O encobrimento

(Por Seymour Hersh, in Resistir, 24/03/2023)

A administração Biden continua a esconder sua responsabilidade pela destruição dos gasodutos Nord Stream.

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Crónica de um homem só

(Bruno Amaral de Carvalho, in Facebook, 23/03/2023)

(Ao ler este texto, confesso, emocionei-me. Perante os tempos negros e de esperanças mortas que estamos a viver, existirem ainda seres humanos que arriscam a vida para nos darem a verdade inconveniente e não a unanimidade consensual da turba assanhada, acendeu no meu espírito uma luzinha ténue de fé no futuro da Humanidade. Sim, talvez ainda consigamos sobreviver e evitar a barbárie. Continua, Bruno. E que todos os deuses, de todas as religiões e latitudes te protejam.

Estátua de Sal, 23/03/2023)


Acabo de chegar a Lisboa da minha viagem ao Donbass e outros territórios controlados pela Rússia. Desde 2018, foi a quarta vez que visitei as regiões de Donetsk e Lugansk. Quando a Rússia decidiu intervir na Ucrânia, já havia uma guerra civil a desenrolar-se desde 2014. Ninguém me contou. Eu estive lá. No último ano, estive ali cerca de oito meses para acompanhar a escalada da guerra com a entrada da Rússia no conflito.

De cada vez que cruzo a fronteira em Uspenka ou em Novoazovsk, há uma sensação que teima em não desaparecer. A falta de jornalistas ocidentais no Donbass que mostrem o que ali se passa gera um profundo desconforto. É o confronto com o vazio mediático e com o óbvio desinteresse de boa parte dos meios europeus, incluindo portugueses, e norte-americanos em querer perceber a tragédia que se abate sobre a população destas regiões desde 2014.

Na fotografia, estou sobre os carris de Mariupol, perto da estação ferroviária completamente destruída. Neste lugar, há quase um ano, caminhei sobre as traves que separam os carris para evitar pisar minas numa caminhada entre comboios bombardeados, cadáveres e explosões, ao longe, quando tentava chegar ao porto da cidade, recém tomado pelas forças russas.

Desta vez, conversei com refugiados de Soledar e Artyomovsk (Bakhmut), entrei num presídio com centenas de prisioneiros de guerra ucranianos, entrevistei, novamente, o líder da República Popular de Donetsk, visitei a maior central nuclear da Europa, em Energodar, estive em Vasylivka, muito perto da linha da frente, onde as forças ucranianas tentam abrir uma nova frente, e pude caminhar pelas ruas de Melitopol.

Trabalhos que seriam valorizados, mesmo com todas as limitações técnicas, se não fosse este pormenor de estar naquele que parece ser o lugar “errado” da guerra. Como se houvesse lugares errados para se fazer jornalismo, não lugares, ocultados por um cemitério de propaganda. Como se eu próprio estivesse num casamento sem ter sido convidado para embaraço dos presentes ou fosse passageiro de terceira classe e andasse pelo convés do Titanic sem autorização.

Em Donetsk, onde normalmente estabeleço a minha base de trabalho, o som da artilharia era constante. Pude ver como Kiev continua a bombardear de forma insistente zonas residenciais, mercados, hospitais, escolas e terminais de autocarros. Uma vez mais, ninguém me contou. Eu vi. Há de haver sempre alguém que diga que a Rússia faz a mesma coisa do outro lado. Pois bem, se assim é, o dever dos jornalistas que lá estão é mostrar isso mesmo. E, pelo que temos assistido, não falta cobertura ao que acontece do lado da Ucrânia. Se há meios que não querem mandar repórteres para o Donbass ou que procuram desvalorizar o trabalho de quem lá está, devem ser, naturalmente, escrutinados também pelos seus leitores, espectadores ou ouvintes.

A democracia faz-se com pluralidade, mesmo quando pluralidade é sinónimo de coragem. Recordo que houve momentos, novamente, em que fui o único repórter no Donbass a trabalhar para meios ocidentais. Felizmente, também coincidiu com a presença de outro jornalista português da Antena 1 naquele lado. Independentemente dos meios para que trabalho, na qualidade de jornalista freelancer o meu compromisso é com os factos. Faço o melhor que posso, na maioria das vezes com o ruído das críticas de quem me quer silenciar, com obstáculos que praticamente nenhum outro repórter teve de contornar nesta guerra. E não o digo para romantizar as dificuldades. Digo-o porque não quero que outros jornalistas passem por isto. Não me sinto herói. E não sou.

