Tanta verdade junta mereceu publicação – take XXIX

(Whale project, in Estátua de Sal, 29/10/2023)


(Este texto resulta de dois comentários a um artigo que publicámos de Carlos Matos Gomes, ver aqui. Perante tanta verdade junta, resolvi dar-lhe o destaque que, julgo, merece.

Estátua de Sal, 29/10/2023)


Comentário I

Sempre me surpreendeu a ligeireza com que achamos normal destruir países a pretexto de os livrar da ditadura. Essa falácia, da necessidade de destruições libertadoras, foi repetida na guerra do Iraque e houve um lúcido comentador espanhol que perguntou se alguém acharia lógico que Madrid fosse bombardeada a pretexto de livrar os espanhóis de Franco. Claro que ninguém acharia lógico, como ninguém acharia lógico que se fizesse o mesmo com Lisboa para nos livrarmos de Salazar.

Mas achámos lógico que tal se fizesse com Bagdad e Trípoli e aí já teremos certamente de ter em linha de conta o tal racismo de que se fala. São sub-humanos, podemos fazer com eles o que bem entendermos.

O extermínio total da população negra de Angola chegou a ser equacionado após os ataques da UPA. Mas, apesar da resposta desproporcional com massacres indiscriminados, tal não foi feito. Por uma razão bem simples: havia sempre trabalhos que os europeus não queriam nem podiam fazer no inclemente clima africano.
O clima africano foi sempre uma barreira contra a total substituição da população por população da cor certa. Até meados do Século XVIII nenhuma criança branca lá nascida tinha sobrevivido. Caso contrário, a substituição tinha ido para a frente. Ainda assim, milhões foram mortos e outros milhões escravizados para lá do sol-posto.
Por isso é que sempre estivemos tão prontos a justificar os crimes de Israel. Temos o mesmo complexo de superioridade, não só contra os árabes, como até contra outros brancos como os russos.

Tragicamente, a população palestiniana pode ser totalmente substituída. Os Israelitas não precisam deles. As 18 mil autorizações de trabalho podem ser substituídas por outros migrantes, porque o que não falta neste mundo é miséria, mesmo entre algumas comunidades judaicas. Aliás, Israel já pensou nisso. Foi certamente a pensar nisso que nos anos 70 foram aliciados milhares de etíopes, a pretexto de que seriam uma tribo perdida de Israel. Os seus descendentes, por esta altura, já deverão assegurar muitos dos trabalhinho de corno.

Por isso, o fim dos palestinianos será o massacre total com a conivência de povos que têm o mesmo complexo de superioridade, uma dose de crimes às costas que vai daqui até à lua, e a distorcida moral de que, como são democracias, podem cometer todos os crimes contra os não democráticos. Já os israelitas aprenderam com os nazis tudo sobre respostas desproporcionais, massacres e outras coisas que tais.

E esta nossa moral, de impunidade das democracias, quando toca a cometer crimes, é uma moral ainda mais distorcida porque democracia vai-se tendo cada vez menos. Se temos censura, porque somos considerados incapazes de distinguir o bem do mal; se só indiretamente é que elegemos a tal Comissão Europeia que manda em tudo; se as manifestações são dispersas à bastonada; se quem denuncia os crimes de Israel é cancelado e acusado de ser antissemita, a nossa democracia está a ir de mal a pior. E, do outro lado do mar, a alternância de poder entre dois partidos gémeos assegura que se seja democrático, mas pouco.

Mas não podemos é dizer que não sabíamos, que não vimos os bombardeamentos, que não ouvimos as declarações psicopatas e insanas dos dirigentes de Israel quando o massacre em Gaza se consumar. Somos cúmplices. A ignorância da lei não beneficia o infrator.

Comentário II

E, para ajudar à festa, ainda levamos com o embaixador de Israel na ONU a dizer que a aprovação de uma resolução, a mandá-los parar com os bombardeamentos selvagens e cobardes em Gaza, é um dia negro para a Humanidade e para a ONU. São declarações psicopatas e insanas que não ajudam ninguém, com dois dedos de humanidade, a ter alguma simpatia por tais trastes. Em pleno Século XXI, é intolerável que um ministro Israelita venha dizer que os palestinianos ou emigram ou se submetem, o que quer que isso signifique, ou morrem.

