Sabíamos que isso ia acontecer – mas os sinais foram ignorados

(Elliot Kirschner, in Substack.com, 26/01/2026, Trad. Júlio Mota, Revisão Estátua)


Hoje é dia de eleições. E assim publico um texto de alguém que está a reflectir sobre a situação política nos EUA e nos diz sabiamos, sabíamos e devemos então saber bem quem são os responsáveis  diretos e indiretos pelo situação a  que chegámos e ao perigo latente que se pode ter pela frente. O autor é Elliot  Kirschner, produtor de cinema e televisão.

Iremos mudar de Presidente, e seja ele quem for,  espero que se abra agora o caminho para fazermos o que autor to texto sugere que se faça nos Estados Unidos: uma análise sobre as razões ( e sobre quem são os principais responsáveias) que nos trouxeram até aqui e nos levaram até a colocar a Democracia em perigo. 

(O último parágrafo é uma nota do tradutor).

Estátua de Sal, 08/02/2026


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Agradeço profundamente que cada vez mais pessoas se mostrem estar indignadas com o que está a acontecer em Minnesota, em todo o país e por todo o mundo.

Fico feliz que mais pessoas estejam dispostas a dizer em voz alta que o ICE deve ser abolido.

Que os democratas no Congresso estão a começar a posicionar-se com mais firmeza como um baluarte contra um regime autoritário sem limites.

Que mais meios da imprensa estejam finalmente a resistir à abordagem reflexiva de “ambos os lados”.

Com o facto de a palavra fascista estar a ser cada vez mais aceite como uma descrição precisa de uma força militarizada usada para aterrorizar a população ao serviço de um líder despótico.

Fico feliz que alguns dos que votaram nesse tirano estejam a repensar as suas decisões. Ou que até mesmo tenham começado, ainda que timidamente, a manifestar–se.

Aplaudo aqueles que se manifestaram e demonstraram que a coragem é uma estratégia eficaz, desde muitos nos tribunais federais até em algumas universidades, instituições e empresas.

Fico feliz em ver que a opinião pública está a mudar, à medida que mais americanos afirmem claramente que não é isso que desejam ser.

Mas sejamos claros. Nada disso é surpresa. Nada. Nem a crueldade. Nem a corrupção. Nem a imprudência.

Nem a ilegalidade, a escala do terror ou os danos à ordem mundial.

Não me refiro aos ataques à ciência ou à civilidade, à reescrita da história ou à destruição da nossa ordem constitucional.

Sabíamos que isso ia acontecer.

E quando digo “nós”, não me refiro a um punhado de profetas ou pessoas abençoadas com uma visão especial. O leitor sabia disso e disse isso. Assim como pessoas que você conhece e ama. Assim como candidatos a cargos públicos, ex-presidentes e líderes de toda a sociedade. Dezenas de milhões de eleitores votaram plenamente conscientes de que, provavelmente, isso aconteceria.

Quando a história desta época for escrita, não faltarão evidências sobre o que correu mal. Não haverá alegação plausível de ignorância.

Os estudiosos que procuram saber quais as razões de como chegamos a este ponto analisarão o ecossistema dos média, as longas sombras da pandemia e décadas de ruturas económicas e sociais. Mas, ao catalogarem os discursos, os processos judiciais e os protestos, verão repetidamente como o perigo foi claramente identificado e documentado em tempo real.

Esses futuros historiadores terão à disposição fontes contemporâneas praticamente infinitas alertando para a corrupção no Supremo Tribunal. Que a violenta insurreição de 6 de janeiro deveria ter forçado a uma recalibração duradoura da democracia americana. Que o atual presidente deveria ter sido impedido de concorrer à reeleição. Que a ciência estava sob ataque. Que a corrupção era desenfreada. Que este regime estava sujeito a tiranos estrangeiros e determinado a destruir a democracia no seu próprio país. E a lista continua.

Essas vozes estavam por toda a parte. E ainda estão. Mas isso é apenas metade da história.