Aqueles que deixei para trás são verdadeiros heróis. Mulheres, homens e crianças que enfrentam uma tragédia ano após ano desde 2014. Sem perspetivas de futuro, envelhecem sem pensar no dia de amanhã, sem saber se no fim do dia estarão vivos. E esperemos que esta guerra que alastra e se intensifica termine, em vez de ultrapassar aquelas fronteiras. Porque se assim for, esse será também o nosso destino.

Uma vez mais, agradeço o apoio de todas e todos os que nunca deixaram cair o interesse por aquilo que se passa do outro lado da linha da frente e que nunca deixaram de estar ao meu lado apesar de todos os ataques.


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Especulações sobre a guerra da Ucrânia e Vladimir Putin

(Wolfgang Bittner, in Geopol.pt, 21/03/2023)

O que é necessário é movimento no confronto com os defensores da guerra, agitadores e mentirosos, sobretudo uma ampla frente contra a entrega de armas, o rearmamento e a militarização da sociedade.


Há muita especulação sobre a guerra da Ucrânia: sobre uma ofensiva de Primavera da Rússia e uma contra-ofensiva da Ucrânia (com apoio estratégico dos EUA); também sobre o estado de saúde do presidente russo, a sua fortuna, o seu palácio no Mar Negro, a sua filha, a sua fábrica de tanques, a sua relação com Xi Jinping e assim por diante.

Agora o Tribunal Penal Internacional da Haia emitiu um mandado de captura para Putin “por crimes de guerra”. O ministro da Justiça alemão, bem como o chanceler federal, saudaram este facto, embora o TPI esteja mais uma vez a demonstrar a sua parcialidade e incompetência com a sua acção contra o presidente russo. O TPI já lidou alguma vez com os crimes de guerra de Biden, Bush, Cheney, Kissinger ou Blair?

Em Kiev foi festejado, mas de lá vêm sobretudo mentiras, agitação e exigências descaradas de qualquer maneira. O facto de importantes políticos e jornalistas tomarem parte nas campanhas de mentiras e agitação é prova da depravação na cena política e mediática. Parece que em muitas áreas estamos a lidar com fanáticos ideologicamente confusos, lunáticos e criminosos cuja mais alta autoridade de Washington tem o mundo ocidental na mão.

É claro: o que está a acontecer na Ucrânia com esta guerra provocada é da responsabilidade dos EUA (uma vez que também determinaram a evolução na Europa durante muito tempo). A Alemanha não deve nada à Ucrânia e ao seu governo liderado por nacionalistas e fascistas. Os refugiados ucranianos, a quem foram concedidos direitos especiais na Alemanha, poderiam facilmente ser acolhidos em refúgios a serem instalados na Ucrânia ocidental. Mas os políticos em Berlim não representam os interesses alemães, mas estão obviamente a seguir instruções de Washington, à custa do seu próprio povo. Está a tornar-se evidente que a Alemanha está a ser arruinada. A Rússia queria a paz na Europa, especialmente com a Alemanha, mas os EUA impediram que isso acontecesse.

O presidente dos EUA Joseph Biden acredita agora ter atingido o objectivo dos seus esforços de décadas para sujeitar a Rússia aos desejos ocidentais, bem como aos interesses seus estratégicos. Mas a Rússia é uma potência nuclear e nunca permitirá uma derrota que resulte em vassalagem e desmembramento do país. Portanto, a guerra terminará quando os EUA compreenderem que a Rússia não desistirá e vencerá. Até lá, o país deverá ser ainda mais enfraquecido.

No entanto, não se pode excluir que uma grande guerra venha a ocorrer, mesmo que seja devido a um incidente imprevisto. Caso se chegue a isso, a Alemanha desapareceria finalmente do mapa. No entanto, há manifestações contra todo o tipo de coisas, mas apenas muito esporadicamente contra o rearmamento, a guerra e a disseminação do ódio contra nações. A doutrinação da população tem funcionado.

O que é necessário é movimento no confronto com os defensores da guerra, agitadores e mentirosos, sobretudo uma ampla frente contra a entrega de armas, o rearmamento e a militarização da sociedade. Se alguma coisa pode ser alterada sob determinadas circunstâncias políticas é outra questão. Mas a resistência contra a política actual é possivelmente a única hipótese de sobrevivência que resta.

O autor é escritor e antigo advogado alemão

 Peça traduzida do alemão para GeoPol desde Apolut