Vivemos tempos negros para a Humanidade. E quando também a Rússia vem com a conversa de merda de que foram os árabes a começar todas as guerras com Israel, do nada – talvez porque a União Soviética também teve muitas culpas no cartório com a criação de Israel -, estão os vizinhos de tal gente bem tramados. A União Soviética cometeu um erro de palmatória, mas isso não é motivo para que a Rússia de hoje não siga outro caminho. É claro que, aqui também há relações económicas perigosas entre as economias de ambos os países, mas nada justifica que se tente legitimar as dantescas ações criminosas de um Estado que sonha poder fazer isso há anos.

Tudo bem, os israelitas foram perseguidos na Europa, mais isto e mais aquilo. Coitadinhos. Ora, coitadinho é corno porque os ciganos também o foram e ninguém falou, nem sequer remotamente, em lhes dar a ponta de um corno. E continuam, até hoje, a passar tudo e mais alguma coisa e a ser usados como bodes expiatórios que alimentam o crescimento da extrema-direita, aqui e na Europa de Leste.

O embaixador Israelita devia ter ficado feliz por, a islamofobia de uns e a capacidade de aceitar subornos de outros ter feito com que 14 países ainda apoiassem na ONU a grande pulhice que eles estão a fazer. E, se falo em subornos é mesmo porque não vejo que interesse podem ter países como Nauru, Ilhas Marshall ou Tonga em apoiar os crimes de Israel. Já quanto à Croácia, Áustria e Hungria está mais que explicado. Aliás, a Croácia, no que diz respeito ao crime de limpeza étnica, também está bem documentada.

Depois houve os abstencionistas, os que não têm coragem para tomar uma posição clara, mas também não querem ser acusados de apoiar crimes de guerra. Lamento desiludir essas lindas Belas Adormecidas mas, se eu vejo um bandido a matar um homem à facada e fico a ver, sem sequer chamar a polícia, sou tão culpado como o criminoso. Não pode haver meios-termos quando um povo se arroga o direito de expulsar ou matar outro, porque é o povo escolhido por Deus para viver naquela terra.

Sim, vivemos tempos negros, mas não pelos motivos que afirma o traste do embaixador de Israel na ONU. É pela indiferença com que o mundo, por um motivo ou por outro, assiste de cátedra a uma matança como faz habitualmente há décadas. Agora já não assiste porque Israel já destruiu toda a infraestrutura de comunicações da Faixa de Gaza. O massacre não será, pois, televisionado.

Daqui a uns anos podemos dizer talvez que os palestinianos de Gaza abandonaram pacificamente a zona e vivem felizes e tranquilos, algures no deserto. O crime perfeito. E a muitos de nós, mais dois milhões de mortos, menos dois milhões de mortos, não nos fará diferença nenhuma.

Mas se, pelo menos, os dirigentes israelitas calassem a boca já tornariam tudo isto um pouco menos difícil de aguentar.


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Em Gaza, como em Hiroshima e como no colonialismo

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 28/10/2023)

Se se recordam, a justificação dos Estados Unidos para o lançamento das bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki foi a da destruição final da ameaça do que restava da capacidade militar do exército do Japão. Na realidade o que restava do Japão em Agosto de 1945 era a milenar identidade do povo do Japão, que se mantém, apesar da sujeição a que politicamente o Japão e os japoneses estão sujeitos (como os alemães, aliás). Os ataques dos EUA mataram entre 90 mil e 166 mil pessoas em Hiroshima e entre 60 mil e 80 mil em Nagasaki. Em ambas as cidades, a maioria dos mortos eram civis. Existem duas interpretações sobre as razões do ataque: os americanos defendem que os bombardeamentos colocaram um ponto final no conflito que sem ele duraria mais tempo e custaria mais vidas. Outras interpretações mais distantes das que representam o interesse americano referem o objetivo dos Estados Unidos se tornarem os senhores absolutos do Pacífico no pós-guerra, de se apresentarem como a super potência tecnológica que iria determinar o futuro do planeta.