Ao analisarmos com mais atenção, aqueles que olharem para trás encontrarão algo mais, que exige explicação. Verão que as pessoas que reconheceram o perigo com maior clareza foram frequentemente afastadas e ignoradas — não apenas pelos verdadeiros crentes do MAGA, mas também por aqueles que se encontravam em posições de poder nos media, na política e nos negócios, e que se vangloriavam da sua sobriedade e pragmatismo. Muitos que compreenderam o que estava para vir foram rotulados como histéricos, alarmistas, radicais, irresponsáveis. Disseram-lhes para se acalmarem, para respeitarem normas, que já estavam a ser destruídas. Foram repreendidos pela média convencional complacente, que priorizava o decoro em detrimento do diagnóstico e o tom em detrimento da verdade.

Agora, o que vem a seguir é crucial. Não bastará substituir este regime por uma administração que prometa um retorno às normas do passado. Essas normas ajudaram a criar as condições que nos trouxeram até aqui. A responsabilização é essencial. Mas também é fundamental uma reflexão sobre como avaliamos e compartilhamos informações, como definimos o que é responsável e aceitável, e cujas vozes são ouvidas ou silenciadas.

Este trabalho não pode esperar. Ele deve avançar em paralelo com a resistência e a reconstrução, porque tudo isso faz parte de um mesmo contexto se levarmos a sério a preservação da nossa democracia.

Sabíamos o que estava para vir. Nós dissemos isso. Agora estamos a lutar pelo nosso país. E damos as boas-vindas a novos aliados.

Mas “nunca mais” não pode aplicar-se apenas a este regime. Deve aplicar-se também àqueles que tinham o poder de impedir isso antes. Àqueles que ignoraram os que diziam a verdade. Àqueles que desrespeitaram os sinais de alerta quando ainda havia tempo para agir.

Fonte aqui

A grande estratégia “Schengen para a defesa”

(Fórum da Escolha, in Facebook, 05/02/2026, Revisão da Estátua)


A União Europeia cai no ridículo quando descobre que metade dos portos da Europa já são propriedade ou controlados por não europeus, nomeadamente chineses…


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Imaginemos, por um momento, que Bruxelas é como um estudante estudioso que, em vez de fazer a revisão para os exames, descobre no exame final que metade dos portos da Europa são propriedade (ou estão sob o controlo operacional) de empresas chinesas. Não, isto não é uma piada de mau gosto no final do mandato: é o que Il Fatto Quotidiano revela em italiano, numa investigação que causou claramente mais suores frios na Comissão Europeia do que a perspetiva do Brexit 2.0.

Para os planificadores da União Unificada de Gestão de Crises, a imagem é digna de um mau guião de filme de baixo orçamento: o “plano Schengen” de defesa europeu, que prometia harmonizar a mobilidade militar e as capacidades de resposta às crises, corre o risco de ser apenas…teórico. Porquê? Porque as infraestruturas estratégicas, os portos, os terminais e as redes de transporte já não são “legalmente acessíveis” aos estados europeus se forem requisitadas para um esforço de guerra contra um ator como a Rússia.

Uma sequência esclarecedora do artigo: “A Europa, no meio do seu frenesim belicista, está a esquecer-se de um aspecto crucial: algumas das suas infraestruturas estratégicas já não são totalmente controladas por países ou empresas da UE…”.

Sim: enquanto Bruxelas redigia o seu Livro Branco sobre a defesa, a “Preparação 2030” e o seu lendário pacote “ReArm Europe“, destinado a mobilizar mais armas, orçamento e mobilidade militar, parte do acesso físico aos actuais teatros de operações (portos, terminais) já tinha sido vendida, arrendada ou concedida a atores não europeus, nomeadamente chineses.

A ironia estratégica não surge sem precedentes. Em teoria, desde 2016, a UE tem defendido a “autonomia estratégica” – a ideia de que a União poderia agir de forma independente numa crise, sem depender exclusivamente de aliados como os Estados Unidos. Mas hoje, se esta autonomia se concretizasse face a um conflito, esbarraria num muro de terras e em concessões contratuais concedidas pela própria UE em nome do mercado livre.

Um paralelo cruel mas relevante: já em 2023, o Parlamento Europeu apelava a controlos mais rígidos sobre o investimento estrangeiro em infraestruturas críticas – portos, cabos submarinos, redes, etc. – para enfrentar os riscos de dependências estratégicas, particularmente da China. Mas essas recomendações soavam apenas como um tropo literário: “Boa ideia, mas tarde demais”.

