(Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 31/01/2026, Revisão da Estátua)

Num país às escuras, com telhados no chão e pessoas desesperadas a pedir ajuda, o Governo de Luís Montenegro escolheu a invisibilidade. A ministra da Administração Interna desapareceu. O ministro da Defesa, Nuno Melo, simula trabalho.
E enquanto em Lisboa se simula, no terreno morre-se. Um homem de 73 anos morreu hoje ao cair de um telhado que tentava reparar no concelho da Batalha, distrito de Leiria, depois de ter ficado sem telhas. Esta morte foi ausência do Estado aliada ao desespero.
Em 2018, com o furacão Leslie, de menor intensidade do que aquele que vivemos agora, o Exército colocou a funcionar 18 geradores em apenas três dias. Hoje, segundo a informação pública disponível, há muitos geradores em “prontidão”… mas apenas três a funcionar (segundo o Jornal Observador, 31 de Janeiro, 16h). Três. Enquanto o Governo recusa geradores da União Europeia e mantém os do Exército parados, os autarcas imploram por geradores nas redes sociais.
Na tragédia de Pedrógão, os militares estiveram presentes. 641 militares, 150 viaturas e mais 250 militares da Marinha na distribuição de água e alimentos. Agora, numa catástrofe com milhares de ocorrências, o que temos? Oficialmente, três destacamentos de engenharia: um na Marinha Grande, dois em Ferreira do Zêzere. Cada destacamento com operadores de maquinaria e um sargento. Quatro máquinas por destacamento. A Marinha informou que tem 11 viaturas no terreno e disponibilizou cinco geradores. (54 militares). Nuno Melo diz que há 200 militares no total, mas não contabiliza, não diz onde, nem a fazer o quê, mesmo depois de pedido diretamente pelo Observador e pelo Expresso. Silêncio. E é isto.
O Exército admite ainda ter cinco destacamentos iguais em “prontidão”. Em prontidão para quê? Para assistir? Para montarem um cenário para a fotografia, com os militares alinhados, e no segundo em que o Nuno Melo vira costas desmobilizam tudo — deixando a população a olhar, abismada, para mais uma performance de teatro barato, ao nível do outro que “apagava” fogachos com raminhos (a sério, isto aconteceu mesmo). É ação que se exige. Não ilusionismo e simulação.
Dizem que a decisão de chamar mais militares e meios não cabe apenas ao ministro da Defesa ou ao primeiro-ministro. Invocam o artigo 53.º da Lei de Bases da Proteção Civil: o pedido às Forças Armadas parte da ANEPC, a solicitação do comandante operacional nacional. Mas estão a brincar com quem? O presidente da ANEPC, José Manuel Moura, que substituiu Duarte Costa, foi nomeado por este Governo. O mesmo Governo que afastou Duarte Costa, alguém que tinha feito um trabalho amplamente reconhecido na ANEPC. Agora fingem que a cadeia de comando é um labirinto burocrático intransponível?
As pessoas precisam é de telhados, de estruturas provisórias, de salvaguardar os seus bens das chuvas que se avizinham, de ter geradores nas aldeias a funcionar, de meios de comunicação nas juntas de freguesia, de engenharia militar para estabilizar casas, proteger edifícios, salvar bens, permitir regressos seguros.
Em vez disso, vemos idosos em aldeias isoladas, sem água, sem eletricidade, sem comunicações, sem acesso a medicamentos, a subir a telhados. Onde está o comando político? Já sei. Está em “prontidão”. Vão mas é passear!!!
O Observador tentou contactar o Estado-Maior-General das Forças Armadas para obter explicações sobre a gestão miserável dos meios militares após a tempestade Kristin. Não obteve qualquer resposta até às 16 horas. Tudo invisível. Tudo “existe”, mas não se contabiliza. Tudo “está a ser feito”, mas não se diz o quê.
Foi tudo um desastre. A tempestade e o Governo. A prontidão máxima chegou tarde demais. Não houve comando político claro, nem coordenação séria a nível central. Multiplicaram-se sinais de improviso. Não existiu reunião atempada da Comissão Nacional de Proteção Civil e não houve ativação dos instrumentos de emergência quando já se percebia a dimensão do impacto. A comunicação de risco resumiu-se ao mínimo burocrático: um SMS… para fazermos download de um PDF. A sério?
Neste momento, o Governo governa através da sua agência de comunicação. A estratégia é conhecida: desviar culpas. Dizer que a culpa é dos ladrões que roubam geradores e gasolina. Que a culpa é das pessoas que não fizeram seguros ou que não leram as letras pequenas dos contratos. Que estão a fazer tudo o que é possível (sem dizer o quê). Que ninguém podia parar a tempestade (sem explicar que essa não é a questão). Que não é altura para criticar nem fazer aproveitamento político (quando é? quando as pessoas perderem tudo?) É sempre o mesmo guião desta gente…esperar que a tempestade passe e, pelo caminho, esperar que a indignação também passe.
Mexam-se…Quando Passos Coelho precisou de reunir o Conselho de Ministros para privatizar a TAP após a entrada em gestão, fê-lo em dois dias. Para ajudar a população, este Governo demorou 4 dias. Rápidos para interesses económicos. Lentidão para proteger pessoas. Há uma altura em que deixamos de cair nestes truques.
Aposto que o Conselho de Ministros vai aparecer com o “plano” do costume…muitas linhas de empréstimo para a banca lucrar e as pessoas se enterrarem em dívidas. O Estado é o nosso seguro maior — aquele que, quando tudo falha, devia assumir o custo e proteger as pessoas. Mas não. A solução deles é privatizar até o azar.
Este é, sem exagero, um dos piores governos que Portugal já teve. Depois de Passos Coelho, parecia impossível descer tanto. Desceram. Um Governo que não existe para governar, mas para pagar favores à sua clientela e simular ação com vídeos, frases feitas e fugas à responsabilidade.
Quem hoje segura as populações são as estruturas locais, os autarcas, os muitos voluntários, a proteção civil no terreno – muitos deles herança de ciclos anteriores. Ao nível central, há desnorte, incapacidade e uma verdade incómoda; Esta gente nunca pensou que, ao chegar ao governo, teria mesmo que governar.
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