Desde 2008 na Galeria Fondantico, de Tiziana Sassòli, em BolonhaCréditos/ Finnestre sull’arte

A miserável queima de cem milhões de livros na Ucrânia emparceira com outras fogueiras célebres. É isso que, queiram ou não os seus promotores, o pavilhão da Ucrânia na Feira de Lisboa acaba por celebrar.


A estranheza desta edição da Feira do Livro de Lisboa é a de celebração de Fahrenheit 451, a temperatura do fogo a que ardem os livros, a temperatura com que foram incinerados cem milhões de livros sacrificados pelo actual governo ucraniano numa pira purificadora cujas chamas iluminam e continuarão a iluminar o teleponto onde diariamente o seu presidente, fazendo uso dos seus dotes histriónicos, quer fazer convencer os milhões de espectadores, que em todo o mundo são submetidos à audição dessas conversas em família, de uma realidade que a realidade vai desmentindo, sem que os jornalistas e editorialistas que as divulgam e que se deveriam obrigar a um mínimo de sentido crítico as questionem, por mais ridículas e inverosímeis que sejam.

Nada de novo, a não ser a intensidade de uma propaganda que não tem comparação nem quaisquer precedentes em nenhuma outra época da história e até ridiculariza e torna rudimentar o número realizado por Colin Powell no Conselho de Segurança da ONU a exibir provas factuais das fábricas de armas de destruição maciça que não existiam no Iraque de Saddam Hussein.

O efeito pretendido pelo comediante presidente, ao diariamente simbolicamente se vitimizar como se fosse a incarnação da Ucrânia, enquanto apresenta vitórias significativas sobre o seu bárbaro invasor capaz de atrocidades e brutalidades inomináveis sobre os virtuosos e indefesos ucranianos, tem-lhe rendido os dividendos de um apoio militar, económico e moral praticamente ilimitado que lhe entra pelas portas que os EUA/NATO e a Europa lhe escancararam e que continua a alimentar a corrupção endémica da Ucrânia, como se vai percebendo por um contrabando de armas que já não é possível ocultar.

A máquina de propaganda contínua é tão activa e eficaz que nenhum detalhe é desdenhado, como é bem exemplificado pela reportagem fotográfica da Vogue, em que o casal Zelensky assegura um futuro no mundo dos famosos e do mercado de luxo, qualquer que seja o desfecho da guerra da Ucrânia, o que também terá efeitos positivos em volume que certamente será ocultado nas contas em paraísos fiscais que o presidente já possuía antes da guerra eclodir ou outras que venha a abrir.

A guerra, com o seu rol de crueldades e barbaridades, sempre reprováveis qualquer que seja o ângulo porque seja analisada e cujo desencadear é inapelavelmente condenável, por mais complexo que seja o contexto histórico em que se desamarra, acaba por se tornar um trunfo de raro quilate para alguns, com Zelensky na linha da frente.

O fulgor das chamas em que se queimaram cem milhões de livros ilumina o terror instalado, os crimes e violações dos direitos humanos sem que isso arranhe os chamados valores civilizacionais do ocidente que a ele fica cego, surdo e mudo. Ilumina as proibições de todos os partidos políticos, alguns bem próximos de outros partidos até no poder em países apoiantes da Ucrânia, reduzindo a cinzas qualquer resquício de solidariedade com os militantes desses partidos, como os portugueses tiveram a oportunidade de ver na pessoa do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, que, sem querer saber mesmo dos que com ele comungam dos mesmos princípios, reafirmou o «apoio humanitário, económico, político e financeiro» de Portugal à Ucrânia, assegurando que se vai manter «esta ligação» sem esclarecer mas fazendo temer que Portugal acrescente mais uns milhões aos 250 milhões doados, que além de bem falta fazerem aos portugueses e aos serviços públicos coloca, se calculado em percentagem do PIB, o nosso país como um dos principais doadores, o que foi aplaudido pelo PS, PSD, IL, Chega e Livre, registe-se para memória futura.

Nada como engraxar com graxa da melhor qualidade os sapatos de Biden e Blinken, embora ninguém perceba que resultados positivos daí possam advir além de uma inflação galopante e uma crise económica anunciada. Esfarrapada e bem esfarrapada está a bandeira da miséria moral em que se queiram embrulhar.

Iluminada por essas chamas está também a total supressão da liberdade de opinião e de expressão da opinião, a suspeição generalizada, a sucessão de purgas de pessoas tidas como fiéis servidoras do país, desencadeando uma caça às bruxas com a obsessiva suspeição de colaboracionismo com as forças pró-russas que os Serviços de Segurança da Ucrânia (SBU), bem conhecidos pelos seus métodos discricionários e brutais, que até antes da guerra foram objecto de crítica nos EUA e países ocidentais, perseguem sem um segundo de pausa.

Iluminado pelas chamas em que se queimaram cem milhões de livros está agora o pavilhão da Ucrânia, que à cultura diz nada mas é convidada especial da Feira do Livro de Lisboa que se entrincheira na solidariedade com o povo ucraniano a qual, se parece uma atitude justa, acaba por ser, neste caso, um hino ao cinismo e à hipocrisia.

Num evento como a Feira do Livro, os irracionais e brutos atentados à cultura que todos os dias se perpetuam na Ucrânia não podem ser atirados para debaixo das cinzas de cem milhões de livros nem para a destruição de esculturas celebrando escritores russos e soviéticos, alguns destes nascidos na Ucrânia. A justa condenação da invasão e da guerra não pode nem deve abrir a porta do esquecimento para a destruição da cultura, para a cada vez maior aculturação com o desabrido culto da personalidade do Servo do Povo, para a enorme corrupção que campeia pelo país, nem para políticas discricionárias que têm por objectivo final suprir qualquer dissidência, espalhar o terror e o medo para submeter a mente das pessoas.

A miserável queima de livros na Ucrânia emparceira com outras fogueiras célebres em que livros foram consumidos como no incêndio da Biblioteca de Alexandria pelos romanos em 48 a.C.; a de livros islâmicos ordenada pelo cardeal Cisneros em Granada, em 1501; dos manuscritos aztecas em 1560, pelos invasores espanhóis; pelos nazis em várias cidades alemãs, em 1933; dos livros marxistas na década de 50 por McCarthy; pela queima de livros considerados subversivos por Pinochet, em 1973; os livros ímpios que o Estado Islâmico descobriu em 2015 na Biblioteca de Mossul. A lista podia ser mais longa, mas é a bastante e suficiente para colocar Zelensky em lugar destacado entre essa estirpe de gente que odeia a cultura. É isso que, mal ou bem, o pavilhão da Ucrânia na Feira de Lisboa, queiram ou não queiram os seus promotores, acaba por celebrar.

Lá estarão bem altas as chamas da queima dos milhões de livros para iluminar no pavilhão da convidada Ucrânia, o narcisismo de Zelensky a vitimizar-se para fazer pagar ainda mais cara a sua futura participação numa Vogue qualquer.

Pobre povo ucraniano cercado pelo terror da guerra que a Rússia há seis meses impôs e pelo terror de Estado que desde 2014 se vem agravando com o beneplácito do Ocidente.


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A futilidade do diálogo com idiotas & mentirosos

(Strategic Culture Foundation, in Resistir, 28/08/2022)

Há duas semanas, a Strategic Culture Foundation propôs um teste urgente e simples: parar os bombardeamentos de artilharia na Central Nuclear de Zaporozhye. A ZNPP – a maior central nuclear da Europa – continua a ser alvo de ataque militar, o que implica o risco de uma catástrofe.


Artigo completo em: A futilidade do diálogo com idiotas & mentirosos


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