Entretanto, a Comissão Europeia está a esforçar-se por reinventar conceitos como a gestão unificada de crises e a mobilidade militar, esta última incluindo tentativas abstratas de criar um Schengen para a defesa que “reduziria as formalidades nacionais em emergências”, por um período limitado de um ano.

Assim, a UE, autoproclamada campeã da integração, do mercado único e da mobilidade sem fronteiras, encontra-se com um pé na autossatisfação doutrinária e o outro no mundo real onde as infraestruturas estratégicas estão potencialmente indisponíveis, no caso de uma grande crise.

Mortalidade estratégica paradoxal: quanto mais a UE se abriu ao investimento estrangeiro para “estimular a competitividade”, mais corroeu a sua própria capacidade de resposta soberana.

Uma lição preocupante? Sim. Não se constrói a soberania estratégica vendendo os portos àqueles que poderiam tornar-se os nossos inimigos em caso de uma crise. Por outras palavras, a União não perdeu uma guerra: simplesmente perdeu as chaves legais dos seus portos.

E isso, queridos leitores europeus, é muito mais mortificante do que um mau guião de um filme de espionagem.

(@BPartisans)

Eleições – adiar não é legítimo, nem legal

(João Gomes, in Facebook, 06/02/2026)


Há momentos em que a natureza parece querer impor-se à vontade humana, lembrando-nos da nossa fragilidade coletiva. Tempestades, cheias, destruição de infraestruturas, isolamento de populações – tudo isso exige resposta rápida do Estado, solidariedade social e capacidade de organização. O que não pode exigir é a suspensão da democracia.

Em Portugal, a lei é clara: após a primeira volta das eleições presidenciais, não havendo vencedor, a segunda volta deve ocorrer vinte e um dias depois. Não é uma sugestão política, nem uma cláusula opcional moldável ao sabor das circunstâncias. É uma regra jurídica que protege algo essencial – a previsibilidade do poder democrático e a igualdade entre cidadãos. Quando se começa a admitir exceções fora do quadro legal, abre-se uma porta perigosa onde a urgência do momento pode transformar-se em conveniência política.

Pedir o adiamento das eleições por causa de tempestades pode soar prudente, até humano. Mas, numa democracia madura, a pergunta correta não é se se vota, mas como garantir que todos possam votar em segurança. A diferença é decisiva. Suspender o ato eleitoral fragiliza a legitimidade democrática; adaptá-lo reforça-a.

Nas localidades afetadas, o ambiente eleitoral não será o ideal – talvez nunca seja. Haverá estradas danificadas, energia intermitente, famílias ainda a recuperar perdas. Justamente por isso, o voto ganha um significado mais profundo: não apenas escolher um Presidente, mas afirmar que a comunidade resiste, que a vida coletiva continua, que a lei não cede perante a adversidade.

Aqui, o papel do Governo e do Estado é inequívoco. Compete-lhes mobilizar meios logísticos, transporte gratuito onde necessário, mesas de voto alternativas, apoio às populações isoladas, coordenação com autarquias e forças de segurança. Não para adiar a democracia, mas para a tornar possível. A proteção civil não substitui o sufrágio; deve servi-lo quando as circunstâncias o ameaçam.

Também os principais atores políticos têm responsabilidade acrescida. Num tempo de crise, a tentação de instrumentalizar o medo ou a dificuldade logística para ganho partidário é real. Resistir a essa tentação é prova de maturidade democrática. Defender o direito ao voto – mesmo quando o contexto é adverso – é defender algo maior do que qualquer candidatura.

A história mostra que povos sujeitos a guerras, catástrofes e privações muitas vezes encontraram no ato de votar um gesto de unidade e esperança. Não porque ignorassem o sofrimento, mas porque compreendiam que abdicar da escolha coletiva seria acrescentar perda à perda.

Adiar eleições fora do quadro legal não é prudência: é erosão silenciosa da democracia. Cumprir a lei, garantir condições, mobilizar o país e votar – isso sim, é resiliência.

No fim, talvez a verdadeira questão seja simples: se a tempestade pode derrubar árvores e postes, não deve poder derrubar direitos. E entre todos eles, poucos são tão fundamentais como o direito de escolher, em liberdade, quem nos representa.

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