O presidente Truman, dos Estados Unidos, afirmou a propósito do ataque: “Se eles não aceitam os nossos termos, podem esperar uma chuva de fogo vinda do ar nunca antes vista na Terra.” O ministro da defesa de Israel e o chefe do governo já disseram o mesmo, quase com as mesmas palavras.

O que carateriza o ataque atómico dos Estados Unidos ao Japão é a desproporção dos meios utilizados, a sua desumanidade, o desprezo pelas populações, pelas consequências, a invocação de um hipócrita direito de defesa, o objetivo de domínio de um território, de eliminação de qualquer oposição, de demonstração de força a vizinhos e à comunidade internacional.

O ataque de Israel a Gaza segue linha a linha a narrativa utilizada pelo Estados Unidos para justificar o ataque nuclear.

Não se trata de facto, de nenhuma ação de defesa de Israel. Israel possui o mais poderoso aparelho militar da região — eufemisticamente designado por Forças de Defesa! — e o apoio do maior aparelho militar planetário, o dos Estados Unidos, com o seu hegemónico sistema de alta tecnologia espacial. O Hamas é militarmente uma organização de guerrilha, com capacidades muito limitadas de reabastecimento de armas, sempre armas ligeiras e de baixa tecnologia, e de acesso a sistema de informação essencial para a condução de operações.

Quando os chefes de Israel falam do Hamas como ameaça estão a ofender a inteligência das pessoas comuns e estão-se a desconsiderar a si mesmo: o Exército de Israel teme o Hamas? Os dirigentes políticos de Israel consideram que o Hamas pode destruir o Estado de Israel? A comunicação social repete até à exaustão o slogan da defesa de Israel e da ameaça do Hamas. Mas esta manhosa e ridícula falácia tem apóstolos!

Outra falácia é a de Israel ser a única “democracia” da região! Uma democracia de apartheid religioso! Os defensores desta tese entendem que um genocídio cometido por uma “democracia” é diferente de um genocídio praticado por uma ditadura. Os mortos que os distingam.

Também foi um estado democrático, os EUA, que lançou as bombas atómicas. Já agora, também foi outro estado democrático, um exemplo para o mundo, a Inglaterra, o responsável pelo maior genocídio reconhecido do século dezanove, o de 60 milhões de africanos que o inglês Cecil Rhodes eliminou na África Austral. Este inglês muito inteligente e ambicioso era, tal como os atuais dirigentes israelitas, um racista religioso e justiçava a eliminação de outros povos com a superioridade do homem branco, tal como o regime de Israel justifica a eliminação de não judeus, em particular de palestinianos. Descreveu o pensamento que justificou o genocídio no seu testamento (Last Will and Testament): “Considerei a existência de Deus e conclui que há uma boa hipótese de ele existir. Se for verdade, deve ter um plano. Portanto, se devo servir a Deus, preciso descobrir o plano e fazer o melhor possível para o ajudar a executá-lo. Como descobrir o plano? Em primeiro lugar procurar a raça que Deus escolheu para ser o instrumento divino da futura evolução. Inquestionavelmente, é a raça branca… Devotarei o resto da minha vida ao propósito de Deus e a ajudá-lo a tornar o mundo inglês”.

Os dirigentes de Israel, dos Estados Unidos e da Europa, o dito Ocidente Alargado, habitado pelo “homem banco”, cristão e judaico, seguem os mesmos princípios religiosos de Cecil Rhodes. Gaza, tal como a África, tal como Hiroshima e Nagasaki são apenas territórios de seres sub-humanos que podem ser eliminados como qualquer espécie inferior. Contra eles o homem ocidental pode lançar as suas mais destruidoras armas e os seus mais ferozes animais de ataque.

O facto de vivermos, no Ocidente, em regimes de representação através do voto, torna-nos a todos cúmplices do genocídio do colonialismo, da bomba atómica e agora de Gaza.


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Sem lei em Gaza: Por que o Ocidente apoia os crimes de Israel?

(Jonathan Cook, in Resistir, 27/10/2023)

Enquanto os políticos ocidentais se agrupam para aplaudir Israel que mata de fome os civis de Gaza e os mergulha na escuridão para suavizá-los antes da invasão terrestre que se aproxima, é importante entender como chegamos a esse ponto – e o que ele prenuncia para o futuro….

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